Blackout



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Capítulo I
“E eis que veio ao profeta Isaías a palavra do Senhor: ‘Aí de vocês que adquirem casa e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra! (...) casas belas e grandes ficarão abandonadas, sem moradores (...) o homem será abatido e a humanidade se curvará, e os arrogantes terão que baixar os olhos e o Senhor dos Exércitos será exaltado em sua justiça e em sua retidão...”
Isaías 5: 8 - 16
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O barbeador elétrico parou de funcionar e junto com ele a luz do banheiro também caiu. Roberto ficou ali, de frente para o espelho, parado como uma estátua no breu total. Em instantes a pequena réstia de luz que vinha por debaixo da porta, passou a mostrar o seu vigor, e as pupilas do homem já mais adaptadas à escuridão permitiram-lhe começar a avistar seu sinistro reflexo por entre as sombras. Sentiu-se como o personagem de uma inusitada foto. Um dos braços atravessando por cima da cabeça para que a mão pudesse esticar a pele da face. Na outra mão o aparelho que vinha atuando agilmente sobre os fios serrados agora estava silencioso.No outro banheiro, na suíte do casal, Mirian gritava de frio. Fora surpreendida debaixo do chuveiro, que agora começava a gelar...Roberto abriu a porta do banheiro e saiu de toalha enrolada na cintura reclamando e soltando impropérios contra a companhia de energia elétrica. A luz havia acabado e o horário não poderia ser pior, ele e a mulher tinham 30 minutos para sair pela porta vestindo seus trajes black tie para irem à festa de formatura da sobrinha, e já estavam atrasados.
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“...O elétron é uma partícula que circunda o núcleo atômico, identificada em 1897 por Joseph Thomson, cientista inglês, o elétron é uma partícula sub-atômica de carga negativa, é a responsável pela criação de campos magnéticos e elétricos e da própria energia elétrica existente na natureza...”
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Desde muito pequeno Arlindo sonhava em ser piloto de avião. No seu aniversário de 6 anos ganhou do tio um aviãozinho de madeira que reproduzia um modelo de combate da 1ª guerra. Tinha duas asas sobrepostas e uma hélice no bico. Ficou apaixonado! Daquele dia em diante, brinquedo para o pequeno Dodô só se fosse avião! O pai passou a levá-lo ao aeroporto aos domingos. Naquela época este começava a ser um programa familiar em São Paulo, onde a família morava. Ficavam debruçados no gradil do terraço de Congonhas assistindo aos pousos e decolagens; passavam horas apreciando os grandes pássaros metálicos chegando e partindo! O pai gostava de lhe indagar frente às pessoas: “Filho, o que você vai ser quando crescer?”, e ele respondia: “piloto de avião!”.
Na maioria das vezes os meninos crescem, passam a ter outros interesses e desejar outras coisas para o futuro, mas com Arlindo isso não aconteceu. Manteve a paixão. Cresceu olhando para o céu a procura das suas aves prediletas. Na adolescência comprou lunetas e binóculos para avistá-las. Passou a construir aeromodelos e se transformou num exímio aeromodelista, tendo ganhado até competições.Mais tarde estudou e se formou em engenharia aeronáutica e cursou pilotagem. Formou-se como o melhor piloto de sua turma, em 1968, aos 21 anos. Começou pilotando aviões pequenos, particulares, em 3 anos já era co-piloto dos saudosos Electras da extinta Pan-Am. Logo foi contratado pela companhia Cruzeiro, desta vez para ser 1º piloto. Transformara-se no comandante Arlindo! A partir de então sua carreira só fez crescer. Anos depois estava na Vasp e no começo dos anos 90 foi contratado por uma grande companhia americana, onde permanece até hoje.
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A aeronave vinha a 13.500 pés em procedimento de descida para pouso dentro de aproximadamente 10 minutos no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. O relógio do painel indicava 18:37h. Pelo rádio, Arlindo ouvia em seus fones de ouvido a comunicação da torre com seu co-piloto: “DAL 1128, liberado para procedimentos de descida, informe variáveis e coordenadas” e prosseguiu: “DAL1128 , Hi speed approved, autorizada a aproximação ILS, pista 16, reporte estabilizado, câmbio”. A resposta do seu parceiro: “a velocidade de aproximação é de 350 nós, visibilidade de 1/2 milha, coordenadas 22º 25'30"S/ 44º 48' 22"W. Iniciando procedimentos de descida, câmbio”; resposta da torre: “DAL1128, autorizada a aproximação ILS, reduzindo para 250 KTs, reportará estabilizado, câmbio”.
Tudo sob controle. Arlindo estava feliz, teria uma semana de folga no Brasil com a família. Lá embaixo a grande Belo Horizonte surgia como um inacreditável mosaico salpicado por milhares de pontos luminosos. Arlindo adorava ver a cidade surgir luminosa nas aproximações de pouso naquele horário. O co-piloto prosseguia com a torre: “razão de descida de 400 pés por minuto e velocidade de 290 nós, Full ILS pista 16 , trem baixo e travado, câmbio”.
Arlindo trocou um olhar com seu parceiro e deu-lhe uma piscadela amiga como sempre fazia. Alexandre era um jovem piloto e vinha aprendendo muito de pilotagem e de vida com O Velho, como os mais jovens chamavam carinhosamente o veterano companheiro.
O Velho então pegou o fone no console central, abriu o som para a cabine de passageiros e disse: “Boa noite, senhores passageiros! Sou o comandante Arlindo e estou grato pela oportunidade de pilotar para vocês hoje. Dentro de aproximadamente 10 minutos estaremos pousando no Aeroporto Internacional Tancredo Neves. Como curiosidade: estamos agora a 4000 metros de altitude, a temperatura fora da cabine é de cerca de 11º Celsius e nossa velocidade é de 500km/h...”. Olhou para o garoto, deu-lhe mais uma piscada, como se dissesse: “aprenda essa agora, filho”. Então prosseguiu: “...fiquem atentos aos avisos luminosos para atar os cintos e voltem seus assentos à posição vertical, mas por favor, não deixem de dar uma boa espiada pela janela, a grande Belo Horizonte está lindamente iluminada sob os nossos pés!”. Recolocou o aparelho na base e sorriu satisfeito. Estava feliz, muito feliz.
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De repente, de forma como nenhum dos dois pilotos havia visto acontecer antes, todo o painel de instrumentos se apagou. A energia caiu por completo e a cabine ficou às escuras. Os ponteiros de todos os instrumentos tombaram para a esquerda e as luzes e instrumentos de emergência simplesmente deixaram de funcionar. Os sinais sonoros desapareceram, e o rádio calou. Silêncio total. As turbinas ainda giraram um pouco, dada a inércia e também pararam. Restou agora apenas o assovio do vento pelo lado de fora e gritos abafados que vinham da cabine de passageiros. Nenhum dos dois havia visto algo assim, nem nos piores exercícios no simulador de vôo.
