Meu leitor, meu gnu




Quem escreve, escreve para ser lido. E é aí que reside todo o problema. O brasileiro não foi treinado para ler. O escritor deveria escrever pelo prazer de escrever e esquecer essa besteira de ser lido. Aqui, ninguém lê nada, só assiste. A gente amontoa aquelas letrinhas e fica lá, esperando que as pessoas deem o devido valor às esplêndidas composições literárias que produzimos. Enquanto isso, eles, os leitores em potencial, estão de frente para A Fazendinha do Orkut, a um programa de desgraças jornalísticas da TV ou ao BBB. E nós que escrevemos ficamos morrendo de inveja das novelas e do BBB...

Salvo os escritores de sangue nobre, extremamente longânimes e desprendidos dessas vãs paixões humanas (não conheço nenhum), a maioria de nós vive enlouquecido atrás de plateia, público, holofotes... De atenção, enfim. Triste, né? Pior do que triste, é cômico.

No fim, quando o escritor começa a perceber que não há mesmo jeito, que as pessoas não leem as coisas que ele escreve nem a pau, nem com uma arma apontada para a cabeça, e percebe que se ele parasse de escrever, agora mesmo, ninguém repararia, partem para a reclusão. Tornam-se então seres amargos, sarcásticos e mal-humorados. Assim, magoados com o mundo, despeitados, fecham-se num silêncio acusatório e irônico. "Idiotas incultos, não sabem o que perdem!", pensam os escritores em seus solilóquios.

Para mim, que me acho escritor, constatar isso é deprimente. Mas a verdade é que quem escreve é só. Ser escritor é ser solitário. Escrever é solidão. O escritor é como um pregador numa praça: brada e gesticula loucamente de cima do seu caixote enquanto os passantes desinteressados vêm e vão. Eventualmente um pára, espia um pouco e se manda rapidamente. Sou esse pregador. Meu blogue é meu caixote.

E a coisa piorou com os blogues. Surgiram milhões de novos escritores (eu incluído) que encontraram neste novo espaço um local para se manifestar textualmente. A desproporção entre escritores e leitores agora é quase humorística. Se existem números oficiais não sei, mas arrisco dizer que na Internet deve haver mais gente escrevendo do que lendo - salvo quando são as mesmas pessoas.

Nós, escritores deste mercado superofertado e de nula demanda, agimos como feirantes de uma feira vazia. Gritamos mais alto para ofuscar o da barraca ao lado, oferecemos petiscos aos clientes para tentar atraí-los, mas nem nos apercebemos que não há clientes por perto...

Eu, por exemplo, envio um spam a um grupo de incautos a cada vez que publico um novo texto. As vítimas são pobres amigos meus que, um dia, caíram na besteira de dizer que gostam do que escrevo. Coitados! Sempre que um desavisado afirma isso, ou ao menos faz menção, de passagem, por alto, digo “Então vou colocar você na minha pasta de amigos do blogue!”. Dali em diante acabou-se a paz do sujeito. Terá de conviver para todo o sempre com meus emails, convites, pedidos de opinião e o escambau. É deprimente, amigos, eu sei, mas não consigo evitar.

Somos animais famintos, predadores movidos pelo instinto. Perseguimos, saltamos e agarramos os possíveis leitores pelas ancas, pelo cangote, com as garras e os dentes, como faz o Leão com o Gnu.

Como se não bastasse o sofrimento existencial causado por essa voraz caçada ao leitor inexistente, o blogue produziu um pernicioso vício adicional: os comentários. Qual escritor de blogue vive sem comentários? Não, não basta saber que há um ou outro sujeito que lê as coisas que você escreve. Não. O escritor quer, exige comentários. Abundantes comentários. Generosos e conscienciosos comentários. Para isso faz comentários nos escritos alheios e fica aguardando que o outro escritor devolva a gentileza. Somos leitores de nós mesmos. Fazendo assim, fingimos que somos muito lidos, muito competentes, muito reflexivos, muito intelectualizados, muito formadores de opinião, muito escritores..., mas, no-fundo-no-fundo, conhecemos a aviltante e risível verdade.
Quanto a você, meu Gnu. Corra. Corra que eu vou te pegar. E meter os dentes nas suas costas.


