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Dia de dodói

Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Agosto de 2010
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18 - Fev - 2010

Filha, hoje à tarde o celular tocou enquanto eu dirigia. Quando vi no visor que a ligação era da escolinha, quase tive um infarto. Atendi como uma flecha, o coração aos saltos. Você vai entender esse medo quando tiver seus filhos. A voz do outro lado, de uma das tias, dizia que você estava com febre, 38,5º. Liguei cancelando a perua e mamãe e eu fomos te buscar mais cedo. Você estava prostrada, os olhinhos caídos, meio murcha, quente. Passamos em casa, mas no caminho já fomos combinando: banho para relaxar e reduzir a temperatura, improvisaríamos um jantar rápido, medicaríamos você com um antitérmico e sairíamos por volta das 19h30, sem mais delongas.

Chegamos ao Hospital Nossa Senhora de Lourdes, no Jabaquara, quase uma hora depois. Fomos encaminhados para um dos prédios do complexo onde funciona o Hospital da Criança, que estava lotado de mães, pais e suas proles adoecidas, gripadas, de todas as idades. Ah, esse verão anda cruel com os pequenos! Filas e senhas. Espera. Cadastro preliminar. Espera de novo. Choros. Conversas entre mães. Espera longa. A estrutura é excelente, só que havia muita gente. Enfim, depois de uma hora, a nossa senha piscou no luminoso. Sentamos de frente para o doutor, você no colo da mamãe. O que está acontecendo com a Michele, pergunta ele. Explicamos. Ele pede que a coloquemos na maca. Você, filha, que já conhece esses homens de branco e seus procedimentos, começa a chorar na mesma hora. Seguramos você enquanto o doutor examina seus ouvidos usando aquele iluminador cônico, depois sua garganta, com o famigerado pauzinho de picolé e com a lanterna. Por fim ausculta seu coraçãozinho por todos os lados e determina: vou pedir alguns raio x. Façam e voltem aqui. Seco seu rosto todo lambuzado de choro e ranho com um papel toalha.

Lá vamos nós: senha, espera e raio x. Segura firme, mãe; segura firme pai, senão teremos que refazer, diz a moça, detrás da proteção de chumbo. Mais choro. Chapas prontas, voltamos ao doutor. Sinusite, diagnostica ele. Bloquinho e caneta, receita um antibiótico. Nessa hora gelei. Um contorcionismo de tripas começava a acontecer dentro de mim. Lembrei-me que estávamos com poucos trocados, cartão vencido. O meu salário só cairia na conta dali a dois dias. O pouco que tínhamos era para almoçar e botar combustível no carro para trabalhar, no dia seguinte. Foi então que a mão de Deus pareceu se mover, e o braço do doutor se esticou para traz, abriu uma gaveta e voltou pondo sobre a mesa três caixas de amostras do tal antibiótico.

Terminamos de ouvir as recomendações do médico. Na hora de ir embora você, espontâneamente, com a mão espalmada na boca, mandou beijos para o doutor e disse tchaaaaaau.

Saímos do hospital às 22h30 e fomos para casa, cansados, mas aliviados, por não ser nada de mais com você.


Cesar Cruz
Fevereiro de 2010
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Os meus sorrisos


A Vanessa tem um certo sorriso lindo, do qual só faz uso às vezes. As bochechas sobem de forma diferente, os dentinhos se revelam infantis, uma doçura. Acho que ela nem sabe quando o usa, e nem sabe que é diferente dos outros; é espontâneo e imperceptível para ela, fruto do mais puro contentamento. Para mim é como um presente. Raro.

Desço do carro. Ela assume o volante. A Vergueiro vazia e quieta. Não há alma viva na cidade, nesta segunda de Carnaval, às 8h30. O restaurante da Conceição, defronte, fechado. Onde almoçarei?, penso. Vim trabalhar, dar plantão. Já em pé na rua, dou um beijo na Vanessa pelo vidro do motorista. Faço a volta no carro para dar um beijo na Michele, presa na sua cadeirinha, no banco traseiro. Papai tabaiá!, ela diz para mim, e me brinda com seu sorrisinho sensacionalmente fantástico de Michele-do-papai. Ambas são lindas e têm sorrisos esplêndidos. Tal mãe, tal filha.

Vendo o carro se afastar, penso: tudo o que eu tenho na vida vai ali, naquele carro.



Cesar Cruz
Fevereiro 2010





O derradeiro beijo da mamãe


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Mudei-me há uma semana. Fui morar no apartamento que comprei com minha mãe há quase 20 anos, logo depois que meu pai morreu. Eu e dona Diva compramos aquele imóvel com grande sacrifício, em 1992. Vendemos quase tudo o que tínhamos para juntar o dinheiro necessário: a minha moto, as (poucas) joias dela, objetos de valor... Fizemos até um bazar com alguns móveis e utensílios. Reunimos os últimos trocados e, enfim, conseguimos.

Mamãe se foi em junho de 2007, não resistiu a uma operação para colocar pontes de safena... Um ano depois morreu a querida Maria Luisa, que ficou morando lá após sua morte, viúva da amiga... E o apartamento ficou fechado um tempão.

Então, agora, decidido a me mudar para lá, promovi uma revolução: doei móveis; troquei parte do piso; pintei portas e armários, pus algumas cortinas para lavar e substitui outras; contratei duas mulheres para uma faxina militar e, por fim, mandei dedetizar tudo. Pronto. E, sem querer, descaracterizei tudo... Apaguei quase todas as marcas da minha mãe. Seu cheiro, que ainda persistia em alguns objetos, começou a sumir.

