Mostrando postagens com marcador causos divertidos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador causos divertidos. Mostrar todas as postagens

Vexames de um Escritor Obscuro




Escritor desconhecido passa vexame mesmo, não tem jeito. Conheço um, escritor de poesias, que vende seus livros de mesa em mesa na noite do bairro da Vila Madalena, aqui em São Paulo. Seus clientes são a juventude abastada que frequenta aqueles bares de preços exorbitantes. E vende alguma coisa?, você pode estar se perguntando. Até vende, mas o coitado é alvo da chacota constante daqueles filhinhos-de-papai, do desprezo das riquinhas, do chega-prá-lá dos donos dos estabelecimentos... Um batalhador, esse meu amigo. E vive disso, acreditem!

Eu também passo muitos vexames: estou me transformando num espantador de leitores (dos poucos que há). Praticamente obrigo meus pobres amigos a ler minhas histórias, envio emails que não foram solicitados com as "novidades", encho o saco pelo Facebook, por mensagem de texto, por sinal de fumaça... recorto as crônicas que saem no jornal e dou de presente (de grego) pras pessoas lerem, e depois pergunto se gostaram! E quando a resposta é evasiva, do tipo "gostei", exijo detalhes: "de que parte você gostou especificamente?"... Uma vergonha.

Não é à toa que muitos amigos vêm me evitando de uns tempos pra cá. Acho que virei uma espécie de chato da literatura. Tenho plena consciência disso, o que já é um começo, segundo o meu terapeuta.

E nas vésperas de lançamento de livro a coisa se agrava, e muito. Passo vexame até em sonho. Veja você que sexta-feira agora, véspera do feriado prolongado, e uma semana antes do lançamento do meu segundo livro, recebi no fim da tarde a ligação da Margareth, lá da editora:

Cesar, o seu livro ficou pronto.

Eufórico, contive o grito que queria sair, mas enchi a Margareth de perguntas. O que ela achou do resultado, se a gramatura das capas ficou como esperávamos, se isso, se aquilo, se, se, se... Até que ela interrompeu a minha enxurrada de indagações:

Cesar, o livro ainda não veio aqui pra editora. Não vi ainda. Soube que ficou pronto porque acabei de falar com a gráfica.

Acho que a Margareth se arrependeu de ter me ligado. Pra ver se me sossegava, prometeu colocar um exemplar no sedex direto pra minha casa assim que chegasse às suas mãos.

Naquela noite sonhei que entrava num galpão escuro, era noite, e as máquinas gráficas estavam todas desligadas, o cheiro de óleo e papel adensando o ar. No sonho eu sabia que meu novo livro estava por ali, em algum lugar. Eu queria vê-lo, pegá-lo!

Então vou andando em meio às enormes impressoras, guilhotinas, envelopadoras, encadernadoras, todas caladas, como grandes animais espreitando a caça... Meus olhos vão se acostumando à escuridão e vejo que, junto às paredes, existem pilhas enormes. Me aproximo. São livros embalados em paletes, envelopados com filmes plásticos. Meto a cara nos vãos e, de repente, acho o meu! São centenas de exemplares do meu livro! Tento derrubar uma pilha mas não consigo, então saco a chave do bolso e espeto no meio do plástico grosso, forço, torço e enfim abro ali um vão, que logo transformo num rasgo, e por ele tiro, na marra, um exemplar. Uma criança nascida a fórceps.

A capa ficou linda! Então abro e... e... Nada! O livro está sem letras! Folheio e constato, em pânico, que todas as folhas estão em branco.

Acordei gritando, suado.

Um outro sonho recorrente é esse: estou sentado, com os braços apoiados na chamada "mesa do autor". Uma mão espalmada na madeira e outra segurando uma caneta, pronta para ser usada. A livraria está vazia, e o coquetel já começou, mas não há nenhum amigo, parente, ou leitor por perto. Nenhum. Um silêncio danado. Estou ali, assim, quieto, vendo a Vanessa falar com o garçom alguma coisa que não consigo ouvir. O cara parece bravo, pelo jeito quer ir embora, já que não há quem servir.

De repente, o dono da livraria, um cara gordo, que rola um palito de fósforos de um lado pro outro da boca, se aproxima de mim e, com uma mão pesada no meu ombro, me informa que vai encerrar o lançamento, por falta de pessoas. Infelizmente, ele diz pra mim. Infelizmente, seu Cesar, vamos encerrar.

Ontem, terça de feriado, a Vanessa me flagrou respondendo a um email:




Cesar, que email é esse?

Tô respondendo aqui pro Beltrano, que tá me dizendo que não vai ao lançamento porque tem um evento no clube e...

Então deixa ele, Cesar. Ele já tem compromisso, pronto, chega. O que mais você vai falar?

Ah, vou dizer que eu já o havia avisado antes! Que mandei o convite há 2 meses! Ele até reclamou que mandei com muita antecedência, e agora vem com essa! Vou dizer que ele deveria, isso sim, dizer pra esses caras aí do tal clube justamente o que está dizendo pra mim agora, que não vai no tal compromisso porque já tem um lançamento de livro de um grande amigo e...

Cesar, para, para, para! Para já com isso pela-mor-de-Deus!

Mas...

Vc está implorando, percebe? É quase ridículo...

Mas...

Mas, no fim, aborto o email e vou dormir. Torcendo para não ter novos pesadelos.

.
.
.
.
Cesar Cruz
Nov. 2011

.

Obs: A propósito, não vá perder o lançamento do meu livro, hein? Segue o convite.




.

O último sushi


Crônica publicada no Jornal do Cambuci (set 2008 e mai 2011)
e no Portal Mundo Mundano
e no Portal TUDA
--------------------------------------------------------

Eu e a Vanessa adoramos comida japonesa. Recentemente abriram perto de casa um restaurante japonês. Tão perto que dá pra ir a pé. Viramos fregueses.

Semana passada, o gerente, que já virou nosso amigo, nos presenteou com um convite boca livre para o jantar de inauguração da nova filial da casa.

Fomos. A rua do restaurante estava atulhada de carros. Imediações de estádio em dia de clássico. O estacionamento? Entupido até a rampa.


PARA LER ESTA CRÔNICA NA ÍNTEGRA, ADQUIRA O LIVRO A IDADE DO VEXAME & OUTRAS HISTÓRIAS, CLICANDO NA IMAGEM DA CAPA.
.
.

.

A Lagartixa

 
Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação
Crônica publicada no Portal Mundo Mundano
Agosto 2011.
---------------------------------

eitado, vejo a lagartixa. Não imagino como ela fez para entrar aqui, o fato é que entrou e, enquanto eu lia, na penumbra do abajur, apareceu próxima à cortina.

