As amigas do verão


Crônica publicada no Jornal do Cambuci e Aclimação*
Janeiro de 2010.
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Bem-vindo ao primeiro dia do verão! Espero que você esteja preparado para enfrentar, além do calorão, as surpreendentes baratas que vão se materializando nos cantos, surgindo sabe-se lá de onde, saindo das tocas, pulando da caixa de gordura do seu quintal, da caixa de inspeção da luz, de dentro do hidrômetro, das caixas de sapato que ficam na área de serviço da sua casa, há anos, cheias de quinquilharias (e que você nunca põe em ordem, nem que a vaca tussa).
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Surgirão do ralo do seu banheiro, correndo rebolantes, charmosas, apressadas; brotando de trás das estantes, nascendo numa fresta de móvel, emergindo do armário da sua cozinha, debaixo do seu tanque, aparecendo em meio a baldes, vassouras...
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A verdade é que elas estão por aqui há milhões de anos, muito antes de nós, de Jesus, de Moisés... Foram as únicas a não morrerem no dilúvio do Noé (aposto que havia milhares de casais de baratas naquele barcão, contrariando a ordem de Deus!) e serão as únicas que não morrerão no dia do Juízo Final, que deve acontecer loguinho, quando o Mahmoud Ahmadinejad ficar puto da vida com uma barata na sua barba e jogar uma bomba sobre Israel.
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Perdemos a guerra contra as baratas, isto sim. Faz séculos que o homem (e a mulher!) dá chinelas, pauladas e pisadas nessas mocinhas cascudas. Tocamos fogo, inseticidas, gelzinhos envenenados, damos a descarga e, com cara de nojo, as vemos girar no turbilhão d'água. Nada resolve. Elas permanecem firmes, como os únicos seres vivos a testemunhar toda a saga humana sobre a face da Terra. Continuarão sempre por aí a nos assustar, surgindo quando menos esperamos, nos lugares mais inusitados. Até os mais machos são surpreendidos e acabam soltando um gritinho: “Ui!”. Depois corrigem, engrossando a voz: “Cof, cof... Vem cá, barata maldita!”.
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Afinal, por que será que temos esse ódio gratuito das baratinhas? Sobre certo ponto de vista são melhores que os gatos e os cachorros. Poderíamos, sim, ter um convívio menos conflitante e mais consciencioso com essas criaturinhas brilhantes, lustrosas e boazinhas. Vejamos as vantagens: elas não fazem barulho, nunca se ouviu um relato de que uma barata tenha mordido ou unhado alguém, mastigado a perna de um carteiro, chorado no cio em plena madrugada acordando a vizinhança, pedido comida aos latidos (ou miados) ou mostrado necessidade de caríssimas idas ao veterinário.
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Há outras qualidades que as põem à frente dos demais bichos de estimação: não precisam ser castradas, alimentadas, afagadas, levadas para passear. Não exigem rações caras, comem o que sobra, mantendo nossa casa sempre limpa de migalhas. Não pegam pulgas! Que beleza! Quando vão dormir na cama da gente, não soltam pêlos (só pernas, eventualmente) e não arranham a porta no meio da noite pedindo para sair ou entrar. Aliás, são cuidadosas e gentis, sempre andam nas pontas dos pés. E ainda tem mais uma coisa: as crianças adoram as baratinhas! Há até músicas bonitinhas que nossos filhos cantam na escola. Veja essa, que a Michele adora:
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A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ha, ha, ha, oho ho, ela tem é uma só!
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A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, ela tem é o pé peludo
Ha, ha, ha, uhu, hu, ela tem é o pé peludo!
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Segundo a teoria do amigo Fábio, a barata é o inseto mais democrático e livre de preconceito que existe, pois são amigas de ricos e pobres, brancos e negros, americanos e muçulmanos, católicos e protestantes, gays, prostitutas e até vendedores, como eu.
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Que mau exemplo, que horrendo espetáculo de intolerância protagonizamos quando esmagamos uma dessas doces criaturinhas na presença das nossas crianças, fazendo aspergir seu sangue branco sob nossos pés, ecoando pelas paredes de nossa casa, o ruído do seu crocante esqueleto externo sendo amassado! Horror, horror!
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Pensemos hoje, enquanto estivermos comendo e assistindo à novela, nessas singelas questões blatídeas, amigos! Abaixo o apartheid baratal! Unam-se a mim, serei o Nelson Mandela dos esgotos!
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Tchau, que agora vou jantar.
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Cesar Cruz
Dez 2009
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*crédito dos parceiros neste blogue.
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10 comentários:

Anônimo disse...

Uhm.... tenho que dizer, você foi bem pessimista.
E as praias, as baladas, as diversões de verão?
Tudo perde pras baratas? hahaha

Beijos, bom Natal pra vc e family! MARA

Andre Whitaker disse...

