A triste história de X

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Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição nº 1114 - sexta, 30 de janeiro de 2009.
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A amiga Martha me contou um causo que me entristeceu sobremaneira. É a desventura do gato da amiga de uma amiga sua.
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O tal bichano era dividido entre mãe e filha em sistema de rodízio mensal. As mulheres moravam distantes, portanto o gato estava ora em São Paulo, na casa duma, ora no interior, na casa doutra. Dispunha de tudo em dobro. Era calor garantido em dois corações e em dois lares.
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Um antigo provérbio reza que: “Um homem com duas casas deixa margem a dúvidas”. Mas esse sujeitinho, não! Esse estava acima de qualquer suspeita. Fiel, amoroso e querido por ambas.
E era dessa forma abundante que desfrutava sua inocente vidinha felina. Até que um dia...
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...Um dia a família foi passar uma temporada num apartamento emprestado por um amigo em certa cidade litorânea. É claro que o xodozinho de todos foi junto. Dias depois, acabado o bem-bom praiano, carros atulhados de coisas, retornaram todos para suas devidas vidas e cidades. Cada qual para sua rotina.
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Um mês se passou. Numa certa tarde, a filha ligou para a mãe e gracejou, como sempre fazia:
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- Mamãe, tá vencido seu período. Amanhã vou aí buscar o meu gato!
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A espinha da mãe regelou e uma onda percorreu seu corpo de cima abaixo. O gato não estava com ela. Ela poderia jurar que ele havia ficado com a filha.
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- Pelo amor de Deus, querida, ele não está comigo!
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Silêncio fúnebre.
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Não precisariam formular indagações complementares como “Não brinca, mãe!”, ou “Filha, para com isso, vai!”. Tinham tal amor pelo animal que ambas sabiam que não havia espaço para uma brincadeira de tamanho mau-gosto por parte da outra.
A compreensão do que havia acontecido lhes ocorreu instantaneamente. Desabaram em pranto simultâneo, cada uma do seu lado do aparelho, separadas pelos fios telefônicos que normalmente aproximam, mas que naquele momento separavam, impedindo o tão precioso e necessário abraço consolador.
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Localizaram o amigo que emprestara o apartamento e, em posse das chaves, a mãe voou de carro em direção ao litoral. Foram longas horas da mais atroz tristeza e desespero. A filha não quis ir. Preferiu ficar em casa reclusa num quarto, rezando, chorando... Não teria forças para ver.
As horas pareciam se alongar de forma impossível. Enquanto uma descia a interminável e sinuosa serra, a outra aguardava o telefone tocar, os olhos pregados no aparelho.
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Quando a mãe enfim chegou, meteu a chave no tambor e, por um instante, pensou que poderiam ter a sorte de ele ter tido acesso a alguma água. Mas não houve sorte. O gato estava lá, morto em um canto. Seco. Seu aspecto era aterrador, trazia uma angústia indescritível congelada na rigidez do corpo e na expressão da face.
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Passara sem água e sem alimento, trancado num ambiente desconhecido, vazio, abafado, inclemente. Ninguém o socorreu. Ninguém tomou ciência de seu destino, pois o prédio era usado apenas para férias e pequenas estadas. Nunca poderemos imaginar o suplício que viveu o pobre bichano, quando se viu só, abandonado, com fome e sede crescentes.
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Dias devem ter se passado antes de ele ter caído arfante, agonizante, irremediavelmente vencido. Pouco antes disso, em total desespero, foi possivelmente acometido por um derradeiro afluxo de energia, pois derrubou, rasgou e quebrou tudo o que estava ao seu alcance. Em sua agonia irracional, certamente não supôs que fora sentenciado à morte desde a hora em que, desgraçadamente, acabou esquecido ali.
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Como escreveu Poe em seu famoso conto, O Enterro Prematuro: “até a mais ousada imaginação recua diante de tais pensamentos. Nada conhecemos de mais agonizante sobre a face da terra.”
E esse foi o triste fim de um gato, que eu nem soube como se chamou.
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Cesar Cruz
Jan/ 09
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* créditos dos parceiros no rodapé deste blog.
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6 comentários:

Anônimo disse...

VOCÊ FALOU QUE IA SER TRISTE, MAS GOSTEI, OBRIGADA POR EVITAR UM POUCO MINHA ANSIEDADE.

BEIJOS

LENA

Onaldo disse...

Amigo,
Você tocou fundo na minha alma...
Sou amante dos bichanos. convivo com 8 deles e não o que fazer para agradar a tanta gente boa e carente.
Quando um só se machuca ou parte dessa para outra, eu sofro!
Você sempre fala de coisas preciosas, que emocionam!
Abraço,
Onaldo

Anônimo disse...

Olá Cesar,

Adorei!!! Ficou muito bom com a dose certa de emoção, dá até vontade de chorar um pouquinho.



Beijos,

Martha

Anônimo disse...

Olá Cesar,

Que agonia cara! Bem que você avisou na prévia que seria um conto triste. Mas ficou muito bom.
Conheço o provérbio que você mencionou em outra versão: "Cachorro que tem dois donos acaba morrendo de fome". Tirando o cachorro, foi literalmente o que aconteceu com o pobre X.

Grande abraço!

Marcelo Lopes

Anônimo disse...

Nossa, que deprê!

Vou ler o próximo pra me animar (assim espero).

Beijos Mara!

Mari disse...

Meus Deus, que coisa horrivel!!! Fiquei chocada, que triste...................