Uma vez quando eu era menino encontrei uma lagartixa morta, virada de barriga pra cima. Olhei de perto e me espantei de ver que a barriga da lagartixa é semitransparente, possibilitando a gente ver tudo lá dentro, os órgãos, tudo.

E agora estou aqui, vendo a lagartixa.

Deve-se matar as lagartixas? Meu pai dizia que não. Me ensinou que elas são amigas da gente, comem os insetos, são limpas  não andam nos esgotos como as baratas  e não incomodam, ficam sempre no alto. Como aquela ali, que acabou de dar uma corridinha fazendo aqueles eSSes que as lagartixas fazem com o corpo quando correm.

Agora ela está justamente em cima da Vanessa, que é uma pessoa que definitivamente não compreende as lagartixas, e que dorme sem nem supor uma barbaridade dessas. E se a lagartixa despencar do teto será uma gritaria danada, e já são... deixa ver... meia noite e quarenta e dois.

E ela agora correu de novo, contornou o lustre e parou do outro lado. Interessante é o modo como as lagartixas estancam a carreira, já reparou? Conseguem parar instantaneamente, melhor do que qualquer animal ou carro. Têm bons freios, as lagartixas!

Penso que posso ir até a lavanderia pegar um balde, depois subo na beiradinha da cama e, com uma folha de papel canoada, jogo a lagartixa para dentro do balde, e então será só colocá-la lá fora. Porém, se eu sair daqui para buscar o balde, a lagartixa poderá sumir e eu ficarei pelo resto da noite pensando que ela terá caído na cama e estará no meio dos lençóis, dentro da fronha; sem falar que a movimentação toda poderá acordar a Vanessa, que me surpreenderá em pé na cama, pelado, com um balde na mão, e, sonada, sem entender nada, quando eu lhe disser é “só uma lagartixa, amor”, dará um pulo daqueles e um berro pior ainda e acordará meio mundo, e depois não dormirá mais achando que as lagartixas assassinas podem ter entrado às centenas no quarto e... enfim, a minha noite viraria um inferno.

Se eu fosse uma lagartixa, gostaria de saber que dei a sorte de entrar na casa de um homem bom e preocupado, cujo pai ensinou que não se pode fazer mal a elas. Agora ela correu de novo e está sobre a porta, próxima à junção entre teto e armário embutido. Ocorreu-me que se eu não pegar a lagartixa, ainda que seja para depositá-la carinhosamente lá fora, daqui a pouco ela vai sumir e eu não saberei mais a que hora incerta de um dos próximos dias poderei tomar uma lagartixada gelada na careca.

Quanto tempo vive uma lagartixa escondida num quarto?

Bom, o fato é que eu não sou uma lagartixa, e a ideia ridícula de que ela poderia estar achando que sou um cara bom e legal, essa ideia besta me faz perceber que estou com sono e já começando a ficar irritado com essa lagartixa impertinente que adentrou o meu quarto sem prévia autorização, com sua asquerosa barriga transparente a esfregar aqueles intestinos de lagartixa por todo o meu teto, e isso me faz ver que não, não preciso ser consciencioso com este ser, e pretendo agora mesmo, antes que a Vanessa acorde  porque ela já está se mexendo muito, talvez pressentindo algo , me erguer daqui e dar uma boa chinelada nesse pequeno dinossauro folgado e jogá-la na privada, e que seu Aloisio me desculpe, mas tenho sim uma grande superioridade física e intelectual sobre ela e, opa, só que... ãn... correu... Ih, ela correu e... Se enfiou num pequeno vão entre o teto e a moldura do armário... Mas sobrou um rabo e...!

Sumiu.
.
.
Cesar Cruz
Julho 2011
.
.
.
.

Todo mundo sabe!





Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação
Julho 2011.

-------------------------



– Cesar, você comprou o presentinho pro nenê da Ana?

– Comprei e já dei, ela adorou!

– O que-que você comprou?

– Uma botinha de veludo, bem bonita.

– Hum, que lindo! Que cor?

– Lilás.

– Lilás!? Mas Cesar, lilás é pra menina, e você me disse que ainda não se sabia o sexo...

– Sim, mas Lilás é neutro. Serve pra qualquer sexo.

– Quê? Quem te falou isso?

– Ninguém, mas é óbvio. Azul, menino. Rosa, menina; o resto é livre.

– Que besteira! Lilás é pra menina, Cesar, todo mundo sabe.

– Como, todo mundo sabe? Todo mundo quem?

– Ué, todo mundo, todo mundo.

– O que todo mundo sabe é que cor de menino é azul e de menina rosa. Sobre o resto das cores ninguém nunca disse coisa nenhuma!

– Não, não. Lilás é pra menina. E todo mundo sabe disso.

– Nunca ouvi falar nisso! Onde é que tá escrito?

– Não está escrito, Cesar, mas isso já é uma coisa pré-estabelecida.

– Pré-estabelecida! Pré-estabelecida por quem? Então isso é ciência? Cadê o cientista que inventou? Cadê as provas laboratoriais?

– Não sei, Cesar, mas todo mundo sabe disso, menos você, pelo jeito.

– Tá bom... E o amarelo?

– Amarelo é neutro.

– O quê? O amarelinho?! Aquela corzinha fraquinha, clarinha, quase gay, é neutra?! Pois devia ser de menina! E eu quero que você me apresente o palhaço que inventou esse monte de besteira!

– Olha, não adianta você ficar nervoso, não é culpa minha.

– E você vai querer me convencer que lilás, que é uma cor mais escura, de macho, quase um roxão, é cor pra menina?!

– É. Você pode até não gostar, mas é.

– Pois saiba você que a Ana, que é a mãe, não acha! Arará! Ela adorou e disse que serve pra menino e pra menina.

– Ela disse isso?! Ela disse que serve pra menino e pra menina?

– Disse. Tá vendo só?

– Pronto, taí a prova!

– Prova, que prova?

– Cesar, ela não teria dito isso, assim do nada, se não fosse pra te agradar, já que ela sabe muito bem que lilás e de menina, percebe?

– Mas...

– Olha, não fica triste, vai? A gente vai é torcer pra nascer uma menina e poder aproveitar a botinha lilás, tá bom assim?



Cesar Cruz
Julho 2011
.
.
.
.

O Feici e o Guma


Crônica publicada no Portal Mundo Mundano - Jun 2011.
Para ler no MM, clique aqui.
---------------------------------------------------



ou um neófito no admirável mundo das redes sociais. Com parcos meses de feicibuquismo, a primeira revelação: ninguém se relaciona com ninguém ali, tudo conversa. No máximo as pessoas se acham e se autorizam, depois mantêm seus fótons (e fotos) sorridentes convivendo entre si naquele estranho espaço, naquela peculiar e fugaz forma de amizade.

