O derradeiro beijo da mamãe


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Mudei-me há uma semana. Fui morar no apartamento que comprei com minha mãe há quase 20 anos, logo depois que meu pai morreu. Eu e dona Diva compramos aquele imóvel com grande sacrifício, em 1992. Vendemos quase tudo o que tínhamos para juntar o dinheiro necessário: a minha moto, as (poucas) joias dela, objetos de valor... Fizemos até um bazar com alguns móveis e utensílios. Reunimos os últimos trocados e, enfim, conseguimos.

Mamãe se foi em junho de 2007, não resistiu a uma operação para colocar pontes de safena... Um ano depois morreu a querida Maria Luisa, que ficou morando lá após sua morte, viúva da amiga... E o apartamento ficou fechado um tempão.

Então, agora, decidido a me mudar para lá, promovi uma revolução: doei móveis; troquei parte do piso; pintei portas e armários, pus algumas cortinas para lavar e substitui outras; contratei duas mulheres para uma faxina militar e, por fim, mandei dedetizar tudo. Pronto. E, sem querer, descaracterizei tudo... Apaguei quase todas as marcas da minha mãe. Seu cheiro, que ainda persistia em alguns objetos, começou a sumir.

Muita coisa dela guardei como recordação, ou como utilidade. As roupas doei, assim como muitos objetos que não me serviriam. Porém, muita coisa tive que, desgraçadamente, jogar fora... Jogar fora! Veja isso! Eram coisas que ninguém além de mim poderia se interessar, infelizmente, mas que por absoluta falta de espaço eu não teria onde guardar.

Nos armários da mamãe achei coisas incríveis. Marcas da minha vida, da vida da nossa família; objetos que me acompanharam na infância, coisas do meu pai, objetos que permaneceram anos sobre mesas e dependurados nas paredes nas casas em que moramos.

Remexer os pertences dos queridos que já partiram é uma tarefa de Hércules, melancólica, que alegra e surpreende, e que parte o coração da gente.

No meio daquela chafurdação no passado, dei com uma velha caixa azul de tênis Adidas. Reconheci na hora quando a vi. Foi de um tênis que tive lá pelos meus 15 anos. A mente da gente é incrivelmente fotográfica. Estiquei o braço e a recolhi das profundezas do armário embutido da mamãe. Estava embrulhada num saco plástico transparente, revestido daquela poeira oleosa que as coisas que ficam guardadas por anos adquirem. Livrei-a do saco seboso e ela pareceu respirar, depois de tanto tempo enclausurada. Levantei a tampa. Por cima havia um papel dobrado. Como um bilhete. Abri. Era uma carta da minha mãe... dirigida a mim! Quase cai de costas quando li “Cesar, meu filho...”.

Desci da escada, larguei o pano de pó no chão. Apoiei as costas na parede e senti meu corpo escorrer, até acabar sentado junto ao rodapé, em meio à sujeira. Além do bilhete, a caixa continha inúmeras coisas que me levaram a uma viagem de 30 anos no tempo. Eram coisas do meu pai: o relógio que ele usou por uma vida, e que estava em seu pulso quando ele enfartou, sua caixinha de cartões, alguns chaveiros, uma caneta, isqueiros etc. A cartinha dizia assim:

“Cesar, meu filho. Hoje é dia 15 de novembro de 1996, fui votar agora há pouco. Você não está, foi viajar. Então comecei a arrumar umas coisas, mas dentro desta caixa tem coisas pessoais do seu pai, que não tive coragem de jogar fora. Faça você agora, por favor. Obrigada, beijos da mamãe.”

Dona Diva deixou um bilhete para ser lido por seu filho em algum dia do futuro. Ao escrevê-lo, ela não poderia supor que morreria do coração onze anos depois, e que seu filho só acharia a carta treze anos depois de ser escrita...

Mas sabia, por me conhecer como ninguém, que eu só mexeria nas suas coisas quando ela já tivesse morrido; e que só então eu acharia aquele bilhete.

É complicado tentar explicar as minhas sensações ao ler aquilo. Saber que minha mãe escreveu a carta e a guardou, para que ela levasse a mim uma derradeira tarefa, e um derradeiro beijo seu, quando ela já não estivesse mais por aqui.

