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Blackout



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Capítulo I
“E eis que veio ao profeta Isaías a palavra do Senhor: ‘Aí de vocês que adquirem casa e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra! (...) casas belas e grandes ficarão abandonadas, sem moradores (...) o homem será abatido e a humanidade se curvará, e os arrogantes terão que baixar os olhos e o Senhor dos Exércitos será exaltado em sua justiça e em sua retidão...”
Isaías 5: 8 - 16
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O barbeador elétrico parou de funcionar e junto com ele a luz do banheiro também caiu. Roberto ficou ali, de frente para o espelho, parado como uma estátua no breu total. Em instantes a pequena réstia de luz que vinha por debaixo da porta, passou a mostrar o seu vigor, e as pupilas do homem já mais adaptadas à escuridão permitiram-lhe começar a avistar seu sinistro reflexo por entre as sombras. Sentiu-se como o personagem de uma inusitada foto. Um dos braços atravessando por cima da cabeça para que a mão pudesse esticar a pele da face. Na outra mão o aparelho que vinha atuando agilmente sobre os fios serrados agora estava silencioso.No outro banheiro, na suíte do casal, Mirian gritava de frio. Fora surpreendida debaixo do chuveiro, que agora começava a gelar...Roberto abriu a porta do banheiro e saiu de toalha enrolada na cintura reclamando e soltando impropérios contra a companhia de energia elétrica. A luz havia acabado e o horário não poderia ser pior, ele e a mulher tinham 30 minutos para sair pela porta vestindo seus trajes black tie para irem à festa de formatura da sobrinha, e já estavam atrasados.
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“...O elétron é uma partícula que circunda o núcleo atômico, identificada em 1897 por Joseph Thomson, cientista inglês, o elétron é uma partícula sub-atômica de carga negativa, é a responsável pela criação de campos magnéticos e elétricos e da própria energia elétrica existente na natureza...”
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Desde muito pequeno Arlindo sonhava em ser piloto de avião. No seu aniversário de 6 anos ganhou do tio um aviãozinho de madeira que reproduzia um modelo de combate da 1ª guerra. Tinha duas asas sobrepostas e uma hélice no bico. Ficou apaixonado! Daquele dia em diante, brinquedo para o pequeno Dodô só se fosse avião! O pai passou a levá-lo ao aeroporto aos domingos. Naquela época este começava a ser um programa familiar em São Paulo, onde a família morava. Ficavam debruçados no gradil do terraço de Congonhas assistindo aos pousos e decolagens; passavam horas apreciando os grandes pássaros metálicos chegando e partindo! O pai gostava de lhe indagar frente às pessoas: “Filho, o que você vai ser quando crescer?”, e ele respondia: “piloto de avião!”.
Na maioria das vezes os meninos crescem, passam a ter outros interesses e desejar outras coisas para o futuro, mas com Arlindo isso não aconteceu. Manteve a paixão. Cresceu olhando para o céu a procura das suas aves prediletas. Na adolescência comprou lunetas e binóculos para avistá-las. Passou a construir aeromodelos e se transformou num exímio aeromodelista, tendo ganhado até competições.Mais tarde estudou e se formou em engenharia aeronáutica e cursou pilotagem. Formou-se como o melhor piloto de sua turma, em 1968, aos 21 anos. Começou pilotando aviões pequenos, particulares, em 3 anos já era co-piloto dos saudosos Electras da extinta Pan-Am. Logo foi contratado pela companhia Cruzeiro, desta vez para ser 1º piloto. Transformara-se no comandante Arlindo! A partir de então sua carreira só fez crescer. Anos depois estava na Vasp e no começo dos anos 90 foi contratado por uma grande companhia americana, onde permanece até hoje.
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A aeronave vinha a 13.500 pés em procedimento de descida para pouso dentro de aproximadamente 10 minutos no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. O relógio do painel indicava 18:37h. Pelo rádio, Arlindo ouvia em seus fones de ouvido a comunicação da torre com seu co-piloto: “DAL 1128, liberado para procedimentos de descida, informe variáveis e coordenadas” e prosseguiu: “DAL1128 , Hi speed approved, autorizada a aproximação ILS, pista 16, reporte estabilizado, câmbio”. A resposta do seu parceiro: “a velocidade de aproximação é de 350 nós, visibilidade de 1/2 milha, coordenadas 22º 25'30"S/ 44º 48' 22"W. Iniciando procedimentos de descida, câmbio”; resposta da torre: “DAL1128, autorizada a aproximação ILS, reduzindo para 250 KTs, reportará estabilizado, câmbio”.