Muita coisa dela guardei como recordação, ou como utilidade. As roupas doei, assim como muitos objetos que não me serviriam. Porém, muita coisa tive que, desgraçadamente, jogar fora... Jogar fora! Veja isso! Eram coisas que ninguém além de mim poderia se interessar, infelizmente, mas que por absoluta falta de espaço eu não teria onde guardar.

Nos armários da mamãe achei coisas incríveis. Marcas da minha vida, da vida da nossa família; objetos que me acompanharam na infância, coisas do meu pai, objetos que permaneceram anos sobre mesas e dependurados nas paredes nas casas em que moramos.

Remexer os pertences dos queridos que já partiram é uma tarefa de Hércules, melancólica, que alegra e surpreende, e que parte o coração da gente.

No meio daquela chafurdação no passado, dei com uma velha caixa azul de tênis Adidas. Reconheci na hora quando a vi. Foi de um tênis que tive lá pelos meus 15 anos. A mente da gente é incrivelmente fotográfica. Estiquei o braço e a recolhi das profundezas do armário embutido da mamãe. Estava embrulhada num saco plástico transparente, revestido daquela poeira oleosa que as coisas que ficam guardadas por anos adquirem. Livrei-a do saco seboso e ela pareceu respirar, depois de tanto tempo enclausurada. Levantei a tampa. Por cima havia um papel dobrado. Como um bilhete. Abri. Era uma carta da minha mãe... dirigida a mim! Quase cai de costas quando li “Cesar, meu filho...”.

Desci da escada, larguei o pano de pó no chão. Apoiei as costas na parede e senti meu corpo escorrer, até acabar sentado junto ao rodapé, em meio à sujeira. Além do bilhete, a caixa continha inúmeras coisas que me levaram a uma viagem de 30 anos no tempo. Eram coisas do meu pai: o relógio que ele usou por uma vida, e que estava em seu pulso quando ele enfartou, sua caixinha de cartões, alguns chaveiros, uma caneta, isqueiros etc. A cartinha dizia assim:

“Cesar, meu filho. Hoje é dia 15 de novembro de 1996, fui votar agora há pouco. Você não está, foi viajar. Então comecei a arrumar umas coisas, mas dentro desta caixa tem coisas pessoais do seu pai, que não tive coragem de jogar fora. Faça você agora, por favor. Obrigada, beijos da mamãe.”

Dona Diva deixou um bilhete para ser lido por seu filho em algum dia do futuro. Ao escrevê-lo, ela não poderia supor que morreria do coração onze anos depois, e que seu filho só acharia a carta treze anos depois de ser escrita...

Mas sabia, por me conhecer como ninguém, que eu só mexeria nas suas coisas quando ela já tivesse morrido; e que só então eu acharia aquele bilhete.

É complicado tentar explicar as minhas sensações ao ler aquilo. Saber que minha mãe escreveu a carta e a guardou, para que ela levasse a mim uma derradeira tarefa, e um derradeiro beijo seu, quando ela já não estivesse mais por aqui.

Uma espécie de filme da minha vida se desenrolou à minha frente, ao ler o bilhete e rever os objetos do meu pai. Lembrei-me dos cheiros da minha infância, do barulho da panela de pressão fazendo a janta, que eu ouvia já da rua, ao chegar em casa; o murmúrio das vozes do seu Aloisio e da dona Diva, conversando pela casa baixinho, quando eu, bem menininho, já havia sido posto para dormir; do cheiro da dama da noite, que caia em abundância no chão do quintal da casa da minha avó, a Mi. Essa espécie de filme sonoro, em que ouvia a voz da minha mãe, que tanto me amou, me chamando para entrar pra casa; a voz do meu pai, que já não ouvia há vinte anos, me explicando coisas da vida, com toda a sua calma e bom-senso, foi como um surpreendente presente póstumo oferecido pela dona Diva a seu filho.

Nele ouvi também a gritaria da turma aprontando farras, daqueles meninos da minha infância, muitos, que ainda hoje são meus amigos, mas que não são mais aqueles meninos de outrora... Veio-me a sensação do tempo que escoa, como no poema de João Cabral de Melo Neto.


Não há guarda-chuva contra o tempo
Rio fluindo sob a casa, correnteza
Carregando os dias, os cabelos.

A dor que sinto, só quem perdeu pai e mãe pode saber como é. Isso tudo, e o fato de que segunda agora é o dia dos mortos, me fez recordar de outro poema, "Dia de Finados", de Manuel Bandeira.
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.

