Os guerreiros pó-de-arroz


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Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Abril de 2009.
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Crônica publica na Gazeta do Ipiranga*
Abril de 2009.

Crônica publicada no portal Mundo Mundano*
Janeiro de 2011.


Crônica publicada no livro A IDADE DO VEXAME & Outras Histórias
Cesar Cruz - Pontes 2011
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Agora aguenta, meu chapa. Lá vêm eles anunciando o BBB número trezentos e vinte e sete. E pode se preparar: logo, logo começará aquela ladainha “Os nossos guerreiros isso...”, “Os nossos guerreiros aquilo...”. Todo santo ano é a mesma coisa. O BBB mal é anunciado e todos aqueles filhinhos de papai que nunca na vida pegaram no batente, transformam-se em guerreiros instantâneos. Tem cabimento? Um bando de rosadinhos mantidos a Yakult, sarados e bronzeados na Riviera de São Lourenço, em Ipanema ou nas praias do Caribe, dentinhos clareados a laser, que estudaram em colégios grã-finos, a maioria já conheceu meio mundo a passeio pago pelo pai, e agora, só porque ficarão alguns dias sem danoninho, IPad e facebook, são prontamente elevados à categoria de Grandes Guerreiros! E a gente tem que aturar isso...

Quando vejo esses guerreiros de biscuit no Big Brother, me logo vêm à mente os verdadeiros guerreiros que conheço. São pobres, nada sarados, nada de estudo, nem viagens, nem dentes brancos... (Aliás, a maioria nem dentes tem).

Quando pego a estrada em direção ao interior lá estão eles sob o Sol. Desde cedo, com uma enxada nas mãos grossas, carpem o mato. Enquanto uns roçam os outros vêm atrás recolhendo o cortado em enormes sacos plásticos. Alguns seguram uma tela de proteção para que não voe nem um gravetinho nos carros dos bacanas que passam em alta velocidade. Geralmente mantêm um pano amarrado à cabeça, espécie de burca, para se protegerem dos raios causticantes. De tempos em tempos um caminhão de caçamba aberta os recolhe como gado, largando-os em outro ponto, quilômetros adiante. E a manhã vai passando, e o Sol a pino, sólido e implacável, esturricando-lhes as carcaças subnutridas, bovinas. O trabalho é duro, severo, assim como o patrão, de quem nunca verão sequer a cara. E assim trabalham, de sol a sol, anos a fio, para levar para casa ao final de cada mês um amargo salário mínimo.

Quando vejo esses nossos guerreiros-BBB, lembro-me dos países da África que estão em guerra civil há décadas, dos pais de família que tiveram braços decepados, das crianças-soldados, dos haitianos que vivem como ratos em meio ao lixo e à peste; me vem à mente os idosos brasileiros abandonados pelo Governo, e que precisam mendigar o pão diário no semáforo, ou o remédio caro, alguns com a receita na mão.

Lembro-me dos mais de cem mil iraquianos mortos numa guerra absurda, das mulheres paquistanesas que são vítimas mudas do estupro e da mutilação; lembro-me das crianças regularmente espancadas, mantidas em regime de escravidão; dos mineradores que morrem jovens por aspirar gases nocivos nas minas subterrâneas.

Lembro-me das vítimas da violência nas grandes cidades, dos trabalhadores brasileiros que pegam a primeira das seis conduções diárias às 4h da matina lá no cafundó.

Lembro-me, ainda, dos que choram de fome no sertão, dos que moram em palafitas e bebem da mesma água que lhes serve de esgoto, das mães que penam ao lado do leito de um filho irremediavelmente doente, dos que se arrastam pelos corredores de um hospital, dos que vivem numa cadeira de rodas, dos cegos...

Fica a minha proposta à Globo para que, já nessa nova edição de seu BBB-pequeno-burguês, crie uma programação de aventuras realmente radicais, para que seus vikings de pão-de-ló e seu apresentador playboy aprendam, de uma vez por todas, quem são de fato os guerreiros neste mundo.

Algumas sugestões: visita ao Hospital de Queimados; manhã de bronzeamento no canteiro da Fernão Dias; trilha urbana no Haiti; trabalho voluntário numa instituição para crianças com múltiplas deficiências...

