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O último sushi


Crônica publicada no Jornal do Cambuci (set 2008 e mai 2011)
e no Portal Mundo Mundano
e no Portal TUDA
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Eu e a Vanessa adoramos comida japonesa. Recentemente abriram perto de casa um restaurante japonês. Tão perto que dá pra ir a pé. Viramos fregueses.

Semana passada, o gerente, que já virou nosso amigo, nos presenteou com um convite boca livre para o jantar de inauguração da nova filial da casa.

Fomos. A rua do restaurante estava atulhada de carros. Imediações de estádio em dia de clássico. O estacionamento? Entupido até a rampa.


PARA LER ESTA CRÔNICA NA ÍNTEGRA, ADQUIRA O LIVRO A IDADE DO VEXAME & OUTRAS HISTÓRIAS, CLICANDO NA IMAGEM DA CAPA.
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Cidade hostil


Da janela, Munhoz pode avistar a avenida logo ali, quase ao alcance da mão. Escolheu o apartamento no primeiro andar do prediozinho decadente no centro da cidade, justamente para poder dispor daquela vista privilegiada, perfeita para alimentar sua atividade. Para qualquer pessoa normal, o apartamento dos fundos (e que dá para alguns silenciosos telhados de casas antigas, onde os únicos ruídos são o dos pássaros e de um ou outro gato ralhando de madrugada), que também estava disponível para alugar segundo a velha, proprietária do prédio, seria muito mais atraente, mas não para ele. Munhoz é escritor, eis o motivo.

Sua mulher aguentou o quanto pôde, mas num certo dia arrumou as malas e partiu com o filho para o interior, para a casa da mãe. A gota d'água foi quando Munhoz subitamente largou o emprego de corretor de imóveis (que ainda os mantinha dignamente), argumentando que agora pretendia se dedicar inteiramente à literatura. Ridículo, berrou Carolina, jogando na cara dele que o único livro que ele conseguiu publicar não vendeu nem cem exemplares, a maioria comprada por amigos bondosos e parentes que se sentiram na obrigação de fazê-lo, mas que meteram o exemplar autografado, virgem, numa prateleira sem se dar ao menos o trabalho de folhear.



Na rua, um carro subiu com as duas rodas na calçada, repentinamente, provocando a fúria do motorista do ônibus que vinha logo atrás. Munhoz parou de digitar e ficou olhando a cena urbana. O pisca-alerta do veículo foi acionado e um jovem pulou pela porta em direção ao bar embaixo do prédio, saindo do campo visual de Munhoz. O motorista cravou a mão na buzina e xingou um desaforo brutal, desviando abruptamente, por pouco não atingindo um carroceiro que vinha pela faixa central. Confusão armada. Munhoz, de seu mirante, deliciava-se. Quem sabe aquilo renderia uma crônica para o Correio Central? – jornal medíocre que pagava a Munhoz um trocado a cada crônica publicada.


Assim que se mudou para a quitinete, depois da separação, posicionou sua mesa de trabalho colada à janela, cuja vista do caos cotidiano alimentaria sua “criatividade ficcional”. Criatividade ficcional, Munhoz gosta da frase, frase que encerra uma redundância evidente, mas que ele repete insistentemente para as pessoas quando as obriga a ouvir suas divagações confusas sobre literatura, sua própria literatura, na maior parte das vezes.


Agora ele se desliga temporariamente da rua e leva o copo aos lábios, dá um longo gole no café com leite quente, pega o sanduiche de margarina que está sobre os rascunhos e dá uma mordida enorme, pela metade do pão, sem a porra mínima de um cuidado, como diria a mulher, deixando cair migalhas no teclado e no colo. De boca cheia, mastigando como um porco, volta ao texto.



– Bico de sapato nas costelas eu conheço bem, delegado, aprendi a conhecer. É melhor que despertador para avisar a hora devida de um homem acordar. A rua ensina, a rua ensina rápido, o senhor não imagina; mais rápido do que a Universidade, onde lecionei por duas décadas... – O delegado fez menção de dizer algo, mas sentia-se paralisado frente à eloquencia daquele surpreendente mendigo trazido pelo soldado Evaristo e pelo Lino, postado à sua frente, falando com aquela clareza tão incomum para um morador de rua, mas que, no entanto, apesar da aparente civilidade, tinha agredido uma senhora havia pouco."Será que esse filho da puta foi mesmo professor universitário?”, perguntou a si mesmo, mentalmente, mas preferiu ouvir mais um pouco a conversa do homem.


– Atrás de um bico de sapato há sempre um homem que desconhece a dor e a solidão que advém da derrocada de um ser humano. Minto, minto, delegado, nem sempre é um homem, às vezes é uma mulher, mas nunca uma mulher jovem, sempre velha, como essa. É que as jovens não mexem nesses vespeiros, o senhor é delegado, sabe disso, conhece a natureza humana; elas têm maridos para fazer esse trabalho sujo por elas, e se acaso não for casada tem a mãe, o pai, um irmão que se voluntaria com prazer em acordar o mendigo imundo que resolveu dormir na frente de sua casa e que


Munhoz pára de digitar e se detém a observar novamente a cena na calçada. O rapaz do carro agora tenta se justificar para o guarda de trânsito, que surgiu sabe-se lá de onde. Maço de cigarros recém-comprado na mão, o jovem bem vestido gesticula e sorri, todo pedinte, simpático, tentando evitar a multa. Munhoz não consegue ouvir o que ele diz, mas o imagina argumentando que foi uma paradinha muito, muito rápida, seu guarda, o senhor sabe, o vício da gente é uma praga...


Volta ao texto e acende ele também um cigarro. Entende o vício do rapaz. Larga uma baforada prazerosa que envolve a ele e ao computador em uma única nuvem azul. Cidade Hostil, esse é o título do romance que escreve, já quase pode ver a capa com seu nome gravado abaixo do título, as letras em relevo Agripino Leodércio Munhoz ou talvez apenas A. L. Munhoz, sim, sim, melhor, como Anton Pavlovitch Tchekhov, A. P. Tchekhov. A. L. Munhoz. Perfeito. Um dia, quando já estiver morto, o resumo de sua obra será conhecida nos meios intelectuais e estudada nas universidades como a Literatura Munhoziana. Sim, certamente Cidade Hostil será seu primeiro grande sucesso, um sucesso tão grande que fará Carolina largar Vargem Arada e voltar correndo para São Paulo, para pular em seus braços, pedindo desculpas, contando que soube do livro através da listagem dos mais vendidos da Veja, que ficou tão, tão orgulhosa...


Agora Munhoz balança a cabeça negativamente, ao ler o que escreveu há pouco. Escrever é cortar, lembra-se de ter lido em algum lugar, e crava o dedo na tecla delete. O trecho que vai da palavra final, “que”, começa a desaparecer e para em “humana”. Munhoz se afasta como um pintor faria para apreciar o quadro e lê o que resta da sentença em voz alta:




“É que as jovens não mexem nesses vespeiros, o senhor é delegado, sabe disso, conhece a natureza humana

Satisfeito, põe um ponto final na frase, solta decidido a fumaça pelas narinas e esmaga o toco num cinzeiro cheio de bitucas que se equilibram, todas incrivelmente em pé, como totens fincados na terra. Ainda sorri, sentindo o prazer proporcionado pela simplificação da sentença. O restante está subentendido, em literatura, menos é mais, pensa. Levanta-se da cadeira se achando inteligente e caminha pelo cômodo, desvia da cama, quase colada à mesa, e vai à cozinha, que na verdade não é exatamente uma cozinha, mas um canto com uma pia de resina e uma boca de fogão improvisada por algum morador anterior, embutida num furo do tampo; o bujão de gás embaixo, escondido pela cortininha de plástico encardida. Uma engenhoca funcional, apesar de feia. A geladeira vermelha, antiga, exatamente ao lado, que ele comprou de segunda, terceira, quarta mão talvez, ali no centro, numa loja escura, espécie de brechó, cemitério de produtos domésticos. Subiu a geladeira, pesada como um bloco de granito, no braço e no peito, pelas escadas estreitas, se ralando todo na parede, numa manhã de sábado em que contou com a ajuda de pura má-vontade do dono da loja.