Cesar Cruz
Julho 2010
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Gnu. Animal herbívoro. Uma das principais presas dos leões, mas por conta de seus chifres, e da força de seu coice, muitas vezes conseguem escapar. Vivem em grandes manadas, e pastam pelas savanas. A maioria não gosta de ler.
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14 comentários:

Anônimo disse...

Sempre que recebo seu "spam" paro o que estou fazendo para consumir seu amontoado de letrinhas... saiba que nesta feira sou fiel à sua barraca. Um abraço, Marcão.

EMERSON ARAÚJO disse...

César, meu caro, kd meu spam? Estou com inveja destes que o recebem. Bom resto de julho! à família também. Continuo lendo o homem suprimido, aguarde alguns comentários em agosto sobre os contos.

abs.
Emerson

Marcelo Lopes disse...

Grande Cesinha,

Pois é meu amigo, mas você sabe que pode contar com os Gnus "ponta-firme" que gostam de ler, acredite, existem!

Abração!

Marcelo

Regina Cláudia disse...

Adoreiiii, foi um momento de revolta???

Eu já falei, escreva sobre vampiros que brilham no escuro... é sucesso na certa. Até eu estou pensando em escrever sobre esses vampiros de sexualidade duvidosa de hoje em dia, hahuauhauhauhuahuhauhauh
Por favor NÃO pare de escrever e de me enviar suas crônicas/contos.(agora eu sei a diferença, eeheheh)

Bjos!!!!
Regina

Sandro Yokomizo disse...

Meu caro Leão Cruz.

Devorados, ou simplesmente degustados por este tipo de humor é muito prazeroso. Parabéns para mim, isso mesmo, para mim, pois descobri um amigo com um talento que muitos querem e pouquíssimos tem a possibilidade ou condições de desenvolver.
Deus te abençoe e ilumine seus caminhos.

Grande abraço.

Sandro Yokomizo

Mário, o Xara disse...

César, vamos lá, quer comentários?, então os terá:

- meu, show, 10, mil, milhão, nessa você ("Você" ainda se acentua) arregaçou! Difícil dizer isso, mas foi um dos melhores textos que você já escreveu, páreo com aquele pelo qual te conheci, porque chama a gente pra "chincha", tipo assim: gostou bem, não gostou? É porque é verdade. Nos coloca no devido lugar, mas inveja de BBB's tenho não, novela odeio...ehehe

brasileiro não lê:

aaahhh lê sim senhor, capricho, caras..., lixos do tipo, um dia muda, eu acredito. O escritor que não escreve pelo prazer de escrever, ou escreve para ganhar dinheiro, e por causa disso se vê tantas aberrações por aí, é doente e perturbado.

leitores em potencial:

desculpa amigo, mas se o cara é um leitor em potencial, não estaria em frente a fazendinha do orkut, pode ser que ele seja: preguiçoso, analfabeto, semi-analfabeto (não tem incentivo/motivo para ler coisas de conteùdo) ou é um daqueles que é fanático por jogos da copa (nada contra, assisti alguns), dentre outras coisas

escritor nobre:

Salvo os escritores de sangue nobre, extremamente longânimes e desprendidos dessas vãs paixões humanas (não conheço nenhum), a maioria de nós vive enlouquecido atrás de plateia, público, holofotes... atenção, enfim... Triste, né? Pior do que triste, é cômico.
" PRECISA SE CONHECER CÉSAR "
Aqui resume muito bem, não tem muito que comentar.

preocupação de escritor:

escritor que está preocupado em holofotes é aquele que tem metas a atingir, mesmo que sejam metas pessoais, esse é o escrito artificial, sem mundo, sentimento, desorientado, não creiamos que seja o seu caso.

Ostracismo:

se Você optar pela reclusão, ficaríamos sem suas pérolas.