Agora o Boing 767-300 que havia partido do aeroporto Benito Juárez na cidade do México, com 265 vidas a bordo, estava à deriva em direção a lugar nenhum.
Toda a cidade abaixo deles também ficara às escuras. Acabaram-se as referências. Nenhuma luz. Arlindo não compreendia como poderia uma pane elétrica atingir a cidade e a aeronave simultaneamente. Era como se um imenso manto negro houvesse sido estendido sobre a terra. Não havia luz para lado nenhum. A impressão era a mesma que se tinha ao sobrevoar o alto mar ou uma extensa área florestal. Só a luz da Lua a iluminar assustadoramente a cabine.
Arlindo e Alexandre se entreolharam na penumbra. Puderam ver o medo um no rosto do outro. Desesperados, passaram a acionar botões, martelar o rádio e tentar todo o tipo de procedimento. Nada deu resultado, nenhum sinal eletrônico nem sonoro. A aeronave, sem o empuxo dos potentes motores Rolls Royce, passava agora a planar com dificuldade. Perdia velocidade e despencava ritmadamente em solavancos verticais, como se pulasse degraus entre as nuvens. Estavam agora em rota descendente e irreversível, o bico já começava a se pronunciar irremediavelmente em direção ao tenebroso manto negro.
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“...A Física de Partículas é um ramo da Física Quântica que estuda os constituintes elementares da matéria, da radiação e da interação entre as partículas elementares. O elétron e o próton foram as únicas partículas aceleradas até os dias de hoje. A Física de Partículas busca o fundamental, o nível mais básico da matéria e da natureza. Todo o nosso mundo visível se fundamenta neste nível invisível das partículas elementares..."
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Albert Carey, CEO da Kraft Foods Inc, estava na sede da empresa na cidade de Northfield, estado de Illinois, mantendo uma teleconferência com os 9 diretores das unidades fabris ao redor do E.U.A.. Inesperadamente a tela do grande monitor de plasma à sua frente se apagou juntamente com todas as luzes do recinto. Sozinho em sua sala, Albert deu um murro na mesa e gritou para sua secretária apertando a tecla do interfone. Nada. O aparelho estava mudo. Saiu pela porta da sala furioso, aos berros, como era seu costume. A sala ao lado, ocupada pela secretária e por mais 6 pessoas da equipe de operações, também estava sem luz. Os gritos do Sr. Carey a princípio não foram capazes de calar as pessoas. Estavam todos entretidos em um burburinho generalizado. Juntamente com a luz, todos os telefones haviam emudecido, inclusive os celulares. Todos, indignados, discutiam como poderia aquilo estar acontecendo já que é sabido que a luz elétrica e os telefones não têm relação direta. Os relógios nos pulsos das pessoas também não estavam funcionando. Pararam marcando 14h37.
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Albert enrubesceu de ódio, gritou e esmurrou a mesa da secretária levando ruidosamente ao chão o porta canetas. Todos se calaram olhando-o assustados. Albert era um chefe opressor. Famoso por, em momentos de ira, demitir sumaria e instantaneamente funcionários inocentes que se atrevessem a lhe dirigir o olhar. Ficaram todos resignados e quietos. A maioria com os olhos baixos, como se desta forma pudessem se proteger de sua tirania. Aguardavam, com as costas enrijecidas, o início das execuções que certamente estavam por começar.
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O que Albert não sabia, é que esta seria a última vez que subjugaria seus funcionários. O seu poder havia acabado no exato instante em que as luzes se extinguiram.
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“...ai dos que se prendem à iniqüidade com as cordas do engano; e ao pecado com cordas de carroça (...) ai dos que chamam ao mal, bem; e ao bem, mal. Que fazem das trevas luz e da luz, trevas (...) Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em sua própria opinião (...) A ira do Senhor se levantou contra o seu povo (...) Os montes tremeram e os cadáveres estão como lixo nas ruas (...) E se alguém olhar para a terra verá trevas e aflição, pois até a luz do dia será obscurecida pelas nuvens’”.Isaías 5: 18 - 30
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Yann Brekilien tinha as duas mãos enfiadas na cavidade toráxica do pequeno Ilian de 5 anos. Yann era o mais experiente e conceituado cirurgião cardíaco infantil da Irlanda. Há anos operava casos como aquele no THE NATIONAL CHILDREN'S HOSPITAL, em Dublin.
O pequeno Ilian nascera com uma patologia cardíaca que impedia o bom funcionamento da válvula mitral. A necessidade de cirurgia havia sido diagnosticada desde os primeiros meses de vida, mas Ilian só pôde fazê-la agora, aos 5 anos. O garotinho passou os primeiros anos de vida em balões de oxigênio e sendo monitorado passo a passo pela família para que não fizesse grandes esforços; controle difícil de se exercer sobre uma criança desta idade.
Yann estava fazendo o reparo na válvula com a ajuda do bisturi a laser e com o auxílio de outro par de mãos experientes. A circulação do menino estava sendo mantida no sistema extracorpóreo, e o seu pequeno coração estava parado nas mãos do cirurgião.
Inesperadamente, para susto geral da equipe, as 4 potentes lâmpadas HQI sobre eles se apagaram, o bisturi e todos os equipamentos da sala interromperam seu funcionamento. Yann soltou um grunhido de susto. Todos da equipe se entreolharam por um instante, os olhos arregalados e as pupilas dilatadas pelo medo e pela escuridão. Uma enfermeira correu abrir as persianas para que algum tipo de luz pudesse entrar e acabar com o breu. Outras duas saíram pelo corredor à busca de ajuda. O hospital inteiro parecia estar às escuras. Alguém falou algo sobre o gerador de emergência não ter assumido a alimentação da sala. Pessoas gritavam nos corredores. Em segundos os 2 cirurgiões e os 3 auxiliares estavam em pânico.
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O pequeno Ilian começava a ficar sem ar, pois o respirador artificial também parara. Em meio à gritaria, os auxiliares substituíram rapidamente o respirador eletrônico pelo manual e começaram a bombear o ar cuidadosamente para aqueles pequenos pulmões. Yann e o colega do outro lado do leito cirúrgico discutiam nervosos por debaixo das máscaras de tecido qual o procedimento que deveriam tomar. Agora já conseguiam se ver um pouco. As enfermeiras voltaram com lanternas a pilha, mas que não funcionavam.
Enquanto falavam os 2 médicos esforçavam-se para se acalmar mutuamente e pensar em algo que pudessem fazer para salvar o garoto. Na parede acima da porta de acesso à sala um relógio parado indicava 21h37, horário de Dublin.