Puxa a porta do refrigerador. Não há quase nada nas prateleiras. O pote de margarina, o final do leite e dois pedaços de pizzas na embalagem redonda de papelão, que ele põe sobre a pia em cima de uns pratos sujos de molho e macarrão seco de anteontem. Livra-se da tampa, agarra os pedaços gelados numa mão e faz um barco que mastiga ali mesmo, em pé, sentindo a calabresa e a cebola ressecadas coladas na massa, saborosas. Pensa no homem frente ao delegado, uma vítima inocente da cidade hostil. Teria ele agredido a mulher de caso pensado? Ou foi motivado pelo impulso da indignação de ser chutado no chão? Ainda não sabia para onde a história os levaria, ele e seu homem. Aquele homem que poderia ser ele mesmo, mas que no invólucro do personagem que criou foi potencializado; aquele era sim um homem que levou um tombo maior que o seu, ah, sim, sim, bem maior que o seu! Um personagem que era a forma inconsciente de fazê-lo crer que, óbvio, pode haver sempre uma desgraça maior que a sua no mundo. Uma desgraça maior do que ter de se humilhar tentando vender livros para os jovens barulhentos e irreverentes nos barzinhos noturnos, por entre as mesas de lata espalhadas pelas calçadas do centro da cidade, sempre cheias de garrafas de cerveja, maços de cigarro e chaves de carro. “Boa noite, jovens, sou um escritor independente e gostaria de oferecer a vocês o meu primeiro romance O limiar da realidade, é a história de um comerciante que...”. Geralmente acabava falando sozinho.


Ah, com Cidade Hostil não precisará passar por nada daquilo, ali está clara a sua evolução técnica, a história é dinâmica e envolvente, sem sobras, exata. Será sem dúvida um best seller, haverá briga entre as editoras para comprar os direitos da publicação, que, claro, será nacional. O desterro do professor universitário que perde tudo, traído e abandonado pela mulher, trapaceado pela instituição, humilhado pelo próprio filho, que se arruína financeira e emocionalmente, e se deprime, de tal forma que se afoga no álcool, e se perde e acaba na rua, mendigo, dormindo sobre marquises, acordado, dia após dia, chutado pelas pessoas, como um cão sarnento...


Engole o último pedaço da borda da pizza, limpa a boca no pano de prato imundo que larga dentro da caixa vazia. Vira-se para voltar para sua história e para sua janela profícua, mas a vontade de urinar quase esquecida o faz desviar a rota para o banheiro. Entra no cubículo e acende a luz. Recua um passo, o coração acelerado pelo susto. Há uma barata grande na borda da tampa da privada. Munhoz estremece. Um homem que tem medo de baratas. Sempre teve. Medo não, pânico. Uma barata o faz paralisar. Carolina as matava para ele. O inseto permanece parado, só as antenas se movimentando como radares. Munhoz não se move para não assustá-la. Sorte a tampa estar aberta. Ela está à beira da morte e não sabe, bicho asqueroso. Traça mentalmente a estratégia da execução perfeita e limpa. Munhoz será seu verdugo. Então se recosta lentamente na parede ao lado da porta e, alicerçado ali, ergue com cuidado a perna, flexionando o joelho. Agora sustenta o pé no ar, como um jogador congelado fazendo embaixadas numa fotografia. Está descalço e sem calças. Veste somente a cueca azul e o paletó do pijama, manchado, ruço, cheio de bolinhas. A perna magreliça tremelica no ar, sofrendo para manter a posição elevada. Munhoz sustenta a respiração e empurra a parede com as costas para poder avançar a ponta do pé vagarosamente em direção à barata distraída, incauta, que nem imagina o destino que a aguarda.


Um lépido e certeiro toque com os dedos arremessa o bicho dentro d' água. Rá! – Munhoz grita, exulta de alegria. Apoia o pé no chão e sente uma fisgada forte na virilha, torce a face de dor, mas já abaixa a cueca e aproxima-se do vaso, mancolejando; o jato amarelo escuro da urina matinal procura a barata que luta debilmente para se manter na superfície, mas imerge afundada pela torrencial precipitação da cachoeira, Munhoz desequilibra-se e urina pelo chão, a barata volta à superfície se debatendo loucamente, lutando para sobreviver, e é atingida novamente pelo jato quente, certeiro. Com a mão cravada na válvula, Munhoz agora sorri vitorioso vendo o turbilhão de água arrasar inexoravelmente a esperança do inseto.


Dois metros atrás dele, embaixo da cama, em meio ao pó e às pilhas de O limiar da realidade, uma outra barata, ainda maior que a primeira, parece observar a cena. Naquela madrugada, enquanto Munhoz estiver dormindo, ela andará por cima dele e parará sobre seu rosto, junto à sua boca entreaberta, atraída pelo seu hálito de café, cigarros e gordura.

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Cesar Cruz
out 2010

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Território conquistado



Jogou uma água no rosto e sentiu um enorme bem-estar. Fazia um calorão no apartamento, todo fechado. Mas era melhor não abrir janelas ou cortinas, para não dar bandeira. O velho era uma espécie de ermitão, pelo que ele soube, vivia sempre assim, tudo fechado.

Apesar dos dezessete anos, ele se considerava vivido e com experiência em casa de bacana, entretanto não se lembrava de já ter entrado num apartamento como aquele. Não era propriamente o luxo, já tinha visto coisa até mais chique, mas esse era um luxo de gente rica antiga, que nem em filme de rei; e ele refletia sobre isso enquanto andava pela sala sentindo o específico cheiro de um tempo que ele não viveu, observando os móveis intimidadores e os lustres que pareciam querer pingar gotas de vidro na sua cabeça.

Duvidou que alguém já tivesse, algum dia, tocado um puteiro ali, feito uma zona, uma balada qualquer naquele apartamento; ou metido um som a toda, detonando, bombando. Enquanto duvidava, seus olhos se fixavam nos grandes quadros dependurados pelas paredes das salas. No maior deles, quase uma parede toda, homens montados em sólidos cavalos vestiam paletós vermelhos e calças brancas, botas e chapéus negros, empunhavam espingardas, os cachorros avançando à frente, os latidos e o farfalhar do mato, a caça atingida, a captura. Nunca vira coisa tão bonita. Na casa dele, de um só cômodo, onde mãe e quatro irmãos se empoleiravam, um quadro daqueles não passaria nem na porta.

Deu uma volta procurando compreender para onde os dois corredores escuros, que partiam um de cada extremo da sala, levariam. Portas, quartos, salas, salinhas, banheiros pequenos, banheiros grandes... Um labirinto. Não sabia nem por onde começar a procurar as joias, muito menos como lidar com o tempo, abundante, de que subitamente dispunha; ele, que sempre foi escravo de uma correria enlouquecida atrás de tudo, de levantar dinheiro para as coisas, comprar mistura para a mãe, pagar conta, rodinho no semáforo, batida de carteiras, pinote na garupa de moto, cavalo doido, cachorro louco. Crack e fumo, para distrair e relaxar. E dessa vez tinha tempo, graças à gostosa da Irene, de vestidinho curto, que distraiu o porteiro com a conversa de uma patroa inexistente.

 Numa das salas havia uma longa mesa de madeira escura com cadeiras altas ao redor. Imaginou, numa imagem mental roubada de novela, uma família inteira ali, a comprida mesa da refeição, espinha dorsal da família que se reúne para jantar, empregados servindo, velhos e moços comungando, compartilhando carinho, amor, conversas e risos, coisas que ele não conhecia exatamente; bacanas bonitos, de plenos dentes, bem vestidos e brancos. Eles são sempre brancos. Lembrava do pai cada vez mais vagamente, a imagem vinha perdendo substância naquele abismo já de oito anos. As mãos grandes e grossas, de toque seco e áspero que ele ainda sentia segurando a sua, as unhas curtas sempre pretas, a pouca conversa e a face constantemente franzida, como se fosse um peso viver, trabalhar; mas um homem bondoso com a família, com os meninos. Rezavam sempre antes da janta, o pai com os dedos espessos, entrelaçados como raízes, pedindo a Deus saúde e orientação para ele e os irmãos.
Ao lado da mesa um móvel baixo e longo, cheio de portinholas, onde ele achou louças pintadas, motivos campestres e natalinos; toalhas de mesa bordadas, aparadores de palha e metal; três recipientes delicados, parecidos com lâmpadas de Aladim; duas grandes caixas de veludo azul contendo talheres corpulentos e brilhantes, guardados em posição de sentido como soldados. Sobre o móvel, estatuetas escuras de ferro, mulheres em danças congeladas, bailarinas de pernas e braços para o ar, o corpo um fio, narizes cheirando o céu, pescoços finíssimos. Em contraste a elas, um homem de chapéu e colete, barbudo e taludo, empunhando uma espingarda apoiada no chão, que fez lembrar seu pai. Pai de bacana não some, ele pensou — segurando o pai de ferro na mão —, só pai de pobre.


Entrou em cada um dos imensos dormitórios, dois deles com ante-salas e poltronas sobre braços de abajures. Armários embutidos do teto ao chão, uma cama alta, gigante, onde ele se atirou de costas como os saltadores das olimpíadas, e ficou por ali dois minutos, aberto como uma estrela, olhos fechados curtindo a maciez. Logo se levantou, movido pelo impulso da missão. Cavalo doido, cachorro louco.