Quem tiver outras ideias para melhor preparar aqueles nossos poderosos guerreiros, escreva-me que mando para a Globo.
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Cesar Cruz
Abril 2009
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* créditos dos parceiros na barra à direita.
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27 comentários:

Anônimo disse...

Gostei!

Vagner
29.9.08

nota do autor: comentário feito na versão anterior, em setembro de 2008.

Anônimo disse...

Oi César>.

A d o r e i ..... essa.

Esses programas são mesmo horríveis, uma glorificação de mediocridades.

Sua crônica está ótima, está cada vez melhor !

Beijos para Vanessa e você.

Carolie.
29.9.08

nota do autor: comentário feito na versão anterior, em setembro de 2008.

Anônimo disse...

Cesar,

Muito, muito boa.

1 bj
Gondim
29.9.08

nota do autor: comentário feito na versão anterior, em setembro de 2008.

Anônimo disse...

Opa! Essa é recondicionada! arárá! te peguei escritor. Gostava da versão do ano passado que vc falava do Roberto Carlos e do gordo de traseirão rechonchudo! Cade?

abço, Leandro Pena (o magrão da academia)

Anônimo disse...

Que fácil de ler essa sua crônica! Que ritmo bacana vc deu à ela, tenho uma preferência por esse estilo de narrativa, assim como essa sua. Entre uma opinião e outra, frases mais secas e curtas... um espaço dado ao leitor, pra numa fração de segundos, respirar , pensar e refletir... não sei se foi proposital, mas o efeito foi esse. Gostei muito!

HAHAHAHAHAHA, a sua Nenem, a Michele tá uma delícia assim, na base do desenho!!! adorei!

bjos!
Silvia

Efigênia Coutinho disse...

Quando vejo esses guerreiros de biscuit na TV, vêm-me instantaneamente à mente os verdadeiros guerreiros que conheço. São pobres, nada sarados, nada de estudo, nem viagens, nem dentes brancos... (Aliás, poucos têm dentes na boca).

BRAVO!!!
Gostei de ler hoje você,
e deixo uma
FELIZ PÁSCOA 2009
Efigênia Coutinho

Anônimo disse...

sobre o BBB:

Cé,,,é só entretenimento,,,na
minha opinião, ñ faz bem ,nem mal a ninguém...
bjin

Anônimo disse...

É... Com razão... gueirros que nada!

haha

Beijos Mara Ruzza

Anônimo disse...

Todos o santo dia saio de casa as 7 e meia. Pontualmente. Moro na rua do Manifesto há setescentos e cinqüenta anos. Por aí você pode imaginar que sou bem velho. E sou mesmo, jovem Cruz.
Bem. Saio de casa as 7 e meia e subo a tranqüila rua 2 de julho. Cruzo a Nazaré e sigo em direção a Ricardo Jafet. Somos eu e meus filhos, sócios em uma padaria ali nas imediações da Saúde. Isso já há trezentos e vinte anos. Uma família de Matusaléns, como você pode ver. Aqui no Ipiranga somos todos assim, muiiito velhos.
Estou lhe contando isso tudo, pois quero te dizer que religiosamente toda a sexta, alongo o meu caminho propositalmente e entro na Bom Pastor à direita, para passar em frente a Gazeta e pegar um exemplar desse maravilhoso periódico onde você escreve. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo desisti desse jornal que nada mais é do que um Rotary Club de papel. Ou uma revista Caras, para você que é mais jovem. Não tenho mais paciência e nem idade para esses momentos de vaidade... Porem de uns tempos pra cá, tenho voltado a buscar o nosso jornal, já que agora eles arrumaram um escritor tão competente e divertido como você. Parabéns em nome de todos os meus que te lêem e dão junto com este velho aqui, boas risadas.

Abraços apertados
Jorge Ramirez

Anônimo disse...

Cesar, gostaria de parabeniza-los pela excelente cronica postada por Você no Gazeta do Ipiranga "Os guerreiros pó-de-arroz", pois em meio de uma infinidade de anúncios e propagandas (aliás diga-se de passagem aceitáveis para manutenção do editorial e atendimento das necessidades da comunidade local) e matérias de interesse distorcido. É esse tipo de conteúdo que ainda nos incentiva e dá esperança de continuar folheando os jornais fazendo-nos a continuar acreditando que nem tudo está perdido como parece ser. Mais uma vez, parabéns! Continue assim e parabéns também ao GI que lhe cedeu espaçõ para tal.
"Cesar", continue com sua "Cruz" lembrando-nos de outras cruzes maiores, que nesse seu calvário com toda certeza colherá bons frutos nos alertando como verdadeiramente as coisas são e o que devemos ser. - mario.