Feicibucar é isso: ir colecionando pseudo-amigos ao redor daquele caudaloso rio (o Feicirio), que desce pelo meio da página arrastando, em questão de minutos, qualquer coisa que ali tenha sido escrita por você ou por qualquer um. Uma correnteza enlouquecida de informações pessoais de altíssima relevância, coisas como: “Voltei do banco, affff, que calor!”; “Uhuu! Balada no Marquinhos hoje à noite!”. Há algumas de profundidade filosófica e poética, para os que apreciam um Baudelaire, um Sartre: “Sorria! Custa menos que a energia elétrica e dá mais luz!”.

Outra coisa pitoresca que descobri: numa rede social, quanto mais amigos se têm, mais status se adquire no mundo real. Achei um lá com 1000 amigos! Esse tá bem na fita, pensei quando vi. Se precisar de uma graninha será só pedir 2, 3 reais pra cada bróder. Não vai pesar pra ninguém.



Noite dessas dei umas buscas usando uns nomes do passado e eis que encontrei o Ricardo Gumelo. Chamei-o para ser meu amigo. E eu que não sabia do paradeiro do Guma desde a 4ªB, quando estudamos juntos, no Dante Alighieri, trinta anos atrás. Navegando lá pelas suas fotos, conclui que se trata de um ilustre desconhecido para mim. Eu não o reconheceria na rua.

E o que conversar com o Guma, já que agora somos feiciamigos? “Você tem visto o, o... Como chamava mesmo aquele de óculos que sentava no fundão com a gente? E aquela professora de Ciências, uma gostosa, mas que ferrava com todo mundo nas provas?” ou “Você ainda faz peidos com o sovaco?”

Desisti. Desisti mais fiquei por ali, fuçando a vida do Guma, que pelo jeito se acertou melhor do que eu. Vai ver que ouviu mais os conselhos do pai dele do que eu ouvi os do meu. Vai saber... O fato é que o Guma sempre teve grana. Nesse quesito, grana, eu era o lanterninha lá do colégio. O pai do Guma naquela época tinha um baita Del Rey, prateado, novinho, todo acarpetado por dentro, com ar-condicionado, relógio digital no painel, antena elétrica, luz de bordo e tudo mais. E meu pai, um Fusca marrom 72, com uma chave de fenda espetada por dentro segurando um dos vidros.

O Guma um dia apareceu na escola com um walkman, de fita, da Sony. O pai dele trouxe dos Estados Unidos. Você aí que nem sabe o que é isso, não imagina o que significava ter um walkman da Sony em 1980, ainda mais de fita! Aqui já tinham começado a fabricar alguns, mas só de rádio. Era que nem hoje o cara aparecer, sei lá, com um IPad 8.

Daí fiquei do sofá da sala, vendo melhor a casa do Guma na Riviera de São Lourenço, com piscina, sauna, quadra, churrasqueira e dois daqueles cachorrões cinza, altos, que comem coisas melhores do que eu e você comemos. Ele tem também um sítio ou coisa que o valha num lugar serrano, a casa toda em madeira rústica, com lareira e forno caipira, projeto de arquiteto. Numas outras fotos surge um apê com varanda gourmet de 12 metros de comprimento, com o Guma vestido de avental de churrasqueiro e um monte de amigos reunidos dando risada. Claro. Num bem-bom daqueles, quem poderia chorar?

Pô, o que esse Guma fez que eu não fiz? Isso sem falar nos relógios desse tamanho que ele carrega no pulso, um diferente em cada foto. Gostei mesmo foi de uma jaqueta marrom, de couro agreste, que ele aparece usando ao lado de uma morena, num lugar com uns picos nevados ao fundo; no cangote dessa jaqueta uma golona caramelo, de crina de cavalo árabe — suponho. Coisa de cinema! Se eu tivesse uma daquelas vendia e dava entrada numa casa nova.

E ali no Feicibuqui do Guma a coisa não tem fim. É esqui nos Andes, mergulho na Austrália, paraquedismo na Flórida; Guma na Torre Eiffel, Guma no Big Bang, Guma nas Torres Gêmeas, Guma jantando num restaurante suspenso por um guindaste em Las Vegas; é Guma pra lá, Guma pra cá, Guma num iate com duas louras estendidas no deck tomando sol, flutuando sobre um mar tão azul, mas tão azul, que se aquilo não for photoshop suponho seja Caribe mesmo.

Tô contando isso aqui porque de repente me dei conta de que posso estar sendo injusto com o Feicibuqui...

Pensativo, olhando aqui para estes meus gastos pisantes e esta muda cansada de roupas, que data de 2003, isso sem falar no alternador do meu carro que deu pra finar de uma hora pra outra, carregando junto bomba d'água, duas correias e uns tantos acopladores, retentores, mancais, gaxetas e o escambau, imprevisto automobilístico desagradável que me deixou a pé em plena Vila das Belezas — lugar belíssimo — e que me custou quase dois mangos, assim, numa tacada-surpresa, daí me ocorreu que esse lance de amizade de Feicibuqui pode ser uma coisa boa para a alma e o espírito cansado da gente, engrandecedora e edificante, do mais elevado querer-bem e de saudosa recordação!

Então me veio novamente o velho Guma... E pensei que já que somos frutos dessa amizade que atravessou décadas, ele que é pra mim mais que um irmão, envolvidos que nos encontramos pelos fortes laços da mais plena estima, sólida e pródiga amizade feicibuqueira, bem... Acho que ele não se importaria em me emprestar unzinho!

É ou não é, Gumão?


 

Cesar Cruz
Junho 2011
.
.
.
.
.

Sempre garçom




Crônica publicada no Jornal do Cambuci (mai 2011)
e no Portal Mundo Mundano
-------------------------------------------------------


O meu problema é que não consigo sair de uma mesa de refeição sem antes dar uma limpadinha na gordura que caiu, enterrar os copos sujos uns nos outros, empilhar os pratos, recolher os guardanapos e carregar tudo pra cozinha. Quando sou acometido desse ímpeto na casa dos amigos, normalmente recebo o protesto da dona da casa, que quando vê que protestar não vai mesmo resolver, salta cheia de mãos na minha direção para me impedir, mas acaba abraçando o ar e caindo no chão, pois sou muito, muito mais rápido; um verdadeiro boina verde da louça, treinado no front, como se verá.

E você pode estar aí pensando que não há problema nenhum nisso, que sua mulher iria mesmo adorar se você também fosse assim, e que, aliás, é melhor ela nem ler essa maldita crônica, porque se ler, além de te encher o saco, você ainda vai ter que ouvir que deveria, isso sim, fazer um curso de bom-maridismo comigo e coisa e tal...

Mas como eu ia dizendo, tenho esse sério problema mencionado acima, conhecido na medicina como Garçonismo. E isso não é nada bom, apesar de parecer ótimo, pois na verdade trata-se de uma patologia adquirida. Você não pode imaginar como esse mal tem me prejudicado quando estou fora da privacidade do lar.

