A insustentável leveza da verdade



Relactividade - M.C. Escher - 1952


Crônica publicada no Jornal do Cambuci e no portal Mundo Mundano.
Março 2011

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Suponha que hoje, ao chegar em casa, você tenha que explicar pra sua mulher que esse batom vermelho, aí na gola da sua camisa, desgraçadamente branca, que você já tentou loucamente tirar na pia do banheiro da firma e o maldito não saiu de jeito nenhum, era de uma moça (feia, por sinal) que tropicou na escada do metrô e calhou de ir dar com o beiço, em cheio, no seu pescoço.

Como contar a ela essa in-crível verdade? Seria melhor simular um sequestro e desaparecer por 3 dias? (e voltar sem camisa, claro).

Suponha que você tenha que ir a um batizado no domingo pela manhã, às 9h, justamente na hora do seu sagrado futebol society. Terrível. Além de perder o jogo você terá que se meter num sufocante terno alugado a preço de ouro. Tudo de ruim. Mas, como se trata do batizado do filho de um amigão, você está decidido a comparecer.

Ocorre que, bem naquela madrugada, a sua bisavó de 95 anos, que já estava nas últimas havia 3 anos, resolve morrer. A família troca telefonemas antes do raiar do Sol e, às 5h da matina, você já está saindo de casa com um monte de atribuições: verificar a quantas anda o jazigo da família, comprar caixão, marcar velório etc.

E o que dizer pro amigo na segunda-feira pela manhã, que não pôde ir porque sua bisavó morreu? Pô, cara, conta outra!

É... Tudo seria mais fácil se o mundo fosse justo, se verdade e mentira não fossem conceitos relativos, se as pessoas fossem honestas e os políticos interessados pelo povo. Mas, mergulhados neste imenso oceano do embuste, como exigiremos que o outro acredite numa verdade que nasceu com a cara deslavada da mentira?

Já deve ter acontecido com você coisas assim. Comigo aconteceu.


Naquela manhã, e isso já faz mais de 15 anos, eu finalmente iria honrar o combinado e fazer a visita ao cliente. O detalhe é que o cara já estava azedo, pois ele tinha pressa eu já havia remarcado o encontro duas vezes, sei lá por que motivos. Na última conversa por telefone ele foi categórico: “Cesar, te espero amanhã aqui às 10h, em ponto, por favor.”

Então lá estava eu, dirigindo em direção a Santo Amaro. Iria chegar na hora certinha. Maravilha! Eis que, na Robert Kennedy, comecei a sentir o carro puxar forte para um lado. Pneu furado. Subi numa calçada e olhei o relógio, já fazendo as contas. Miseravelmente eu iria me atrasar... (Às vezes a vida pode ser muito dura).

Troquei o pneu que nem um louco. Joguei pneu furado, macaco e chave de rodas, tudo no porta-malas, de qualquer jeito. Eu estava mesmo ferrado. Foi então que meus olhos avistaram um mercadinho na outra calçada. E me veio a grande idéia!


Eram 10h20 quando eu toquei o interfone do sobrado da empresa. Por milagre o sujeito me recebeu, mas seu olhar para mim era o de um homem que surpreende uma barata na pia da cozinha. Para piorar eu ainda quis me meter a sincero e, com um sorriso idiota que logo tratei de engolir, contei-lhe que o pneu furou e espalmei as mãos ainda sujas por cima da mesa pra ele ver. Vexame dos vexames. Recebi um olhar de desprezo e o silêncio. Pensando bem, qualquer malandro poderia sujar as mãos para contar uma história como aquela.

Assim que acabamos a breve reunião, uma conversa lacônica, fria e sem desvios; eu, psicologicamente humilhado, pronto para ir embora com o rabo entre as pernas, me levantei e falei:

– O senhor me acompanharia até o carro? Tenho algo para lhe dar que esqueci de pegar.

Havia chegado a hora de mostrar o pau que matou a cobra. Quando chegamos perguntei, já destrancando o porta-malas:

– O senhor gosta de vinho?

Ele fez que sim com a cabeça e, diante do seu olhar incrédulo, levantei a tampa e peguei, ajeitado estrategicamente bem em cima do pneu furado, ao lado de chave de rodas, do pano sujo de graxa e do triângulo de segurança, um reluzente pacote.

– Espero que o senhor aprecie – eu disse, entregando-lhe a garrafa de vinho lindamente embrulhada em um discreto papel prateado com um pequeno laço de cetim negro.

Diante de um homem repentinamente desorientado e gaguejante, que parecia mais baixo, curvado, entrei no carro e parti, me sentindo como o jogador que faz o gol aos 44 minutos do segundo tempo, no jogo da final da Copa do Mundo.

Golpe de mestre!

Muito bem... Agora que você já aprendeu como agir quando tiver nas mãos uma verdade com cara de mentira, tenho que ser sincero e contar a você que... Menti.

