De mito a amigo

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Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição 1144 - agosto 2009.
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Logo que comecei a escrever para este jornal, o Mário me dirigiu um e-mail repleto de elogios e deferências, com certa dose daquela respeitabilidade que normalmente dedicamos quando nos atrevemos a nos dirigir aos grandes ícones. Afinal, lá na cabeça do Mário, ele estava tendo a audácia de escrever a um importante colunista. A gente tem dessas besteiras, né? Achar que as pessoas são maiores do que de fato são. Sou obrigado a concordar com Bertold Brecht, quando disse que todo homem parece maior quando visto a distância. Pura verdade... De pertinho, sob uma lente de aumento, todos nos igualamos em nossas fraquezas, fragilidades e medos. Somos, todos, pó. Eis outra verdade, líquida e certa, tanto pela óptica bíblica quanto pela secular.
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Pois bem, como eu ia dizendo, o Mário me enviou aquele e-mail e eu, que sou um ídolo de meia tigela, em vez de fazer o charme típico dos grandes e não responder, para dar ares de importante e para que ele pensasse “Eu sabia, essa gente de jornal é muito ocupada, recebe centenas de emails!”, já fui logo respondendo, na mesma hora, todo eufórico e feliz da vida de ter recebido aquele e-correio tão bacana - que foi, pra ser bem sincero, o único da semana. Detalhe: ele não só me leu no jornal, como também acessou o meu blogue deixando montes de comentários nos inúmeros causos que ali encontrou. Um fã, enfim.
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A partir dali trocamos muitas outras mensagens com impressões sobre causos, literatura etc. Numa dessas prosas, soube que o Mário, vulgo Xara, era dono de um brechó aqui pertinho, no bairro do Ipiranga. Fiquei doido, pois sou verdadeiramente tarado por brechós, assim como sou por sebos. Tenho muitas roupas e livros comprados nesses lugares. Anotei o endereço e o avisei que aterrissaria por lá num dia qualquer.
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Numa certa tarde estava eu passando por perto e parei para conhecer meu novo amigo e visitar sua loja. Ah!, ia me esquecendo de contar que, quando eu disse que apareceria, ele veio com aquela coisa de “Oh! Será uma grande honra recebê-lo em meu modesto estabelecimento!”. Pois bem, amigos, vejam vocês como o Bertoldão tinha razão quando disse aquilo, oitenta anos atrás: entrei no brechó e fui cumprimentá-lo. Quando falei quem eu era, Xara me olhou de cima a baixo e disse, visivelmente decepcionado, murcho: “Você que é o Cesar? Hum... parece tão diferente na foto do blogue! Mais velho talvez, mais careca...”. Veja só como são as coisas, meus amigos! Que injustiça! Justo comigo, um ícone vivo da literatura mundial - aqui do bairro!
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E foi assim que o Xara e eu ficamos amigos. Agora, sempre que estou no pedaço, dou uma passadinha pra lhe dar um alô, e ele continua a me mandar impressões sobre o que escrevo. Acabou-se o mito e fez-se o amigo! Que bom! Bem melhor assim.
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Cesar Cruz
Agosto 2009
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*crédito dos parceiros neste blogue.
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11 comentários:

Majoli disse...

Olá Cesar, realmente acontece da gente se falar por e-mail, ler blogs, jornais e imaginar a pessoa de um jeito e quando a encontramos, mesmo tendo as visto em fotos, sempre é um pouco diferente.
Eu conheci pessoalmente uma amiga de blog no mês de julho desse ano, eu a achei um pouco diferente, mas ela me disse que eu sou igualzinha a foto que tenho no blog...rs.
Mas o gostoso nisso tudo é a amizade que acontece e os laços que se tornam maiores.
Tenha uma boa semana.
Beijos.

Anônimo disse...

muito bom Cesar sempre causando surpresinhas na gente né? gostei, bastante mesmo, a honra continua a mesma, minto, cresceu um pouco, tenho certeza que, se elogiarmos Você mais uma vez irá se considerar Machado de Assis pós moderno, tem problema não, continuaremos seus fás, ou pelo menos terá um, eu, o iludido né? abraços cara e muito obrigado, mas aviso a todos, terá réplica.

xara
ipiranga

A Quatro Mãos- Artesanato em madeira disse...

Oi, Cesar!!!!
Até que enfim o meu irmão Xara (sem assento, respeitando a votade do mesmo) assumiu a forma que mais lhe cai bem: Crônica!!!!
Obrigada pelo feito. Fico feliz de saber que foi com vc que ele tomou essa forma, afinal, ele gosta MESMO de vc!!!
Grande abraço da Eloisa (também sem assento).

martha disse...