Tudo começou em 1990 quando fui trabalhar de garçom. E fui garçom por dois anos, ali no Alcaparra, na avenida Pompéia, aqui em São Paulo. Se você não conhece esse pequeno restaurante naturalista, fica aí a minha sugestão. Vá lá almoçar num sábado e mande um abraço meu pro Carlão, é um de cabeleira comprida e cavanhaque, você vai reconhecer.

Aquilo ali era um ritmo alucinante, que começava às 11h30 e ia forte até às 14h. Ainda me vejo subindo e descendo aquelas escadas, correndo com bandejas e pratos, atendendo o salão de cima e o de baixo, tudo ao mesmo tempo é que sempre faltava um garçom , e às vezes lá ia eu para a cozinha ajudar a espremer as laranjas e lavar os copos... E veja você como é poderosa a força do hábito! Já se passaram 20 anos e não consigo me livrar disso.

No restaurante por quilo, por exemplo. Se vou comer com um colega da firma, assim que acabamos, já vou logo arrumando tudo. O pior é a cara de surpresa do pessoal ao me ver erguer numa mão toda a pilha de louças e com a outra esfregar o retângulo de papel na mesa inteira, de lá prá cá, em movimentos circulares, muito bem esfregadinho, como aprendi. Só costumo mentalmente lamentar a falta de um paninho e um bom borrifador com álcool, para o trato final no tampo de fórmica.

Dia desses fomos, eu e o Vagner, meu amigo lá da empresa, almoçar no elegante Galeto’s, com uns gringos. Lugar adequado para a negociação importante que teríamos. Clima austero, todo mundo de terno. O almoço transcorreu bem e parecia que tudo ia nos levando para o sucesso, mas assim que tomamos a última xícara de café, meu cérebro deu um clique e me pus em pé, os olhos arregalados, e já saí empilhando as coisas, limpando os pratos com a ajuda das facas, recolhendo os guardanapos do colo dos clientes, me debruçando por cima das moças, apanhando na palma da mão os farelos do pão que caíram por ali, depois ajeitando tudo, pondo as xícaras por cima, equilibrando uma montoeira apenas no braço direito, até a dobra do cotovelo (minha especialidade) e, por fim, absolutamente profissional, sem deixar cair nada, saí ligeiro na direção da cozinha, com um braço atrás das costas e o queixo pra cima, e entrei cozinha adentro até colocar tudo na pia, com intimidade e eficácia. Isso, claro, debaixo do silêncio espantado dos garçons, do maître e das cozinheiras.

É que fico cego nessas horas... É mais forte do que eu!

Quando voltei à mesa, estavam todos sérios e calados, me olhando. Só aí me dei conta da mancada. Os gringos não entenderam nada e o almoço terminou assim. Mal.

No carro, indo embora, o Vagner azedou comigo:

Porra, Cesar, que merda foi aquela de recolher tudo e limpar a mesa!? Você só faltou passar o guardanapo na boca do doutor Hernandez!

Foi mal, Vagner, foi mal...

Pois é, meus amigos; a verdade é que: uma vez garçom, sempre garçom.



Cesar Cruz
Maio 2011





Reunião de Desempenho


– Senhores, em comparação aos resultados do ano passado, poderemos ver pelos gráficos que, desgraçadamente, nosso desempenho melhorou muito pouco em comparação ao ano anterior, de forma que não atingimos a nossa meta global.

Doutor Eustáquio, presidente da companhia, fez um sinal de cabeça para a Carolina que, orgulhosa, postada junto ao notebook, operava para o chefe a troca de telas da apresentação. Mais um gráfico surgiu projetado atrás dele, colorindo os rostos sonados da equipe sentada ao redor da longa mesa, todos quietos, apreensivos, escondidos uns atrás do outros na escuridão silenciosa e fresca da sala de reuniões.

Além da voz de Eustáquio, os únicos movimentos que se faziam escutar eram os nhéc-nhécs dos giros curtos sobre os eixos das cadeiras, e os tilintares das colheres nas xícaras de café.

– Vejam, senhores, que a região centro-oeste do país, coordenada aqui pelo Olavo...,

Olavo, que cabeceava de tanto sono, se endireitou na cadeira, assustado por ser citado, assim, de surpresa.

– ... teve, e isso é só um exemplo, Olavo, por favor, teve um incremento percentual de apenas dois pontos, o menor de todos os crescimentos, enquanto a média nacional, a soma de todas as nossas regiões, foi de 7% e...

Interrompendo-se repentinamente, o presidente levou às mãos à barriga e espremeu a boca, produzindo estranhos ruídos pela garganta.

– Hum, urght! Oh...!

Os ruídos transformaram-se em gritinhos agudos.

– Ai, ai, ai, ai, aiieê! Aieê!

Todos os presentes se ajeitaram nos assentos e se entreolharam na penumbra, repentinamente despertos pela estranha novidade. Não podiam crer no que estavam presenciando. Pela cabeça de um ou outro, passou que aquilo poderia ser parte de alguma espécie de treinamento, e que logo viria uma lição, uma piada sarcástica sobre a falta de percepção ou coisa que o valha; entretanto, sabiam que isso era improvável vindo do presidente, homem rígido, seriíssimo, pouco dado a inovações modernas desse tipo.

– Ahnnn! Aieê!

Eustáquio continuava a se contorcer e proferir sons diante de todos, e foi franzindo a fronte enquanto se curvava quase a noventa graus, as mãos unidas no baixo ventre.

Então seus estranhos gritinhos viraram uivos alongados, agudos, infantis. Não, definitivamente aquilo não era parte de nenhum treinamento. Algo estranhíssimo e inusitado estava se passando com o presidente da companhia em plena Reunião Anual de Desempenho.

Depois da paralisia provocada pelo susto inicial, agora todos pareciam se mobilizar para fazer alguma coisa. A Conceição, do faturamento, correu acender a luz da sala. Olavo, puxa-saco, se pôs em pé dum salto e enrodilhou os ombros do chefão com os braços, sacudindo-o ligeiramente, a título de calmante, como uma compensação pela falta de números melhores no ano que se findou. Outros tantos bajuladores se prontificaram a acudir, pondo as mãos no homem, apesar de intimamente tomados por um poderoso desejo de escarnecer, comemorar a tragédia do carrasco e o distanciamento dos números. Fosse o que fosse, teriam assunto, divertimento para mais de ano.

Mas o espanto maior estava por vir; e veio quando doutor Eustáquio começou a gritar e chorar, com uma inimaginável voz afinada, aguda, como um menino de 1 ano.

Diante da assembleia embasbacada de colaboradores, o presidente da companhia pedia, aos berros, para fazer cocô.

Os presentes quase saltaram para trás tamanho espanto.