Nas estantes, objetos diversos. A cara do velho na fotografia do porta-retratos; um velho que até ali nem face tinha para ele, bochecha a bochecha com duas crianças loiras e um casal. Livros com imagens de cidades, objetos de couro e madeira que ele desconhecia a utilidade. Em um dos quartos, uma porta se abriu para um quartinho menor. Prateleiras com sapatos, dezenas de pares, dois bancos, um espelho estranho no chão.

Decidiu iniciar pelos armários do quarto maior. Abriu as portas e, força do hábito, puxou as gavetas uma a uma para o chão. Eram muitas. Logo formou-se uma montoeira de lenha, e sabe-se lá quanto tempo passou, e derrubando prateleiras, pequenos móveis, tudo virado ao contrário. Nada das joias. Achou oitocentos paus num criado-mudo e um pequeno maço de notas de quinhentos, dinheiro gringo, dentro de um envelope colado com fita na traseira de uma gaveta.

Voltou à sala lembrando que nos filmes cofres ficam atrás de quadros. Olhou novamente os cavalos reluzentes, que com grande esforço voaram para o chão, pesados dentro da moldura maciça, rebentando de quina no assoalho de jatobá, a tela tombando lentamente como um páraquedista aterrissando na praia, deixando à mostra um grande retângulo da parede alva. Irritado, num repente de fúria do corpo, estilhaçou espelhos, tombou vasos e arrancou os outros quadros todos dos ganchos, aos gritos de ira e força, telas rasgadas se precipitando, trazendo à luz fantasmas brancos, teias de aranha subitamente reveladas depois de anos na escuridão.

Retornou determinado aos quartos, e agora mergulhou de corpo inteiro dentro dos armários, lançando tudo para fora. No quarto dos livros não havia paredes, só estantes e os espaços para a porta e a janela. Escadas corriam em trilhos para lá e para cá, como na farmácia do Alcy. Resfolegante, subiu e foi derrubando os livros aos blocos lá do alto, em largas braçadas, num impulso automático de vandalismo e escárnio. Às vezes, parava e folheava alguns; capas duras, lombadas de ouro, a maioria só com letras; letras, letras e mais letras. Não gostava de ler letras, preferia figuras. E as joias? A Dora talvez tenha só ouvido o galo cantar sem saber onde.

Na cozinha, abriu a geladeira e tomou leite e suco direto no bico. Os descartes se acumulando pelo chão. Sobre uma bancada, liquidificadores, centrífugas e uma torradeira. Surgiu uma fome. Achou pão de forma preto, cheiroso. Fez torradas. Na geladeira encontrou requeijão e geleia gringa, Melocotón, dizia o rótulo. Deve ser coisa fina, pensou, e passou abundantemente num bolo de passas, que comeu numa catarse brutal, escancarado, mascando com a boca aberta como um viking, o chão espelhado se imundiçando, e o que restou da geleia ele comeu às colheradas, depois enfiou o dedo dentro e chupou. Tinha tempo, mas a pressa crônica estava ali, presente, a perene ansiedade do crack, da pedra. De toda maneira, havia agora um sentimento de conquista nascendo, um poder alongado, quase atemporal, que fazia a pressa se esvair. Era tudo dele agora. Tudo aquilo a desbravar.

Deu um arroto, longo e satisfeito, abraçado a uma lata redonda, Butter Cookies, e foi andando, general em revista, comendo e andando, ganhando agora a área de serviço, esfarelando o chão de bolachas, mascando, olhando tudo, subitamente calmo, perscrutando de alto a baixo. Um inesperado gato amarelo o fez pular de susto, gordo de tanto pêlo, miou um claro protesto, arqueado, e uma pisada enérgica fez-lo bufar e zunir dali.

Subiu numa banqueta e abriu os armários. Fantasiou que acharia cervejas americanas, uísque, talvez vodka, mas não. Velho rico não bebe, só velho pobre, que nem o puto do avô.

Voltou ao banheiro. Cheiroso. Enorme. Gostoso como um quarto. Pia, bancada longa, bidê, banheira de louça em pés de ferro, tapetes peludos no chão, cadeira de madeira com assento de almofada, revistas pra ler, um armário no fundo com remédios e produtos de higiene, que logo voaram para os ares, aos montes, mercúrio cromo espatifado, álcool, algodão e remédios. Ele era agora o senhor de um novo mundo, convencia-se disso para acalmar a pressa; alguém que, com ou sem joias, domina, subjuga e espeta uma bandeira no território conquistado. O desejo irracional de destruir aparecia e ia, precisava de um Contini, um vinho, crack, qualquer coisa para aplacar a sensação desconfortável da fissura, e de repente queria de novo botar pra foder, arrasar, escarrar nas paredes, mijar no chão, a fúria colossal tomando conta, ignóbil, misturada com a  nova percepção da posse: era tudo seu. Se é seu se acalme!, gritou consigo mesmo, estranhando a própria voz, estapeando a cabeça várias vezes, então se sentou na cadeira, curvando a cerviz, as mãos na nuca.

Olhou ao redor. Banheira, chuveiro e tudo mais. Tudo tão bom e bonito. É assim que eles vivem, pensou, nesse bem-bom eterno, e a gente que mora na casa-do-caralho, que pega condução lotada e trabalha que nem filho da puta, nunca vai ter nada disso; a gente só existe mesmo é para servir esses cornos, limpar suas casas, abrir suas portas, atender suas mesas e engraxar seus sapatos.

Ele, que vivia numa pobreza franciscana, mas que não trabalhava exatamente, e que também não pegava ônibus, mas que tinha a mãe que sim, que trabalhava, que pegava ônibus, tudo por ele, pelos quatro filhos, e já tão envelhecida antes dos 50, curvada, desgostosa dos eclipses da vida, dos filhos no crime; e o pai que só se fodeu de tanto trabalhar, e que Deus nem ajudou e nem protegeu, apesar das rezas, e ainda deixou o velho sumir um sumiço inexplicável, num dia qualquer, que deve ter morrido numa cova rasa com as formigas comendo os olhos, como falou a mãe. Mas agora sim, sim, agora ele finalmente estava ali, senhor de tudo, senhor do reino da perpétua abundância.

Molhou a cara de novo e se olhou no espelho, sentia-se ferver novamente no louco tobogã das emoções. Arrancou a camiseta e lavou nuca, pescoço. Virou a torneira do chuveiro. A água desceu forte. Estava suado e fedido. Arrancou o resto da roupa e foi marchando em cima dos panos que iam caindo e fazendo poça ao redor dos seus pés, como um amassador de uvas, até virar um bolo, um degrau que ele pisou e avançou para a água. Largou o corpo ali, massagem poderosa nas costas e na cabeça careca, por longos minutos, o braço apoiado nos azulejos, a testa sobre ele, a fumaça gostosa do vapor subindo. Sentiu-se relaxar, expirou longamente. Na prateleira de vidro viu xampus, cremes e condicionadores, tudo lindo e cheiroso. Beleza até no banheiro. Derramou um xampu inteiro na cabeça, esfregou com as mãos até levantar espuma farta, que espalhou pelo corpo magro, pelos genitais, costas, pernas. Escorregou para o chão e sentiu a cachoeira poderosa levar tudo, levar a raiva e a febre. Olhos fechados, se esqueceu do tempo.

Fechou a torneira e puxou uma toalha da pilha na prateleira. Enorme, nunca vira tão grande, felpuda e macia. Afundou a cara no tecido e deixou o algodão capilar absorver sem esforço a água do corpo. Enrolou-se como uma criança, que um dia a mãe o enrolou assim. Voltou à pia. Na bancada uma profusão de perfumes e frascos. Levantou tampas e foi cheirando. Tudo cheiro de coisa de velho. Gostou de uma colônia gringa que entornou nos ombros e peito, secou com a toalha. Espremeu uma espinha e cutucou o dente de cima que doía; sentou-se no vaso, o assento macio e morno, cagou pensando em como a vida é boa para os ricos. Nunca mais sairia dali, estava decidido. Era ele o bacana agora. Barriga cheia e banho tomado, veio o sono. O tempo novamente se perdeu dele.

Achou um hobby branco atrás da porta e vestiu. Golas macias e uma faixa para amarrar na cintura, um brasão azul no peito e as letras J.C. bordadas. Saiu do banheiro e viu, no cantinho do corredor, um altar e a tênue luminosidade azulada de uma vela dentro de um copinho. Ao lado, uma Nossa Senhora de Fátima. Parou por um instante. Um lorde com as mãos nos bolsos. Contemplou a santa por algum tempo e depois fez um sinal da cruz respeitoso, que a Nossa Senhora é a protetora da mãe, mas ele mesmo nem se ligava em santo. Chamaria a Jéssica e se internariam lá, isso sim, poderia ligar e ela viria. Um SPA. Com a grana que tinha chamariam comida de viagem por um ano. Se achasse as joias que a Dora falou, garantiriam uma vida toda ali, na mordomia. Poderiam se atirar em uma das camonas na hora em que quisessem e se acabariam de tanto trepar e dormir. Colocaria umas roupas do velho e sairia do apê de cabeça erguida, na maior, a hora que quisesse, o porteiro cumprimentando “Boa tarde, doutor!”.