Vamos ver se você permite um comentário meu, pois eles têm recebido várias chineladas ultimamente! Bem, as baratas sempre têm suscitado as minhas reações mais revoltadas, a ponto de me dar cãimbras ao matá-las. Odeio-as profundamente, sem saber o porquê. Aquela gosma nojenta que sai delas quando são esmagadas me faz vomitar. E tudo isso é o que tenho a falar dessas nojentas baratas.

Henrique Luiz Dalano disse...

Sou um dos que solta um gritinho duvidoso quando sou surpreendido por uma lá em casa. Logo chamo minha mulher e ela resolve, na base da vassourada, enquanto eu espero de pé em cima da cadeira. Ui!

abraço e boas festas!
Henrique

Tais Luso de Carvalho disse...

rsrsrs, Cesar, não faz muito que vi pela televisão, o cara do tempo (nos EEUU) soltando gritinhos na sua apresentação - ao vivo no noticioso - quando uma barata passou pela sua frente. Foi muito engraçado...
Não existe quem não tem histórias pra contar de barata! E todas hilárias. Eu sou um horror, fico em pânico e com taquicardia!
Tenho uma história sobre esses bichanos lá no Porto, está no índice.

Bem, Cesar, desejo a ti e tua família uma linda noite de Natal, e para 2010 muita paz e sucesso. Que tenhas muitas idéias para 2010. E que nos conte tudo!

Bjs
Tais luso

Regina Cláudia disse...

Amigo Cesar!!

Quanto tempo, como estás??!!
Como você sabe eu me desatualizo do seu blog, mas como eu sou fã de carteirinha e lembrando que sou uma das primeiras a integrar o fã clube, sempre volto e me atualizo =)
Adorei os novos "causos". Em especial dos ímãs de geladeira, chorei de dar risadas AUHAUHAUHUHAHUAHUAHUAUHA
Me fez lembrar uma velha história, a revolta dos guarda chuvas. Foi ai que você se inspirou??
Vamos combinar um almoço com antes do Armando e a Helo irem embora!!
Ah!! quero conhecer sua "chuchuquinha" que está linda.

Bjos para você, para a Vanessa e a Michele!!
Regina

Alexandre disse...

À excessão da Joaninha , odeio todos os insetos.Odeio !!!

Pedro Luso de Carvalho disse...

Então o nosso amigo Cesar está de volta, após o gozo de merecidas férias na praia. E vem contudo, com essa sua excelente crônica sobre as baratas.

Tua crônica, Cesar, fez-me lembrar que, num desses dias de verão, uma barata entrou faceira na sala de casa, e mal tive tempo de apreciar o pobre bichinho nessa sua visita quando levei um susto danado com o grito da Taís, pedindo que eu a matasse (a barata). Tentei entrar num entendimento com ela (a Taís), para que nos restringissemos a tocá-la para fora de casa, sem matá-la, mas a Taís resistiu dizendo que a queria morta. E eu me recusava a cometer esse baraticídio, fazendo com que a conversa se estendesse a ponto de não tê-la encontrado. E assim salvei mais uma vida (a da barata).

Desejo a você e a sua família um ano de 2010 com paz e saúde.

Um abraço,
Pedro.

Dalinha Catunda disse...

Olá Cesar,
Morro de Nojo de baratas.
Se eu souber que tem alguma rondando, cheiro a louça toda, lavo tudo antes e depois de usar.
Sempre coloco querosene nos ralos, é uma maneira de afastá-las.
Feliz Verão, Feliz Ano Novo.
Dalinha

Anselmo P. disse...

Que bom que tem mais alguém que, como eu, respeita as baratas. Como vc disse, é cultural banalizar a vida de outros seres. O homem é o mais cruel dos animais. Parabéns pela crônica.

Anselmo

Maria Cristina disse...

Cesar,

Você é um excelente jornalista, e além de rirmos a valer, pudemos refletir sobre a situação constrangedora a que submetemos as baratas, seres vivos, com iguais necessidades de alimentos, abrigo e reprodução. Se elas chegaram antes, como é que nós queremos expulsá-las de onde já estavam???? O mundo não é justo, e nunca foi.

Gostaria de chamar sua atenção para pequenos detalhes do artigo: "fazendo aspergir seu sangue branco..." é uma frase de efeito imenso, mas de conceito errado. Primeiro, elas não têm sangue propriamente dito, mas hemolinfa, que carreia os pigmentos que contém o oxigênio num sistema aberto, sem vasos completamente fechados, mas que em um determinado ponto desaguam a hemolinfa na cavidade abdominal; e em segundo lugar, a substância esbranquiçada que vemos, nada mais é que tecido cloralógeno, com função de armazenamento de nutrientes, para os momentos de escassez de alimentos.

Perdão pelo preciosismo, mas a biologia dos invertebrados deve ser respeitada, tanto quanto a dos vertebrados, não nos podemos dar ao direito de atravessar as informações nem em pequenos detalhes, para o grande público, que registra e utiliza tudo o que lê e causa impacto. E seu artigo causou bastante impacto, pelas gargalhadas, sutilezas e bom humor.

Grata pela alegria da leitura.

Cordialmente,

Maria Cristina