Anônimo disse...

Cesar que linda que esta a Michele!
beijos
Tia

Anônimo disse...

Essa crônica é dolorosamente verdadeira, Cruz. Nada a complementar. Parabenizo-lhe com ênfase! Brilhante.
Walter J., Vila Mariana

Poemas e Cotidiano disse...

Querido Cesar,
Ha tantas coisas que podemos fazer pela humanidade, nao eh mesmo? Pedacinhos do nosso tempo, dedicados a pessoas que precisam, e eh tao facil ajudar.
Da uma tristeza em ver tanta coisa, pelo menos se fizermos uma pequena parte, ja eh o suficiente.
Um beijo meu amigo
MARY

Neylinha disse...

Apaixonante sua maneira de escrever, adorei!! Parabéns!

Neylinha disse...

Oieee Cesar, li seu texto sobre Yoda e Sushi, dei muitas risadas, seu texto esta hilário. So quem tem gatos sabe o quanto eles são diferentes e possuem muita personalidade. Eu tenho tres,imaginou né?
Fiquei muito tempo lendo seus textos, sobre o mel...nossa que forte! ADOREI!!
valeu pela visita, meu blog é bem simples, mas tudo que posto é de coração aberto.
beijocas!!
Ps: Michele é linda! parabéns!

Gabriela Gomes disse...

Olá, Cesar!

Obrigada pelo comentário lá no Blog. Realmente, tenho ainda um tanto que aprender. Considerando que ainda tô nos 25 anos de vida, vemos ver o que consigo logo mais.

Gosto dos 3 autores que me indicaste. Coincidentemente estou lendo Nelson Rodrigues - O óbvio ululante. De qualquer forma, obrigada. ;)

E boa tua crônica sobre os verdadeiros heróis deste vasto mundo. Parabéns!

Um abraço.

Anônimo disse...

César Cruz

Antes de mais nada, parabéns pelo belo trabalho que vc tem feito, e pelas boas crônicas que tem posto no jornal do cambuci. Essa dos guerreiros é brilhante, no momento em que mostra com clareza como os valores desta geração estão deturpados.
Para uma juventude que não se esforça nem para falar corretamente, como saberá avaliar méritos? Para eles, Guerreiros são os brothers que ficam sem a gemada do avó e sem televisão por dois meses. Acertou na mosca!

Saudações.
Amilton Cunha
Vila Monumento

Anônimo disse...

Tive a honra de conhecer o César por este artigo, vixi... falar o que? levantei os olhos pro céu e falei, obrigado Pai, nem tudo tá perdido, falou tudo... continue assim Cesar.

xara
ipiranga

Anônimo disse...

Realmente vc tem razão, nossos heróis estão nas roças,nos tanques,nas feiras no chão das fábricas,nas salas de aula......como podem oferecer milhões a esses folgados e uns míseros dois, três ou quatro mil reais aos professores, soldados, pesquisadores,????? os valores estão invertidos....se eu fosse mãe de um deles estaria com muita vergonha......
Parabéns pelo texto
Gedalva

Maria Welsh Carboni disse...

BBB
Caro Sr. Cesar Cruz
Adoro seus artigos! Leio-os várias vezes, mas este último extrapolou aos demais.
Isto também porque sou uma das pessoas que não aceita o BBB. Mal posso acreditar, mas há gosto para tudo. Não consigo aceitar o “dolce fa niente” dos candidatos, que nada fazem, nada criam, com uma postura de muito mau gosto, péssima linguagem, enfim nada transmitem de bom.
Eu escuto seu grito sim e me orgulho de participar do eco que ele produz. E tem mais, pode acreditar sim, que sua solidão não existe porque quantas pessoas como eu, se deliciam com seus artigos.

Aquele abraço.
Maria Welsh Carboni

Eloisa disse...