Voltou doutor para a sala.

O velho estava estendido no assoalho junto à porta. A barriga para cima. Espanou com uma pernada um quadro do caminho e se deitou no amplo sofá. Ficou dali observando a tez leitosa, a boca entreaberta, oca, e o furo escuro na lateral do pescoço enrugado. O gato gordo, quieto, ao lado, velando o velho. A noite caíra quase que totalmente. A sala estava escura. O tempo parara no apartamento, subitamente, deixando um delicado silêncio que ele não conhecia em seu mundo de barulho. Apenas o som de um carro passando longe, lá numa rua distante, civilizada, rica, de árvores, sombras e folhas crocantes no chão, igual de filme. Então imaginou uma bacana bonita, cabelos compridos lisos, lisos e negros, roupa de ginástica, toda dondoca, passeando com o cachorro naquele cenário.

Com o corpo afundado no sofá macio, percebia agora, óleo sob o carro, uma sombra negra, viscosa no chão junto ao velho. Fixou os olhos e o velho pareceu se mover. Parou de respirar e se ergueu nos cotovelos, o coração pulando. Impressão? Impressão. Precisava fumar uma pedra, beber, era isso. Tremia um pouco, talvez fosse o frio. Apertou-se no hobby e, carente, chafurdou a cara no sofá. Quando sair vou cuidar pra não melar o pisante naquela poça, pensou, e depois se imaginou arrastando o velho pelo braço para abrir caminho, mas achou melhor não. Não gostava de mexer em defunto, ainda mais defunto vazando.

Ficar quanto tempo ainda por ali? Para sempre! Poderia chegar alguém, mas o velho era solitário, segundo a Dora, a mesma Dora que avisou de joias e cofres inexistentes. À luz do dia seguinte, bandeirante, desbravaria recônditos ainda inexplorados daquele novo mundo, mas antes sairia para buscar pedra e bebida, que dinheiro agora não faltava. Distendeu as fibras endurecidas do corpo numa espreguiçada total, bocejou. Sono, precisava dormir um pouco.

Achou que cochilou. Agora, de algum lugar vinha uma brevíssima claridade. Seus olhos perceberam e se agarraram ao súbito contorno de um homem surgido ali, bruto, um cenho baixo, enraizado como uma árvore ao lado do sofá.

O homem falava de Deus e de Justiça, os olhos despejados sobre ele, as mãos de pedra enormes ao longo do corpo. Ignorou-o. Ele que não tivesse sumido.

Sentia-se apartado de tudo, de qualquer sentimento, com uma vida nova que recomeçava. Então se virou no sofá entregando-se à redenção do conforto inominável,  o abandono do guerreiro exaurido, convicto de sua imortalidade, que ignora os fracos, os vencidos, o perigo e a lei. E que adormece, confiante num porvir em que tudo se pode conquistar.
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Cesar Cruz
Set. 2010
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O Ritual



Conto publicado no portal Mundo Mundano.
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Quando as luzes se apagaram, todos os presentes colocaram seus capuzes e olharam severos na minha direção, justiceiros. Pulei da cadeira e disparei por um corredor que afundava na escuridão, com dois homens no meu encalço. Consegui despistá-los e, cabeceando por entre o breu, entrei por uma porta e me refugiei ali. Um recinto pequeno. Girei uma tranca protegendo-me pelo menos temporariamente de meus algozes: homens, mulheres e até mesmo crianças. Seres embrutecidos e desumanizados, tomados pelo ópio místico de uma vã doutrina que sobrepuja a razão.

Com as costas contra a porta, ofegante, fiquei me lembrando dos instrumentos que vi sobre a mesa. Eu teria pouco tempo. Logo bateriam na porta; primeiro pedindo, como num simulacro de civilização, depois gritando e por fim arrombando, se preciso fosse.

A luz fraca da Lua que entrava através do basculante permitia-me começar a enxergar alguma coisa ao redor. Ladrilhos, pia e privada. Eu estava num banheiro. Flagrei minha imagem refletida num espelho. A pele azulada pelo pavor, da cor dos lábios. A imagem de um homem confrontado com o seu dia, o dia que marcaria – se eu me deixasse apanhar – o início do fim.

No reflexo, pálpebras já mais flácidas que outrora, vincos horizontais na testa, uma falta significativa de cabelos e a leve papada sob o queixo. Essa degradação física já não me bastava como penitência? Senti o peso dos anos, todos, simultaneamente despejados sobre minha cabeça num único instante. A ampulheta da vida até agora aparentemente estagnada, começava enfim a deixar precipitar sua areia para a âmbula inferior.

Achei ter ouvido um estrondo metálico, cavo. A monumental engrenagem que finalmente começava a se mover. O Tempo, essa poderosa força motriz querendo galopar por sobre mim, rio furioso que carrega os dias. Um animal arrastado pela enxurrada, era assim que eu me sentia.

Batidas brutais, socos enfurecidos na porta arrancaram-me de meus pensamentos.  Eu não conseguiria escapar, no fundo eu sabia. Pela escotilha envidraçada, cabeças deformadas se espremiam para me olhar. E não havia por perto nada que servisse como arma. Contudo, não adiantaria mesmo lutar, eu reconhecia o fato; eram muitos, dezenas deles. Não haveria acordo possível. Contra as tradições e os dogmas não há monções. Sentei-me contrito num canto junto ao vaso, abraçado aos joelhos.

Do lado de fora, o hino da morte começava a ser entoado em uníssono. Os lampejos de luzes nas paredes revelavam trechos dos azulejos antigos. Imaginei-os cavaleiros encapuzados, empunhando luzeiros, tochas medievais. Ordens se fizeram ouvir: Abra! Abra logo! O trinco sendo forçado repetidas vezes, com fúria.


Búfalos desnorteados, agora eles roncam enlouquecidos do outro lado, e então a porta se escancara violentamente e vejo duas dúzias de mãos ávidas, decididas se precipitarem sobre mim; e me tiram dali e vão me arrastando pelo corredor, suspenso no ar, as pontas dos sapatos resvalando o chão.

Não! – eu grito em vão – Não quero!

Chegamos ao patíbulo, à sala do ritual, escura. Todos silenciam repentinamente. Uma mulher, a líder, surge por entre as pessoas e enfia na minha cabeça um capuz piramidal. Em seguida, acende duas chamas sobre a mesa coberta por instrumentos. Como num sonho, percebo que há objetos inflados e disformes ao redor. Há números, estranhos números sob as chamas.

Quarenta, enxergo então, quarenta!, e o número se repete e sinto bater forte em minha cabeça. Quarenta! Não quero!, eu grito de novo, e me sacudo furiosamente enquanto as garras dos rudes me apertam ainda mais, e com as faces distorcidas pela luminosidade bruxuleante, gargalham em esgares medonhos.

Fecho meus olhos e tudo roda, o cântico volta a ser entoado ensurdecedoramente e os aplausos ritmados parecem celebrar o meu declínio. Arrastam-me enfim até junto à mesa, e uma faca brilha sob a tênue luz. Subjugado pelas mãos que me forçam pela nuca, cara a cara contra o calor, é chegada a hora derradeira. A inquisição, a purificação pelo fogo, sempre o fogo...

Contudo, eu ainda vivo! E vivo ouço os urros insanos das hienas que riem e aplaudem:

Assopra! Assopra!


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Cesar Cruz
Set. 2010
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Um almoço du Carvalho


Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Setembro de 2010
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Desembarquei no Afonso Pena, estava atrasado. O voo da Gol ficara retido por quase duas horas em Congonhas, de forma que aterrissei em Curitiba às 11h50, hora em que eu já deveria estar sentado há muito tempo em uma reunião na matriz da empresa, no centro.

45 minutos depois o taxi entrou na João Gualberto e, logo adiante, na esquina com a Ivo Leão, vi o sobrado onde fica sediada a empresa. Conferi o relógio: 12h40. Fui surpreendido na janela do taxi por um cheirinho de comida vindo das imediações. Carne com molho madeira, reconheci na hora. Algo se atiçou e se convulsionou dentro de mim. E eu teria mesmo que almoçar sozinho, foi o que me certifiquei ao passar defronte a empresa e vê-la com todas as janelas e portas fechadas.

– O senhor me ajuda a achar um restaurante por quilo aqui perto?