 
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Cesar Cruz
Novembro 2009
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O tempo ensina


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“Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.”
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Marcel Proust - Em busca do tempo perdido
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Certa vez li uma frase: “Esperemos pelo maior dos mestres: o tempo”.
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Grande frase. Grande verdade. Eu, por exemplo, nunca entendi o amor desmedido que minha mãe manteve por mim durante a vida toda. Na infância, aquele amor hiper-dimensionado chegava a me sufocar. Minha mãe era daquelas que apareciam no meio do jogo de futebol da garotada e, lá do outro lado da rua, gritava: “Cé, meu filhinho querido! Vem tomar seu lanchinho!”.
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Moleque que é moleque sabe que aquele que a mamãe fica de muito nhem-nhem-nhem vira chacota da turma. Acontecia comigo. Ela não fazia por mal, mas eu sempre pedia: “Mãe, vê se não vai aparecer lá e ficar me chamando e me beijando na frente de todo o mundo!”. Não adiantava. Dona Diva, cega de amor, parecia não entender isso. Logo estava lá, de novo, para, inocentemente, me fazer passar vergonha em público. E eu fugia dela! Aquele seu amor cobria tudo, era como uma cortina de fumaça que não a deixava enxergar nada, só a mim.
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Na adolescência fiquei malcriado e respondão - como ela dizia -, mas sempre que eu chegava em casa ele estava lá, expresso no sorriso meigo e nos olhos doces da minha mãe: o amor.
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Dona Diva me dava beijos em público, exigia abraços, falava alto, para que todos vissem que ela, só ela, era mãe daquele menino maravilhoso. E eu, moleque agitado, interessado num mundo que se abria para mim, não lhe dava muitas chances. Hoje me arrependo.
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Anos se passaram, fiquei adulto e mudei. Mas, infelizmente, não mudei o suficiente. Nunca soube retribuir o amor que ela realmente merecia. Nunca demonstrei como deveria demonstrar... Só hoje, tardiamente, eu percebo isso, pois dona Diva já se foi. Oh, arrependimento! Eu daria tudo por só mais um daqueles jantares que fazíamos na casa dela, acompanhados por uma garrafa de vinho e muitas conversas e histórias...
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Dia desses fui lá remover objetos e pegar cartas. A casa está fechada. Em certo momento, parei e me sentei no sofá. Fiquei ali, olhando aquilo tudo, como alguém que olha o corpo sem vida da pessoa que ama. Ainda não cheguei a desmontar as coisas a ponto de descaracterizar a casa. Ainda é a casa da mamãe, mas há um frio agora, como num corpo sem vida, de que a alma já partiu. É casa, mas não é mais lar. Acabaram-se as vozes, os cheiros; há um vazio, um oco, um eco, uma tonalidade sépia no ambiente... Não sei explicar, confesso. Se eu fosse poeta, teria as metáforas certas para fazer você, leitor desta crônica, sentir, compreender!, mas não sou...
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Sei que fiquei por uns instantes ali, recordando, sentado, só. Pensava: “Foi ontem que estivemos todos bem aqui, reunidos, alegres. Mamãe, Maria Luisa, Vanessa e eu. A TV ligada, uns tira-gostos sobre a mesinha e cada um de nós com um copo na mão. Todos falando ao mesmo tempo. Uma família!”
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De repente, um clique desligou o sonho colorido e quentinho, e voltei para o inexorável presente: frio e sépia.
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Mas como eu dizia antes: o grande mestre é o tempo. Hoje sou eu o cego de amor. Sou enlouquecidamente apaixonado pela Michele. Penso nela o dia todo; com poucas horas distante, quase explodo de saudades. Muitas coisas que me interessavam antes, de repente perderam o brilho. Agora é só Michele, Michele, Michele. Quase a sufoco! Ela tem pouco mais de ano e meio, mas já se irrita quando eu a abraço demais, a beijo demais, não quero largar... Puxou o pai! É arisca! E eu sofro com isso... Às vezes me flagro implorando, choramingando, agachado de braços abertos: “Filhinha, vem cá dar beijinho no seu papai!”. Algumas vezes ela vem, linda, sorrindo e gritando, mas só às vezes. Normalmente ela fica brincando no seu canto e não vem, cheia de personalidade e opiniões próprias.
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Dona Diva não chegou a conhecer minha filha, infelizmente. Aí uma outra coisa que eu daria tudo para ver. Mas seria mesmo impossível, pois ela morreu três meses antes de a Michele nascer.
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É... o fato é que só agora eu compreendo a mamãe. A gente só entende quando vive. É o mestre Tempo ensinando, ensinando, ensinando...
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Cesar Cruz
maio 2009
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Foto:
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da esquerda para a direita - Maria Luisa, Diva, Cesar e Vanessa - Jan 2006.
Diva morreu em jun. 2007 e Maria Luisa em fev. 2009. .
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Textos relacionados:
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Os olhos dos outros


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Crônica publicada na Gazeta do Ipiranga* e no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Junho de 2009.
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Circulo com minha filha pelos lugares e os percebo. Fitam-nos. Algumas pessoas, cujos olhares contêm uma curiosidade que se manifesta discretamente, os lançam de soslaio sobre nós, disfarçadamente, para não serem flagrados em sua fraqueza.


As pessoas fazem o mesmo quando avistam alguém imensamente gordo, ou um tristemente aleijado, ou um casal gay. De certa forma, isso é natural. Os olhos querem olhar, medir, compreender o diferente. Ainda que não se atenham à dor que isso possa produzir. Há quase uma comichão nas entranhas de certas pessoas, tamanha a voracidade que têm por invadir, especular e atribuir valores ao que, para elas, é incomum.

Rubem Alves escreveu sobre isso, mais particularmente sobre o sentimento da criança diferente, que se sente observada. Reproduzo, abaixo, trechos de um de seus livros:

"Esta estória foi construída em torno da dor da diferença: a criança que não se sente bem igual às outras, por alguma marca no corpo, na sua maneira de ser (...) Ela lida com algo que dói muito: não é a diferença, em si mesma, mas o ar de espanto que a criança percebe nos olhos dos outros (...) Os olhos, de órgãos de carinho, transformaram-se em ferrões (...) O medo dos olhos dos outros é sentimento universal. Todos gostaríamos de olhos mansos (...)."