Tudo sob controle. Arlindo estava feliz, teria uma semana de folga no Brasil com a família. Lá embaixo a grande Belo Horizonte surgia como um inacreditável mosaico salpicado por milhares de pontos luminosos. Arlindo adorava ver a cidade surgir luminosa nas aproximações de pouso naquele horário. O co-piloto prosseguia com a torre: “razão de descida de 400 pés por minuto e velocidade de 290 nós, Full ILS pista 16 , trem baixo e travado, câmbio”.
Arlindo trocou um olhar com seu parceiro e deu-lhe uma piscadela amiga como sempre fazia. Alexandre era um jovem piloto e vinha aprendendo muito de pilotagem e de vida com O Velho, como os mais jovens chamavam carinhosamente o veterano companheiro.
O Velho então pegou o fone no console central, abriu o som para a cabine de passageiros e disse: “Boa noite, senhores passageiros! Sou o comandante Arlindo e estou grato pela oportunidade de pilotar para vocês hoje. Dentro de aproximadamente 10 minutos estaremos pousando no Aeroporto Internacional Tancredo Neves. Como curiosidade: estamos agora a 4000 metros de altitude, a temperatura fora da cabine é de cerca de 11º Celsius e nossa velocidade é de 500km/h...”. Olhou para o garoto, deu-lhe mais uma piscada, como se dissesse: “aprenda essa agora, filho”. Então prosseguiu: “...fiquem atentos aos avisos luminosos para atar os cintos e voltem seus assentos à posição vertical, mas por favor, não deixem de dar uma boa espiada pela janela, a grande Belo Horizonte está lindamente iluminada sob os nossos pés!”. Recolocou o aparelho na base e sorriu satisfeito. Estava feliz, muito feliz.
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De repente, de forma como nenhum dos dois pilotos havia visto acontecer antes, todo o painel de instrumentos se apagou. A energia caiu por completo e a cabine ficou às escuras. Os ponteiros de todos os instrumentos tombaram para a esquerda e as luzes e instrumentos de emergência simplesmente deixaram de funcionar. Os sinais sonoros desapareceram, e o rádio calou. Silêncio total. As turbinas ainda giraram um pouco, dada a inércia e também pararam. Restou agora apenas o assovio do vento pelo lado de fora e gritos abafados que vinham da cabine de passageiros. Nenhum dos dois havia visto algo assim, nem nos piores exercícios no simulador de vôo.
Agora o Boing 767-300 que havia partido do aeroporto Benito Juárez na cidade do México, com 265 vidas a bordo, estava à deriva em direção a lugar nenhum.
Toda a cidade abaixo deles também ficara às escuras. Acabaram-se as referências. Nenhuma luz. Arlindo não compreendia como poderia uma pane elétrica atingir a cidade e a aeronave simultaneamente. Era como se um imenso manto negro houvesse sido estendido sobre a terra. Não havia luz para lado nenhum. A impressão era a mesma que se tinha ao sobrevoar o alto mar ou uma extensa área florestal. Só a luz da Lua a iluminar assustadoramente a cabine.
Arlindo e Alexandre se entreolharam na penumbra. Puderam ver o medo um no rosto do outro. Desesperados, passaram a acionar botões, martelar o rádio e tentar todo o tipo de procedimento. Nada deu resultado, nenhum sinal eletrônico nem sonoro. A aeronave, sem o empuxo dos potentes motores Rolls Royce, passava agora a planar com dificuldade. Perdia velocidade e despencava ritmadamente em solavancos verticais, como se pulasse degraus entre as nuvens. Estavam agora em rota descendente e irreversível, o bico já começava a se pronunciar irremediavelmente em direção ao tenebroso manto negro.
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“...A Física de Partículas é um ramo da Física Quântica que estuda os constituintes elementares da matéria, da radiação e da interação entre as partículas elementares. O elétron e o próton foram as únicas partículas aceleradas até os dias de hoje. A Física de Partículas busca o fundamental, o nível mais básico da matéria e da natureza. Todo o nosso mundo visível se fundamenta neste nível invisível das partículas elementares..."