O motorista fez que sim com a cabeça e dobrou a primeira direita após a Ivo Leão. Logo na esquina com a Nicolau Maeder vi um monte de engravatados e moças metidas em tailleurs saindo de uma casa amarela com um toldo azul, alguns andavam devagar, cuidando para não entornar o café que equilibravam em copinhos plásticos. O taxista também viu.
– Senhor, ali é um restaurante, tá vendo as pessoas saindo?

– Maravilha! – exclamei. Paguei a corrida e pulei para a rua.

Carregando minha pasta, entrei no restaurante. Passei pela roleta desligada que fiz rodar na coxa. Já eram 13h e eu só tinha no estômago a miserável bolacha que me deram no avião. O que parecia ser um ser humano aprisionado dentro de mim se contorceu novamente, produzindo um ruído cavo, grotesco. Ninguém ouviu graças ao barulho do local. Um monte de gente almoçando. Uma entrada à direita levava ao buffet. Uma pilha de pratos, talheres e bandejas me aguardavam. Eu precisava guardar minha pasta em algum lugar para poder me servir. Uma mulher de camisa branca e calça preta, com as mãos para trás, que parecia ser uma espécie de fiscal do local, vendo a minha dificuldade veio ao meu socorro.

– Oi, quer que guarde sua maleta? – perguntou sorrindo – Ponho nesta sala aqui e depois o senhor pega – Abriu uma porta atrás de si, pôs minha pasta num canto e fechou. Agradeci e fui à luta. Montei meu kit bandeja, prato e talheres e entrei na fila.

Ambiente refrigerado, comida cheirosa. Aparentemente um ótimo restaurante. Torci para que não fosse muito caro. Era um quilo diferente, aquele, percebi. Em vez de o cliente se servir, havia moças atrás das mesas que iam pondo a comida no prato das pessoas, como no exército. Pedi capricho na carne de porco que parecia ótima. Feijão com arroz, um montão, falei, quando a moça de touca ameaçou me servir uma mísera colher rasa. Na mesa ao lado saladas, ali sim, era a gente mesmo que se servia à vontade. Meu prato já estava vergonhosamente cheio, mas ainda coube uma farofinha e um pão inteiro, equilibrado sobre a montanha de arroz. Havia pudim de leite e doce de abóbora. Peguei o pudim. Adiante uma máquina do tamanho de uma geladeira oferecia três tipos de sucos. Enchi meu copo com o de caju.

Onde estaria a balança? Não havia balança. Reparei que as pessoas iam se sentando e comendo sem pesar o prato. Ah, em Curitiba usa-se o sistema “coma à vontade”, refleti, feliz, pois sabia que se fosse por peso sairia mais caro, pelo menos naquele dia, com aquela fome que eu estava.

Sentei com meu bandejão e comecei a comer. Pelas beiradas para não desabar. Grupos conversavam animadamente. Algumas pessoas olhavam para mim, percebi, talvez por nunca terem me visto na área. A maioria parecia se conhecer. Baixei a cabeça e voltei a comer pensando na reunião que teria. Logo o suco acabou. Levantei para pegar mais e aproveitei para reforçar a carne e a salada. Numa mesa umas moças me olhavam e davam risadinhas. Lembrei delas, haviam entrado junto comigo. Será que me acharam bonitão? Logo eu saberia. Uns caras comentavam algo, pelo jeito a meu respeito. Me ocorreu que os curitibanos são piores que os paulistas, não podem ver um forasteiro.

Continuei a comer. Súbito, algo me chamou a atenção. Reparei que todos usavam crachás dependurados no pescoço. Percebi também que, após comerem, depositavam as bandejas numas prateleiras metálicas no fundo do salão e partiam, ganhando a rua, sem passar no caixa. Mas, onde se paga o almoço, afinal? Foi aí que uma moça passou bem perto de mim e li em seu crachá: Roberta Lima, logo abaixo o logotipo da Sadia. Olhei ao redor. Parei de mastigar e larguei os talheres. Eram todos da Sadia. Todos. Todos menos eu.

Eu entrara no restaurante dos funcionários da empresa.

Me encolhi atrás do prato. E agora?

Continuei a comer. A tênue sensação de alegria que eu sentia se desmanchou dentro de mim. E agora? E agora? Conclui que o melhor agora era comer, depois pensar no que fazer para sair com alguma dignidade dali.

Fui comendo e pensando. Não havia janelas nem portas dos fundos que permitissem uma evasão. Lá na frente as roletas. Só as roletas. Uma para entrar e outra para sair. Elas me olhavam, as roletas.

E se eu tentasse sair à francesa e a roleta travasse? Pensei que o melhor seria procurar a moça da maleta, explicar o vergonhoso equívoco e dizer que eu gostaria de pagar. Gostaria não, fazia questão! Poderia até levar a mão ao bolso traseiro, para reforçar minha intenção de sacar a carteira. Poderia sacudir notas no ar! Pronto, isso resolveria o problema. Tomei feliz um gole gordo de suco, que ajudou a descer o feijão que estava colado na garganta.

De repente imaginei aquela moça sorridente, solícita até demais, falando alto, simpática como nunca: “De forma nenhuma, senhor!", diria ela. "O senhor comeu aqui por puro engano, não, não e não! Não precisa pagar nada, pode ir! Pode ir embora sem pagar!”. Todos silenciariam e pregariam instantâneos e acusatórios olhos sobre mim. Logo depois haveria uma explosão de risadas. As pessoas se dobrariam de tanto rir. De mim. Teriam assunto para a semana toda. “Você não imagina o que um careca babaca fez no refeitório hoje!”, contariam a um que não desceu pro almoço. Gelei só de pensar. Não, definitivamente não.

Raspei o finzinho do arroz, agreguei salada ao garfo e levei à boca. A melhor coisa a fazer seria sair naturalmente, como todos estavam fazendo. Claro, quem não deve não teme! Então a minha mente produziu a imagem da moça sorridente escondendo os dentes brancos e chamando, enérgica “Psiu, psiu! Ei, ei, você! De camisa branca, sem crachá! Aonde o senhor pensa que vai sem pagar a conta?!”.

Limpei a boca com o guardanapo e larguei-o sobre o prato vazio. Eu estava mesmo enrolado. Avistei a rua e desejei estar lá, naquela calçada. Passei as mãos na cabeça e olhei ao redor. Com a língua tirei um arroz do fundo da gengiva. O que fazer? Comi o pudim de leite, em grandes colheradas para ver se uma luz me vinha. Entornei o finzinho do suco, dei um sutil arroto e me ergui da mesa, agora convicto. Enfim me ocorrera a solução. Usaria a infalível “Técnica do Carvalho”. Agora sim eu me sentia bem mais tranquilo, dono da situação, o Carvalho, claro, claro! De tão confiante fui até o aparador e peguei café da térmica com a inscrição “com açúcar”. Bicando o café fiz que atendi o celular. Era o Carvalho.

– ALÔ! – disse eu, em alto e bom som.

– Carvalho! Como vai você? – quase gritei. As pessoas silenciaram um pouco e me espiavam. Esperei uns cinco segundos, como a ouvir o Carvalho. Então meu sorriso de satisfação por falar com ele foi se desfazendo, dando lugar a uma boca séria, olhos arregalados, indignados, subitamente irados.

– O QUÊ?! – subi o braço e deixei-o cair, batendo com a mão na coxa – Carvalho, de novo isso! Você não aprende? Olha, se esses caras insistirem com isso, vou pedir ao Mendonça a exoneração, compreendeu? Exoneração!

Agora não alguns, mas todos me olhavam, creio que para compreender o porquê daquele sabão no pobre do Carvalho. Fui me deslocando pelo salão, carregando a bandeja, com o celular entre o ombro e a orelha. O Carvalho dizia coisas absurdas do outro lado e eu balançava a cabeça, negativamente. Havia agora um silêncio enorme no recinto. Me transformei numa momentânea atração. Depositei a bandeja ruidosamente na prateleira metálica e fui me encaminhando lentamente para a saída, ocupadíssimo com a problemática que o Carvalho fazia o favor de me trazer. Estanquei por um momento.

– Carvalho, veja bem... – dizia eu agora, tentando ser consciencioso, a mão segurando a nuca, agitado, os olhos revirando para o alto, como quem pede a Deus que lhe dê paciência para suportar as burrices de um Carvalho qualquer.

As mocinhas dos sorrisinhos me olhavam sérias. Fingi que não vi. Voltei a caminhar para a saída...

– Carvalho! Vocês querem me enlouquecer?!