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“... O acelerador de partículas é um aparelho que produz "feixes" de átomos, elétrons ou outras partículas, com velocidades altas, geralmente superiores a 1/1000 da velocidade da luz...” “...a principal razão para as experiências de aceleração de partículas é que precisamos conhecê-las melhor e um dos meios de fazer isso é colidi-las em altas velocidades com outras partículas (átomos, fótons, elétrons, moléculas, etc) ou com corpos sólidos...”
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Enquanto aguardava a abertura do semáforo, o senhor Kawashi aproveitava para ouvir as notícias matinais na rádio local de Tokyo. A cidade naquele horário já estava com as ruas abarrotadas de pessoas. Na frente do seu carro, a faixa de pedestres havia sumido sob um mar de gente apressada que fluía de um lado para o outro.
Kawashi andava pensativo e ansioso. Sua única filha, Kazuo, de 22 anos iria se casar dentro de 15 dias. Viúvo e solitário, o homem tinha na menina a paixão da sua vida. Vinha fazendo das tripas coração para levantar recursos para a caríssima cerimônia xintoísta e para a festa. As peças de cerâmica que seriam ofertadas como presentes aos convidados, os kimonos especiais, toda a indumentária necessária, os talheres virgens em prata para o jantar, o teatro de bonecos bunraku para animar a festa, o dote para o casal... Ah, os ienes acumulados em uma vida de árduo trabalho no chão da fábrica estavam se esvaindo como água! Mas para ele isso não importava. Foi por isso que Kawashi trabalhou todos estes anos, mesmo após a aposentadoria. Sempre foi um homem que gostou de ter um objetivo pelo qual lutar, e este passara a ser o seu após a viuvez: casar Kazuo.
O homem não via a hora de vivenciar o momento da leitura do seishi – juramento sagrado de amor eterno – e de ver sua bela e imaculada menina tomar os 9 goles de saquê com o noivo, selando assim a união eterna.
De repente a multidão apressada foi contida pelo agudo e ameaçador silvo sonoro proveniente do pequeno semáforo de pedestres. Uma luz vermelha passou a piscar no totem, impedindo o avanço. O formigueiro humano estancou subitamente. Os transeuntes, contidos na beirada da calçada, mesmo pressionados pela massa humana, não se atreviam a tocar o pé além do meio fio. O sinal para os veículos passou para o verde. Kawashi pôs o carro em movimento.O relógio do painel indicava 6h37, e ele teria que chegar à fábrica antes das 7h para passar o cartão de ponto, como fazia há 30 anos.
Assim que apertou o pé no acelerador, o motor roncou e o carro avançou um pouco, mas parou logo em seguida. Percebendo que seu motor morrera, Kawashi rapidamente - e antes que o veículo de trás o atingisse na traseira - virou e desvirou a chave no contato. Nada. Nenhum ruído além do tilintar do molho de chaves. Incrédulo, curvou o tronco sobre o volante e repetiu o gesto. Silêncio.
Apesar de não ter tomado uma batida nem uma buzinada, certamente seria multado quando o policial de trânsito mais próximo o visse parado no meio do cruzamento atrapalhando o fluxo.
Caso não conseguisse fazer o carro funcionar seria preso e processado por falta de manutenção no veículo e por perturbação da via pública. Homem sempre correto que foi, estava em desespero. Ergueu a cabeça, olhou pelo retrovisor e lançou o braço para fora da janela em sinal de desculpas; sentia a descarga de adrenalina disparar seu coração e lhe ferver o sangue, sua testa suava. Kawashi fixou o olhar no espelho retrovisor e reparou que estranhamente o motorista do carro de trás também parecia ter o mesmo problema. Olhou para frente e para os lados e viu que, surpreendentemente, todos os carros ao seu redor também estavam parados e todos os semáforos desligados. O rádio do carro também havia silenciado. Os motoristas já começavam a descer dos veículos se misturando aos pedestres que agora cruzavam a rua pelo meio da confusão. Kawashi também desceu.
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Presenciou um silêncio que nunca havia ouvido em Tokyo em seus 62 anos de vida. Não era um silêncio total, havia vozes, muitas vozes ao seu redor, mas os ruídos das buzinas, dos motores dos caminhões, ônibus e carros particulares haviam cessado por completo, assim como haviam desaparecido os sons dos alto-falantes dos grandes magazines, das lojas de eletrônicos e todos os demais ruídos eletrônicos e mecânicos da civilização. Tirou o celular do bolso para ligar. O aparelho também estava apagado. O relógio digital em seu pulso exibia o fundo cinza escuro característico do cristal líquido, mas não havia nele nenhum dígito acesso. Olhou para o alto a procura de um dos enormes relógios que carregavam propagandas nas grandes vias. Estavam todos lá, mas também apagados. Tudo, por algum misterioso motivo, tinha sido desligado ao mesmo tempo em Tokyo.
Dentro de exatas 14 horas, já a noite, ao caminhar sem rumo pelas ruas escuras da cidade à procura da filha, Kawashi sentiria uma pontada aguda no peito, que o mataria ainda em pé, antes de tombar ao solo como um saco de arroz.
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“...Astrônomos fazem pela primeira vez, um mapa da aceleração de elétrons em uma supernova. As análises mostram que os elétrons são acelerados ao limite máximo teórico em algumas partes da estrela. Estima-se que prótons e íons, que formam a maior parte dos raios cósmicos, acelerem-se da mesma maneira na natureza...”
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Capítulo II
Roberto foi à varanda ainda enrolado na toalha. Do alto do seu apartamento, no 22º andar, podia avistar a maior parte da região oeste da cidade de São Paulo. A cidade estava às escuras. Até aonde a vista podia alcançar não se via luz artificial, apenas focos que pareciam ser incêndios. A aproximadamente 15km no sentido leste, um enorme clarão flamejava como uma fogueira gigantesca. Aparentava ser um prédio inteiro em chamas. Excetuando-se a iluminação dos incêndios, até mesmo os veículos que em ocasiões de falta de luz costumam oferecer um bom espetáculo com os fachos de seus faróis, desta vez pareciam estar apagados. Nenhuma sirene, nenhum sinal da mobilização de polícia ou bombeiros. O quadro inteiro era absolutamente atípico.
Mirian saiu à procura das lanternas e voltou comentando que deveriam estar com as pilhas descarregadas, visto que também não funcionavam. Levantou o telefone do gancho para ligar para a mãe. Não havia linha. Começou a recear que a falta de luz na cidade prejudicasse a festa de formatura da Juliana, sua sobrinha predileta.
Apanhou o celular e abriu-o. Apagado. Correu ao interfone para perguntar ao porteiro se havia alguma previsão do retorno da luz, mas o interfone também estava silencioso. Voltou para a sala perturbada e falando alto algo sobre o fato de que precisava ligar urgentemente para a mãe.