Impossível crer que um homem com a austeridade de Eustáquio, cinquenta e nove anos, metro e oitenta e cinco e cento e vinte quilos de mais pura sisudez, sobriedade e rigor, pudesse estar falando em... Cocô! Seria mesmo isso que ele disse, ouviu-se bem?, era isso o que cada um pensava, e já achando por uma fração de segundo que aquilo poderia ser um sonho, ou estariam diante de uma possessão Poltergeist, ou sei lá o quê.

Dona Lurdinha, da contabilidade, sacara da bolsa um terço e fazia uma reza incompreensível “o nome de Jesus tem poder!”, ela gritava vez ou outra em meio ao muxoxo da prece.

Doutor Eustáquio era agora um imenso menino arroxeado, copioso, pedinte, sozinho em pé na cabeceira da mesa de reuniões, todos distantes dele, quase colados às janelas, sem saber como reagir diante do desconhecido.

– Mamanheeeeeeê!

Sim, aquilo era mesmo realidade, pois agora se ouvia claramente ele chamar pela mãe, e passou pela cabeça da Damaris que tudo aquilo podia ser manha, como fazia seu filho quando era pequeno, mas no instante seguinte Eustáquio silenciou repentinamente, e seu rosto, serenado, lavado de lágrimas, começou a avermelhar, a escurecer, e uma veia grossa surgiu no meio de sua testa e seus olhos se injetaram de sangue, e se pode ouvir um ruído abafado e grave vindo de seus fundilhos presidenciais, e um volume fofo se fez ali, que só a Dirce reparou, e um cheiro forte de fezes invadiu as narinas de todos os presentes, que pareceram senti-lo ao mesmo tempo, e as mãos correram tapar os narizes, repentinamente sufocados, e dois se adiantaram a abrir as janelas para entrar ar da rua, e Eustáquio chorava enlouquecido agora, paralisado, a face congestionada, a cabeça para trás, como um menino abandonado a quem ninguém quer socorrer.

E foi quando estavam todos com as cabeças respirando para fora, dependuradas do nono andar, com um insólito nenê-presidente chorando atrás deles, sem saber mais o que fazer, que a porta da sala de reuniões se escancarou e uma miúda senhora, de metro e meio, carregando no ombro uma desgastada sacola azul de tecido, com um sorridente menininho bordado, avançou na direção do presidente e pôs as mãos em seus ombros.

– Calma, querido; mamãe chegou.

Com os cabelos brancos presos num coque, e a típica agilidade da mãe veterana, dona Isolina (se soube o seu nome depois) afastou com uma braçada o datashow de cima da mesa, e com ele foram os blocos de anotação, o notebook, os copos e as xícaras de café. Puxou decidida Eustáquio pelo braço “Vem queridinho, vem aqui meu amor”, e o deitou ali mesmo, na beirada da longa mesa de reuniões, a mesma mesa que nos últimos anos diretrizes importantes foram firmadas, onde se debruçaram personalidades públicas, prefeitos, vereadores e outros presidentes de multinacionais como seu filho.

Aparentemente mais calmo, mas ainda soluçando, o menino da dona Isolina agora fazia um bico, nenê de bigode, magoado, um dedão de mão peluda metido na boca, que ele ia sugando enquanto seus olhos ingênuos reviravam na direção de todos, criança que espia sem se ater a nada nem ninguém, alheio à razão das coisas; e, postado assim, o presidente foi tendo suas calças abertas por aquelas mãos tão maternas, tão conhecidas que inspiram conforto e confiança, o carinho da mãe; e suas cuecas foram abaixadas, revelando uma inimaginável fralda, que ao ser desatada deu à luz um volume gordo e fétido de fezes moles como maionese. E todos se afastaram com um “oh!”, os lenços nos rostos novamente, mas dona Isolina, impávida e concentrada, sacou o pacote de paninhos umedecidos da sacola azul e pôs-se a limpar tudo, primeiro o excesso; e Carolina, eficiente não só no datashow, trouxe um saco plástico do banheiro para comportar o que ia saindo dali: uma fralda pesada, cheia, lenços sujos, papel higiênico...

Minutos depois, a mãe já havia tirado o grosso e passara a cuidar dos detalhes, as reentrâncias do ânus, e a parte logo abaixo do saco peludo e escuro, um pouco inchado pela idade; dona Isolina limpou bem ali, os olhos atentos, azuis, mãe zelosa, e limpou também o pênis encolhido, todo melecado, esticando-o pela ponta; e Kika, logo ao lado segurava o rolo de papel e reparava nos pêlos pélvicos grisalhos do presidente, que subiam da virilha pelo corpo do pênis. E as pessoas, agora mais habituadas com o absurdo, porque se acostuma com tudo nessa vida, se punham mais solícitas, próximas, na verdade curiosas, algumas sorrindo docemente, como quem assiste a um bebê bonitinho ser trocado pela mãe, ao mesmo tempo não acreditando que estivessem vendo aquilo acontecer; mas agora dona Isolina já punha no seu nenê imensas fraldas, geriátricas, Olavo suspeitou, dado o tamanho, mas antes de fechá-la, seus dedos hábeis já espalhavam uma boa quantidade de pomada anti-assaduras, besuntando tudo, sem economia. E dona Regina, mãe também, mantinha o quadril do presidente levemente elevado, com a ajuda do Clóvis, gerente regional sul, pois era mesmo muito pesado aquele bebê, e o silêncio se fez mais retumbante agora que a mãe dava o capricho final, fechando a fralda, subindo as cuecas, sacudindo os panos de lado para que toda aquela roupa se ajustasse no corpo do filho, e muitas mãos a auxiliaram nessa pesada etapa de encaixar calça no quadril, fechar zíper, botão, cinto de couro legítimo, italiano, Olavo reparou, isso pouco antes do chefe saltar da mesa e se pôr em pé, num repente, assustando a todos, ajeitar o paletó, tracionar o nó da gravata, dar duas tossidas e uma olhada no relógio suíço, o olhar sombrio de presidente agora de volta, e então todos correram para suas cadeiras, quietinhos, como se nada tivesse acontecido, e dona Isolina já havia desaparecido do recinto, deixando tudo pronto para que o filho prosseguisse com a Reunião Anual de Desempenho.

 
Cesar Cruz
Abril 2011
.
.
.

A previsão do presente



Texto publicado no Portal Mundo Mundano e
no Jornal do Cambuci & Aclimação
Abril 2011
____________________

O pessoal da previsão do tempo já percebeu que essa coisa de previsão do futuro está por fora. O grande lance agora é a previsão do presente, do agora. E a previsão do agora, como você pode supor, faz sucesso em qualquer campo da, digamos, previsão humana. Veja como funciona. Com um pouco de prática você mesmo pode fazer.

Imagine que você saiu do banco e pegou um táxi. Sentado no banco de trás, você fecha os olhos, se concentra e prevê:

“Auuuummmmm... estou prevendo que saí do banco e peguei... peguei... um... TÁXI!”.