Olá Cesar,

Hoje li os 3 últimos, ou as três, de uma vez. Gostei. O do vendedor é demais, tem mesmo essa falta de sensibilidade de povo muito "treinado" para o ofício de vendas. No outro, fiquei com dó da mulher que se empenhou tanto em agradá-lo, você deve ter pensado: "ainda bem que não convidou para o almoço". O mito é bom, mas não me fez rir como os outros dois. é isso. parabéns!

Marcus Ianoni disse...

Oi, Cesar! Bom receber notícia suas no email. Li sua sua crônica sobre o Xara, muito legal. Realmente, Brecht tinha razão.
Estou gostando muito de morar em Niterói, sobretudo por poder apreciar as belezas naturais daqui, as praias, a Baia da Guanabara e a mulherada bonita. Parabéns pelo blog e pela coluna no Jornal.

Grande abraço!
Marcus

Xara disse...

Cesar

Conhece aquelas situações nas quais você conhece e reconhece uma pessoa que tem muito a ver contigo? Então, são pessoas assim que nos impressionam, que a afinidade sempre arma um jeito de se encontrarem, de se disporem e reafirmar a alegria de um encontro; e quem poderá dizer que não de um reencontro? Esses dias como de costume, estava eu a ler (comportamento que tenho anos a fio, ler tudo, todos assuntos, até temas difamados como: política, economia, pedofilia etc) e saquei de um jornal, bem conhecido aqui do meu bairro, e lá estou a "paginear" quando, de repente, me deparo com uma crônica de um tal de Cesar Cruz e de título "Os guerreiros pó-de-arroz". Tal título chamava atenção e gerava expectativa pelo assunto que viria, que não consegui definir de imediato sua proposição e acabei por ler. Depois reli e... desacreditei! Por fim me dei por vencido. Diante dos infinitos assuntos, palavras e textos existentes nesse nosso universo (inclusive mental e íntimo) lá estava um que dizia o que eu realmente pensava e gostaria imensamente de transmitir aos outros a respeito do assunto em questão. O detalhe é que, do jeito lá exposto, constava de uma poesia e maestria tão refinadas, que levava a uma emoção tão rara e desejada por nós nesses tempos atuais, expressando algo que considerávamos raro, moribundo, ou até mesmo recém-extinto.

Assim são essas pessoas ou pessoas assim, iguais a nós, mas muito próximas, mesmo distantes geograficamente, que veem, sentem, querem, desejam, e acima de tudo torcem por uma transformação dentro daquilo que já se encontra a longo tempo definido em seus íntimos. E assim é a vida, existem marias e marias, josés e josés, cesars que provocam guerras e cesars que contribuem com o que são com a humanidade, esses últimos são aqueles, caro Cesar; aqueles que a lei implacável e irredutível dos afins trata de (de alguma forma) trazer até nós, não importando como, quando e onde, mas trata de aproximá-los; e isso fatalmente acontecerá, como de fato aconteceu!

Abraços do amigo!
Xara

Lu Mello disse...

Adorei!!! Acho que todos já passamos por situação semelhante!

Marcelo Vaz disse...

Nunca comentei, apesar de sempre ler seus textos, mas vou comentar desta vez.
O bom cronista é aquele que consegue extrair, de coisas tão opacas, brilho. É como o bom engraxate, que faz um milagre num sapato velho. Fazer cronica com bons temas, grandes acontecimentos, é mais fácil. Quero ver é fazê-las com a opacidade do simples, singelo e comum dia a dia. E você fez isso aqui. Muito bom, Cesar. Parabéns!

Marcelo Vaz
leitor calado, mas constante
moro pelo bairro...

Francisco Vieira disse...

Interessante o seu blog. Pretendo passar por aqui mais vezes, se me for permitido.
Um abraco
Francisco

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...narracion
llena
de
la
vida
en
el medio
al
dar
cesar
tu
aportacion...

desde mis ---horas rotas---


te sigo cesar , con un fuerte

abrazo , de emociones dentro.


afectuosamente cesar:

jose
ramon...

Tais Luso de Carvalho disse...

Oi, Cesar, essa crônica tá na medida!

Veja só, depois que colocaste os arquivos expostos, não precisamos ler o último ou os que estão ainda na primeira página. Fui olhando a coluna, e me interessei por esse título.

Lembro da época em que eu dava aulas de arte e falava na televisão sobre os cursos, e as pessoas que me procuravam para a matrícula, quando me viam diziam: '...mais, eu pensava que você era alta, mais encorpada...'

Não: eu sou tipo mignon, assim mesmo, dizia. E nunca soube se decepcionei ou não. Mas eu estava 'longe'... Fui 'pintada' diferente. A aproximação mata o mito, rsrs, pois somos tão humanos como eles.

Beleza de crônica.
Bj
Tais luso