Roberto estava debruçado no peitoril da varanda com a testa enrugada pela preocupação; os olhos atentos observavam os focos de incêndio. Seus pensamentos iam longe. Como físico e chefe da cadeira de astronomia da Universidade Estadual, tinha quase certeza do que estaria acontecendo. Tremia por dentro só de pensar que pudesse estar certo. Queria estar enganado, queria tanto que aquilo fosse um simples blackout.
Com a lanterna que Mirian havia lhe posto na mão, ligava e desligava o interruptor olhando para a lâmpada irremediavelmente morta. Sabia bem o porquê do não funcionamento da lanterna, dos telefones e de tudo que dependia de energia elétrica. Roberto sabia o que viria agora. Sabia que não haveria baile de formatura naquela noite. Nem naquela noite, nem nunca mais. Sabia que aquele momento marcava o fim de tudo. Tudo o que o ser humano havia conquistado e conhecia como civilização.
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Mirian estava parada na sua frente de cara enfezada, o corpo enrolado numa toalha e o cabelo em outra, formando um grande turbante. Roberto voltou a si e percebeu que a mulher já o havia indagado pela segunda vez sobre algo, sem obter atenção. Não era de se estranhar que estivesse zangada.
Roberto sentia-se travado para falar, como se suas cordas vocais tivessem sido amarradas uma a outra. Ficou ali parado, olhando para as duas estreitas fendas horizontais que revelavam o par de penetrantes olhos negros e orientais da sua baixinha predileta – costumava chamá-la assim quando a abraçava por trás e lhe beijava o pescoço. Simplesmente não sabia o que dizer a ela. Sentia-se calmo, estranhamente calmo e resignado. Aquela típica calmaria que atinge um homem que já sabe que não há o que fazer, pois não há nenhuma variável que possa ser controlada.
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Roberto pegou a mulher pela mão, carinhosamente, e, em silêncio, levou-a até a sala de estar do amplo e confortável apartamento em que moravam. Sentou-a no sofá ao seu lado. Não tinha a menor ideia de como começaria. Como falar para uma pessoa que tudo o que ela havia conquistado e tudo o que ela entendia por vida e felicidade, havia terminado, assim, em um instante? Como explicar algo aparentemente inverosímil, improvável e chocante como aquilo? Como a faria acreditar em uma coisa que ele sabia muito bem que não acreditaria se estivesse no lugar dela?
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“As mais novas análises das supernovas descobertas na Via Láctea, mostram que elas agem como uma espécie de máquina de aceleração de partículas ao acelerar elétrons a uma velocidade impressionante, de acordo com pesquisadores da universidade de Harvard...”
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Mirian permanecia ansiosa olhando para o rosto do marido. Conhecia Roberto havia 20 anos, desde que se viram pela primeira vez na faculdade. Na época, ela, com apenas 19 anos de idade, cursava psicologia e ele física. Foi paixão instantânea. Daquele dia em diante nunca mais se largaram. Casaram-se 6 anos depois quando ambos já estavam formados e ela atuava como assistente social em uma escola da prefeitura. Na época ele fazia parte de grupos de estudo de astronomia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Era um jovem talento emergente. Por opção, nunca tiveram filhos.
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A mulher aguardava assustada, sentia que alguma coisa ruim havia acontecido. Conhecia o marido como a palma de sua mão e aquele toque doce, aqueles gestos repentinamente cheios de carinho, aquele olhar terno, que traziam uma pitada subliminar de comiseração, eram sem dúvida indícios de algo muito ruim. Não que Roberto não fosse carinhoso, mas o quadro estava deslocado, aqeuilo tudo estava fora do momento oportuno. Lembrou-se da máxima do pensador alemão Johann Heinrich: “nada é mais silencioso do que um canhão carregado”. Mirian veria em breve como aquela frase se encaixava bem em tudo o que estava por vir.
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Segurando as mãos da mulher, Roberto passou a explicar detalhadamente o que ele estava desconfiado que poderia ter ocorrido. Explicou-lhe que uma queda de energia em uma cidade não poderia ter relação nenhuma com a telefonia móvel, a fixa e muito menos com a energia oriunda das pilhas de uma lanterna. Mirian permanecia quieta, tensa, aguardando uma solução. Roberto sempre trazia soluções boas, objetivas e pragmáticas para as coisas, Mirian amava tal característica do marido e tinha nela seu pilar de sustentação.
Roberto levantou-se e caminhou na escuridão até a cozinha puxando-a pela mão. Abriu uma das gavetas da bancada e pegou o isqueiro e o faiscador mágico. Colocou os 2 utensílios na mão da mulher e, na escuridão fria da cozinha, encostados no fogão, a pediu que os fizesse funcionar. Mirian tentou o isqueiro primeiro. Nada. O aparelhinho parecia não querer mais emitir as faisquinhas tão características. O acendedor mágico se comportou da mesma forma, apesar das diversas tentativas. Nada de faíscas.
Mirian sentia o impacto silencioso da verdade lhe atingindo o âmago. Suas mãos gelaram. Qual seria a conclusão daquilo? O que aconteceria agora? Nunca mais teriam luz? Seria só isso? Pensou, mas não perguntou nada. Ficou ali parada olhando para o marido, resignada, aguardando o desfecho.
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Roberto explicou-lhe que, possivelmente, um fenômeno astronômico de grandes proporções teria ocorrido na Galáxia, e se suas suposições estivessem corretas, diminutas partículas atômicas teriam sido disparadas contra o planeta Terra fazendo com que todos os elétrons livres que circundam os núcleos dos átomos que compõem tudo o que existe no planeta, poderiam ter sido parcialmente desativados. Desta forma, todas as emissão elétricas e magnéticas que conhecemos não existiriam mais de agora em diante. Portanto, a partir daquele momento, o mundo só disporia de discretas manifestações elétricas: a energia estática, as pequenas descargas elétricas que ocorrem, por exemplo, no cérebro dos seres vivos etc.
Mirian estava em choque. Estava apavorada, temendo perguntar o que fariam agora, e se aquilo era reversível ou não. Tinha medo da resposta do marido. Conhecendo Roberto como conhecia, estava certa de que o que acabara de ouvir era a mais pura verdade.
Roberto prosseguiu explicando-lhe que não teriam muita chance de viver em um mundo sem energia elétrica, pois tudo, absolutamente tudo o que o homem havia criado, dependia da energia. Até mesmo o funcionamento de um simples acendedor mágico. Só teriam uma saída: reunir todos os alimentos secos que pudessem carregar em mochilas e partir com as roupas do corpo numa longa caminhada em direção ao mar.