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Albert Carey, CEO da Kraft Foods Inc, estava na sede da empresa na cidade de Northfield, estado de Illinois, mantendo uma teleconferência com os 9 diretores das unidades fabris ao redor do E.U.A.. Inesperadamente a tela do grande monitor de plasma à sua frente se apagou juntamente com todas as luzes do recinto. Sozinho em sua sala, Albert deu um murro na mesa e gritou para sua secretária apertando a tecla do interfone. Nada. O aparelho estava mudo. Saiu pela porta da sala furioso, aos berros, como era seu costume. A sala ao lado, ocupada pela secretária e por mais 6 pessoas da equipe de operações, também estava sem luz. Os gritos do Sr. Carey a princípio não foram capazes de calar as pessoas. Estavam todos entretidos em um burburinho generalizado. Juntamente com a luz, todos os telefones haviam emudecido, inclusive os celulares. Todos, indignados, discutiam como poderia aquilo estar acontecendo já que é sabido que a luz elétrica e os telefones não têm relação direta. Os relógios nos pulsos das pessoas também não estavam funcionando. Pararam marcando 14h37.
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Albert enrubesceu de ódio, gritou e esmurrou a mesa da secretária levando ruidosamente ao chão o porta canetas. Todos se calaram olhando-o assustados. Albert era um chefe opressor. Famoso por, em momentos de ira, demitir sumaria e instantaneamente funcionários inocentes que se atrevessem a lhe dirigir o olhar. Ficaram todos resignados e quietos. A maioria com os olhos baixos, como se desta forma pudessem se proteger de sua tirania. Aguardavam, com as costas enrijecidas, o início das execuções que certamente estavam por começar.
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O que Albert não sabia, é que esta seria a última vez que subjugaria seus funcionários. O seu poder havia acabado no exato instante em que as luzes se extinguiram.
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“...ai dos que se prendem à iniqüidade com as cordas do engano; e ao pecado com cordas de carroça (...) ai dos que chamam ao mal, bem; e ao bem, mal. Que fazem das trevas luz e da luz, trevas (...) Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em sua própria opinião (...) A ira do Senhor se levantou contra o seu povo (...) Os montes tremeram e os cadáveres estão como lixo nas ruas (...) E se alguém olhar para a terra verá trevas e aflição, pois até a luz do dia será obscurecida pelas nuvens’”.Isaías 5: 18 - 30
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Yann Brekilien tinha as duas mãos enfiadas na cavidade toráxica do pequeno Ilian de 5 anos. Yann era o mais experiente e conceituado cirurgião cardíaco infantil da Irlanda. Há anos operava casos como aquele no THE NATIONAL CHILDREN'S HOSPITAL, em Dublin.
O pequeno Ilian nascera com uma patologia cardíaca que impedia o bom funcionamento da válvula mitral. A necessidade de cirurgia havia sido diagnosticada desde os primeiros meses de vida, mas Ilian só pôde fazê-la agora, aos 5 anos. O garotinho passou os primeiros anos de vida em balões de oxigênio e sendo monitorado passo a passo pela família para que não fizesse grandes esforços; controle difícil de se exercer sobre uma criança desta idade.
Yann estava fazendo o reparo na válvula com a ajuda do bisturi a laser e com o auxílio de outro par de mãos experientes. A circulação do menino estava sendo mantida no sistema extracorpóreo, e o seu pequeno coração estava parado nas mãos do cirurgião.
Inesperadamente, para susto geral da equipe, as 4 potentes lâmpadas HQI sobre eles se apagaram, o bisturi e todos os equipamentos da sala interromperam seu funcionamento. Yann soltou um grunhido de susto. Todos da equipe se entreolharam por um instante, os olhos arregalados e as pupilas dilatadas pelo medo e pela escuridão. Uma enfermeira correu abrir as persianas para que algum tipo de luz pudesse entrar e acabar com o breu. Outras duas saíram pelo corredor à busca de ajuda. O hospital inteiro parecia estar às escuras. Alguém falou algo sobre o gerador de emergência não ter assumido a alimentação da sala. Pessoas gritavam nos corredores. Em segundos os 2 cirurgiões e os 3 auxiliares estavam em pânico.
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O pequeno Ilian começava a ficar sem ar, pois o respirador artificial também parara. Em meio à gritaria, os auxiliares substituíram rapidamente o respirador eletrônico pelo manual e começaram a bombear o ar cuidadosamente para aqueles pequenos pulmões. Yann e o colega do outro lado do leito cirúrgico discutiam nervosos por debaixo das máscaras de tecido qual o procedimento que deveriam tomar. Agora já conseguiam se ver um pouco. As enfermeiras voltaram com lanternas a pilha, mas que não funcionavam.
Enquanto falavam os 2 médicos esforçavam-se para se acalmar mutuamente e pensar em algo que pudessem fazer para salvar o garoto. Na parede acima da porta de acesso à sala um relógio parado indicava 21h37, horário de Dublin.