Uma espécie de filme da minha vida se desenrolou à minha frente, ao ler o bilhete e rever os objetos do meu pai. Lembrei-me dos cheiros da minha infância, do barulho da panela de pressão fazendo a janta, que eu ouvia já da rua, ao chegar em casa; o murmúrio das vozes do seu Aloisio e da dona Diva, conversando pela casa baixinho, quando eu, bem menininho, já havia sido posto para dormir; do cheiro da dama da noite, que caia em abundância no chão do quintal da casa da minha avó, a Mi. Essa espécie de filme sonoro, em que ouvia a voz da minha mãe, que tanto me amou, me chamando para entrar pra casa; a voz do meu pai, que já não ouvia há vinte anos, me explicando coisas da vida, com toda a sua calma e bom-senso, foi como um surpreendente presente póstumo oferecido pela dona Diva a seu filho.

Nele ouvi também a gritaria da turma aprontando farras, daqueles meninos da minha infância, muitos, que ainda hoje são meus amigos, mas que não são mais aqueles meninos de outrora... Veio-me a sensação do tempo que escoa, como no poema de João Cabral de Melo Neto.


Não há guarda-chuva contra o tempo
Rio fluindo sob a casa, correnteza
Carregando os dias, os cabelos.

A dor que sinto, só quem perdeu pai e mãe pode saber como é. Isso tudo, e o fato de que segunda agora é o dia dos mortos, me fez recordar de outro poema, "Dia de Finados", de Manuel Bandeira.
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.

 
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Cesar Cruz
Novembro 2009
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16 comentários:

Dalinha Catunda disse...

Olá Cesar,

Emocionante sua postagem!

Objetos até podemos doar, jogar fora, mas sentimentos, meu amigo,estes nos acompanharão para sempre.
E sempre aflorarão através de um cheiro, um pensamento, sonhos.
O verdadeiro sentimente fica tatuado deveras.

Um abraço carinhoso,
Dalinha

Gabriel Fernandes disse...

Só tenho uma palavra para qualificar seu texto: Sensacional.

Abraço
Gabriel

Anônimo disse...

EU TENHO A MESMA SENSAÇÃO QUANDO ESTOU TRISTE E PRECISO DE UM COLO.
COLO TÃO QUERIDO E MACIO, QUE ACALMAVA MEU CORAÇÃO. E AGORA O QUE FAÇO SEM MEU PORTO SEGURO? JÁ SE PASSARAM ALGUNS ANOS QUE PERDI MEU PAI E A FALTA SÓ AUMENTA, DIMINUIU A DOR MAS A SENSAÇÃO DE VAZIO AINDA EXISTE. SÓ ESPERO QUE ELE NUNCA DEIXE DE NOS OLHAR!
BEIJOS

FERNANDA BARBOSA

Anônimo disse...

Lindo, César. Beijo, Tânia

Anônimo disse...

Cezinha, meu amigo! Cada história sua que leio entendo mais e mais porque eu gosto tanto de você. Me lembro muito pouco do seu pai, mas muitíssimo da sua mãe e que bela herança de personalidade ela te deixou!

Beijos,
Yeah.

Alessandro Franco disse...

É forte o texto Cesar!

pra mim a musica e a poesia me dizem muita coisa
nao entender a vida como uma poesia é mergulhar no senso comum
fico muito feliz de ver quanta coisa boa temos nas mãos graças à pessoas que vieram ao mundo e contribuíram pra isso.
Me comovi, mas nao fiquei depre, não! Ao contrario, me fortaleceu. É como a musica que nos diz algo muito mais forte... coisas que não sei te dizer aqui.
Você recebe a carta e se comoveu, mas ao mesmo tempo tenho certeza que te encorajou também!

Abraço
Alessandro Franco

Tais Luso de Carvalho disse...

Nossa; quanta emoção, não Cesar? Conheço essa problemática em dose dupla, como você. Aquele cheiro que você falou do apartamento de sua mãe... Então é verdade, não é fantasia minha. Hoje ainda sinto seu cheiro. E não mais em seu ap; ele se manifesta em lugares em que menos espero. Aí dá um nó na cabeça da gente.

As coisas pessoais deles, as cartinhas de meu pai para minha mãe, meus cartões do Dia das Mães, minhas cartinhas que eles guardavam... Enfim, as lembranças de uma vida inteira estão comigo; fazem parte da nossa história, da nossa família de origem.

Belo e emocionante relato, César. E o pior: essas lembranças vêem todos os anos no dia 2 de novembro: te segura.

É: esse poema de Manuel Bandeira...