Além da miséria toda que faz parte da maioria dos verdadeiros guerreiros e heróis no mundo todo, ainda existe uma miséria maior, mais contundente, mais arrasadora de todas: a miséria cultural. A globo faz questão de alimentar o maior monstro do planeta - o baixo nível cultural - que transforma seres-humanos em espectadores desse tipo de barbárie, transforma seres pensantes em míseros alienados. São esses mesmos guerreiros brasileiros que, por imposição e falta de alternativa, dão audiência para esse espetáculo de utopia. Um povo sem cultura e sem informação só pode resultar nessa condição de subjugação total. O povo aplaude e pede bis.....lamentável.... A minha"utopia" é outra: eu creio no fim desse sistema.

Eloisa

DEVA disse...

Haha! Adorei!

A crônica escrita em 2009 está atualíssima.

Queria ter nascido em uma época em que as pessoas ficassem famosas pelos seus feitos.

Não por tirar férias numa mansão de luxo e mostrar seus rostinhos bonitos e corpinhos à espera da Playboy em festas e banhos de piscina.

Esse ano, deveriam utilizar os ‘guerreiros’ na construção de casas populares. A casa mais famosa do Brasil deveria ficar à disposição dos desabrigados pelas enchentes.

Bjs
Deva

Personal Studio 5 disse...

Grande Cesar!

Mais um texto bem bacana! Levanta o que todos sabem, mas teimam em fechar os olhos e não se movem para ajudar ninguém.
Tomara que esse texto desperte muita e muita gente que está "dormindo"...

Falando em despertar, criei um blog falando de saúde, atividade física e, é claro, exercício físico!

Quando tiver um tempinho dê uma passada:
personalstudio5.blogspot.com

Grande abraço, ótima semana!

Tais Luso de Carvalho disse...

Cesar, estes heróis do Bial são gente fina! Este BBB é algo que não tem definição, uma coisa que não é coisa nenhuma. 

Mas como nosso país importa quase tudo de fora, trouxe este modelito, fabuloso, também. 
Mas assiste quem quer!

Pena que são coisas assim, de tamanho quilate, que oferecem a um povo que precisaria de cultura, de educação, de livros, de arte... Pra isso não há dinheiro; não há vontade. Tá boa a educação, vai de vento em popa.

E esse dinheirão do prêmio ajudaria muita gente necessitada. Mas, ninguém vê, não dá voto, não dá ibope. Enfim, Cesar, são estas coisas que o canal considerado mais poderoso oferece à nação.

Dá pra lutar contra isso?
Veja só o quadro atual: gente morrendo, outros perdendo parentes nestas enchentes, mais a casa inteira, e por outro lado esse vazio absurdo que assistimos num canal que tinha, como obrigação, dar ao povo não o que ele quer, mas o que ele precisa.

Beijos
Tais Luso

Pedro Luso de Carvalho disse...

Cesar,

Não que tua crônica necessite de qualquer tipo de reforço para que tua crítica social tenha o peso que tem, mas apenas para dar minha singela contribuição ao que você escreveu sobre essa terrível discrepância de classes no Brasil, que parece não ter fim: acho que a Globo deveria exigir que cada candidato ao BBB tivesse que ler e decorar o VIDAS SÊCAS, do célebre Gaciliano Ramos, para que, antes de fazerem o que fazem, não desconhecer os tristes fatos narrados nesse importante romance, tais como o sofrimento pela sede, pela fome, pela doença, e, também, pelas atitudes heróicas desses verdadeiros lutadores pela sobrevivência, pela grandeza desses homens, dessas mulheres e dessas crianças do nordeste brasileiro.

Grande abraço,
Pedro.

Gabriel Fernandes disse...

Quer saber o que achei da sua crônica? Entre no meu blogue e leia o ensaio "Só é pobre quem quer".
Abraço

MAURICIO DE SOUSA disse...

BOM COMO CESAR FOI MUITO BOA A SUA OBSERVAÇÃO E COM CERTEZA TEM MUITAS COISAS QUE ESTA EMISSORA QUE É QUASE SEM CONTEÚDO OU MELHOR MUITO POUCO CONTEÚDO PODERIA FAZER DE BOM PELO NOSSO PAIS TIPO BOAS MATÉRIAS BONS PROGRAMAS MAIS COM CONTEÚDO E NÃO UM PROGRAMA SEM NOÇÃO COMO ESTE BBB QUE É UMA PORCARIA SEM CONTEÚDO SEM NOÇÃO E SEM MORAL ALGUMA UM ENORME ABRAÇO !