Hoje, minha filha Michele, em seu pequenino mundo infantil, não entende muita coisa. Para ela todos são bons, e ela ignora que neste mundo haja preconceitos e julgamentos de toda a espécie. Confia e gosta de quem quer que se aproxime. Para ela, o mundo se resume a um careca que é o papai e uma moça dos cabelinhos negros, que é a mamãe. Ambos cuidam dela e, juntos, vivem num lugar que chamam de casa. Quando ela tem fome ou sede, pede “papá!” ou “ága!”, e o careca e a moça correm servi-la.

Na sala da sua casa existe um caixa que exibe coisas legais e que ela adora, desenhos divertidos e programas com musiquinhas gostosas que ela canta e dança a seu modo. Em frente à caixa, há um negócio fofo e comprido que a mamãe chama de sofá e onde todos se sentam. Às vezes, quando papai e mamãe estão distraídos, ela sobe ali e pula repetidas vezes em meio a gargalhadas e gritos eufóricos: púa!, púa!, púa!, púa!

E assim seus dias se sucedem em uma rotina muito singela, mas que satisfaz plenamente as suas exigências primárias.

Há também o passear, a escolinha, com suas atividades lúdicas, o Juca — o cachorro do vizinho —, os gatos de casa, a bobó e o bobô, o carrinho de supermercado, que ela adora andar dentro, em pé, durante as compras...

À noite, por volta das oito horas, após o banho, o papai escurece o quarto e a leva até a janela para que ela dê tchau ao dia que acabou, atividade que ela adora fazer, agitando a mãozinha: “Taaaaaaaaaaaau!”.

Então o papai fecha a janela e desafina baixinho algumas cantigas enquanto a embala no colo, o que a leva gradualmente a um estado de relaxamento e calma. Enquanto a voz do papai vai se esvaindo, transformando-se em efêmeros e distantes sussurros, tudo vai se apagando. E, enfim, sem que ela saiba como, acaba deitada na segurança de seu berço para o inocente descanso. E isso é tudo.
Por ser uma criança negra e ter pais brancos, a Michele é alvo de muitos desses olhos invasivos, que anseiam a qualquer custo saciar sua sinistra curiosidade, sem poupar ninguém, nem ao menos os inocentes.

Hoje isso não nos incomoda, mas me preocupa pensar em como esses olhares, que eu percebo claramente incidindo sobre nós, atingirão o coraçãozinho da minha filha quando, daqui a quatro ou cinco anos, ela já for capaz de compreender melhor as coisas.

Como disse Rubem Alves, mais cruel do que palavras duras podem ser os olhos dos outros. Esses olhos especulativos e sedentos, às vezes ferinos, que não só olham, mas escarafuncham, perscrutam, desnudam, avaliam, ferem, julgam, condenam, oprimem e excluem.

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Cesar Cruz
Maio 2009
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* créditos dos parceiros neste blogue.
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Vidraça