Bjs
Tais luso

katine walmrath disse...

muuuito bom.
emocionante.
parabéns.
obrigada.

Pensamento aqui é Documento disse...

Web 2.0 é uma delícia, né? rs. De um blog conhecido para outro que adorei conhecer.

Sou amantes dos livros, dos textos, dos pensamentos de Ricardo Godim. Tomo doses semanais das palavras deste, mas confesso: às vezes me embreago. São palavras novas demais pros meus olhos gastos, ainda assim, continua na busca, no desejo daquilo que o faz melhor.


Uma abraço,

Vagner Barbosa disse...

Ui...caraio...me emocionei...sem comentários...

o poema abaixo fui eu que escrevi, e fala da ausência...

Sobre filhos e maritacas

Meu filho terá trinta anos

Lá pelo ano dois mil e vinte



O país do futuro está no seu rumo



Eu, gaiato, vou no rastro

Velas abertas



Sob alguns ângulos

Meu mundo não se modificará

Posso entrever um lance azul de céu de verão

E o sol entre os galhos da palmeira

Que plantei em São Bento do Sapucaí



Ela acompanhará meu filho

E o filho do meu filho

Impassível assistirá as gerações

Sucederem as gerações



A palmeira ultrapassará meu tempo

E no futuro incerto

Oferecerá sombra e pouso

Para os bandos de maritacas descendentes das maritacas

Que hoje vejo e ouço no meu quintal



E se a palmeira perecer

E se os homens acabarem com os bandos de maritacas

Ainda restará a memória

Ainda restará a inapagável ausência

Das palmeiras e maritacas

Registrada aqui neste poema



Os poemas registram as ausências

E morrem menos que as pedras


Vagner Barbosa

Anônimo disse...

é Cesar, como sabes hoje com 42 anos ainda tenho o puuuuutttttaaaaaaaaaa..... privilégio de ter meus pais vivos, e sabendo de tudo isso, procuro cercá-los de favores até antes mesmo de que eles os peçam. Mas concordo com a Catunda, tem coisas que a gente lembra, e fica aquela guerra inútil, entre tentarmos reter as lágrimas que elas causam de um sentimento que ainda estamos tão distantes de definir, que elas possam lhe afogar todos os dias então e quem sabe concluirmos de que isso é o AMOR, o verdadeiro.
aí galera quando aquela saudadezinha bater invencível de pais já ausentes, deixemos isso de lado e nos lembremos dos ótimos momentos que passamos juntos a eles, ou preferiríamos que eles não tivessem existido pra que essa saudade não surgisse em algum dia?

ow, gostei desse cara heim... "nao entender a vida como uma poesia é mergulhar no senso comum" parabéns Alessandro.

abraços a todos
xara - ipiranga

e ve se não demora tanto...

Ricardo Gondim disse...

Querido amigo,

Estive fora. Combinei lazer com trabalho. Corri a maratona e preguei. Só agora ponho em dia o Everest de e-mails que me aguardavam.

Fico sem palavras diante de seu texto. Se despertei tamanha nobreza, sou bem-aventurado. Você, mais uma vez, se superou.

Um beijo,
Ricardo

Pedro Luso de Carvalho disse...

Cesar,

A Taís já havia me falado da emoção desta tua narrativa. Agora que a li, acrescento: junto à emoção - nessa relação entre filho e mãe, com as lembranças dela e de seu pai - encontrei um texto de ótima qualidade, como ocorre com os seus contos e suas crônicas.

Afora isso, ficamos conhecendo o caráter do Cesar, sua coragem para enfrentar essa perda, e também a sua simplicidade ao contar das muitas dificuldades que passou, simplicidade essa que é própria das pessoas que valorizam mais os sentimentos que os bens materiais.

Na certa, Cesar, você será um pai compreensivo e zeloso para com sua filha, e, também, para com sua família. Parabéns.

Um abraço,

Pedro.

Alexandre disse...

Fala Cesinha,

Ninguém tem ideia da dor que é perder um pai ou mãe até passar por isso...
Grandes lembranças da D.Diva,corintiana roxíssima...

Abraço Grande Cesinha

Ale

Dalinha Catunda disse...

Olá Cesar,
Passei para um espiadinha, qualquer hora volto.
Abraço,
Dalinha

Glaucia disse...

Aaaaaaiiiii que texto mais lindo! Pensa em alguém com os olhos marejados!!!!!
César vc tem o DOM!