SENSACIONAL! Isso sim que é um vidente de sucesso!

Pode parecer estranho para quem está tomando contato agora com essa novidade, mas você há de convir que esse é o melhor tipo de previsão que existe. As chances de fracasso caem muito.

No caso do tempo, parece enfim que eles se cansaram de passar vergonha. Lembro-me que quando eu era menino existia o Narciso Vernizzi, o comentarista do tempo da Rádio Jovem Pan, aqui de São Paulo. Todo o santo dia, cedinho, enquanto eu tomava o café com leite para ir para a escola, preparado pelo seu Aloisio, entre uma notícia e outra entrava a vinheta “Narciso Vernizzi, O Homem do Tempo!”. E lá vinha ele... Quem tem mais de 35 certamente se lembra.

Não acertava uma, o Narciso Vernizzi. Zero. Tudo bem que eu era muito menino pra me lembrar, mas seu Aloisio era categórico em garantir: "ele nunca acertou". E olha que nunca acertar é um feito, até relógio quebrado acerta pelo menos duas vezes por dia.

Lembro bem de uma das suas clássicas previsões: “Hoje teremos chuvas esparsas no decorrer do período sobre a Capital”. O que queria dizer aquilo? Nada, acho. Pelo menos nunca ninguém soube. E também não importava; como dizia meu saudoso pai, ele nunca acertou. Nem uma única vez. Nunquinha. E todo mundo sabia disso, até ele mesmo.

Fui dar um google no nome do homem e veja o que encontrei:

“Na década de 1970, mesmo sem as tecnologias de que dispomos hoje para prever o tempo, o Narciso Vernizzi brindava os paulistas todas as manhãs numa rádio de SP com suas assertivas previsões”.

Controvérsias! Bem, tanto o Vernizzi como o seu Aloisio já se foram, então é melhor deixar que eles discutam o assunto lá, perante São Pedro.

Mas como eu ia dizendo, depois de sei lá quantas décadas de inegável vexame cotidiano, finalmente a estranha comunidade dos previsionistas do tempo se rendeu à modernidade.

Veja só que evolução. Hoje cedo, enquanto dirigia para o escritório, ouvi na rádio CBN a Patrícia Madeira, nossa Narcisa Vernizzi do século XXI, prever o presente com brilhantismo:

“Hoje o dia está nublado e com chuvisco em toda a grande São Paulo. Alguns raios de sol penetrando por entre as nuvens elevam gradualmente a temperatura. Na zona leste e sul há garoa forte, já no interior o tempo está aberto, com sol e sem nuvens"

Fala aí: não é o máximo?


.
Cesar Cruz
Abril 2011
.
.
.
.

O meu exame de próstata




Crônica publicada
no livro A IDADE DO VEXAME & Outras Histórias (Pontes 2011),
no Jornal do Cambuci e
no portal Mundo Mundano.

Março 2011
------------------------------------


Outubro de 2010,

40 anos recém-completados. Lá estou eu de frente para o doutor Miguel para o check up geral da minha quarta década de vida sobre a Terra. Depois de um papinho preliminar sobre alimentação, vícios, estresse, sono e hábitos gerais, o doutor Miguel foi escrevendo os exames que eu faria: sangue, urina, ergométrico, colesterol completo, ecocardiograma etc e tal. Eu ali, quieto, lembrando da recomendação da Vanessa “Se ele não falar nada você fala! Com 40 tem que fazer, Cesar, você sabe, é a sua saúde!”.

Era só o que me faltava. É claro que eu não iria pedir uma coisa dessas ao médico. Ele iria achar no mínimo que sou um viadão enrustido; imagina só: um cara que acaba de fazer 40 anos e já no mês seguinte vai correndo pedir ao médico que lhe introduza um dedo no anus para fins medicinais. Francamente...

– Vamos fazer também próstata, Cesar – ouvi a voz do doutor Miguel interromper meus pensamentos. Pronto, não precisei nem pedir.

Estranhei aquele “vamos fazer”. Sabe-se que no dos outros tudo é refresco, mas seria aquele um eufemismo para que eu não me sentisse assim tão só num momento, digamos, delicadíssimo?

Resolvi fazer como as ovelhas: calar diante do sacrifício iminente. O negócio seria lavar muito bem as partes, vestir uma cueca novinha e enfrentar tudo com muita dignidade.

– Aqui está – disse ele, me estendendo os papéis – Volte com todos estes exames concluidos para conversarmos. Foi aí que eu entendi que não seria com ele. Mas com quem seria então?


Dias depois...

Lá estava eu, logo cedo, no Delboni lotado, de mãos geladas, naquela terrível expectativa. Cada enfermeiro que passava eu olhava as mãos, torcendo para pegar um bem pequenininho. Passei a manhã inteira assim. Nos intervalos das torturantes esperas, colhi urina no copinho, fiz o exame na esteira monitorada e o ecocardiograma, que consistia em deitar de ladinho, sem camisa, e ficar ali, submisso, sentindo um objeto cilíndrico ser deslizado pelo meu peito, pra lá e prá. E com gel. Um mau presságio.

De volta à recepção, eis que um enfermeiro (enorme) me chama:

– Senhor Cesar Cruz?

– Sim...

– Me acompanhe, por favor.

Havia chegado a hora. Fui pelo corredor seguindo o cara que de costas parecia um ônibus. Entramos numa sala e a porta foi fechada.

– Sente-se ali, por favor.

Então seria sentado, que humilhação. De garganta seca, apavorado, fiquei vendo-o calçar as luvas de borracha naquelas mãos enormes. Cada dedo do sujeito parecia um charuto cubano.

– Amigo, será que antes podemos tomar um vinhozinho? Estou meio sem clima... – arrisquei. Ele, quieto, a essa altura já me amarrava um dos braços com uma borracha...


Na semana seguinte...

Voltei ao doutor Miguel. Estava decidido a não contar o que havia acontecido. Não revelaria aquilo nem pra ele, nem pra Vanessa, nem pra ninguém. Guardaria aquele segredo só para mim.

– Tudo bem? – foi a primeira pergunta que o doutor Miguel me fez quando me sentei. – Pelo jeito era um conluio para me sacanear, achei até ter visto um sorrisinho por trás daqueles óculos.

Respondi que sim e fiquei esperando que ele falasse algo. Não seria eu que iria reclamar de nada. Ah, não mesmo! Ele abriu os envelopes com os resultados e começou:

– Triglicérides ok, um pouco de ácido úrico, mas nada demais, coração com pequenas arritmias, nada grave, saudável, colesterol total ok, próstata ok...,

Opa! Na hora que ele falou em próstata não entendi mais nada. Então resolvi quebra o compromisso do silêncio:

– Doutor, preciso confessar, não fiz o exame de próstata.