Infelizmente, o brilhante truque do vinho só me ocorreu muitos, muitos anos depois. Uma pena.
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Cesar Cruz
Março 2011
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15 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Pô, César eu já estava aqui que nem um torcedor aflito e querendo comemorar o seu gol... hahahaha! Muito boa, amigo! Abraço grande. paz e bem.

M. Sueli Gallacci disse...

Cesar, vc é genial!!!

Suas mentiras têm cara de verdade, quem te desacreditaria? rsrs

Sempre achei que tinha um sexto sentido para "pegar" um mentiroso. Depois de ler essa crônica (belíssima, inteligente!) acho que vou mudar os meus conceitos rsrs.

Um grande abraço!

DEVA disse...

Adorei!
Pena que a solução mais que brilhante só veio depois.
É engraçado isso, também já me aconteceu algumas vezes, a verdade sair com cara de desculpa esfarrapada. Na nossa sociedade são tão comuns as pequenas mentiras que não adianta ser verdade, tem que parecer.
Lembrei da história do cara que perde a aliança e para não passar por mentiroso, diz para a mulher que a traiu. A mulher o perdoa pela sinceridade.
Ótima crônica Cesar!
Depois passo para ler mais...

Anônimo disse...

Hahahahahahhaahhahaha!
Pelo menos se acontecer novamente, já sabe!!

Beijo Mara Ruzza

Anônimo disse...

sei não, acho que a verdade mentirosa ou a mentira verdadeira fica mais barato que o "jeitinho" autêntico.

abraços - xara - ipiranga - sp-sp

Paula: pesponteando disse...

Cesar,

Gosto de como suas narrativas são contruida. Vou naquela de leitora-vidente, tentando adinhar o futuro, mas vc sempre consegue me surpreender com algo imprevisível e inteligente.
Vc está ficando craque em temas necessários para serem trabalhados na literatura e consequentemente repensados socialmente: no post anterior a morte e neste a nossa fé no homem (e em suas verdades e mentiras). ao trablhar a morte, vc toca numa ferida do homem contemporâneo que é seu desejo de se tornar etterno, meio q uma espécie de deuses. Outra questão tbm contemporanea é a nossa condição para lidar, em tempos de violencia e corrupção, de individualismo e/ou egocentrismo, em q apenas os própios interesses estão em questão, com a capacidade humana de mentir e dizer a verdade, o q põe na berlinda nossa capacidade de credulidade naquilo q o outro diz ou faz.
parabés....

bjs

therezinha disse...

Cesar gostei, genial.

tia

Percival Deimann disse...

Caro Cesar:
Sua habilidade é apontar o que raramente olhamos, nossas idiossincrasias e nos deixar perplexos.
Parar o tempo para revisões e reflexões tão em falta nesse mundo atribulado.
Mas neste texto sentí uma pontada de traição, um embuste, uma pegadinha.
Perdí meu tempo... bullshit
Mas como sou teu fã de carteirinha e só te faço elogios, me permití um momento de crítica mordaz.
Abração
Percival Deimann

Henrique disse...

Muito bom! E o seu golpe de mestre, relatado com requintes de real perfeição, como se tivesse mesmo ocorrido, mas no fim "revelado sinceramente como sendo mentira", faz o leitor entender que, fato concreto, a verdade é mesmo leve e insustentável, um grande paradoxo!

abço
Henrique

Regina Tristão disse...

César

Essa mentira com cara de verdade do final, faz o paralelo perfeito com a reflexão do título e da crônica e revela que nem tudo é o que parece ser nesta nossa vida.

Saudações,
Regina

Anônimo disse...

Cesinha, a verdade prevalecerá, não importa se a outra parte acreditou ou não. Quando a gente aprende a mentir bem, tão bem, que até a gente mesmo acredita na própria mentira, aí é que o bicho pega. No caso em pauta, eu pegava o dito cujo cliente, na hora "H", arrebentava o crânio dele com a chave-de-roda, enfiava no porta-malas, e jogava ele na ponte que partiu.

A.

Mari disse...

Veja esse clip do bon jovi que sensacional, é bem isso da sua crônica!

http://www.youtube.com/watch?v=Q0Lg_ISGGW4

bjs, Mariana (abcp)

Paulo Sergio disse...

Hahaha! Cara, você é muito bom! Parabéns!

Andradarte disse...

Se eu mentisse assim....jurava que era verdade...
Eu próprio ficava convencido

Tais Luso disse...

Oi, Cesar, mas quem de nós não passa por isso e que se mete em saia-justa? Acho que isso ocorre com mais frequência do que imaginamos! Certas pessoas são inconvenientes, insistentes e chatas, então... Merecem, né?! E como não podemos ir a tudo, estar com todos, chegar na hora marcada – mesmo com congestionamentos e outros imprevistos, elas não aceitarão – só nos resta mentir. Como não acreditariam na verdade, então tanto fez como tanto faz.

Você abordou o nosso cotidiano verdadeiro, mas eu acreditei no vinho até o final!! rsrs

beijos
Tais Luso