ALOISIO CRUZ, MEU PAI

. Meu pai nos deixou muito jovem. Infarto agudo do miocárdio aos quarenta e sete anos. Ficou dois meses em coma numa UTI, fez aniversário nestas circunstâncias e, por fim, não resistiu... Não cheguei a de fato curtir meu pai. Eu tinha apenas dezenove anos quando ele morreu.
Claro que na infância ele foi presente, mas eu o queria comigo na idade adulta. Ah, quanta coisa ele me ensinaria, pessoa sensata, moderada e cheia de bom senso que era.
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Tinha como único hobby a leitura. Devorava pilhas de livros que minha mãe buscava para ele na Biblioteca Municipal de São Paulo, no centro da cidade. A regra que minha mãe seguia era: buscar cinco livros para a semana. Qualquer assunto. Meu pai não exigia nada específico, o que viesse ele lia. Lia à noite, antes de deitar, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda e na terça. Na quarta seguinte minha mãe os levava lidos de volta e trazia mais outros cinco. E foi assim durante toda a minha infância e adolecência.
Infelizmente não há testemunha viva que possa comprovar tal prodígio; acredite quem quiser...
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Meu pai sempre repetia: "o homem que lê vale por dois". Hoje acho que ele tinha razão, pois de fato ele valia mesmo. Além de ser um leitor alucinado, seu Aloisio fazia-se eventualmente escritor.
Criei uma seção na barra à esquerda para compartilhar com as pessoas os textos escritos por ele que tenho guardados comigo há tempos.
São pequenos papéis manuscritos, folhas datilografadas - em sua inseparável máquina de escrever portátil "Olivetti Lettera 22" -, além de recortes de cartas que foram publicadas no Jornal da Tarde.
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Sugiro a leitura de todos!, mas há três que gosto muito; experimente: "Aconteceu em Shangri-lá", "Os ônibus competem, vejam as marcas!" e "Pai".
Espero que gostem.
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Cesar Cruz
maio 2008
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(Aloisio Cruz - Out 42 a out 90)
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3 comentários:

Anônimo disse...

Pombas, meu caro, seu pai era genial. Demais seus pensamentos e sua coragem. Admiro as pessoas que conseguem não se contaminar com a "cultura" do politicamente correto. Viva o seu Cruz!
Abraço,
Gabriel.

5.5.08

Cesar Cruz disse...

Olha Gabriel, o seu Aloisio era bom mesmo! E era exatamente isso que vc falou: um inconformado com o politicamente correto, o que na época atendia pelo nome de "não engolir de atravessado", ou coisa assim...
Mas o mais bacana era que ele fazia estes protestos com sutileza; nada de pé na porta ou coisas escrachadas. Aliás, diferente de mim, meu pai era suave, falava baixo, pouco, não atritava por banalidades; era mesmo um cavalheiro.

Mas cara, obrigado! Mês que vem (dia 5) faz 1 ano que dona Diva morreu. Ela que era a maior fã do seu Aloisio! Se ela estivesse viva, ia ler isto que vc escreveu e iria querer teu telefone pra falar um pouco "com este rapaz tão interessante!"... e este "um pouco" da dona Diva seria algo como umas 2h, hehehe

Valeu amigo! Abraços!
Cesar

5.5.08

Anônimo disse...

Cesar,

Ah! Em casa também aprendi a ter o gosto pela leitura, a freqüentar bibliotecas, a depurar gostos e saberes e a usar uma ‘Olivetti Lettera 22’ que ganhei de meu pai quando entrei na faculdade, no final dos anos 70.
Pois é, me desfiz de minha Lettera 22 quando adquiri meu primeiro computador.
Resolvi doar para uma instituição. Isso faz bastante tempo e, é claro, me arrependi no dia seguinte. Me lembro que, depois de doar, eu mesmo voltei lá para comprá-la, mas eles já tinham vendido para um ‘antiquário’. Ainda tentei rastrear o objeto, mas...
Ela era azulada e tinha um estojo da mesma cor.
Resta a memória, boa memória. Muito dela em papéis que escrevi.

Abraços
Carlos