As duas luas

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Ano que vem faço quarentinha. Além de coroa estou me transformando num descrente. Já não acredito nas coisas da maneira como eu acreditava antes. Dentro de vinte e poucos anos serei um velho cético e incrédulo. Digo tudo isso, pois dia desses recebi um email curioso, repassado pela Adriana. Antes de tecer comentários a respeito, ponho-o abaixo para a apreciação do amigo leitor.
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Assunto: duas luas no céu!!!!
À meia noite e meia do dia 27 de agosto próximo, haverá duas luas no céu. Isso ocorrerá porque o planeta Marte, que estará mais próximo da Terra do que o habitual, aparecerá tão grande quanto a Lua, dando a impressão de que são duas luas no céu! Não perca! Isso só voltará a ocorrer no ano de 2287. Divulgue, pois nem todos terão a oportunidade de rever!!
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O que mais me chamou a atenção no texto foi essa efusiva convocação final: “Divulgue, pois nem todos terão a oportunidade de rever!!”
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Nem todos?! E dá-lhe confiança, hein?! Será mesmo que quem escreveu isso achou que algum de nós ainda estará vivo em 2287? Eu, por exemplo, estarei com 316 anos. Acho que se me cuidar direitinho, quem sabe ainda poderei estar escrevendo essas besteiras aqui neste blogue. Quanto a você, amigo, não tenho como garantir, aliás, tenho lá minhas dúvidas, você anda muito descuidado na alimentação, nos exercícios...
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Mas como eu ia dizendo, estou virando um cético. Acho que a idade e a experiência produzem isso na gente, queiramos ou não. Quando se é novo, se crê em tudo. Tudo são exclamações para o jovem. Lendo o email acima, com toda essa dose de otimismo (e vai ser otimista assim lá no, na... bom, deixa pra lá), essa euforia, fico com a certeza de que o autor não deve ter mais do que vinte anos. Aos vinte a gente ainda é assim: inocente e facilmente entusiasmável. Isso é normal. É depois dessa idade que entramos numa curva descendente de euforia. Também, pudera! O tempo passa e você toma lambadas de todo o lado; com trinta já coleciona engodos, tropeços, frustrações, desilusões... Ano após ano vamos ficando mais e mais desconfiados, sisudos, austeros, desencantados e, por fim, céticos.
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Eu mesmo nem sempre fui assim, saibam vocês! Essa história das duas luas, aí do rapaz, me fez lembrar de quando eu ainda acreditava nessas coisas...
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Em matéria de decepções astronômicas, sou um veterano cascudo, visto que já (não) presenciei dezenas de fiascos galácticos: Eclipses do Sol e da Lua, chuvas de meteoritos, auroras boreais, conjunções dos planetas e por aí a fora. Foram anos de frustrações para me fazer desacreditar definitivamente nesses fenômenos. O último em que eu acreditei, o derradeiro, ocorreu quando eu tinha quinze anos. E foi o mais esperado de todos os acontecimentos celestiais da segunda metade do séc. XX: o cometa de Halley! Quem tem pelo menos trinta anos, hoje, deve se lembrar bem.
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Esse cigano voador cruzou nossos céus pela última vez em 1986, no mês de abril, se não me falha a memória (memória de cronista mentiroso, que na verdade acabou de pesquisar no Google para se lembrar).
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A imprensa do mundo inteiro não deixava o assunto esfriar, e a coisa começou forte mesmo, três anos antes, quando a NASA enviou uma sonda para interceptar a cauda do bichão em pleno voo. Só a cauda diziam ter 200 quilômetros de comprimento, e a tal sonda passaria zunindo por dentro dela, a centenas de quilômetros por segundo, para mandar imagens inimagináveis aos terráqueos.
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O cometa de Halley gerou suspense e ansiedade sem precedentes nas pessoas, em especial na garotada, que devorava informações. Sabíamos tudo a respeito: que ele visitava a Terra a cada 76 anos; que é o maior fenômeno astronômico que pode ser visto a olho nu aqui do planeta; que Halley era o sobrenome do cara que o identificou pela primeira vez em mil setecentos e sei lá quanto; que ele não passou nos 33 anos em que Jesus andou por aqui e mais um monte de outras coisas.
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Meu pai havia me contado que, em 1910, na última passagem do cometa, o céu foi tomado por sua enorme cauda, que fez a madrugada ficar clara como o dia. Na ocasião, muita gente se suicidou ao redor do mundo, achando que havia chegado o dia do juízo final.
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Deu pra imaginar a expectativa da gente?
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O Halley foi uma longa história de espera, que acabou numa decepção que eu vou te contar. O Léo, o PJ e o André devem se recordar bem do dia do grande acontecimento. Lembro que ficamos todos aguardando, numa agonia danada, segurando que nem bobos aqueles negativos de fotos na frente dos olhos (diziam que a luz seria de tal intensidade que tostaria as córneas desprotegidas!), olhando para o céu mais nublado já visto até então. Vi um balão apagado passar naquela noite, mas não vi o diabo do cometa. Ficamos numa tristeza de velório, desconfio que só não apelamos para o gargalo, pois naquela época moleque ainda não bebia.
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O quê, amigo? Sobre as inimagináveis imagens da sonda? Oh, sim, sim! Apareceram em revistas e telejornais... Eram uns clarões esquisitos, coisa sem graça, que só astrônomo entende. Cometa no céu, que é bom, nada.
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Sinceramente, da minha parte, no dia 27 próximo, à meia noite e meia (horário de Brasília), que será a madrugada de quinta (segundo a minha folhinha aqui sobre a mesa da sala), vou estar de pijama flanelado, dormindo o sono dos descrentes na minha cama quentinha, porque o dia seguinte será dia de branco.
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Quanto ao garoto aí do email (que espero que não leia esta crônica melancólica), posso apostar que estará acordado na janela de casa, segurando um negativo de filme na frente dos olhos e olhando pro céu, pronto (sem saber, coitado) para uma grande decepção.
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Cesar Cruz
Agosto 2009
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8 comentários:

Jackie Kauffman disse...

Sabe? Penso que , na verdade, não vamos somente nos tornando céticos com o passar do tempo, mas passamos a deixar nossas lentes que transformam tudo em algo "melhorzinho", "mais colorido",na gaveta, ou as jogamos na lata do lixo; e olhamos a realidade sem ter que usar esses tipos de artifícios, simplesmente porque eles não cabem mais dentro de nós.A maturidade é linda, é construtiva, e é melancólica.
Obrigada pelo texto. Com quantos anos "estarei" no segundo eclipse??? Não posso fazer as contas. Amei!

Anônimo disse...

tá ficando descrente e desmemoriado mesmo, nem lembrou do "sputinik" (não sei se é assim que escreve, estou com preguiça de consultar o google), mas a real é a seguinte, se depois dos quarenta ou até mesmo ao derredor dele vc não conquistou uma certa paz íntima e inabalável é porque não viveu direito, ou não aproveitou quase nada da vida(das experiências dela), isso posso garantir pois já passei da idade...

abraços
xara (sem acento e EM MINÚSCULO)

Vanessa disse...

Amor,

Você esqueceu de mencionar as "chapas", eu por exemplo sempre usava as chapas do pulmão da minha avó.... Agora uma perguntinha:
Pra que diabos serve isso?

Beijos,

Anônimo disse...

É incrível a força da comunicação. O Cruz sempre foi um velho descrente, desde que éramos moleques. Agora diz que é a idade...a idade é só desculpa pra rabugice que vc sempre teve. O que me assombra é que ninguém discordou , só porque ele é o BLOGUEIRO..., agora virou erudito....Então tá lançado o desafio, dia 27 de Agosto , estarei equipado com as chapas do pulmão da Vó da Vanessa, e protetor solar , vai que a radiação de Marte me atinge, de tão perto que vai estar da Terra. (se é que Marte tem radiação). Vou levar minha câmera fotográfica e fotografar um carequinha na janela da Aclimação, mostrando o "grande fenômeno", pra sua filhinha, cheio de esperanças...

Baxo

Tais Luso de Carvalho disse...

rsrs, tô nessa, Cesar, não quero ver mais essas coisas que não servem pra nada.

Mas que conseguiste fazer uma ótima crônica com esses ‘filosóficos’ e-mails que recebemos... Conseguiste.

Será que no ano de 2060 estarei te lendo? Acho meio difícil, mas vou torcer!! Estarei com pouco mais de 316, mas quem sabe a ciência não venha a nos presentear...

Bj
Tais luso

Anônimo disse...

Oi!
Fiquei pensando.
Tenho 23 anos.
Já não acredito em quase nada. ]
Imagine velha o que vai me acontecer. Acho que nem no amor mais vou acreditar! hehehe
Beijos

Andre disse...

Cesinha, eu não sei, mas no meu caso é tipo um pêndulo. Às vezes eu não acredito em mais nada, e olha que não acreditar em absolutamente mais nada é super perigoso para um bipolar como eu. Mas por exemplo parei de fumar há 2 meses e não sinto falta nenhuma desse lixo. Essa corrente de Mercúrio é coisa velha. Para adicionar ao nosso conhecimento inútil, a cauda do Halley pode se estender cerca de 100 MILHÕES de quilômetros no espaço. Outro dia o que mais me espantava era o tamanho das maiores estrelas da galáxia. Tem uma chamada VY Canis Majoris. Como fica na constelação do Cão Maior, ela deve ser a Maior Cadela da galáxia. Sua superfície se estenderia além da órbita de Saturno se estivesse no lugar do Sol. A estrela tem o diâmetro de 2.940.000.000 (lê-se: dois bilhões e novecentos e quarenta milhões) planetas Terra. Como dizia meu velho, "são tuda umashh putashh". Essa aí eu queria chegar mais perto pra ver.

katine walmrath disse...

oi.
cheguei aqui então.
muita coisa boa pra ler.
maravilha.
sobre as duas luas, gostei muito da crônica, eu não entendo como e por que razão as pessoas se prestam a passar adiante esse tipo de coisa.
eu acredito em muitas luas.
quanto mais velha fico, mais acredito.
mas acho um pé no saco encher a caixa de correio dos meus amigos com bobagens.
não seria assim que uma lua tão peculiar, a segunda, se anunciaria.
saudades do halley.
congratulações, paulista.
retornarei.
katine