A Toada Matinal


Me inclino, aproximando o rosto do espelho. São 7h30 da manhã, e estou fazendo a barba.

Minha filha, já acordadíssima a essa hora, me pede o iogurte. Eu, com o copo próximo, estico o braço para ela. Pai bom é outra conversa.

Minha mulher se acotovela comigo disputando o espelho para se maquiar. Ei, use o outro, para isso que temos dois, digo, estou me barbeando!

A vida do paulistano de manhã é assim mesmo, uma correria danada, mil atividades em família, tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Afinal, o tempo é curto, e o dia, jovem.

Enquanto como uma banana, a Vanessa fala com a empresa por telefone. Jogo a casca no lixo, dou um gole no todi e ajeito a camisa. Novamente no espelho, reparo que sobrou um fio rebelde sob o pescoço. Depois de limpar os óculos, pego o barbeador novamente.

Me toca o celular. Um cliente já a essa hora me cobrando a entrega do material! Não tenho resposta. Interrompo o barbear e vou consultar a Internet, que já está ligada, sempre à mão.

Minha filha me pede mais alguma coisa. Já vai, meu bem, calma. Daqui a pouco te deixo na escolinha.

O cliente aguarda na linha enquanto verifico os emails... Opa, a entrega será hoje a tarde! Ótimo! Volto ao telefone e dou a ele a boa nova. Desligamos.

Me concentro com o barbeador no fio solitário que se encolhe, cola, insiste na teimosia contra o aço giratório... Saiu! Satisfeito, desligo o aparelho e vou ver o que quer minha filha.

O dia promete! Solzão lá fora. Estará calor? Quando sair saberei. Então me solto um pouco na poltrona aproveitando o breve intervalo para folhear o jornal. Ao meu lado, a Vanessa prefere as notícias pela TV. E nossa toada matinal prossegue, cheia de afazeres.

Assim que deixo minha filha na escola e dobro à esquerda na avenida, um ruído grave e alongado me assusta. Olho pela janela e vejo um caminhão colado em mim, buzinando. Estou fechando o cruzamento sem perceber!

Avanço rapidamente, desobstruindo a passagem, e assim prossigo, na minha rotineira toada matinal. Que só os paulistanos conhecem.



Cesar Cruz
Out. 2011




7 comentários:

Anônimo disse...

pelo que entendi, o maior problema desta toada é o fio de cabelo, repare, disse "o fio", esse fio de cabelo é o fim da picada, cuidado de, por causa dele, não perder o fio da meada.

abraço a tds
xara - ipiranga - sp-sp

já cadastrei

Cacá - José Cláudio disse...

Meu dia vai muito bem até ter que sair à rua, César. O trânsito está tirando a gente do sério, da toada, do ritmo e da harmonia. E o pior é que não está adiantando a gente ter paciência. Fica ilhado em meio a ela. rsrs. Abração. paz e bem.

Anônimo disse...

Primeiro achei que a "ação" se passasse na sua casa! De repente vejo que você está na rua!

Opa, voltei e reli, e vi que fazer tudo isso dirigindo o carro é bem possível mesmo, especialmente para quem mora em Sampa...

abç
Marcelo

Pedro Luso disse...

Amigo Cesar,

Esta crônica tem o condão de colocar o leitor no ambente em que toda a cena se desenvolve em sua casa, na manhã em que o casal se prepara para, com a filhinha, enfrentar toda a agitação da grande cidade.

Sabemos que uma das coisas mais difíceis é escrever de forma que o leitor pense que esse mister não exigiu nenhum esforço.

Pois é, Cesar, pude ver como a sua família se prepara para a luta de um dia de trabalho; até pensei em aproveitar a pia para lavar o rosto e os dentes - mas desisti.

Grande abraço,
Pedro.

Tais Luso disse...

Cesar, imagino, do lado de cá, que uma metrópole como São Paulo, onde as distâncias são enormes e o tempo se torna curto que tudo é feito a mil!

Mas de qualquer maneira não é difícil de imaginarmos o caos das famílias para começarem seu dia aí. Como será o almoço? E o voltar para casa enfrentando milhares de carros e os ônibus com mais gente do que comportam! Que loucura, heim, amigo? Terrível.

Beijos
Tais Luso

Anônimo disse...

E o material do cliente foi entregue?? Ai como lembro das entregas ahaha

Bjos!
Regina

Debbie disse...

Adoro Cronicas!! Essa então, foi muito boa!! rs

Gostei do seu blog, estou seguindo...
Se possível conheça os meus tbm.. Bjus