Junto à roleta, a mulher sorridente, entendendo-me absolutamente atarefado, já havia buscado a minha pasta na saleta e, se adiantando, a estendia a mim, como uma secretária eficiente faria com o presidente da empresa. Desenhou um até-logo mudo, só com os lábios. Sorri para ela como quem agradece, meio de lado, meio despercebido, ocupado demais... "afinal o Carvalho"... Então, quando todos já estavam voltando a conversar, me exaltei com o Carvalho. Dessa vez aos berros.

– CARVALHO! Não discuta comigo – ordenei – vou agora mesmo falar com o Mendonça, agora mesmo!

Empurrei com o quadril a roleta e me adiantei em direção à calçada, sem pressa, ouvindo as besteiras que o Carvalho me dizia, gesticulando, sempre indignado, muito indignado, indignadíssimo. Já lá fora, para desestimular quem estivesse, por acaso, pensando em me interpelar, assim, de última hora, mostrei como posso ser duro, e fui definitivamente duro e cruel com o Carvalho.

– Carvalho, para mim chega! CHE-GA! Você está demitido, entendeu? DE-MI-TI-DO! – reiterei finalmente, fechando o aparelho e já atravessando a rua.
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Cesar Cruz
Julho 2010

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O Rui (outra aventura du Carvalho)
O Último Sushi
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O Léo não colecionava figurinhas


Prefácio


Atendendo ao pedido do meu amigo Mário, o Xara, segue uma crônica sobre Copa e  futebol. Esta crônica foi meu primeiro texto a ser publicado, há exatos 4 anos, na Copa passada. E foi a partir dela que me animei, com o incentivo dos amigos Jaime e André, a escrever prá valer. Foi como tudo começou.

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Desde o início do ano, nós, os meninos estávamos loucos, ansiosos. Era 1982. Era ano de Copa do Mundo, e a maioria de nós nunca havia assistido a uma. O Léo que era o mais velho, tinha treze anos. Eu, o Paulinho, o André, o Nicholas e os demais, tínhamos dez, onze no máximo. O Léo não era propriamente um curtidor de futebol. Nem sabia jogar. Tremendo perna de pau! Mas como era grandão, cabia como goleiro. Quem mais poderia tirar com uma esticada de perna aquela bola colocada lá no cantinho?
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Copa de 1982 - Em pé: Léo, André, André também, Alexandre
Agachados: Paulinho, Cesar, Rodrigo, Maurício, Vinicius, Nicholas e Kiko
(neste dia o Léo não estava no gol, aliás, acho que nunca esteve, tremendo perna de pau!)

Entre a chatice da escola pela manhã e o futebol da tarde, aquele ano teríamos a Copa pra ver! E nela nossos heróis. Como sabia aplicar bons toques de calcanhar, eu era o Sócrates. O Paulinho, o Éder, com suas bicudas incríveis. Ele fazia da bola de capotão uma arma; quando pegava de jeito na coxa ou nas costas de um coitado, deixava marcas roxas!
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A fabricante de chicletes Ping-Pong inventou um álbum de figurinhas que virou frenesi entre as crianças de São Paulo. Tinha todos os times da Copa, desde os mais desconhecidos, como República dos Camarões, até os favoritos: Brasil, Itália e Alemanha.



Era comum ver os garotos mastigando uns dez chicletes ao mesmo tempo. Inventava-se de tudo para levantar dinheiro e correr a banca do Corcunda para comprar um punhado de gomas.
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E o Brasil era uma máquina incrível de jogar bola!, atropelava os adversário com um futebol-arte de dar gosto. Meu pai dizia só ter visto algo parecido na copa de 1970. As eliminatórias para o mundial da Espanha foi um passeio. O Brasil encantava o mundo com o time regido por Telê Santana. À noite, na televisão, o Zezinho, personagem do Jô Soares no Viva o Gordo, fanático por futebol, pedia pelo orelhão da praça: "bota ponta Telê!". Telê, turrão como todo bom técnico, não ouvia a voz do povo. Jogava sem ponta. E jogava bem.
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Zézinho

Entre as jogadas de categoria do Falcão, as divididas raçudas do Serginho Chulapa, os dribles do Zico e as defesas espetaculares do Carlos, nós íamos completando nosso álbum, jogando nossas peladas e sonhando em ver o Brasil ganhar uma copa. A camisa do timinho da turma foi trocada temporariamente pela canarinho, ainda com três estrelas no peito.
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Independentemente daquela ânsia por ver a história acontecer, a vida era tranqüila naquela época para nós garotos. Tínhamos quem cuidasse de nós, todos os nossos pais eram vivos, e política e economia não nos impactavam nem um pouco. Nem sabíamos que existia isso. Só pensávamos em brincar de esconde-esconde, pega-pega, cuspe à distância, jogar nosso futebol e colecionar figurinhas!
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A do Sócrates e do Dasayev, goleiraço da União Soviética, abundavam no mercado. A do Tardelli, armador da Itália, a do Naranjito, mascote oficial da Copa e a do Valdir Perez, goleiro reserva do Brasil, ninguém tirava. Mas a coleção continuava. E a seleção também.

Brasil x Argentina 1982 - Maradona x Zico

Além do Zico, estávamos na era de Maradona e Paolo Rossi. Não era só o Brasil que tinha bons jogadores, não! Certo que o nosso futebol era de longe o mais lindo, mas corríamos perigo, apesar de ninguém se dar conta disso; talvez por estarmos todos amortecidos e embriagados com a beleza de futebol que depois de anos certamente nos daria o quarto título. Nos acreditávamos imbatíveis!
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Mas... - sempre existe um mas - o nome dele era Paolo Rossi. Em um vacilo da defesa brasileira, no jogo que garantiria a vaga para as quartas-de-final: estávamos no segundo tempo, 2 a 2, e o Toninho Cerezo, num passe de bola arriscado na nossa intermediária, foi interceptado por um ágil e atrevido Rossi, que só teve o trabalho de avançar e chutar na saída do Valdir. Aquele 3 a 2 silenciou o país, todos os milhões de brasileiros esperando pela gol de empate. Que não veio. Como o sonho do tetra, que foi por terra. E o de nós meninos também.

.Brasil x Itália 1982 - Cereza x Rossi

Da turma só eu consegui completar o álbum. Com a ajuda do seu Aloísio, que escreveu uma carta à Ping-pong relatando a tristeza do seu filho com a derrota do Brasil. Recebeu pelo correio as figurinhas que faltavam, inclusive a do Tardelli! Tenho o meu álbum até hoje. Abri-lo me remete àqueles dias, mais de duas décadas atrás. Tempo em que a criminalidade se resumia a trombadinhas que batiam carteiras e roubavam relógios e tênis dos meninos. Nada de PCC, seqüestro relâmpago...
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O Léo, que nunca gostou de jogar bola, também não ligava pra ver a copa nem preenchia álbuns. E foi na casa dele que, em junho de 2006, todos os garotos, 24 anos menos garotos, se reuniram diante da TV para assistir à estréia do Brasil na copa da Alemanha.
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2005 - Paulinho, André, Léo, Cesar e Nicholas
(pouco antes de eu desistir de usar cabelo - ou vice-versa)


Já somos jovens de 33, 34, 37 anos, a maioria acompanhada de namoradas e mulheres. E o Léo? Ah, o Léo continua o mesmo: aos vinte minutos do primeiro tempo já havia ido pro quintal adiantar o churrasco. Nós ficamos lá, roendo as unhas em frente ao monitor. Vendo aqueles onze milionários jogar bola. Mal, diga-se de passagem. Jogadores cibernéticos, geneticamente predispostos, frios.


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O doutor Sócrates

Saudades do Sócrates, que era doutor, fumava dois maços de cigarros por dia e ainda assim fazia gols de chaleira. E do goleiro Valdir Perez? Baixinho voador! Nada de genética nem laboratório. Só amor e disposição.

Feliz é o Léo, que nunca teve álbum, nem tem saudades daquela seleção. .


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Cesar Cruz
Maio/ 06
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Crônica publicada no livro: "Conte sua história de São Paulo" - Editora Globo/ 2006. E também no programa homônimo da rádio CBN, na segunda-feira após a derrota do Brasil na copa do mundo de 2006. Narrada da voz de Mílton Jung e com produção especial.
(Quem quiser ouvir, me peça que envio o áudio por email).






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Esnuquer


Este conto integra o livro O Homem Suprimido, Scortecci 2010.
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- Óia que hora dessas o Zé Firmino pega!

José dos Santos Firmino ouviu essa frase inesperadamente, sem querer, numa conversa entre dois sujeitos com quem ele nem intimidade tinha. Ouviu mas não era para ter ouvido, visto que quando perceberam que ele estava na casa lotérica, num canto, de costas, marcando sua fezinha no volante, embranqueceram, mudaram o assunto na mesma hora, passaram a falar do Corinthians, que andava numa fase ruim; depois se calaram e se evadiram, ligeiros, cada um para um lado, antes do Zé ter tempo de perguntar o que é que ele pegaria, afinal.

