Esnuquer


Este conto integra o livro O Homem Suprimido, Scortecci 2010.
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- Óia que hora dessas o Zé Firmino pega!

José dos Santos Firmino ouviu essa frase inesperadamente, sem querer, numa conversa entre dois sujeitos com quem ele nem intimidade tinha. Ouviu mas não era para ter ouvido, visto que quando perceberam que ele estava na casa lotérica, num canto, de costas, marcando sua fezinha no volante, embranqueceram, mudaram o assunto na mesma hora, passaram a falar do Corinthians, que andava numa fase ruim; depois se calaram e se evadiram, ligeiros, cada um para um lado, antes do Zé ter tempo de perguntar o que é que ele pegaria, afinal.

As pessoas vinham falando dele à boca pequena pelo bairro. Andava se coçando de desconfiança, o Zé. Na saída da obra, uma semana antes, dois moleques gritaram de longe “Ó um corno indo lá!”. Achou que pudesse não ser com ele, mas logo se lembrou que o povo diz que o corno é sempre o último a saber, e já tinha mesmo percebido que de uns tempos para cá todos se calavam quando ele surgia, cotovelos cutucavam costelas enquanto ele passava, rodas se desfaziam, olhos se desviavam quando encontravam com os dele.

Começou a reparar mais na mulher, que passara a andar sempre muito cheirosa e bonita. A Fátima era mesmo muito formosa de corpo, sempre fora. Mesmo depois de ter parido os três moleques, e já com quase trinta. Ultimamente, começara a se cuidar melhor, se banhando mais vezes ao dia, alisando o cabelo no ferro, colocando a barriga magrinha de fora até em dia de frio. José Firmino, por sua vez, criara pança, as pernas afinaram e o cabelo rareara. Segundo o cunhado, que mangara dele no churrasco do sábado, na frente de todo mundo, o Zé parecia uma batata espetada com dois palitos. O ofício de auxiliar de armador de fôrmas judiava muito do Zé. Trabalho pesado, dobrando ferro grosso com alicate o dia todo. Às cinco e meia batia o ponto na obra para só sair as quinze, moído. Com quarenta e cinco anos, já não era mais menino, e ainda assim trabalhava como burro de carga para ganhar salário de fome. Para o de comer dava, mas para sair da favela não, de jeito nenhum. Um monte de bocas para sustentar.

Naquela tarde, saiu da obra e foi para casa. Encontrou a mulher na cozinha picando legumes, de cabelos molhados e cheirando a sabonete.

– Tomou banho, mulher?

Ela disse que sim, que estava calor demais e que as telhas de zinco não deixavam o quente da casa escapulir.

– Ora, mas banho assim no meio do dia? – desconfiou.

A casa agora andava desarrumada e a mulher só se metia a trabalhar depois que ele chegava. O que ela ficava fazendo enquanto ele estava na obra era um mistério para o Zé. O cupim da suspeita comia o Zé por dentro.

Largou a mochila com o uniforme sujo e a marmita vazia sobre a mesa, urinou, trocou o sapato velho pela chinela e já ia saindo para o bar do Silva, para jogar esnuquer e esfriar a cabeça, quando pressentiu alguma coisa. Parou com a mão na porta do barraco, virou-se e deu com um isqueiro sobre o televisor.

– Que é esse isqueiro aqui, Fátima?

Depois de certo silêncio, a mulher gaguejou que o isqueiro era do pai dela, que ele tinha passado por lá e esquecera ali.

Zé saiu de casa corroído, sem dizer palavra. Entrou no bar sentindo um caroço na garganta. Pediu para o Silva botar uma pinga com limão e uma cerveja bem gelada. Curvou a cerviz sobre o balcão. Seria tudo cisma? A mesa de sinuca no meio do boteco estava ocupada pelo Gringo e pelo Neto. Achou que pararam de falar quando ele entrou. Não era cisma. Por que pararam de falar? De costas para os dois, sentia que riam entre si, riam dele. Sem som nenhum, mas riam. “O corno é sempre o último a saber”.

Sentado na banqueta com a cabeça curvada e as antenas em pé, podia senti-los escarnecendo às suas costas. Atrás dele dois tacos ensebados se debruçavam sobre a mesa de pano verde encardido e rasgado. A cada batida seca as bolas rolavam roc-roc-roc-roc até estourarem com um baque estanque, surdo, no fundo das caçapas. Os homens caçoavam agora um do outro, mas, na verdade, o Zé sabia a quem aludiam.

– Ê, você só leva ferro comigo, Gringo!

– Tome essa encaçapada, Neto!

– Sente o peso do meu taco, moleque!

A mão do Zé crispou o gargalo da garrafa como uma garra. O sangue sumiu das pontas das unhas. A pele do seu corpo pareceu se incendiar de fúria. “Ó um corno indo lá!”, os moleques pareciam agora estar ali, no bar, falando ao seu lado. “Óia que hora dessas o Zé Firmino pega!”, o cochicho daqueles dois na lotérica ecoava na sua cabeça.