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“... O acelerador de partículas é um aparelho que produz "feixes" de átomos, elétrons ou outras partículas, com velocidades altas, geralmente superiores a 1/1000 da velocidade da luz...” “...a principal razão para as experiências de aceleração de partículas é que precisamos conhecê-las melhor e um dos meios de fazer isso é colidi-las em altas velocidades com outras partículas (átomos, fótons, elétrons, moléculas, etc) ou com corpos sólidos...”
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Enquanto aguardava a abertura do semáforo, o senhor Kawashi aproveitava para ouvir as notícias matinais na rádio local de Tokyo. A cidade naquele horário já estava com as ruas abarrotadas de pessoas. Na frente do seu carro, a faixa de pedestres havia sumido sob um mar de gente apressada que fluía de um lado para o outro.
Kawashi andava pensativo e ansioso. Sua única filha, Kazuo, de 22 anos iria se casar dentro de 15 dias. Viúvo e solitário, o homem tinha na menina a paixão da sua vida. Vinha fazendo das tripas coração para levantar recursos para a caríssima cerimônia xintoísta e para a festa. As peças de cerâmica que seriam ofertadas como presentes aos convidados, os kimonos especiais, toda a indumentária necessária, os talheres virgens em prata para o jantar, o teatro de bonecos bunraku para animar a festa, o dote para o casal... Ah, os ienes acumulados em uma vida de árduo trabalho no chão da fábrica estavam se esvaindo como água! Mas para ele isso não importava. Foi por isso que Kawashi trabalhou todos estes anos, mesmo após a aposentadoria. Sempre foi um homem que gostou de ter um objetivo pelo qual lutar, e este passara a ser o seu após a viuvez: casar Kazuo.
O homem não via a hora de vivenciar o momento da leitura do seishi – juramento sagrado de amor eterno – e de ver sua bela e imaculada menina tomar os 9 goles de saquê com o noivo, selando assim a união eterna.
De repente a multidão apressada foi contida pelo agudo e ameaçador silvo sonoro proveniente do pequeno semáforo de pedestres. Uma luz vermelha passou a piscar no totem, impedindo o avanço. O formigueiro humano estancou subitamente. Os transeuntes, contidos na beirada da calçada, mesmo pressionados pela massa humana, não se atreviam a tocar o pé além do meio fio. O sinal para os veículos passou para o verde. Kawashi pôs o carro em movimento.O relógio do painel indicava 6h37, e ele teria que chegar à fábrica antes das 7h para passar o cartão de ponto, como fazia há 30 anos.
Assim que apertou o pé no acelerador, o motor roncou e o carro avançou um pouco, mas parou logo em seguida. Percebendo que seu motor morrera, Kawashi rapidamente - e antes que o veículo de trás o atingisse na traseira - virou e desvirou a chave no contato. Nada. Nenhum ruído além do tilintar do molho de chaves. Incrédulo, curvou o tronco sobre o volante e repetiu o gesto. Silêncio.
Apesar de não ter tomado uma batida nem uma buzinada, certamente seria multado quando o policial de trânsito mais próximo o visse parado no meio do cruzamento atrapalhando o fluxo.
Caso não conseguisse fazer o carro funcionar seria preso e processado por falta de manutenção no veículo e por perturbação da via pública. Homem sempre correto que foi, estava em desespero. Ergueu a cabeça, olhou pelo retrovisor e lançou o braço para fora da janela em sinal de desculpas; sentia a descarga de adrenalina disparar seu coração e lhe ferver o sangue, sua testa suava. Kawashi fixou o olhar no espelho retrovisor e reparou que estranhamente o motorista do carro de trás também parecia ter o mesmo problema. Olhou para frente e para os lados e viu que, surpreendentemente, todos os carros ao seu redor também estavam parados e todos os semáforos desligados. O rádio do carro também havia silenciado. Os motoristas já começavam a descer dos veículos se misturando aos pedestres que agora cruzavam a rua pelo meio da confusão. Kawashi também desceu.
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Presenciou um silêncio que nunca havia ouvido em Tokyo em seus 62 anos de vida. Não era um silêncio total, havia vozes, muitas vozes ao seu redor, mas os ruídos das buzinas, dos motores dos caminhões, ônibus e carros particulares haviam cessado por completo, assim como haviam desaparecido os sons dos alto-falantes dos grandes magazines, das lojas de eletrônicos e todos os demais ruídos eletrônicos e mecânicos da civilização. Tirou o celular do bolso para ligar. O aparelho também estava apagado. O relógio digital em seu pulso exibia o fundo cinza escuro característico do cristal líquido, mas não havia nele nenhum dígito acesso. Olhou para o alto a procura de um dos enormes relógios que carregavam propagandas nas grandes vias. Estavam todos lá, mas também apagados. Tudo, por algum misterioso motivo, tinha sido desligado ao mesmo tempo em Tokyo.
