Litoral norte é assim mesmo



Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação
Janeiro de 2011


Até aquele momento não tínhamos reparado na movimentação na água. Ficamos observando em silêncio, antevendo a tragédia. Na areia, pessoas se agrupavam. Parentes e amigos, supus. De repente houve um agito entre os salva-vidas no bote, e deu para ver à distância o mergulhador alavancar um corpo por sobre a borda da embarcação; quatro mãos e braços fortes o puxaram, e uma perna rija ficou apontando o céu enquanto a lancha saia da imobilidade com seu ronco característico e se encaminhava para a ponta da praia, perto de onde estávamos. Muito perto. As pessoas se levantaram, mãos sobre os olhos para proteger do sol. A moça gorda ao nosso lado se colocou em pé dum salto repetindo para a senhora deitada que “Acharam o corpo, mãe, acharam o corpo do cara, mãe, olha lá, mãe!”, e as pessoas se precipitaram enlouquecidas, manada descontrolada, gnus acompanhando o bote, fazendo tremer o chão, jogando areia, quase passando uns sobre os outros, e nossa porção de manjuba, cervejas e cadeiras entornaram na areia pisoteados, pulamos para trás por um triz, arrancando a Michele chorando da esteira a tempo; e agora os bombeiros já traziam o corpo duro que deitaram logo ali, e a multidão já aglomerada, semovente, marchava em desacerto ao redor, cabeceando, faminta "Vem ver, Olavo!" e uma mulher arrastando dois meninos pelos braços com pressa para não perder nada, e frente à desgraça se formou uma assembleia compacta de gentes, intransponível, e os retardatários se acotovelando pelas melhores segundas posições, e os meninos rindo e gritando, "Vem ver o morto, corre!", e um homem com um garotinho a cavalo vinha sorrindo também, atrasado, jegue galopando desajeitado, e quem demorou só mesmo na ponta dos pés ou por alguma fresta, alguns sobre cadeiras, as mãos sobre os ombros dos outros empurrando para baixo, e os xingos e as patas afoitas levantando nuvem e "Não empurra, ô maloqueiro!", mas nada tirava o foco da atração, e os bombeiros no centro da roda, as mãos na cintura, parecia que não iam mesmo tentar nenhuma manobra de salvação, mas de repente um instante de quietude se fez quando um homem perguntou algo e todos ouviram "Não adianta mais, uma hora na água", explicou o bombeiro, abrindo os braços, a expressão de impotência no rosto, "Já está com rigidez cadavérica", completou, e todos entenderam que o morto já estava mesmo morto, rigidez cadavérica, as pessoas repetiam para trás, "rigidez cadavérica, credo!", e uns para os outros iam contando aquilo, e uma moça no celular ligava para a irmã em São Paulo e falava da novidade, enquanto da boca e nariz do rapaz, a cabeça arqueada, o cocoruto na areia, como quem suplica por ar, brotava uma espuma que escorria pela face, um antebraço ligeiramente erguido, a mão espalmada e os dedos em garra, testemunhas da luta travada, os olhos entreabertos úmidos como que com dó e dor, o corpo teso e magro, longo e negro, contrastando com a areia clara, vestindo só as bermudas, “Mas para Jesus não há o impossível” pregava uma mulher; “Nosso Senhor opera aqui agora a sua obra, Senhor-pai-todo-poderoso, em nome de Jesus, Pai, eu ordeno que tu ponhas as tuas mãos sobre esse rapaz!”, rezava a outra mais velha do outro lado da roda, e choravam e outros gritavam, e um policial fardado então chegou de botinas e autoridades afastando os curiosos com os braços  abertos “Vamos dispersar, gente, as crianças não precisam ver isso!”, ele repetia, e alguns recuaram com as crianças nos colos, mas se aproximavam em seguida pelo lado de lá, e um homem explicava para quem o olhasse que “Ainda agorinha ele estava vivo em pé bem ali, ó, e disse pra tia dele que ia atravessar nadando até naquela montanha, tava todo feliz da vida de ter vindo pra praia, que nós somos de Guarulhos, e viemos naquele ônibus azul ali na rua, e vocês vê agora essa desgraça...”, e enquanto isso os bombeiros já punham uma manta aluminizada sobre o morto, escondendo a agonia, os olhos abertos, a espuma seca no nariz, e o menino da barraca, ordenado pela mãe que fritava os peixes e as polentas, oferecia petiscos à audiência reunida na mureta junto aos coqueiros; uns topavam, que é pra distrair a boca, outros não; “Corre ver as coisas no guarda-sol que se não um malandro aproveita a confusão!”, gritou a avó com o moleque que correu obedecer, e um outro grupo já ia se dispersando, falando dum churrasco que fariam mais tarde, comprar carvão e gelo, e se ouviu um homem avisar que ia chover forte, e ficou mesmo escuro o céu logo depois, "Sol ardido que nem tava é chuva mesmo", concordou a velha, e agora ventava frio e o sol sumiu atrás de uma nuvem sólida. “Ô Pai, em nome de Jesus, que tu envie teus anjos aqui e agora que pro senhor não há impossível, ó misericordioso!”. “Vamos desmontar as coisas, Ênio, que lá vem pé-d’água!”, a sogra falou pro genro; “O menino tá comendo areia, Odete, ô, Odete você não olha, Odete!”, gritava o outro apontando o bebê sentado com as mãos metidas na boca; e alguns já iam embora e outros chegavam lamentando o tempo que virou e pegou de azar quem não veio cedo pra praia “Aí, meu Deus, que é aquilo?”, se espantou a mulher ao ver o alumínio ali, assim, no chão, e alguém se adiantou, porta-voz instantâneo, para dar o resumo da tragédia, e agora era uma nova plateia que se postava em volta do alumínio e “Eu vou levantar a pontinha pra ver a cara dele”, disse um moleque pro outro, e já recebeu um chute na canela e os dois saíram correndo e gargalhando e pularam na água, “Que absurdo que não há respeito humano!”, indignou-se a velha crente que ordenava coisas a um Jesus que se recusava a obedecer, e agora a chuva começava pra valer, as gotas gordas sobre os corpos quentes, vermelhos, e as pessoas se precipitando aos blocos para os carros e para debaixo dos guarda-sóis, e os gritinhos das meninas, e o quiosque lotou “Desce mais cerveja!”; “Parece que não tinha nem vinte anos”; “Uma porção de calabresa e fritas, Rui!”, e um dedo se ergueu pedindo caipirinha e um guaraná pro menino aqui, e um outro colocou uma garotinha molhada sentada no balcão, e a moça torceu de lado o cabelo enorme cheio d' água no pé das pessoas e “Bora tomar um banho quente pra não gripar, moleque!”, e a televisão dependurada mostrava os fantasmas da novela das duas horas e a areia ia se escurecendo e se esburacando com a chuva que precipitava grossa,  e o vento frio fazia sacudir as barracas e sensibilizar os corpos ardidos de sol que se abraçavam a si mesmos, e alguém comentou que parecia ser sete da noite e não duas da tarde, e um velho com pinta de sapo e barriga de bola tranquilizava um casal dizendo que logo, logo o sol voltaria, que litoral norte é assim mesmo.