– Empresta o fósfro aí, Silva, tou sem fogo! – pediu o moleque.

O moleque, também conhecido como Gringo, era chamado assim por ser loiro e ter vindo do Paraná. Era bonito, o moleque. Diferente da turma encardida que vivia ali. Devia ter uns vinte anos. O corpo era atlético, sem barriga ou pernas finas.

A caixa de fósforos arremessada pelo Silva, de detrás do balcão, projetou uma parábola no ar. O cigarro na boca do Gringo pendia na ponta dos lábios, esperando para ser aceso. “Quarenta fósforos de segurança, mantenha longe do alcance das crianças”. A caixa rodopiou no vazio, mas ainda longe da mão ágil que já a aguardava. O taco do Neto atingiu a bola, minúsculos grãos de giz subiram para em seguida se precipitarem sobre o feltro, um a um. A bola branca rolou, volta após volta sobre o tecido roto. Atingiu a vermelha que, tendo saltado no emaranhado dum rasgo, perdeu o rumo da caçapa do canto e decolou, girando sobre si mesma e se projetando no ar, descrevendo a trajetória curva que a levaria ao chão.

Rapidamente o sangue do Zé pareceu ferver e engrossar nas veias, como lava. “Fátima, seu pai nunca na vida que usou isqueiro, mulher!”, pensou em gritar, pensou em pegá-la pelo cangote e sacudir, mas preferiu emudecer e sair pra refrescar a cabeça.

A mão do moleque permanecia erguida no ar, os olhos ainda pregados na caixa que voava. “Composição: fósforo, clorato de potássio e aglutinantes. Produto não perecível”. O Gringo trazia o sorriso vitorioso dos espertos cristalizado na face. Agora as vozes dos homens retumbavam grotescamente na mente do Zé, como urros demoníacos, graves, pastosos, disformes. “Toma essa, Neto, sente o meu taco!”. O caroço na goela já não deixava o ar passar pela traquéia do Zé, que quase sufocava. Então a garrafa vazia de cerveja se espatifou contra a quina do balcão. Os cacos voaram pelos ares, como pequenos espelhos, refletindo a luz projetada sobre eles. “Mantenha longe do alcance das crianças, do calor e da umidade”. A caixa descrevia agora sua curva descendente final, seu declínio derradeiro. “Não riscar contra o corpo”.

Finalmente, a mão do moleque a encontrou no ar e foi se fechando, fechando e enrodilhando os dedos sobre ela, falange após falange, após falange; ao mesmo tempo o braço descia ao encontro da outra mão, o indicador, hirto, preparado para abrir a caixa num movimento ágil, certeiro, e fazer saltar de lá um palito. Porém, antes do encontro de mãos, dedos e intenções, o cigarro foi inesperadamente ejetado da boca do moleque como uma cusparada, seus olhos azulados se arregalaram, lacrimejaram, aterrorizados, surpreendidos pelas lascas agudas, cortantes, frias, do gargalo de vidro que abriam espaço pelo algodão da sua camiseta azul e se aprofundavam, invasivas, afiadas, rompendo sua derme, epiderme, sua fina camada de adiposidades, seccionando seu feixe reto e transversal de músculos pélvicos, estourando vasos, capilares, nervos, tendões, cartilagens, peritônio, intestinos...

A bola vermelha, com o número um gravado em sua superfície brilhante, aterrissou no chão, quicou duas vezes e deslizou, correu, rolou, giro após giro, para finalmente estacionar entre as altas pilhas de engradados encostados à parede, onde ficaria oculta por semanas antes que a encontrassem. O cigarro, frustrado, babado, jazia sobre a mesa de esnuquer.

A caixa de fósforos acabou próxima aos dedos abertos do Gringo, fechada, encharcada na poça escarlate e viscosa que começava a se formar, lentamente, no áspero chão de cimento batido.
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Cesar Cruz
Maio 2010
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5 comentários:

Marcelo Lopes disse...

Fala aí Cesinha, beleza?

Rapaz, você está ficando cada vez melhor em tirar nosso fôlego durante a leitura...

Abração!

Marcela disse...

Nossa, Cé! Parabéns!
Você está se superando!!! Muito legal ler uma cena em câmera lenta escrita por você.
Incrível! Adorei!
Beijos!

Anônimo disse...

Cruz,

Excelente corno, quero dizer conto...rsrsr.
Vc tá impossível em 2010.

Abraço

Baxo

Anônimo disse...

putaquepariu! com o perdão da palavra. Excelente, real, chocante!

abraço
Danilo
Cambuci

Pedro L. de Carvalho disse...

Muito bom esse seu conto, Cesar. O Zé Firmino é pra se ter como amigo...

Abração,
Pedro.