Massividade:

concordamos amigo, o que tem de coisa na Net é inimaginável, e aquelas fotos de orkut então é que nem comida indesejável, da ânsia de vômito, pra Você e a Vanessa que são responsáveis agora, cuidado! Hoje em dia os pais estão criando uma verdadeira geração de tolos. Ah lá! Agora o comentarista virou orientador....ahahhaahah...

clientela:

quer clientes? Muitos ou bons clientes?

Leão X gnu:

se Você é o leão, confesso que é o primeiro que vejo sem juba...eheheh

crise existencial:

Se Você “por um acaso” esta passando por sofrimento existencial, não é porque escreve e acha que não estão lendo, pois é escrevendo que diminui essa possível crise, vá fazer terapia.

Comentários:

comentário é faca de dois gumes, comentários quando verdadeiramente feito, ou se quiser chamar de crítica, tanto faz, é útil, pois poda nosso orgulho, corta arestas da vaidade e educa o melindre, tudo proporcional a humildade que teremos em encará-los.

Presa:

neste caso a caça deixa de virar janta para estabelecer um prazeroso bate-papo, tiranto esses que tem manias de fazerem B.O. ao invés de rápido comentário

finalizando:

então escolha entre ser um leão tenaz ou revoltado.

Abraços a todos
xara
ipiranga

devaneios:

concordo que, ainda hoje, quem escreve é sozinho, é só consigo mesmo, mas neste sentido é companhia única e suficiente

se um homem que escreve vale por dois, o que “LÊ”, pelo menos já é digno de ser um homem.

Anônimo disse...

Querido leãozinho longånime, próxima vez que nos encontrarmos por estas planícies, muito cuidado para não tomar uma galhada no seu solilóquio.

ass. Gnu

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Escrever, uma sina que por algum tempo pode ter ficado adormecida.
Desejo de transcrever o desejo, esse que é inaprensível pela razão.
Não lamentes não. É também por essa via que tua e de tantos outros, a vida se controe.
Um abraço
Foi bom encontrar teu Blog.

George Saguia disse...

hehehe...

Devo entao ser uma espécie de "Gnu Alpha" pois alem de ler ainda divulgo os textos! hehehe...

Bom segue um Link pra um texto que ensina a converter todo o conteudo do blog em arquivo pdf.

http://meiroca.com/como-converter-seu-blog-em-um-livro-em-pdf/

Abraço

G

M. Sueli Gallacci disse...

Lindo! Lindo! Lindo!

Parabéns pelo maravilhoso texto, é bem assim mesmo... ainda não tinha lido nada igual.
Avisada pela amiga Taís (me escreveu um e-mail dizendo que vc tinha um belo texto) vim logo aqui - mais por curiosidade do que qualquer outra coisa - e quando comecei a ler, pensei: opa! este não é MAIS UM TEXTO COMUM, CHATO, CANSATIVO, BABAQUICE... pois é amigo, não sou só eu que penso assim, muitos pensam, e nem se dão uma chance, não têm tempo, tem muitos blogs pra visitarem, comentarem, se não, acabam esquecidos, na prateleira... Azar o deles! Azar o meu!

É tudo uma ilusão, uma miragem que a gente pensa ver... e pensar que passamos tantas horas na frente das telinhas da vida... é um tempo que se vai, e não volta mais, e deixamos de somar, de crescer, vendo e escrevendo bobagens: passamos por alto no que realmente interessa!

Fiz diferente, desta vez... Vim direto comentar depois de ler o teu texto, sem ler os comentários dos outros, como o habitual (para traçar um parâmetro). Fiz e tá feito, e seja o que Deus quiser!

Um grande abraço e obrigadíssima pelo chacoalhão!

Gabriel Fernandes disse...

Salve, meu chapa!

Você está coberto de razão. Somos todos assim. Mas não só os escritores. Qualquer artista, qualquer trabalhador quer ter seu trabalho apreciado e ser reconhecido. Meu caseiro é movido a elogios. Depois que percebi isso, passei a aumentar menos seu salário e a compensá-lo, por outro lado, com uma enxurrada de elogios. Ele me parece muito feliz e recompensado.