Mirian começou a chorar, queria buscar sua mãe, saber da sua irmã, de seus sobrinhos. Roberto abraçou-a e explicou que não haveria a mínima possibilidade de buscarem nenhum parente, nem mesmo a mãe de Mirian, que morava a cerca de 10km deles. Uma caminhada como aquela tomaria horas e, naquela escuridão, a chance de serem mortos ou atacados pelo caminho seria enorme. A cidade já deveria estar em colapso naquele momento.
Ficaram ali, em pé, na cozinha escura do apartamento enfrentando a dureza aterrorizante de uma verdade. Mirian chorava e soluçava encostada no peito do marido. Na sua cabeça, implorava a Deus que aquilo fosse apenas um sonho. Mas não era.
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“...em estudos publicados na revista científica britânica Nature, quatro equipes internacionais de cientistas provaram com experimentos laboratoriais, que a extraordinária explosão da supernova Silion, que ocorreu há 2 semanas e que foi sucedida por uma difusão curta e acentuada de raios gama e íons neutrais, poderia ter sido capaz de descarregar elétrons livres interrompendo a emissão da energia elétrica (...) o flagrante da explosão e o experimento juntos, afirmaram os cientistas, é a primeira confirmação de uma teoria segundo a qual as explosões de supernovas podem algum dia atingir fatalmente a difusão de energia elétrica do planeta Terra ...”
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Capítulo III
Em boa parte das cidades do hemisfério ocidental, o blackout ocorreu entre o pôr-do-sol e as 22h. Dado o grande número de pessoas nas ruas, a confusão se instalou em minutos e o pânico se generalizou em menos de 1 hora.
Quem estava dirigindo foi surpreendido pelo desligamento repentino do veículo. Em longínquas estradas vicinais motoristas ficaram perdidos no meio do nada. Quem dirigia em velocidade, com a interrupção do motor - e a conseqüente extinção do auxílio hidráulico aos freios -, não conseguiu frear. Em vias rápidas ao redor de todo o globo, carros, caminhões, ônibus e veículos de todos os tipos colidiram entre si, bateram em muros, chocaram-se contra postes, invadiram residências, despencaram de penhascos, pontes, viadutos, caíram em rios, córregos...
Os motoristas que estavam nos congestionamentos urbanos, trancaram seus autos e saíram em caminhada em direção às suas casas ou a procura de algum lugar onde pudessem fazer contato com as pessoas. Alguns, aterrorizados, optaram por aguardar trancafiados nos veículos. Grandes explosões foram ouvidas nos primeiros minutos após o ocorrido. Mais de 3 mil aeronaves, aviões e helicópteros de todos os portes, despencaram sobre solo, rios e mares. Milhões de pessoas morreram instantaneamente. Incêndios de enormes proporções crepitavam por toda a face da Terra.
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Multidões em desespero corriam pelas ruas à busca de informações. Sem telefones e meios de transportes motorizados, a desorientação e o desespero se instalaram rapidamente. Nos países imersos na madrugada, as pessoas acordaram com os estrondos das explosões. Quem não acordou, despertou horas depois percebendo que seus despertadores não haviam tocado; logo se dariam conta de que não só despertadores, mas nada mais funcionava. Nestas localidades o pânico e o tumulto demoraram um pouco mais para eclodir. A manhã avançou e as ruas permaneceram vazias e silenciosas como nunca se havia visto. Ficaram todos em suas casas, aguardando a volta da energia, que nunca mais chegaria.
Nos países subdesenvolvidos, os crimes contra o patrimônio começaram a ocorrer em poucas horas. Estabelecimentos comerciais, shoppings e supermercados foram invadidos, saqueados e depredados. Comerciantes baixaram as portas assustados com a correria e gritaria descontrolada nas ruas.
Polícias, Exército, Cruz Vermelha, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros ficaram de mãos atadas frente à impossibilidade de comunicação e mobilização, fato que lhes impedia quaisquer reações organizadas. As entidades civis e militares agora se resumiam a células autônomas, débeis e desassociadas. Agora a única forma das pessoas se comunicarem passou a ser pessoalmente. Aqueles que estavam perto retornaram às suas casas, mas a maior parte dos que estavam fora, em escritórios, escolas, nas ruas, no trabalho, não conseguiram fazê-lo.
Distâncias curtas transformaram-se subitamente em longas distâncias. Percursos de 5 ou 10km, pequenos para os padrões de uma megalópole, passavam a ser quase intransponíveis, pois exigiriam arriscadas e longas caminhadas para serem vencidos. As pessoas estavam definitivamente impossibilitadas de ir ao encontro dos seus.
Aterrorizados, os humanos se armavam. Qualquer aproximação era considerada suspeita. Não se podia mais confiar em ninguém.
Com a chegada da noite, estupros e assassinatos começaram a fazer vítimas, em sua maioria mulheres e crianças. Na escuridão da madrugada, gritos de horror podiam ser ouvidos ao longe, vindos de locais fechados e de bocas tapadas.
As informações, vomitadas aos bilhões por segundo via Internet, televisão, rádio e demais veículos de informação, foram inexoravelmente encerradas. De um instante para outro a civilização voltava à idade da pedra sem se dar conta. Não havia agora mais nenhuma maneira de se fazer um contato ou transmitir uma informação que não fosse pessoalmente.
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Pais perderam filhos, casais foram separados, irmãos não tinham como se localizar, trabalhadores ficaram presos em elevadores, câmaras, em cima de obras, em galerias de manutenção, minas de carvão, no interior de máquinas, no topo de linhas de transmissão, em salas de controle. O absoluto breu nas estações subterrâneas do Metrô geraram pânico sem precedentes, multidões sucumbiram pisoteadas. Muitos estavam em ônibus lotados, plataformas de petróleo, túneis marítimos, rodas-gigante. Navios de cruzeiro e de carga ficaram à deriva, alguns a centenas de quilômetros da costa; a bordo deles, milhares de almas estavam agora condenadas a viver até que o alimento e a água potável se esgotassem.
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Apenas 24 horas depois do ocorrido, cadáveres já se acumulavam como lixo pelas ruas. Os disparos de arma de fogo começavam a se generalizar. O sangue descia abundante pelas calçadas e ruas, tingindo de rubro as cidades. Em breve começariam os massacres organizados.
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“...o Senhor detesta os perversos de coração, mas os de conduta exemplar dão-lhe alegria. Esteja certo de que os ímpios não ficarão sem castigo e de que os justos serão poupados...”Provérbios 11: 20 – 21
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No 3º dia, a hecatombe já fazia mais de 60 milhões de vítimas pelo mundo. Número maior do que a II Guerra Mundial produziu em 6 anos.