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Escrever crônicas é se expor. Definitivamente. Os contos, os romances e as novelas são o território da ficção. Ainda que alguém aponte o autor como um facínora por ter escrito certa barbaridade, ele sempre pode se safar explicando: “Não sou eu que odeio os russos, mas sim a personagem da história, que os estripava a faca!”.
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Quem escreve sabe que, na maioria das vezes, uma ficção, seja qual for o tema, traz muito do inconsciente do seu criador. Aquele cruel assassino de crianças do romance pode ser, ainda que na maioria das vezes nem o próprio autor saiba, um alter ego dele próprio.
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Já o cronista, que opina acerca das coisas do mundo às claras, usando sua própria pele, está jurado... de morte. Mais dia menos dia cairá em desgraça. Sua carcaça será jogada aos cães e sua pele virará tamborim, na melhor da hipóteses.
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O que um cronista escreve está sacramentado para-todo-o-sempre-amém. Se não se cuidar, suas linhas podem ser a sua maldição, a tampa da sua sepultura.
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Ainda que ele mude uma opinião, a qualquer momento surgirá alguém dentre a multidão sacudindo acima da cabeça uma folha com um escrito seu, e gritando: “Ei! você escreveu isto aqui, agora vai negar?”. É terrível... Quem fala pode até ser irresponsável, superficial, leviano; quem escreve, jamais. Ser cronista é como ser domador de feras. Um dia, amigo, ainda que tarde a chegar, poderá ser o dia do leão!
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A Silvia, a gerente lá da Gazeta, me escreveu um e-mail: “Cesar, ligou aqui na redação uma mulher furiosa querendo falar com você! Expliquei que você é colaborador, não fica aqui, mas ela parecia querer te matar, disse que você é um machão, um porco!”. Surpreso com aquela reação tão visceral da leitora, respondi, indagando: “Mas, Silvia, o que foi que eu fiz?”. Resposta: . .“Cesar, acho que ela não entendeu a crônica d’ As mulheres e suas cores...”. Vejam vocês!
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Vai que uma maluca dessas me encontra pela rua? Pior é que na Gazeta a crônica sai com a minha foto! Posso ser esfaqueado pelas costas e nem saberei por que morri. Acho que vou comprar uma peruca.
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O curioso é que a tal mulher, tão senhora da razão, não teve coragem de me escrever, já que meu e-mail e endereço do site acompanham todas as crônicas que publico. Sou fácil de achar e sempre respondo a quem me escreve.
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Recebo muitos comentários no blogue, especialmente nos textos que saem nos jornais. Libero qualquer comentário. E os comentários elogiosos sempre vêm assinados. Já os depreciativos... quase nunca.
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Na crônica "Gosto dessa gente... " um comentarista anônimo escreveu isto:
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“Colunista,
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quero te dizer que o fato de você ter afirmado que gosta das pessoas que vendem porcarias na rua, transforma seu artigo numa apologia a esta imundície urbana. Você tem que tomar cuidado com o que escreve, amigo”
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Respondi assim:
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“Caro comentarista anônimo,
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uma pena você ter esquecido de se identificar. Eu sempre prefiro me dirigir às pessoas pelo nome. Creio que você não tenha entendido a crônica. No segundo parágrafo, grafei o seguinte: "Ainda que eu não concorde com a atividade de 'vender coisas na rua', me identifico com essas pessoas.". Então é isso... reitero a afirmação. E completo: gosto sim dessa gente. E gosto muito. Ah, importante: você tem que tomar cuidado com seus comentários, pode estar sendo reacionário e sectário, mesmo sem se aperceber. De qualquer forma agradeço a participação.
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Saudações,
Cesar Cruz.”.
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Por sinal, isso é muito comum nos críticos: a preferência pelo anonimato. Criticar anonimamente é como desferir socos no escuro, ou atirar pedras por cima de um muro. Covardia pura. “Mostre sua cara, velhaco! Tire este capuz!”, dizia, em represália aos seus críticos anônimos, o polêmico filósofo alemão Arthur Schopenhauer.
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Finalizo essa crônica me regozijando nas alentadoras palavras de Theodore Roosevelt que, há cem anos, saía em defesa do valentes que dão a cara pra bater.
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“Não é o crítico que conta, nem aquele que aponta onde o forte tropeçou, ou onde o realizador das proezas poderia tê-las feito melhor. O crédito pertence ao homem que está de fato na arena; cuja face está desfigurada pela poeira, pelo suor e pelo sangue; o homem que combate estoicamente; que erra e se vê prostrado vez após vez, mas que, ainda que tentem lhe matar, se levanta de novo e de novo e de novo... Esse é o homem que, por fim, conhece os grandes entusiasmos, as grandes devoções, e se deixa consumir pelas causas justas; e, na pior das hipóteses, se falhar, ao menos falhará agindo corajosamente, de modo que seu lugar nunca será junto aquelas almas tímidas e pusilânimes, que não conhecem nem a vitória, nem a derrota”
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Cesar Cruz
Abril 2009
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Maria Luisa foi embora

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No comecinho dos anos 50, uma italianinha de quatorze anos, chamada Maria Luisa Borgheresi, desembarcava por aqui vinda de Veneza, com pai, mãe e irmão. A família veio morar no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo.
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O pai era militar italiano, já aposentado, e a mãe, dona de casa. Não falava nada de Português, a mocinha. Logo de cara ficou amiga da Diva, três anos mais velha e mais sabida, que passou a lhe ensinar a Língua e as coisas aqui do Brasil.
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A amizade entre a Maria e a Diva atravessou, assim, seus primeiros anos, levando-as unidas da adolescência à juventude. Logo a Diva começou a namorar. Depois noivou. Casou-se em 1965. A Maria, apesar dos esforços do casal amigo, não acertou namoro firme com nenhum bom rapaz e acabou solteira.
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Em 1970 eu nasci. Desde que me lembro por gente, Maria sempre esteve presente nos Natais, Anos Novos e aniversários. Seu Gino e dona Clélia morreram logo. O irmão da Maria, que nunca se deu com ela, desapareceu no mundo para nunca mais ninguém saber do seu paradeiro.
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A Maria, sempre muito tímida e reservada, não cultivou nenhuma outra amizade na vida, sendo assim, entrou na maturidade só tendo a nós como família e amigos.
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Em 1990, meu pai morreu. Ficamos só minha mãe e eu. Quando eu estava preste a sair de casa, em 1996, e dona Diva na iminência de ficar sozinha, sugeri que morassem juntas, a Maria e minha mãe, pois não fazia muito sentido duas amigas tão unidas morarem sozinhas, em casas separadas. E assim foi feito. Uma fez companhia à outra até a morte da minha mãe em junho de 2007. Amizade de mais de cinquenta e cinco anos...
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Depois da morte da mamãe, a Maria passou a viver sozinha, mas sempre sob os olhares cuidadosos da Vanessa e meus. Ela nunca ficou longe da gente numa data importante. Toda a semana saíamos para jantar com ela, a levávamos para fazer compras ou para almoçar fora, seu lazer preferido.
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Dia 21 de janeiro último, final da tarde, tocou o telefone lá de casa. A voz de uma vizinha informava que a Maria tinha sido atropelada por uma moto na esquina de sua casa. Resgatada pelo SAMU, Maria Luisa fora levada para um pronto-socorro próximo. Voamos pra lá.
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Maria ficou hospitalizada. Bacia e braço quebrados. Vinte dias depois, teve alta e voltou para casa, mas imóvel, ainda na cama. Porém, para nossa satisfação, havia a esperança de recuperação, embora muito lenta: de aproximadamente três meses.
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A Vanessa e eu fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para minimizar o sofrimento da Maria. Nós a visitávamos todas as noites após o trabalho. Contratamos duas enfermeiras que se revezavam em seus cuidados durante todo o dia... Mas sua recuperação doméstica durou pouco. No primeiro retorno ao hospital, apenas três dias após ter tido alta, a Maria teve um derrame durante a consulta ortopédica. Correram com ela para a UTI, mas não puderam evitar que ela ficasse sem oxigenação adequada por muitos minutos...
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A Maria ficou uma semana inteira em coma. Posteriormente, soubemos que o atropelamento havia deixado, em seu cérebro, uma espécie de bomba relógio, que resolveu estourar naquela tarde no hospital.
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Maria não resistiu e morreu na madrugada do sábado dia 21 de fevereiro, exatos trinta dias após ter sido atingida por um motoqueiro irresponsável...
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Sepultamos a Maria no jazigo da nossa família, juntinho à sua amiga inseparável, a Diva.
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Gosto de pensar que, mesmo em coma, ela tenha passado aquela sua última semana alheia ao ambiente frio e asséptico da UTI, aos ruídos dos aparelhos e às medicações que eram constantemente injetadas em seu corpo.
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Gosto de pensar que ela atravessou tranquila aqueles dias, distante, viajando em um mundo de sonhos e recordações, que fica na fronteira entre a vida e a morte...
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Gosto de pensar que as lembranças da sua juventude na Bela Vista, e dos anos que passou com a gente, desfilaram diante dos olhos da Maria Luisa como se acontecessem pela primeira vez; que risadas e momentos do passado, há muito esquecidos, ganharam vida e som; que o calor do sol e as alegrias vividas voltaram quentinhas como novas para lhe acalentar o coração...
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Gosto de pensar que, naquela madrugada, antes do telefone soar sob o meu travesseiro, enquanto a Vanessa, a Michele e eu dormíamos em casa, a Maria, entusiasmada e saltitante, como uma menina de quatorze anos, exclamava, apontando para um lindo aglomerado de nuvens: “Diva, você veio?!”.
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Gosto, por fim, de fechar os olhos e imaginar uma cena que, de alguma forma, eu sinto como se a tivesse visto ou sonhado. Nela, a Maria Luisa dá as costas para mim e afasta-se, de mãos dadas com a mamãe, em direção ao azul do céu.
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Cesar Cruz
mar 2009
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Texto relacionado: A história da dona Diva
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ALOISIO CRUZ, MEU PAI

