Pesos e medidas

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Escrevo garranchos de diversos tipos: contos, crônicas, causos, reflexões... A maioria dos textos que começo a escrever - 6 entre 10 -, não publico, arquivo-os em uma pasta intitulada “UTI”. Eles ficam ali, no soro, monitorados por aparelhos. São em geral produções que começaram com uma grande idéia, eram crianças promissoras!, mas simplesmente não deslancharam, ou começaram bem e, de repente, por total incapacidade do autor, se tornaram burocráticos, chatos, sem a fluidez necessária para que pudessem ser digeridos. Muitos destes escritos são verdadeiras curvas de rio, onde as palavras e as idéias se enroscaram em um emaranhado desconexo e débil. Mas eu, como pai protetor, fico com dó de destinar os pobres coitados à sepultura e acabo deixando-os neste leito de dor, aguardando por um milagre ou quem sabe, pela eutanásia. Mas já tive alguns sucessos neste território! Consegui ressuscitar das cinzas alguns que estavam praticamente desenganados!
Toda a vez que publico um novo texto no blog, ou aqui no jornal do bairro, seja ele ficção ou caso verdade, recebo comentários. Recebo comentários do tipo: “gostei desse! abração!” ou “Pô, Cesinha! Que merda! você não devia matar o cara no final!” ou quando escrevo crônicas: “fala ae Cesão, isso te aconteceu mesmo, brother?”.
Tem ainda a mãe de um amigo de infância que é minha fã de carteirinha. Qualquer amontoado encardido de palavras que disparo ela responde, já no dia seguinte: “A-DO-REI!!, um beijo da tia!”. Ah! Que delícia... adoro receber os seus e-mails!
Já um outro amigo, argentino cabeludo – faz o estilo jogador da seleção argentina da copa de 78 -, letrado e leitor voraz de pensadores e romancistas, costuma me dizer coisas do tipo: “não gostei deste, o desenvolvimento excessivo do personagem ocultou as possibilidades da narrativa e...”. Durma com um barulho destes!
Tem ainda um outro que foi procurar a paz e mora numa ilha no sul do país; este nunca comenta nada, mas quando o indago a respeito, descubro que está atualizadíssimo na leitura! Lê todos os meus textos, mas mantém o silêncio, como é seu estilo: quietão.
Uma outra amiga, ocupadíssima, lê e comenta: “gostei deste novo!” e quando revela o título, vejo que é um texto que escrevi há 6 meses e quase não lembrava mais que tinha produzido! É... vida de paulistana atarefada! Uma outra é a minha revisora oficial: “oi Cesar, há 2 errinhos: no meio do 4º parágrafo você grafou um “porque” junto que deve ser separado, pois dá a idéia de ‘por causa de...’ e não de ‘pois...’. E no finalzinho, onde você escreveu: ‘que trata-se...’, mude para ‘que se trata..’; lembre-se que a partícula ‘que’ atrai o pronome ‘se’, ok? Bjão!”. Corro corrigir no original e agradeço prontamente! Se não fosse ela, já teria passado muita vergonha!
Sinceramente, tem sido uma delícia. Amo disparar meus textos por e-mail! Interessante é observar como certos temas geram controvérsias acaloradas.
Há uns dias enviei uma crônica sobre um mendigo que se recusou a receber a minha doação. É um texto onde faço um mea culpa, refletindo acerca da minha falta de sensibilidade ao abordar o homem sem lhe pedir licença, sem lhe cumprimentar e sem lhe perguntar se queria receber alguma ajuda. Nunca imaginei que receberia tantos e-mails! Deixei alguns amigos revoltados!
O argentino cabeludo comentou o seguinte: “Ruim este seu texto César. Parece coisa de padre... muito politicamente correto”. Fiquei sem entender nada! O que tem os padres a ver com isso? Fiquei pensando se a preocupação com os pobres deve ser só “coisa de padre”.
Um outro me escreveu: “Não seria o governo que teria que se preocupar com isso?”. Sim, é claro! Mas não se preocupa! Nem um pouco... E nós? Vamos deixar de estender a mão a um ser humano e vamos passar o natal no quentinho comendo tender como se disséssemos: “cada um com seus problemas”? Um outro me disse: “Fraquinho este último, hein? Assuntinho sem graça, Césinha!”.
É... acho que sei por que a maioria se incomodou com este assunto. Arrisco dizer que foi pelo mesmo motivo pelo qual eu me incomodei! É um tema incômodo. Assim como é incômodo passarmos na calçada ao lado de um “tema” destes. Incomoda... Muitos trocam de calçada... Mas acho que incomoda mais o fato de que, apesar do incômodo, nenhum de nós está disposto a fazer nada por isso... Isso sim incomoda. Incomoda e fere algo lá dentro da gente!
A única pessoa que se manifestou a favor foi aquela minha tia, mãe do meu amigo: “A-DO-REI esta sua crônica! É uma bela lição em nós todos!”. Ah, adoro a minha tia... Beijos tia!!!!
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Cesar Cruz
Dez/ 07
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4 comentários:

Anônimo disse...

Oi Cesinha!!
Pra vc ver que sempre estou por aqui agora rsrss.
Adorei esse "Pesos e Medidas" e Hummm esse seu amigo argentino tb!
Bjão
Ana Zappi

16.4.08

Cesar Cruz disse...

Oi Ana,

Não se anime com este argentino, não! Trata-se de um argentino picareta, feio e magrelo! hahaha

bjs e obrigado pelas visitas!

16.4.08

Anônimo disse...

Oi Cesar,
Gostei dessa. É bem humorada...Aliás essa sua “veia” humorística é muito boa.

Acho que sou aquela amiga que demora pra ler. Certo?

Sem querer justificar, é que gosto de ler com calma para curtir bastante. Acho também que você como escritor “iniciante” gosta das opiniões dos seus leitores, vide pesos e medidas, então gosto de ler com calma para não virar a tia “ADOREI”.

Beijos,
Martha

29.9.08

Anônimo disse...

CÉSAR,

A D O R E I ! ! ! AGORA EU CHOREI MESMO, EMOCIONADA.

VOCÊ ESCREVE BEM SIM, PODE SER ATÉ QUE LHE FALTE MAIS VIVÊNCIA, NÀO SEI, NÃO SOU INTELECTUALIZADA,

GOSTO DE LER E DE CORRER OS OLHOS SOBRE O QUE VOU LENDO, ENTENDENDO E ATÉ PENSANDO E MEDITANDO SOBRE AÇÕES, MANEIRAS DE AGIR, COMPORTAMENTOS, SOCIEDADE, ETC. ETC, ETC.

SEUS "ESCRITOS" SE DERRAMAM TRANQUILOS SOBRE O PAPEL, TRISTES OU ALEGRES, LEVES OU MAIS SÉRIOS, MAS VOCÊ DISCORRE FACILMENTE SOBRE O QUE QUER.

SOU FÃ DE CARTEIRINHA PORQUE GOSTO MESMO DE LER TUDO O QUE ATÉ AGORA JÁ LI.

LEIO BASTANTE, JÁ LI MUITO MAIS. GOSTO MUITO DE LER.

NÃO ESCREVE BEM QUEM EMPOLA E EMBOLA SEUS PENSAMENTOS.

OLHA O CHICO, SUAS POESIAS EM SUAS MÚSICAS NÀO TÊM NADA DE DIFÍCIL, DE PALAVRAS EMPOLADAS, MAS QUE DELÍCIA, COMO ELE ESGRIMA AS PALAVRAS SIMPLES, FAZENDO-AS RIMAR E DIZER O QUE ELE SENTE.

VOCÊ TAMBÉM FAZ ISSO. A IMPRESSÃO QUE SE TEM É QUE SUAS IDÉIAS VÃO "CAINDO NO PAPEL" FACILMENTE, SEGUINDO COMO UM RIACHO EM PLANÍCIE.

GOSTOU ???


BEIJOS
DA TIA FÃ DE CARTEIRINHA, PRÁ VOCÊ E VANESSA.

CONTINUE ASSIM.

AH ! E SOLIDARIEDADE NÃO É NEM PODE SER PRERROGATIVA DOS PADRES!!!!

29.9.08