Supermercados, restaurantes, fábricas de alimentos e residências foram invadidos por grupos enlouquecidos à busca de víveres. Os mais fracos, mais velhos, mulheres e crianças vergavam frente ao assalto violento dos mais fortes. Prosaicos objetos domésticos e de trabalho viraram armas letais na mão de homens antes civilizados, que se transformaram repentinamente em guerreiros animalizados, prontos a defender sua prole.
Os que se trancafiaram em casa, bloquearam portas e janelas criando verdadeiras barricadas domésticas. Tudo o que a mente humana criou em 100 anos de desenvolvimento tecnológico perdia agora o seu valor. Computadores, celulares, televisores, automóveis, arranha-céus, aviões, parafernálias eletrônicas de toda a espécie, nada disso valia agora um único pedaço de pão.
Não havia forma de se produzir luz, a não ser com o fogo. Ainda assim, para produzi-lo as dificuldades eram grandes. Fósforos podiam ser acesos, mas só inflamavam após longa fricção para gerar calor. Os pequenos palitos passaram a valer ouro, mas acabaram em pouco tempo.
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Nas ruas profetas gritavam anunciando o fim do mundo e a volta do Cristo para o julgamento final. Crentes de todas as religiões se enclausuravam em templos, igrejas, sinagogas e mesquitas para rezar, jejuar ou se penitenciar a espera do fim. Cidadãos em delírio, embriagados de desorientação e encharcados de suor corriam por todos os lados; gritos desesperados preenchiam o silêncio das ruas.
A partir do 5º dia, as famílias que haviam se entrincheirado em casas e apartamentos, tinham agora que deixar tudo para trás e partir. As geladeiras viraram caixas úmidas e abafadas e os alimentos começavam a acabar. A água potável não chegava mais às torneiras, pois dependia de bombas elétricas para impulsioná-la. O esgoto também parara de fluir, pelo mesmo motivo. Ratos e baratas saíam dos subterrâneos e estavam agora por toda a parte, misturados aos cadáveres em decomposição. As cidades começavam a feder de maneira insuportável e a se tornar inabitáveis.
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Dada a falta de comunicação e o isolamento das pessoas, muitos acreditavam que o problema poderia ser localizado; criam que em outras cidades tudo poderia estar normal. Era com esta esperança que pais de família partiam em longas jornadas com o desafio de buscarem socorro. Carregavam consigo apenas itens imprescindíveis e algum alimento, deixando idosos e crianças agarrados a uma cândida esperança... Desta forma familiares acabavam separados para sempre, pois não conseguiam retornar ou eram mortos pelo caminho.
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Ao final do 1º mês, as cidades estavam horrivelmente desoladas, tão inóspitas quanto o inferno apocalíptico. Residências, edifícios comerciais, empresas, indústrias, hospitais, comércios, estavam todos abandonados. Restos humanos se misturavam ao lixo e a excrementos. O medo vinha estampado na face dos sobreviventes, a falta de esperança havia se enraizado profundamente no íntimo das pessoas. Homens embrutecidos, desumanizados e truculentos espreitavam sorrateiramente, prontos a atacar grupos fracos para matar os homens e sequestrar as crianças com o intuito de fazê-las de alimento.
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Estradas permaneciam lotadas por grupamentos errantes que em romaria iam para os mais diversos sentidos. Famílias deixavam as cidades em direção a algum lugar, a maioria sem rumo certo; muitas pilotando bicicletas, que não raro, eram-lhes surrupiadas com brutalidade e morte. Em encontros fugazes, viajantes relatavam que, de onde vinham, só haviam visto mortos e cidades esquecidas. Destes encontros, novos exércitos se formavam decididos a partir em outras direções.
Os novos nômades pousavam por poucos dias nas localidades, partindo logo que a região se tornava desassistida de víveres, insalubre, inóspita. Animais domésticos e de rua, como cães, gatos e pássaros passaram a fazer parte do cardápio dos sobreviventes; eram cozidos em pequenas fogueiras, ou comidos crus. A busca por alimento e água passou a ser feroz e voraz. A realidade definitiva era a escassez.
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Por volta do 3º mês a população da terra havia sido reduzida a 1/6 da anterior, menos de 1 bilhão de habitantes, na sua maioria homens jovens.
Nas áreas urbanas, o caos, a desumanização das pessoas e a prática de canibalismo tornaram-se uma realidade cristalina. Graças à sujeira, insetos e ratos, as pestes e doenças contagiosas atacavam os moribundos de forma avassaladora. Sem medicamentos, estrutura hospitalar e resistência imunológica, era difícil resistirem as mais simples infecções.
Carcaças humanas parcialmente carcomidas, rasgadas ao meio e com as tripas à mostra, espalhavam-se por becos, ruas e estradas. Durante o dia, aves de rapina disputavam os cadáveres com homens armados com paus e pedras. Desesperadas e em busca da sobrevivência, as pessoas não se davam ao trabalho de cavar valas para os seus mortos.
Guerrilhas urbanas e rurais haviam se formado. Aqueles que partiram em direção ao interior invadiram propriedades, mas enfrentaram forte resistência dos moradores locais. Os mais fortes e numerosos venciam. Nas cidades, grupos armados lutavam até a morte, e os derrotados transformavam-se em alimento dos vencedores.
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... mesmo não florescendo a figueira e não havendo uvas na videiras, ainda que falhe a safra de azeitonas e os campos não produzam mantimentos, mesmo que as ovelhas sumam, as vacas sejam arrebatadas do curral e os bois do estábulo, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei do Deus da minha salvação... ”Habacuque 3: 17-18
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Final
Passados 3 anos, a população do planeta havia sido reduzida a 7% da anterior. Pouco mais de 400 milhões de habitantes viviam agora sobre toda a face do planeta, a maioria em áreas litorâneas e rurais. Os sobreviventes aprendiam técnicas de caça e pesca e como produzir fogo utilizando a luz solar e lentes de objetos ópticos. Pouquíssimas coisas criadas pela extinta civilização ainda eram usadas, a maioria virou entulho esquecido ou habitat de insetos e animais.
Todas as grandes metrópoles ao redor do globo estavam vazias e silenciosas. Arranha-céus transformaram-se em morada de pássaros e de aves migratórias. Após o fim dos restos humanos, os animais haviam partido das cidades em busca de alimento. Esqueletos de pessoas jaziam nos mais inusitados lugares; dentro de casas, deitados em camas, em corredores de escritórios, pelas ruas, em becos, tocas, alcovas, dentro de apartamentos, empresas, igrejas, clubes.
