Ditinho Joana


Artigo publicado no Jornal do Cambuci & Aclimação
Artigo publicado no Portal Mundo Mundano
Julho 2011.
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m minhas andanças e paranças, nesses já quase quarenta e um setembros que somo, poucas vezes estive em uma localidade tão simpática quanto São Bento do Sapucaí, na região da Serra da Mantiqueira, Estado de São Paulo, logo ali, relando o sul de Minas. Lugar frio, montanhoso, calmo e hospitaleiro.

O amigo Vagner, que me emprestou seu sítio por aqueles dias, foi firme: Não deixe de visitar o ateliê do Ditinho Joana!

O Ditinho Joana eu já conhecia, de nome e fama. Faltava mesmo era conhecê-lo pessoalmente, e a sua obra. E foi com grande surpresa que me vi dentro do seu singelo ateliê, magnetizado diante da simplicidade imponente da escultura do sapateiro, a primeira com que me deparei logo à entrada.

O Sapateiro

Eis que surgiu seu Ditinho, homem pequeno da tez caramelo, parecendo ele próprio esculpido em madeira de lei, um sorriso doce e discreto talhado no rosto, que nos cumprimentou com afetuosidade e já foi nos contando as histórias das obras (sim, cada obra tem uma história, os personagens fazem coisas, têm intenções, pensamentos...) em voz serena, uníssono delicioso e calmante, enquanto nos levava pelas salinhas do ateliê, com paciência e amor.

Para esculpir, seu Ditinho usa formão e martelo, e nada mais. Faz assim há 35 anos, e é só com isso que trabalha. O resto é talento. Um talento que chega a ofender as misérias da gente. Diante de suas esculturas tenho que confessar que me senti um bicho miúdo, um rude, bruto e primitivo, um filho desgraçado da pequenez humana.

Do Jacarandá, do Cedro e de outras madeiras nobres (sempre árvores já mortas e tombadas, que ele compra dos donos dos sítios e chácaras nas imediações), seu Ditinho extrai figuras humanas esplêndidas, homens do campo, trabalhadores rurais, caipiras montando cavalos, homens em boleias de caminhão, carpindo roça, arando a terra, girando moinho, serrando toras, colhendo uvas, empunhando enxada... São imagens tocantes e ternas, como a mulher embuchada, com o olhar resignado, a lata d’água na cabeça e a criança no colo; ou o velho sentado no degrau da porta, fumando cigarro de palha, aos seus pés um menino jogando bolinhas de gude no chão de terra batida.


Serraria


A mesma filosofia que inspira seu Ditinho a não derrubar árvores, se reflete na sensibilidade humana que ele transpira, e que parece dar verdadeiro espírito às suas esculturas. E foi com essa filosofia que seu Ditinho se dedicou, meses a fio, a esculpir uma cadeira de rodas em tamanho real, com um menino deficiente sobre ela; uma cadeira movida por muitas, inúmeras mãos, representação de cada uma das generosas mãos que anonimamente se estendem na direção do necessitado.

Essa espetacular obra ele ofereceu à AACD, que chegou a recusar o presente, a princípio, por não ter visto do que se tratava.


Foto tirada de uma foto, a obra
hoje está na AACD em SP

Fiquei com a cara metida nas peças, espiando sob o carro de boi, por entre as pernas dos lavradores, dentro da prateleira do sapateiro e nas reentrâncias do caminhãozinho rural do capataz, e me perguntando: Como é possível que um homem consiga esculpi-las, em monoblocos sólidos de madeira dura, sem emendas, e com tão esmerados e mínimos detalhes, rebaixos e profundidades?

Em seu brutal silêncio, as obras nada me explicaram.

Então me ocorreu que, na verdade, aquelas esculturas já existiam dentro dos troncos das árvores, e o artesão, sabendo que elas estavam lá, aprisionadas, só fez limpar os excessos trazendo-as à luz. Contei essa minha impressão ao seu Ditinho que riu; “é isso mesmo!”, disse ele, aparentemente gostando da imagem.

A colheita e a produção do vinho

Partimos levando um exemplar da famosa botinha, que agora repousa sobre nosso criado-mudo no quarto de casa. A botinha é a obra símbolo do trabalho do seu Ditinho, sua marca registrada.

Trouxemos para São Paulo, ainda, as palavras daquele nosso novo amigo “Quando passarem pela cidade venham aqui, que é pra gente conversar mais!”.

A botinha (essa já está lá em casa)


A Botinha

É nossa caminhada na vida
Subi e desci
Andei depressa e devagar
Cansei e descansei
Entristeci e me alegrei
E assim, sempre caminhei
Hoje estou gasta
E cheia de marcas
Mas com certeza, valeu a pena.

Ditinho Joana - artista brasileiro


Cesar Cruz
Julho 2011
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7 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Cesar. Isso é realmente obra de enteu. Eu morei na região de Ouro Preto/Mariana muitos anos e ali é um celeiro de muitos artistas plasticos, pintores e escultores, tanto em pedra sabão como em madeira. É cada obra mais linda do que outra. O curioso é que a maioria faz um sucesso tremendo fora do Brasil e são pouquíssimo valorizados aqui. Lá há uma verdadeira indústria de atravessadores que vem comprar as obras a preço de banana para exportar. Poucos são os que conseguem uma independência. Abraços. Paz e bem.

Vagner Barbosa disse...

Legal Cesar,

Você pegou o espirito do seu Ditinho. Vida longa a este brasileiro!

VB

Anônimo disse...

MAGNIFICO

com a mesma maestria que tem seu Ditinho, conseguiu descreve-lo a altura, muito bom, mais uma vez parabéns e viva esse nosso Brasilzão, que apesar de alguns tentarem coloca-lo no buraco ainda se mostra infinitamente maior do que tudo.

abcs a todos
xara - ipiranga - sp-sp

Tais Luso de Carvalho disse...

Oi, Cesar, gostei desta história, tanto é que já fui no site e repassei a um amigo blogueiro que me escreveu perguntando se eu conhecia algum escultor por aquelas bandas. Caiu do céu!
Gostei do poema da botinha. Ricas esculturas, feitas com amor. Arte!

Beijo pra você
Tais Luso

Gabriel Fernandes disse...

Perfeito, meu amigo. Você conseguiu esculpir as palavras, entalhar as ideias e produzir uma obra de arte. Não se sinta diminuído diante do talento do escultor, você tem o seu de escritor. Parabéns.
Abraço.

Anônimo disse...

Cesar,

Emocionantemente perfeito! Parabéns!

Beijo,

Ana

Gisele Aidamos disse...

Oi, Cesar.

Li sua crônica no jornal e me emocionei. Você realmente traduziu nela a emoção de se estar diante da rica simplicidade do "seu" Ditinho.
É isso aí, Vagner: vida longa a seu Ditinho!!

Parabéns, Cesar.