. Meu pai nos deixou muito jovem. Infarto agudo do miocárdio aos quarenta e sete anos. Ficou dois meses em coma numa UTI, fez aniversário nestas circunstâncias e, por fim, não resistiu... Não cheguei a de fato curtir meu pai. Eu tinha apenas dezenove anos quando ele morreu.
Claro que na infância ele foi presente, mas eu o queria comigo na idade adulta. Ah, quanta coisa ele me ensinaria, pessoa sensata, moderada e cheia de bom senso que era.
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Tinha como único hobby a leitura. Devorava pilhas de livros que minha mãe buscava para ele na Biblioteca Municipal de São Paulo, no centro da cidade. A regra que minha mãe seguia era: buscar cinco livros para a semana. Qualquer assunto. Meu pai não exigia nada específico, o que viesse ele lia. Lia à noite, antes de deitar, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda e na terça. Na quarta seguinte minha mãe os levava lidos de volta e trazia mais outros cinco. E foi assim durante toda a minha infância e adolecência.
Infelizmente não há testemunha viva que possa comprovar tal prodígio; acredite quem quiser...
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Meu pai sempre repetia: "o homem que lê vale por dois". Hoje acho que ele tinha razão, pois de fato ele valia mesmo. Além de ser um leitor alucinado, seu Aloisio fazia-se eventualmente escritor.
Criei uma seção na barra à esquerda para compartilhar com as pessoas os textos escritos por ele que tenho guardados comigo há tempos.
São pequenos papéis manuscritos, folhas datilografadas - em sua inseparável máquina de escrever portátil "Olivetti Lettera 22" -, além de recortes de cartas que foram publicadas no Jornal da Tarde.
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Sugiro a leitura de todos!, mas há três que gosto muito; experimente: "Aconteceu em Shangri-lá", "Os ônibus competem, vejam as marcas!" e "Pai".
Espero que gostem.
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Cesar Cruz
maio 2008
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(Aloisio Cruz - Out 42 a out 90)
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Trabalho de parto