Cesar Cruz
Dez 2010
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15 comentários:

Rodrigo de Moraes disse...

cara fui lendo e me agonizando junto com essa escrita frenética. texto triste, real e pesado

DEVA disse...

Que cena triste César. Desculpa, é estranho comentar. Você narrou tão bem, consegui me sentir no meio da confusão. É triste como a morte é uma coisa tão banal. Tão próxima, ali do lado, sempre um passo a frente da gente por mais que a gente corra dela.
Mais difícil deve ser mesmo para nós que ficamos e temos de lidar com a perda. Acho que a morte é algo para qual nunca estaremos preparados.
Só consigo ter esperança que seja uma coisa boa, já que é algo tão natural. A nossa única certeza.

Tais Luso de Carvalho disse...

rsrsr, Ô Cesar, não gostaria de rir desta tragédia... Li numa ansiedade que não sei explicar. Porém a sua maneira de contar as coisas...'Não empurra, ô maloqueiro!...' e outras tantas 'tiradas' destas, confesso que tive de rir.
Porém estas tragédias de afogamentos, destas criaturas afoitas num mar sempre rebelda - e aqui temos pra dar e vender -, são noticiosos diários nas mídias. Por mais que tenha sava-vidas, a desgraça acontece.
A sua narrativa foi muito feliz e fiel. Os papos, o bisbilhotar a cena de salvamento, as pessoas empilhadas pela curiosidade e outras tocando a vida no boteco... Nossa, é isso e mais isso! Como sempre, Cesar, suas crônicas têm uma qualidade de 'primeira'.
Quero aproveitar para desejar a você e sua família um Natal muito feliz, alegre e com muito amor. Para o próximo ano, que venham outros livros e todos os sonhos de vocês se realizem.
Deixo beijos pra você e para as 'alegrias do Cruz', aquela fotinho lá embaixo!
tais luso

Cacá - José Cláudio disse...

Que horror, Saramago, ops, César. Sua narrativa acompanhou o ritmo das cenas de modo que ficou com um aspecto da relidade ainda mais eletrizante. Parabéns pela sensibilidade literária. Abração. paz e bem.