Abraço,
Seu Gnu

Tais Luso de Carvalho disse...

César, ser escritor é suar a camiseta o tempo inteiro. Como nosso país não é acostumado à leitura, vemos tudo isso acontecer.
Quando vou à Feira do Livro, um baita evento em Porto Alegre, chega a dar pena o que encontramos nos caixotes por 5 pila. Então fico pensando e fico com pena de quem se debruçou tanto para ter seu livro publicado e por falta de leitores, termina num caixote, vendido por este preço para aliviar as prateleiras das livrarias e para dar espaço a novos lançamentos. É triste? É. Vida de escritor não é mole, é suor, é solidão. Imagine os poetas! Se neste país se vende tão pouco, imagine livro de poesia que temos de ter muita sensibilidade para compreendê-lo.

O brasileiro gosta muito de jornais e revistas. Ver a coluna de óbitos, crime, política, futebol e mulher bonita na coluna social, fazendo não sei o quê, é que dá grana. Mas tenho de reconhecer que web está trazendo mais leitores, tanto para pesquisas como para lazer. É saber usá-la, aonde ir e aonde não ir; é saber ver o que presta e o que não presta.

Quanto aos blogs, quanto à troca de gentilezas, tenho um enfoque que sigo à risca: comento quando ‘leio’ todo o texto e quando gosto; não comento quando o texto não ‘bateu’. Não me interessa ir para uma rede mundial discutir a posição do outro. Acho que cada um tem sua maneira de pensar, e podemos gostar ou não.

Mando no meu jeito de ser, como todos devem mandar e agir conforme suas consciências. Penso que não mudarei o curso das coisas, aprendi que uma andorinha não faz verão. Esta rede mundial funciona assim, ela foi criada assim, e eu sou apenas meia gota neste universo. Essa ‘troca de visitas’ deve se dar na medida do possível e não algo para nos enlouquecer; para ficarmos dia e noite na Internet. Para tudo existe o meio-termo.

Mas na verdade, quem escreve, deve escrever por prazer de dizer algo de si e do que pensa. Por isso tantos escritores... E a web proporcionou isso: dá a oportunidade a todos de dizerem o que pensam. Muitos dizem que têm muita coisa que não vale a pena, mas o caminho está aberto para quem quiser escrever coisas boas. Tanto é que vemos todos escritores com site ou blog. Por que será?

Beijos
Tais luso

DEVA disse...

A mais pura e triste verdade
Só que não acho que o leitor seja um gnu, e sim um ornitorrinco.

Adoro ler e acho que a internet facilita. Dá oportunidade de ler textos que talvez não conheceria de outra forma. Mas tenho de admitir que também adoro receber comentários. A opinião de gente de escreve pra caramba é incentivo para continuar e me aprimorar.

Nem tento mais mostrar texto meu para os meus amigos, nem texto algum. Eles detestam ler. Acho que a gente pega trauma na escola...

Encontrei a solução para sair do anonimato. Vou contratar um ator para interpretar os textos e por o vídeo no youtube! Tô quase fechando contrato com o Zina...

Você nem precisa, já mostrou ser um ator nato na outra crônica .. rs

Bjus

O tempo que passa disse...

Caro César Cruz, fiquei encantado com o seu blogue, é coisa séria (estou a pensar no meu, que é uma efémera brincadeira, a blogosfera permite isto, a par de coisa de jeito, também é editado muito lixo. Sei que não lhe interessa saber mas quero-me justificar. Sou semianalfabeto, apenas tenho o ensino primário, por isso os meus contos não são para serem lidos, apenas gostei de os escrever, mas não tenho pretensões de contista). Cheguei ao «Causos do Cruz» através do blogue de Tais Luso de Carvalho o «PORTO DAS CRÓNICAS» onde ela faz um elogio ao seu «O homem suprimido» é pena que não seja distribuído em Portugal, se for, diga-me.

Um abraço
Diamantino