As pessoas vinham falando dele à boca pequena pelo bairro. Andava se coçando de desconfiança, o Zé. Na saída da obra, uma semana antes, dois moleques gritaram de longe “Ó um corno indo lá!”. Achou que pudesse não ser com ele, mas logo se lembrou que o povo diz que o corno é sempre o último a saber, e já tinha mesmo percebido que de uns tempos para cá todos se calavam quando ele surgia, cotovelos cutucavam costelas enquanto ele passava, rodas se desfaziam, olhos se desviavam quando encontravam com os dele.

Começou a reparar mais na mulher, que passara a andar sempre muito cheirosa e bonita. A Fátima era mesmo muito formosa de corpo, sempre fora. Mesmo depois de ter parido os três moleques, e já com quase trinta. Ultimamente, começara a se cuidar melhor, se banhando mais vezes ao dia, alisando o cabelo no ferro, colocando a barriga magrinha de fora até em dia de frio. José Firmino, por sua vez, criara pança, as pernas afinaram e o cabelo rareara. Segundo o cunhado, que mangara dele no churrasco do sábado, na frente de todo mundo, o Zé parecia uma batata espetada com dois palitos. O ofício de auxiliar de armador de fôrmas judiava muito do Zé. Trabalho pesado, dobrando ferro grosso com alicate o dia todo. Às cinco e meia batia o ponto na obra para só sair as quinze, moído. Com quarenta e cinco anos, já não era mais menino, e ainda assim trabalhava como burro de carga para ganhar salário de fome. Para o de comer dava, mas para sair da favela não, de jeito nenhum. Um monte de bocas para sustentar.

Naquela tarde, saiu da obra e foi para casa. Encontrou a mulher na cozinha picando legumes, de cabelos molhados e cheirando a sabonete.

– Tomou banho, mulher?

Ela disse que sim, que estava calor demais e que as telhas de zinco não deixavam o quente da casa escapulir.

– Ora, mas banho assim no meio do dia? – desconfiou.

A casa agora andava desarrumada e a mulher só se metia a trabalhar depois que ele chegava. O que ela ficava fazendo enquanto ele estava na obra era um mistério para o Zé. O cupim da suspeita comia o Zé por dentro.

Largou a mochila com o uniforme sujo e a marmita vazia sobre a mesa, urinou, trocou o sapato velho pela chinela e já ia saindo para o bar do Silva, para jogar esnuquer e esfriar a cabeça, quando pressentiu alguma coisa. Parou com a mão na porta do barraco, virou-se e deu com um isqueiro sobre o televisor.

– Que é esse isqueiro aqui, Fátima?

Depois de certo silêncio, a mulher gaguejou que o isqueiro era do pai dela, que ele tinha passado por lá e esquecera ali.

Zé saiu de casa corroído, sem dizer palavra. Entrou no bar sentindo um caroço na garganta. Pediu para o Silva botar uma pinga com limão e uma cerveja bem gelada. Curvou a cerviz sobre o balcão. Seria tudo cisma? A mesa de sinuca no meio do boteco estava ocupada pelo Gringo e pelo Neto. Achou que pararam de falar quando ele entrou. Não era cisma. Por que pararam de falar? De costas para os dois, sentia que riam entre si, riam dele. Sem som nenhum, mas riam. “O corno é sempre o último a saber”.

Sentado na banqueta com a cabeça curvada e as antenas em pé, podia senti-los escarnecendo às suas costas. Atrás dele dois tacos ensebados se debruçavam sobre a mesa de pano verde encardido e rasgado. A cada batida seca as bolas rolavam roc-roc-roc-roc até estourarem com um baque estanque, surdo, no fundo das caçapas. Os homens caçoavam agora um do outro, mas, na verdade, o Zé sabia a quem aludiam.

– Ê, você só leva ferro comigo, Gringo!

– Tome essa encaçapada, Neto!

– Sente o peso do meu taco, moleque!

A mão do Zé crispou o gargalo da garrafa como uma garra. O sangue sumiu das pontas das unhas. A pele do seu corpo pareceu se incendiar de fúria. “Ó um corno indo lá!”, os moleques pareciam agora estar ali, no bar, falando ao seu lado. “Óia que hora dessas o Zé Firmino pega!”, o cochicho daqueles dois na lotérica ecoava na sua cabeça.

– Empresta o fósfro aí, Silva, tou sem fogo! – pediu o moleque.

O moleque, também conhecido como Gringo, era chamado assim por ser loiro e ter vindo do Paraná. Era bonito, o moleque. Diferente da turma encardida que vivia ali. Devia ter uns vinte anos. O corpo era atlético, sem barriga ou pernas finas.

A caixa de fósforos arremessada pelo Silva, de detrás do balcão, projetou uma parábola no ar. O cigarro na boca do Gringo pendia na ponta dos lábios, esperando para ser aceso. “Quarenta fósforos de segurança, mantenha longe do alcance das crianças”. A caixa rodopiou no vazio, mas ainda longe da mão ágil que já a aguardava. O taco do Neto atingiu a bola, minúsculos grãos de giz subiram para em seguida se precipitarem sobre o feltro, um a um. A bola branca rolou, volta após volta sobre o tecido roto. Atingiu a vermelha que, tendo saltado no emaranhado dum rasgo, perdeu o rumo da caçapa do canto e decolou, girando sobre si mesma e se projetando no ar, descrevendo a trajetória curva que a levaria ao chão.

Rapidamente o sangue do Zé pareceu ferver e engrossar nas veias, como lava. “Fátima, seu pai nunca na vida que usou isqueiro, mulher!”, pensou em gritar, pensou em pegá-la pelo cangote e sacudir, mas preferiu emudecer e sair pra refrescar a cabeça.

A mão do moleque permanecia erguida no ar, os olhos ainda pregados na caixa que voava. “Composição: fósforo, clorato de potássio e aglutinantes. Produto não perecível”. O Gringo trazia o sorriso vitorioso dos espertos cristalizado na face. Agora as vozes dos homens retumbavam grotescamente na mente do Zé, como urros demoníacos, graves, pastosos, disformes. “Toma essa, Neto, sente o meu taco!”. O caroço na goela já não deixava o ar passar pela traquéia do Zé, que quase sufocava. Então a garrafa vazia de cerveja se espatifou contra a quina do balcão. Os cacos voaram pelos ares, como pequenos espelhos, refletindo a luz projetada sobre eles. “Mantenha longe do alcance das crianças, do calor e da umidade”. A caixa descrevia agora sua curva descendente final, seu declínio derradeiro. “Não riscar contra o corpo”.

Finalmente, a mão do moleque a encontrou no ar e foi se fechando, fechando e enrodilhando os dedos sobre ela, falange após falange, após falange; ao mesmo tempo o braço descia ao encontro da outra mão, o indicador, hirto, preparado para abrir a caixa num movimento ágil, certeiro, e fazer saltar de lá um palito. Porém, antes do encontro de mãos, dedos e intenções, o cigarro foi inesperadamente ejetado da boca do moleque como uma cusparada, seus olhos azulados se arregalaram, lacrimejaram, aterrorizados, surpreendidos pelas lascas agudas, cortantes, frias, do gargalo de vidro que abriam espaço pelo algodão da sua camiseta azul e se aprofundavam, invasivas, afiadas, rompendo sua derme, epiderme, sua fina camada de adiposidades, seccionando seu feixe reto e transversal de músculos pélvicos, estourando vasos, capilares, nervos, tendões, cartilagens, peritônio, intestinos...

A bola vermelha, com o número um gravado em sua superfície brilhante, aterrissou no chão, quicou duas vezes e deslizou, correu, rolou, giro após giro, para finalmente estacionar entre as altas pilhas de engradados encostados à parede, onde ficaria oculta por semanas antes que a encontrassem. O cigarro, frustrado, babado, jazia sobre a mesa de esnuquer.