Therezinha Eunice disse...

oi, sobrinho e muito triste, mas na praia e assim mesmo.

estamos esperando vocês.

beijos

tia

Anônimo disse...

show
lembra aquela sua narrativa do cara do ônibus que saiu pra trabalhar, dia normal e, de repente sucumbe, deixando família, prestação a pagar etc, ou seja, do nada,tudo normal, e quando menos se espera volta morto
ah! aprendi mais uma, "semovente" é da hora heim...
abraços e boas festas a Vc, família e todos daqui, que de alguma forma são ligados, pois, direta ou indiretamente, todos nós, estamos conectados.
xara - ipiranga - sp-sp

Edson Duarte disse...

Cesar, passado para lhe desejar um ótimo dia de Natal com muita paz carinho e amor. Um susper beijo na Familia em especial na linda Michele!!

Sobre sua narrativa é muito boa e triste... esse Natal, aqui tivemos noticias tristez também, daquelas que vão marcar uma familia para sempre...

Um forte abraço!!

Vanessa Cruz disse...

Cé,

Infelizmente tivemos que presenciar essa desgraça.
O que mais me chocou foi que muitas das pessoas que estavam ali nem percebiam que aquilo não era somente um corpo para ser olhado e comentado, mas um menino, um jovenzinho cheio de vida que deveria ter planos para o futuro, uma maezinha que o esperava chegar do trabalho todos os dias e que naquele momento não só a vida dele acabou e sim a de quem o amava, para quem nunca mais nada seria como antes.

Me chocou muito ver tantas pessoas em cima daquele rapaz, mas não para tentar ajudar, mas para rir, chamá-lo de "otário que nao sabia nadar" (ouvi dizerem exatamente isso)

As pessoas deveriam procurar se colocar no lugar das outras pelo menos por um minuto. Não respeitaram nem uma família que estava sofrendo tanto.

Sei que isso você está cansado de ouvir, pois falamos disso constantemente, mas sempre que me deparo com essas coisas me sinto indignada, de mãos atadas frente à estupidez humana.

Beijos,
Vanessa

José María Souza Costa disse...

Que 2011 seja de sucesso a voce
Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo Agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Se tiveres tuiter, e desejar, é só deixar que agente segue.
Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

assistanto disse...

Nossa que triste!! Não sei se fico mais triste com a morte ou com a reação da piara...
Eu até achei que fosse um conto, mas infelizmente é real. Quanta falta de amor e respeito ao próximo...Fico triste em ver que no Brasil e no mundo uma vida vale tão pouco....
Nessas horas sempre lembro da mãe, pai...
Triste, mas muito bem escrito. Você é realmente um poeta que faz com que a língua portuguesa seja realmente uma poesia com muitos significados, desta vez triste...

Te desejo um feliz 2011 com muita paz!

Abraço!

Pedro Luso de Carvalho disse...

Cesar,

Quem ler sua crônica apenas interessado na história que você conta com maestria, certamente gostará dela, mas pode passar desapercebido para o leitor apressado todo o trabalho que certamente lhe custou para criar esse ambiente singular nessa praia e dar vida a esses frequentadores tão diferentes uns dos outros e ao mesmo tempo todos tão parecidos na sua curiosidade, no descaso para com o sofrimento alheio, no descaso com a morte que não lhes comove e que é vista como sendo uma coisa banal, para ser esquecida no primeiro gole da caipirinha. Este seu trabalho, amigo Cesar, está mesmo muito bom. Isso que estamos só estamos no início do ano...

Grande abraço,
Pedro.

Henrique L. disse...

O detalhe é que num momento ele é um rapaz morto, logo mais passa a ser o "alumínio". Magistral. Reproduz com perfeição o individualismo, o imediatismo e a natureza humano. Tudo passa para esses humanos. Até as pessoas. E rápido.

abraços
Henrique

Vitor disse...

Olá Cesar,
Você não me conhece, mais só para deixar registrado, sou primo do G. ele me deu seu livro (O Homem Suprimido) de presente ano passado, li ele todo e gostei muito, como disseram algumas pessoas nos comentários anteriores, sua forma de narrar é muito expressiva e nos leva diretamente e exatamente ao cenário que você descreve, nós sentimos no meio da confusão! Parabéns, vou acompanhar seu blog. Abraço forte.

Anônimo disse...

Parece Saramago cantando "Tá lá um corpo estendido no chão...!"
Muito bom e aflitivo, do jeito que eu gosto.
Beijos, Yeah

stheffania disse...

Cada vez que vou lendo seu blog , viro cada vez mais sua fã , muito bom , muito bom mesmo descreve exatamente como acontece , já cansei de ver isso acontecer é uma realidade triste , sem respeito nenhum pela vítima , só pura curiosidade de ver a triste cena que se passou.