– Como assim, não fez?

– Acho que eles se esqueceram.

– Imagina, está aqui!

– Impossível, doutor, só se me doparam, porque eu não me lembro de nada.

– Ah..., você está se referindo ao exame de toque? Não, não, Cesar. Esse eu só peço quando aparece alteração na dosagem do PSA no sangue, mas o seu está dentro dos parâmetros normais. Fica tranquilo.
.
.
.
Cesar Cruz
Abril 2011
.
.
.
.
.
.
.

A insustentável leveza da verdade



Relactividade - M.C. Escher - 1952


Crônica publicada no Jornal do Cambuci e no portal Mundo Mundano.
Março 2011

------------------------------------



Suponha que hoje, ao chegar em casa, você tenha que explicar pra sua mulher que esse batom vermelho, aí na gola da sua camisa, desgraçadamente branca, que você já tentou loucamente tirar na pia do banheiro da firma e o maldito não saiu de jeito nenhum, era de uma moça (feia, por sinal) que tropicou na escada do metrô e calhou de ir dar com o beiço, em cheio, no seu pescoço.

Como contar a ela essa in-crível verdade? Seria melhor simular um sequestro e desaparecer por 3 dias? (e voltar sem camisa, claro).

Suponha que você tenha que ir a um batizado no domingo pela manhã, às 9h, justamente na hora do seu sagrado futebol society. Terrível. Além de perder o jogo você terá que se meter num sufocante terno alugado a preço de ouro. Tudo de ruim. Mas, como se trata do batizado do filho de um amigão, você está decidido a comparecer.

Ocorre que, bem naquela madrugada, a sua bisavó de 95 anos, que já estava nas últimas havia 3 anos, resolve morrer. A família troca telefonemas antes do raiar do Sol e, às 5h da matina, você já está saindo de casa com um monte de atribuições: verificar a quantas anda o jazigo da família, comprar caixão, marcar velório etc.

E o que dizer pro amigo na segunda-feira pela manhã, que não pôde ir porque sua bisavó morreu? Pô, cara, conta outra!

É... Tudo seria mais fácil se o mundo fosse justo, se verdade e mentira não fossem conceitos relativos, se as pessoas fossem honestas e os políticos interessados pelo povo. Mas, mergulhados neste imenso oceano do embuste, como exigiremos que o outro acredite numa verdade que nasceu com a cara deslavada da mentira?

Já deve ter acontecido com você coisas assim. Comigo aconteceu.


Naquela manhã, e isso já faz mais de 15 anos, eu finalmente iria honrar o combinado e fazer a visita ao cliente. O detalhe é que o cara já estava azedo, pois ele tinha pressa eu já havia remarcado o encontro duas vezes, sei lá por que motivos. Na última conversa por telefone ele foi categórico: “Cesar, te espero amanhã aqui às 10h, em ponto, por favor.”

Então lá estava eu, dirigindo em direção a Santo Amaro. Iria chegar na hora certinha. Maravilha! Eis que, na Robert Kennedy, comecei a sentir o carro puxar forte para um lado. Pneu furado. Subi numa calçada e olhei o relógio, já fazendo as contas. Miseravelmente eu iria me atrasar... (Às vezes a vida pode ser muito dura).

Troquei o pneu que nem um louco. Joguei pneu furado, macaco e chave de rodas, tudo no porta-malas, de qualquer jeito. Eu estava mesmo ferrado. Foi então que meus olhos avistaram um mercadinho na outra calçada. E me veio a grande idéia!


Eram 10h20 quando eu toquei o interfone do sobrado da empresa. Por milagre o sujeito me recebeu, mas seu olhar para mim era o de um homem que surpreende uma barata na pia da cozinha. Para piorar eu ainda quis me meter a sincero e, com um sorriso idiota que logo tratei de engolir, contei-lhe que o pneu furou e espalmei as mãos ainda sujas por cima da mesa pra ele ver. Vexame dos vexames. Recebi um olhar de desprezo e o silêncio. Pensando bem, qualquer malandro poderia sujar as mãos para contar uma história como aquela.

Assim que acabamos a breve reunião, uma conversa lacônica, fria e sem desvios; eu, psicologicamente humilhado, pronto para ir embora com o rabo entre as pernas, me levantei e falei:

– O senhor me acompanharia até o carro? Tenho algo para lhe dar que esqueci de pegar.

Havia chegado a hora de mostrar o pau que matou a cobra. Quando chegamos perguntei, já destrancando o porta-malas:

– O senhor gosta de vinho?

Ele fez que sim com a cabeça e, diante do seu olhar incrédulo, levantei a tampa e peguei, ajeitado estrategicamente bem em cima do pneu furado, ao lado de chave de rodas, do pano sujo de graxa e do triângulo de segurança, um reluzente pacote.

– Espero que o senhor aprecie – eu disse, entregando-lhe a garrafa de vinho lindamente embrulhada em um discreto papel prateado com um pequeno laço de cetim negro.

Diante de um homem repentinamente desorientado e gaguejante, que parecia mais baixo, curvado, entrei no carro e parti, me sentindo como o jogador que faz o gol aos 44 minutos do segundo tempo, no jogo da final da Copa do Mundo.

Golpe de mestre!

Muito bem... Agora que você já aprendeu como agir quando tiver nas mãos uma verdade com cara de mentira, tenho que ser sincero e contar a você que... Menti.

Infelizmente, o brilhante truque do vinho só me ocorreu muitos, muitos anos depois. Uma pena.
.
.
Cesar Cruz
Março 2011
.
.
.
.
.

Alegrias modernas



Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação
Fevereiro de 2011

___________________


Dois amigos iam no carro. Um dirigindo o outro ao lado.
– Cara, estou tão feliz!

E por que tanta alegria?

 É que ontem à noite estacionei meu carro numa rua escura e me roubaram o estepe!

–  Não entendi... Qual a felicidade nisso?

Cara, me roubaram quando o carro estava estacionado, sacou?

Tô na mesma...

Pô, pense nas vantagens! O ladrão poderia ter posto uma arma no vão da janela, me rendido! Assustado, ele poderia ter atirado e me matado, ou a bala ter entrado pela minha espinha e me deixado inválido, numa cadeira de rodas. Pior, ele poderia ter aproveitado o roubo e levado também o carro, com a minha família toda dentro, e eu não poderia reagir sob a mira de duas armas, pois poderiam ser dois bandidos em vez de um só. Imaginou isso? Agora você poderia estar chorando debruçados sobre o meu caixão...

– Puxa, é mesmo...