A caixa de fósforos acabou próxima aos dedos abertos do Gringo, fechada, encharcada na poça escarlate e viscosa que começava a se formar, lentamente, no áspero chão de cimento batido.
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Cesar Cruz
Maio 2010
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Tapioca


Tapioca - sf. 1 Fécula da raiz da mandioca reduzida a grumos. 2 Espécie de beiju, feito de goma de mandioca meio seca, com uma porção de coco ralado por cima, coberto com uma camada fina da mesma goma (...). (Michaelis)

Este conto integra o livro O Homem Suprimido, Scortecci 2010.
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A dona estava em pé em frente ao leito, era bonita e usava vestido. Como a Gioconda, sorria suavemente para o homem, de forma quase imperceptível. Seu perfume o agradava e enchia seu coração de certa esperança. Ele já nem sabia mais há quanto tempo estava naquele leito. Sim, leito, pois cama, como as que conheceu ao longo da vida, eram bem diferentes. Não eram tão altas, nem tão moles. De tanto tempo sem provar uma já nem mais conseguia recordar as suas sensações. Um leito é diferente de uma cama. É ligado a aparelhos, tem manivelas e aquele abominável número gravado numa plaqueta metálica rebitada no corpo do móvel, que com o tempo passa a ser o número do ser humano que habita o leito. Os lençóis que se usam nele têm um cheiro misto de alvejante e escaldamento a alta temperatura. Não há germe que resista. Esses leitos, cujas execráveis rodas permitem que sejam levados para qualquer canto do complexo – até para o necrotério, no segundo subsolo, quando não houver mais jeito –, são mesmo muito diferentes das camas. De tudo isso o homem sabia, tivera tempo para refletir. O que mais se tinha ali era tempo. Estava mesmo no lugar certo; afinal, o leito é mesmo o lugar onde um homem deve morrer, como diz a expressão.

Lá embaixo, na rua, mais um ônibus partiu do ponto, lotado de gente. O motor roncou forte para impulsioná-lo a sair do lugar, fazendo subir ao quarto uma sonoridade e odor desagradáveis. Do segundo andar o homem podia ouvir bem esses ruídos urbanos que pareciam existir apenas para não deixá-lo esquecer que a vida prossegue em sua toada incansável e distante, vibrante e promissora, apenas para quem é jovem e saudável e pode enfrentá-la. Aos moribundos, alijados das alegrias do viver, só o que resta é aguardar a morte. Aos que estão com a sobrevida decretada, o que lhes oferecem é um leito numerado e a lassidão dos dias que se sucedem morosamente, além de seus próprios pensamentos e recordações, para que neles imirjam e chafurdem, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, até que não aguentem mais.

Foi há menos de um ano que ouviu pela primeira vez a expressão ser atribuída a ele. O médico quis falar com suas filhas para comunicar-lhes que o pai delas entrara em sobrevida. Que diabos!, pensou na ocasião, um homem nasce, cresce, se casa, tem filhos e um belo dia, quando ainda acha que tem muita lenha para queimar, um médico qualquer, que usava calças curtas ainda outro dia, surge para dizer que ele agora não terá mais uma vida, mas uma sobrevida. Seja lá o que isso queira dizer. A bem da verdade, todos estão em sobrevida, pensou ele, quase para se consolar, após alguns dias de meditação no leito. O homem não conhece o seu dia, como diz no Eclesiastes. Nenhum homem.

E foi ali, naquele leito, que adquiriu outra maneira de vê-la. Agora ele a via bela e atraente, de meia-idade, elegante em seu longo vestido florido, óculos de aros grossos, cabelos negros soltos nos ombros, perfume floral. Ele a tinha visto uma única vez, em pé, bem à sua frente. Ele abrira os olhos após um cochilo numa tarde nublada e fria, e ela estava lá, mirando-o. Com a vista embaciada e um fio de voz, perguntou quem era ela. A mulher apenas sorriu capciosamente e se esgueirou para trás do biombo, aquele utensílio móvel tri-partido usado para encobrir a visão, de maneira a não permitir que ninguém assista a degradante cena de um homem tendo suas fraldas trocadas, seu corpo flácido lavado, parte a parte, sobre uma bacia metálica, pelas mãos hábeis de duas enfermeiras desinteressadas e alheias. Enfermeiras que nunca são as mesmas, que, enquanto fazem seu serviço como um mecânico que mexe num carro, conversam entre si por cima do doente, falam de cabelos, maridos, vizinhas, salários... Em meio às suas conversas, algumas vezes se dirigem indiferentes ao doente, sem ao menos o olhar, com vocativos infantilizantes: levanta a perninha!, vira o bracinho, assim, isso mesmo! Não o deixam esquecer que seu tempo já se expirou, que ele é, para todos ali, apenas um número, um leito ocupado. No dia em que ele descer para o segundo subsolo, dirão tão somente: vagou o leito 386, troquem os lençóis sujos!

A filha mais nova tinha dito ao homem que a tal mulher talvez fosse uma pessoa do hospital ou uma visita que tivesse entrado em quarto errado, por engano, ou ainda uma ilusão, fruto dos efeitos colaterais do uso de corticóides. Disse aquilo e já logo desconversou, mostrando de forma quase imperceptível um manejo de canto de lábios e um olhar de lado, expressões para ele muito conhecidas, que significavam em Mariângela, descrédito e dúvida. Um pai conhece uma filha. Não insistiu mais. Já bastava a ele tanta humilhação: as escaras nas costas e nádegas, as trocas de fraldas, o corpo macerado, os médicos que mal conseguiam dissimular sua constante impaciência, as enfermeiras que o viravam e reviravam como quem movimenta caixas num estoque; as filhas e os genros que fingiam interesse, mas faziam visitas rápidas, sempre cheios de olhos nos relógios. Estavam todos esperando, quase torcendo por sua morte, para se verem livres daquela obrigação desagradável. Ele sabia disso. Liberado o leito 386, graças a Deus! Liberada a venda dos imóveis, aleluia! Liberados das visitas ao velho, arre!

Nos últimos dias, quando era acordado por qualquer ruído, abria os olhos, afoito. Esperava pela dona. Ansiava pelo seu retorno. Sabia que ela voltaria, sabia que ela lhe restituiria a dignidade perdida. Era um saber diferente, aquele, sem a ciência intelectual do conhecimento. Pura percepção intrínseca. Ele simplesmente sabia, e já a desejava mais do que às visitas piedosas de suas meninas crescidas, sempre tão atarefadas e exasperadas com suas casas, trabalhos, maridos. Desejava a dona do vestido florido como uma mulher que deseja seu amante proibido, como um forçado deseja a liberdade, como a mãe deseja o filho. Lembrou-se de como, durante sua vida toda, teve receio de um acidente, uma doença sorrateira, uma bala perdida, algo que de repente o tirasse da vida, a vida que ele tanto gostava de viver. Lembrou-se de uma máxima, que nunca soube o nome do autor, mas que era agora para ele tão exata, tão perfeita: o ruim é o chamado bom quando sucede o pior. É isso. Agora ele a queria o quanto antes, queria a dona bela do vestido florido.

Acordou com um tilintar metálico. Noite. Apenas a luz dos aparelhos e da saleta contígua. Era uma nova enfermeira a mexer nos equipamentos atrás dele. Gorda, negra. Sorriu para ele um gradeado de dentes brancos e sinceros. Até o cumprimentou com um bom-dia, suave. Deve estar para amanhecer, pensou. Ela ajustou os aparelhos, ajeitou as várias agulhas embutidas na pele sobre as falanges de sua mão direita, mexeu na sonda abdominal, no saco de colostomia, aplicou um peteleco na garrafinha de soro. Ele voltou a dormir antes de vê-la partir.

Foi acordado tempos depois, já de dia, por um uivo alongado, vindo da rua. Aquele uivo lhe era familiar, substituía, aos domingos, o ruído cansativo e triste dos ônibus e dos carros apressados. O grito rasgando o silêncio da preguiçosa manhã dominical o levou de volta à sua infância no interior, às ruas de terra, o pai trabalhando na cerca da casa, os irmãos correndo atrás das galinhas, a carroça do leiteiro puxada a cavalo chegando, bem cedo, para encher as garrafas da mãe. Novo grito, longo, macio, saudoso. Sentiu uma nostalgia gostosa e melancólica. Súbito, percebeu que em pé ao seu lado estava a dona; quase se assustou. Ela usava o mesmo vestido florido e os mesmos óculos de aros grossos que usara naquele dia. Mariângela estaria certa? Seria uma alucinação provocada pelos remédios? Podia sentir o seu perfume de flor, assim como podia sentir o cheiro de alvejante do lençol. Ela sorriu para ele, desta vez um sorriso maior, com dentes meigos e pequenos à mostra. O ruim é o chamado bom quando sucede o pior. Agora ele ajudava o pai a pintar a cerca, os pés descalços metidos na lama. Chovera na noite anterior, o barro ficara fofo e grudento, mas o sol forte das nove horas já esquentava as poças e começava a elevar um cheiro doce da terra molhada. A dona passou a mão em seu rosto, carinhosamente. O grito se repetiu lá embaixo, pela última vez, para não deixá-lo esquecer que tudo continuaria a se mover no mundo à revelia de sua partida.

– Tapióóca!, olha a tapióóóóca!


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Cesar Cruz
Fevereiro 2010
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Imagem: Obra de Frida Kahlo (1907-1954), intitulada: "Hospital Henry Ford", ou "Cama Voadora" (1932). Óleo sobre metal 77,5 x 96,5. Coleção Fundação Dolores Olmedo (México).
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