O dinheiro já não tinha mais valor algum. As relações mercantis voltaram a ser feitas na base da troca. As civilizações mais desenvolvidas tecnológica e economicamente foram as que tiveram que transpor os maiores obstáculos para a sobrevivência.
Aqueles que dispunham de mais recursos, mais poder, mais status social e mais bens, foram os que mais sofreram o choque da mudança. Tudo o que tinham não lhes serviu de nada, a maioria passou a viver como mendigos, mortos-vivos perambulando flagelados pelas ruas. Muitos morreram nos 3 primeiros anos, vítimas de doenças e de fome.
Quem tinha pouco a perder, pouco perdeu. Os miseráveis e os moradores de rua, abundantes em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México, Bangkok, Bogotá e Pequim, acostumados a carência e a miséria, adaptaram-se melhor. Para estes a verdadeira mudança foi terem agora como companheiros de desgraça as mesmas pessoas que antes lhes fechavam os vidros dos carros e não lhes dirigiam o olhar no passeio público.
A maioria dos que permaneceram nas cidades morreram. As únicas chances estavam no campo ou no mar. Quem partiu em direção às áreas litorâneas passou a viver da pesca. Nas margens de rios e em regiões rurais, milhões se estabeleceram formando novas comunidades. Pessoas antes adaptadas à civilização, aprenderam a caçar, pescar e fazer fogo.
Os animais foram os que menos sofreram. O mundo para eles melhorou muito. As florestas pararam de ser tombadas e queimadas, o concreto parou de avançar por sobre a natureza e agora, o verde começava a achar brechas para ressurgir no meio do concreto.
Os grupos mais aculturados se reuniram em guetos. Compreenderam que houve algum tipo de colapso no que passaram a chamar de “matriz elétrica”. Mentes privilegiadas em todas as partes pensavam em um jeito de reverter à situação, mas a extinção da faísca primordial não permitia que nenhuma tecnologia fosse ressuscitada.
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Após 12 anos, uma nova geração havia surgido. As crianças que haviam nascido após o fim da era elétrica, ouviam histórias sobre um mundo organizado e animado de forma que elas não conseguiam conceber.
As metrópoles anteriormente habitadas pelo “homus urbanus” sucumbiram definitivamente. 18 anos depois, a maior parte do asfalto e do calçamento havia rachado sob a ação do tempo e tiveram suas placas retiradas pelos sobreviventes ávidos por terra propícia à plantação e a escavação de poços.
A vegetação havia tragado ruas e casas inteiras. Carcaças enferrujadas de carros agora estavam enredadas pelo mato que emergiu do solo rachado. Árvores nasceram por debaixo de veículos apodrecidos, rompendo latarias oxidadas e despontando para o céu de forma surreal.
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Mais 15 anos se passaram. Por entre as trincas das paredes dos edifícios, trepadeiras, heras e demais plantas da família das araliáceas e dicotiledôneas, agora davam abraços verdes em estruturas inteiras, subindo por 20, 30 andares. Os cadáveres humanos que ficaram em locais fechados de difícil acesso, onde nem as intempéries nem os predadores puderam alcançá-los, jaziam mumificados e ressequidos; a pele de alguns, como couro duro e escurecido, envolvia seus esqueletos delgados.
As casas e edificações térreas serviam como morada rudimentar para grupos de seres desumanizados que agora habitavam as cidades. Diversos animais também voltavam a viver e a se reproduzir nas metrópoles, fazendo delas sua morada definitiva. Viviam agora, nos mesmos locais onde, milhares de anos atrás, seus ancestrais viveram e foram gradualmente expulsos pelo homem e pelo seu progresso.
Os trabalhos baseados em atividades burocráticas e os estudos organizados nunca mais existiram. Decanos, sobreviventes da era elétrica, ensinavam seus descendentes a ler, escrever e a calcular, mas era só. A inexistência de recursos e a impossibilidade de grandes mobilizações organizadas impediam quaisquer possibilidades de avanços intelectuais e científicos organizados.
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E não haveria energia elétrica pelos próximos 63 anos...
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“...o que é o dia aceitável ao Senhor? Não é o soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo o cabresto? Não é partilhar a sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou e não recusar ajuda ao próximo? Faça assim, e a sua luz irromperá como a alvorada e prontamente surgirá a sua cura! (...) Aí sim você clamará ao Senhor e ele responderá; você gritará por socorro e ele dirá: Aqui estou. (...) O Senhor o guiará constantemente, satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam. Seu povo reconstruirá as velhas ruínas e restaurará os alicerces antigos; você será chamado reparador de muros e restaurador de veredas”Isaías 58: 6 -12
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90 anos haviam se passado desde o dia em que o fatídico cataclismo atingiu a humanidade.
O desenvolvimento humano voltou a ser lento, grotesco e tortuoso, como na pré-história humana.
Um dia, sem aviso prévio, houve uma alteração metafísica em alguma parte do universo próximo, então de repente tudo voltou ao normal. Os elétrons voltaram a chicotear ao redor dos núcleos atômicos, como não faziam havia quase 1 século, mas ninguém daquela geração tinha meios para saber disso. Os cientistas e as cabeças pensantes que poderiam identificar as sutis alterações, já haviam morrido há muitos e muitos anos...
Não havia sobre a Terra pessoas capacitadas a dirigir a humanidade no rumo de uma nova era tecnológica. Esta geração rudimentar tinha nascido, crescido e se reproduzido em um mundo selvagem e primitivo. Bastava para este novo homem, o local para pousar, a água para beber e o alimento para mantê-lo.
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A tragédia atingiu a todos igualmente: ricos, pobres, jovens, velhos, cultos, incultos, saudáveis, doentes, europeus, americanos, orientais... Embora nenhuma coluna de fogo tenha descido dos céus, o homem foi terrivelmente castigado. Punido com uma silenciosa e peculiar penitência, teve interrompido seu progresso e desenvolvimento e se viu obrigado a se submeter à própria vida selvagem que ele mesmo provocou a quase total extinção.
Durante estes 90 anos, a mãe natureza lançou seus tentáculos verdes por todos os 4 cantos do globo, apoderando-se impetuosamente das antigas ruínas que foram engolidas por densa e exuberante fauna e flora, voltando assim a tomar posse do que sempre foi seu por direito.
Direito que lhe foi surrupiado pelo extinto morador destas paradas, chamado homem civilizado.
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Cesar Cruz
Nov/ 07
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7 comentários:

Anônimo disse...

oi César.
Gostei do site e gostei muito desde texto especialmente. muito criativo e bem pensado. é o fim do mundo mesmo! (risadas)parabens pelo site. Tambem sou escritor amador vira lata como voce diz (risadas). Vamos na luta nessa nossa carreira que escolhemos. Deus que lhe ajude

abraços do amigo Vinicios
cidade de Sabara - MG

18.4.08

Cesar Cruz disse...

Caro Vinicios!

Rapaz, vc mora longe de mim...
Obrigado pelo comentário. É amigo, é mesmo o fim do mundo esta história!! em todos os sentidos! hahaha!
Bom, vou torcer pra vc na sua carreira de escritor vira-lata! Eu tenho me esforçado, mas pra mim escrever não é propriamente uma carreira, é só uma coisa que gosto de fazer!
Mande-me algumas das coisas que vc escreve por email, assim podemos compartilhar experiências! cancruz@terra.com.br

Forte abraço
Cesar

18.4.08

Anônimo disse...

> Cesar,
>
> Estou muito bem impressionada com esse seu conto o Blackout....
>
> Está muito bom.
>
> Os encaixes de Física, e os bíblicos, adequadíssimos.
>
> O conto nos prende todo o tempo. E a mensagem é a mais séria, no meio da "ficção",....
>
> Beijos para a Vanessa e para você!

>
> Com carinho, e sempre na torcida,
>
> CArolie
>

29.9.08

Lu Mello disse...

Adorei!!!!!O jeito que você estruturou ficou o máximo!
Parabéns!
Lu Mello - São Paulo

Anônimo disse...

Ai, Credo! Que medo!
Isso está ótimo e você está me saindo um "Spielberguiano" de primeira! Parabéns!
Beijo, Yeah.

Danilo Veguia disse...

Esse eu já tinha lido quando vc me mandou da primeira vez. Reli de novo, após ter vivido o blackout desta semana! Assustador! Confesso que lembrei desse conto quando tentei usar meu celular e estava sem sinal, assim como o telefone fixo. Pensei: xii, o Cesinha tinha razão, agora é o fim! arararará!

abraços, parabens!
Danilo

Anônimo disse...

U-A-U!!

Que texto!! Beijos Mara