– Ou pior: eu poderia ter perdido a minha mulher! Pá! um tiro e um homem que desaparece correndo na noite escura... E seria só essa a imagem que eu teria para todo o sempre, a me perturbar enquanto eu vivesse. Mais terrível ainda: eu poderia ter acelerado para tentar fugir, aí o tiro viria de trás e acertaria um dos meus filhos nas costas, perfurando pulmão e coração, fatalmente, e eu acabaria internado num hospício, enlouquecido de culpa. Imagine então se eles entram no carro e nos levam para nossa própria casa, e roubam tudo lá, e depois nos amarram no banheiro enquanto bebem, enxugado uma a uma todas as minhas garrafas de uísque no gargalo? E claro, bêbados, jogariam álcool sobre nós e ateariam fogo, em meio à gargalhadas!

– Cacete, é verdade!! E eu que não tinha pensado nisso! Me animei também, que maravilha isso, hein?! Só um estepezinho...

Pois é, só! Diga se não é maravilhoso?

Ô, se é! Estou é com inveja de você! Olha, proponho pararmos num bar para um brinde em nome dessa tua alegria.

Perfeito! Tem um logo ali, ó.

Quem sabe me roubam o estepe hoje?!

Calma, calma... não se afobe, tudo tem seu tempo... Faz assim: estaciona ali naquela rua bem escura, quem sabe você dá uma sorte.
.
.
Cesar Cruz
Jan. 2011
.





A minha experiência gay


Esta crônica é parte integrante do livro 
"A Idade do Vexame & Outras Histórias" - Pontes Editores  

Crônica publicada no Jornal do Cambuci
portal Mundo Mundano.
Revista Eletrônica Tuda
Portal Página Cultural

_______________________



Nunca mais a minha vida será a mesma. Tive uma experiência gay. Sim, gay. E chego a conclusão de que não é fácil ser gay neste país. No fundo dói, como você pode imaginar. Bem, aconteceu, fazer o quê. E foi com meu amigo George, o G. — pelo menos foi com alguém em quem eu confio. Com a permissão dele, vou contar tudinho, a gente precisava mesmo se abrir.

Comecemos pelas preliminares:

Como nossas mulheres tinham um compromisso naquela noite, resolvemos, eu e ele, ir com a Michele, minha filha, e com a Duda, filha dele (três e dois anos, respectivamente) passear no shopping SP Market, aqui em São Paulo.

A Michele e a Duda são meninas negras, e eu e o G., pais brancos. Por si só nossas famílias já atraem os olhares das pessoas, pois fica evidente que se trata de adoção. Eu já estou bem acostumado com isso, e imagino que o G. também. Mas o que não estamos acostumados, o que nem ao menos podíamos suspeitar quando inventamos de ir ao shopping com as duas, era que iríamos parecer, inapelavelmente, um casal gay.

O detalhe é que havia em torno da situação um número razoável de agravantes colaborando para firmar nossa vocação de casal feliz: As alianças na mão esquerda, estarmos vestidos de bermudas e camisetas-machão (aquele modelo enrustido, que não teve a coragem de sair do armário e ser uma verdadeira regata), o G. ser gordinho e peludo, e eu careca e taludo, e o pior: o fato das meninas adorarem andar de mãos dadas, o que nos obrigava a ficar cada um numa ponta com as duas no meio.

Sacou a cena? Feche os olhos e visualize. Viu? Confessa aí. Até você que se faz de politicamente correto, mas no fundo é um grande sacana, iria cutucar sua mulher e dizer “Veja, amor, que lindo aqueles maridinhos!”. E ela diria, com um beliscão na sua barriga “Não seja besta, Jorge! É lindo mesmo, você que é um bruto!”.

Estacionamos os carros e entramos no shopping.

— Ferrou, G. — eu disse, logo que dobramos o quiosque do Mac Donalds.

— Ferrou o quê? — ele perguntou, inocente.

— Estão achando que somos um casal gay.

— Quéisso... Será?

Sua dúvida durou apenas um instante. Um brevíssimo instante.

Tudo ficou óbvio quando passamos pela Copenhagen e cruzamos com uma velhinha de cabelos lilás, que juntou as mãos sob o queixo e sorriu docemente, a cabecinha se inclinando, acompanhando com um olhar cheio de amor a nossa linda família passar.

O que faríamos? Nada. Nada a fazer. E tínhamos duas horas pela frente. E agora que já tínhamos entrado no shopping, seria impossível tirar as duas dali em pleno mês de Natal e Papai Noel.

E lá fomos nós, shopping adentro, caminhando convictos de nossa macheza. Eu não me atrevia nem a olhar para os lados, mil olhos sobre nós. As pessoas cochichando, disfarçando. Eu quase podia ouvi-las “olha ali, Antunes, mas sem dar na cara! Disfarça, Antunes!”; “Não olha desse jeito! Eles vão achar que você também é, Wanderlei!”; ou os seguranças: “Q.A.P, Reinaldo na escuta?” — “Prossiga Q.A.P!” — “Disfarça e dá um bico no casal de bonecas que vai passar aí em frente à C&A, câmbio!”

Diante da situação que se apresentava, passamos de repente a falar grosso, defesa inconsciente de nossa masculinidade ameaçada. Quando dei por mim eu estava dizendo palavrões, coçando o saco, andando de pernas abertas — para não rebolar —, soltando tapas nas costas do G. e dizendo “Aê, meu velho!”. Até um cuspe de macho dei na lixeira, fazendo cara de mau.

No entanto, qualquer esforço para parecer menos passivo resultava em nada. O quadro parecia se agravar a cada corredor... Sim, porque se a senhora acha que todos os homossexuais são iguais, se engana, minha senhora! E o pessoal do shopping parecia saber muito bem disso. Já deviam estar achando que fazíamos o tipo gays-machões, estilo Village People.

E o tempo não passava...

Paramos para jantar, depois andamos pra lá e prá cá tomando sorvete (vai vendo), mais adiante nos encostamos num quiosque pro café expresso...

Acabou? Não.

A Michele precisava de um tênis, e lá fomos nós. Uma legítima família às compras. Eu provando o tênis na Michele e o G. correndo atrás da Duda que queria derrubar tudo pela loja, e todo mundo olhando, e os vendedores em grupo, com as mãos em frente às bocas, todos os olhos na loja sorrindo, inequivocamente.
Então, duas mulheres, mãe e filha, supus, provando suas sandálias e sem conseguir disfarçar a mórbida curiosidade, me sondaram:

— Que lindas, quais os nominhos delas? São irmãs?

E eu, já de saco cheio depois de duas horas de massacre, engrossei a voz e disse:

— Não, minha senhora. Elas não são irmãs. E esta aqui é a Maria Eduarda, filha dele com a mulher dele. E essa é a Michele, minha filha com a minha mulher!

Pois é, amigo... A gente brinca com essas pequenas desgraças, mas a verdade é como eu disse no início: no fundo, dói.


Cesar Cruz
Dez 2010


.
.

Texto relacionado - Os olhos dos outros
.
.
.
.