Quando escrevi a crônica "Um grito entalado", queria justamente poder fazer isso: gritar para desentalar uma indignação que nasceu dentro de mim. Aquele crime covarde não me deixava dormir, eu tinha que escrever, tinha que escrever, tinha que escrever! E escrever é o meu jeito de gritar, de mostrar minha indignação... Só que dessa vez deu uma polêmica danada. Muita gente gostou, mas a maioria não. Recebi comentários fortes como estes: "Pô Cesinha, você tá igual ao Datena, quer se promover às custas da desgraça da menina?" e "Cesar, tire isso do seu blog, ninguém ainda sabe o que foi que ocorreu na verdade e..." ou "Cesar, escreva sobre outras coisas mais legais, estes assuntos não te acrescentam em nada, depõem contra você...".
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Sinceramente não acho que meus amigos comentaristas estão errados, se eu não fosse um escrevinhador, possivelmente também faria comentários com este teor sobre um texto como aquele. Mas a verdade é que eu não tive a menor intenção em me promover às custas da desgraça da menina, muito menos pretendi condenar alguém por antecipação, longe de mim isso. A questão é que quem não escreve, não entende que um texto muitas vezes exige ser escrito, se impõe! O espanhol Mario Vargas Llossa explica isso com maestria e precisão no brilhante "Cartas a um jovem escritor". De qualquer forma, não posso afirmar que isso acontece com todos que escrevem, mas acontece comigo. Acontece e então eu não tenho escolha a não ser obedecer: sentar e grafar.
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Pior é que eu não sei fazer mais nada que não seja por escrito; isso virou uma prazerosa, e ao mesmo tempo odiosa, sina em minha vida, um hobby que criou vida e virou um monstro! Tenho que escrever as coisas, não tem jeito. É como se os textos fossem concebidos dentro de mim e antes de eu me dar conta já estão crescendo e não há contraceptivo capaz de impedir-lhes o desenvolvimento. Daí em diante não há mais quem segure a besta; o feto cresce dia a dia me trazendo cólicas, enjôos e dores nas costas; e na hora em que ganha o tamanho e a musculatura necessária, começa a chutar violentamente, aí não há mais nada que eu possa fazer a não ser pari-lo, materializando-o em tortuosas e doloridas letras e garranchos...
Acreditem em mim, é como o bebê de Rosemary, o texto-monstro exige vir à luz!
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Mas esqueçam isso... Não espero mesmo que ninguém me entenda... Vai ver que este foi só mais um texto que eu precisei parir.
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Cesar Cruz
Abril/ 08
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Metamorfose ambulante

Nos anos 80 eu era curtidor rock. E como não poderia deixar de ser, era fã do Raul Seixas. Curtia, mas não entendia algumas verdades expressas em suas músicas. Bom exemplo é a música Metamorfose Ambulante. E foi justamente isso que me tornei, uma metamorfose ambulante. Todas as minhas opiniões formadas e as minhas certezas-absolutas ruíram.
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Ah! Com 20 anos eu sabia tanta coisa. Eu era bom, só vendo! Um semideus, dava gosto ser eu! Sabia tudo sobre tudo, e tinha sempre razão.
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Engraçado lembrar que, para todas as coisas, em especial aquelas universalmente polêmicas, eu havia desenvolvido certezas inflexíveis, indissolúveis e inabaláveis.
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O assunto era aborto? Eu tinha a resposta! Pena de morte? Lá estava eu com o veredicto! Meninos de rua? Eu conhecia a solução! O pós-morte? Eu sabia para onde iríamos e conhecia toda a verdade! Bastava me perguntar. Ah! Quanta onisciência juvenil...
E hoje? Bem, hoje...
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O tempo é mesmo um inimigo inclemente, um professor vingativo. Hoje vejo que ele atropelou despercebidamente cada uma das minhas verdades. Triturou a minha soberba, picotou o meu ego e solapou-me a altivez juvenil; todas marcas pessoais do jovem Cesar. Por fim, todas as minhas certezas caíram mortas, como grãos de areia que escorrem pelo furo duma ampulheta, um a um, até não restar um único.
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Certa vez alguém escreveu: “nasce em mim um novo homem a cada velório que participo”. Grande verdade! Em mim também.
É como se a cada ocasião dessas, a mão gelada da morte me tocasse a nuca com a ponta dos dedos, como quem diz: “seja humilde, pois você não conhece nada de nada”. E então, como em uma chacina, uma dúzia das minhas sabedorias são metralhadas, veladas e sepultadas ali mesmo, junto com o defunto.
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E é desta forma que, dia após dia, ano após ano, a humildade e a fragilidade humana que moram em mim, desinibem-se e emergem.
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Quem pode ser tão forte, tão egocêntrico, tão prepotente? Acredito que não há um único ser humano, por mais inteligente, forte e sábio que seja, que não tenha um dia se surpreendido no corredor de um hospital, pequeno e oprimido, impotente e débil frente ao diagnóstico negativo de alguém que ama.
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É, amigos... As lições do professor tempo são mesmo muitas! A agonia da doença, as perdas amorosas, a corrupção do governo, a injustiça social, a vileza humana, o desemprego, a violência, a crueldade, a opressão, o acidente, um câncer...
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Concordo veementemente com Aristóteles quando disse: “tudo que sei, é que nada sei”. Ou teria sido Sócrates? Bem...
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Então hoje, mais prudente e humilde, prefiro, como na música do Raul, ser mesmo esta metamorfose ambulante. Quem sabe assim, Deus, a vida e o tempo, tenham misericórdia de mim.
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. Cesar Cruz
Março/ 07
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A história da dona Diva



Fazia calor naquele dia e ela estava sentadinha no meio fio, em frente à mercearia do pai. Na verdade o seu Manoel Nunes era dono de um armazém de secos e molhados, que as pessoas naqueles tempos chamavam simplesmente de "venda". Estamos no ano de 1938.

Então ela estava ali, 5 anos, vestido florido e sandálias nos pezinhos. A mãe aproximou-se dela por trás, curvou-se apoiando as mãos nos joelhos e disse baixinho no seu ouvido: “filha, mamãe vai ali e já volta, tá?”.

E voltou mesmo. 41 anos depois, casada, com 2 filhos casados e 3 netos.

Neste hiato de tempo, a Diva foi crescendo, criada pela caridosa dona Emília, a Mi, vizinha da família que se compadeceu da menina que apanhava de fio de ferro do pai bêbado, e a assumiu e cuidou. 

Cuidou de lambuja também do pai bêbado e da venda, que era o ganha pão da família. Passaram-se anos e a menina, já moça, começou a namorar um moço que também morava no Bixiga, o Aloísio. Casaram-se e mudaram do bairro. Foram morar em Pinheiros, na Rua Cônegos Eugênio Leite. Veio o 1º e único filho do casal em 1970. Eu.

O começo da vida foi difícil. Ele fazia bicos e estudava à noite e ela vendia Avon, lingeries, artesanato... Chegou até a recolher jornal velho nas lixeiras do prédio em que morávamos e vender para carroceiros para completar o orçamento.

Devagarzinho, o Aloísio começou a crescer na carreira de publicitário e acabou sócio de agências de propaganda muito conhecidas nos idos de 1970. 

E assim foi, como na música do Toquinho, a-vida-segue-sempre-em-frente-o-que-se-há-de-fazer. E seguiu mesmo. Com alegrias, tristezas e dificuldades, como tantas outras vidas.

Em 1979 já morávamos na Alameda Itu, no Jardim Paulista. A vida havia melhorado muito. Meu pai era na época diretor de propaganda e marketing da Rede Tupi de televisão. E minha mãe não precisava mais catar jornais velhos para vender. 

Inesperadamente, numa dada noite, tocou o telefone de casa por volta das 22h. Minha mãe atendeu e, de repente, desabou num pranto copioso. Eu e meu pai, que assistíamos ao programa do Chico Anísio na TV, tomamos um susto. Alguém morreu, pensamos. Não era morte... Era ressurreição.

Ao telefone, o Carlos, o irmão que ela nem sabia que existia, explicava que a mãe deles estava arrependida de tê-la abandonado e queria pedir perdão. Queria um encontro. Acharam a minha mãe na lista telefônica.

Assim foi feito. O insólito encontro marcado, o perdão pedido e aceito, o frente-a-frente com os irmãos até então desconhecidos... Tudo regado ao choro da família inteira, exacerbado pelo exagero típico dos descendentes de italianos e portugueses, como nós. Eu tinha 9 anos. Lembro-me da cena. Não entendi muita coisa.

Mais tarde, com cuidado, mamãe me explicou. Aí eu soube que minha querida avó, a Mi, não era minha avó, pelo menos do ponto de vista biológico. Passei a ter duas avós.

A Mi morreu anos depois, e nunca soube da ressurreição da dona Maria Loureiro. Meu pai e minha mãe acharam que não seria justo, depois de uma vida dedicada a nós, ela saber disso. A dona Maria também morreu, uns anos depois.

Depois da falência da Rede Tupi, em 1980, seu Aloisio, profissional tarimbado e quarentão, não conseguiu mais se recolocar num mercado repleto de jovens formandos dispostos a trabalhar por trocados. Foram 10 anos de desgosto e frustração profissional, todo o patrimônio que tínhamos foi gasto neste período de desemprego. Até que um dia o infarto pegou o seu Aloísio de jeito. Em agosto de 1990.

Dona Diva voltou mais uma vez a vender jornais velhos, Avon, lingeries, artesanato...

Hoje, a menininha que foi abandonada pela mãe e que apanhou muito de fio de ferro do pai bêbado está preste a completar 73 anos. Saúde de ferro e entusiasmo de fazer inveja, como sempre foi, apesar de todas as dificuldades. Junto com sua inseparável amiga Maria Luisa, 60 anos de amizade, moram lá no Taboão da Serra, em um apartamentinho que foi o que conseguimos comprar em 1992, com o dinheiro que sobrou após a morte do meu pai.

Eu hoje sou casado e moro na Vila Mariana. Mas continuo a me surpreender com as peripécias da dona Diva, que não desiste de ser animada, alegre e empreendedora. Sabem qual seu mais novo desafio? Deem um pulo num domingo destes na estação Trianon do Metrô. Lá estará ela, vendendo seus artesanatos junto a dezenas de outros camelôs.

E não pensem que a encontrarão desanimada, não! Está como sempre, entusiasmadíssima com a vida e suas possibilidades.


Cesar Cruz
Dez/ 06



Epílogo

Dona Diva nos deixou ontem, dia 5 de junho de 2007. Vítima de uma patologia coronariana diagnostica tardiamente. Não resistiu ao pós-operatório de uma cirurgia para implantação de pontes de safena.

Deixa órfãs sua amiga Maria Luiza e a nora Vanessa, além do filho Cesar, que formou em sua faculdade particular, e que empunha hoje, orgulhoso, um diploma de dignidade, educação, garra para viver e esperança no porvir, reflexos da pessoa que ela mesma foi.

Com seu entusiasmo ruidoso, era a alegria e as cores da família. Sem ela nunca mais teremos almoços e jantares em família tão divertidos e alegres.

Em breve, quando nossas tristezas se transformarem em um calorzinho saudoso no peito, faremos novos almoços e jantares, e abriremos novas garrafas de vinho, desta vez para brindar à dona Diva que, certamente, estará feliz junto a Deus e ao seu sempre amado Aloísio, no eterno.


Cesar Cruz
Jun/ 07



Texto relacionado: Daqui a pouco ela cresce, e desaparece