Dentro de exatas 14 horas, já a noite, ao caminhar sem rumo pelas ruas escuras da cidade à procura da filha, Kawashi sentiria uma pontada aguda no peito, que o mataria ainda em pé, antes de tombar ao solo como um saco de arroz.
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“...Astrônomos fazem pela primeira vez, um mapa da aceleração de elétrons em uma supernova. As análises mostram que os elétrons são acelerados ao limite máximo teórico em algumas partes da estrela. Estima-se que prótons e íons, que formam a maior parte dos raios cósmicos, acelerem-se da mesma maneira na natureza...”
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Capítulo II
Roberto foi à varanda ainda enrolado na toalha. Do alto do seu apartamento, no 22º andar, podia avistar a maior parte da região oeste da cidade de São Paulo. A cidade estava às escuras. Até aonde a vista podia alcançar não se via luz artificial, apenas focos que pareciam ser incêndios. A aproximadamente 15km no sentido leste, um enorme clarão flamejava como uma fogueira gigantesca. Aparentava ser um prédio inteiro em chamas. Excetuando-se a iluminação dos incêndios, até mesmo os veículos que em ocasiões de falta de luz costumam oferecer um bom espetáculo com os fachos de seus faróis, desta vez pareciam estar apagados. Nenhuma sirene, nenhum sinal da mobilização de polícia ou bombeiros. O quadro inteiro era absolutamente atípico.
Mirian saiu à procura das lanternas e voltou comentando que deveriam estar com as pilhas descarregadas, visto que também não funcionavam. Levantou o telefone do gancho para ligar para a mãe. Não havia linha. Começou a recear que a falta de luz na cidade prejudicasse a festa de formatura da Juliana, sua sobrinha predileta.
Apanhou o celular e abriu-o. Apagado. Correu ao interfone para perguntar ao porteiro se havia alguma previsão do retorno da luz, mas o interfone também estava silencioso. Voltou para a sala perturbada e falando alto algo sobre o fato de que precisava ligar urgentemente para a mãe.
Roberto estava debruçado no peitoril da varanda com a testa enrugada pela preocupação; os olhos atentos observavam os focos de incêndio. Seus pensamentos iam longe. Como físico e chefe da cadeira de astronomia da Universidade Estadual, tinha quase certeza do que estaria acontecendo. Tremia por dentro só de pensar que pudesse estar certo. Queria estar enganado, queria tanto que aquilo fosse um simples blackout.
Com a lanterna que Mirian havia lhe posto na mão, ligava e desligava o interruptor olhando para a lâmpada irremediavelmente morta. Sabia bem o porquê do não funcionamento da lanterna, dos telefones e de tudo que dependia de energia elétrica. Roberto sabia o que viria agora. Sabia que não haveria baile de formatura naquela noite. Nem naquela noite, nem nunca mais. Sabia que aquele momento marcava o fim de tudo. Tudo o que o ser humano havia conquistado e conhecia como civilização.
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Mirian estava parada na sua frente de cara enfezada, o corpo enrolado numa toalha e o cabelo em outra, formando um grande turbante. Roberto voltou a si e percebeu que a mulher já o havia indagado pela segunda vez sobre algo, sem obter atenção. Não era de se estranhar que estivesse zangada.
Roberto sentia-se travado para falar, como se suas cordas vocais tivessem sido amarradas uma a outra. Ficou ali parado, olhando para as duas estreitas fendas horizontais que revelavam o par de penetrantes olhos negros e orientais da sua baixinha predileta – costumava chamá-la assim quando a abraçava por trás e lhe beijava o pescoço. Simplesmente não sabia o que dizer a ela. Sentia-se calmo, estranhamente calmo e resignado. Aquela típica calmaria que atinge um homem que já sabe que não há o que fazer, pois não há nenhuma variável que possa ser controlada.
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Roberto pegou a mulher pela mão, carinhosamente, e, em silêncio, levou-a até a sala de estar do amplo e confortável apartamento em que moravam. Sentou-a no sofá ao seu lado. Não tinha a menor ideia de como começaria. Como falar para uma pessoa que tudo o que ela havia conquistado e tudo o que ela entendia por vida e felicidade, havia terminado, assim, em um instante? Como explicar algo aparentemente inverosímil, improvável e chocante como aquilo? Como a faria acreditar em uma coisa que ele sabia muito bem que não acreditaria se estivesse no lugar dela?
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“As mais novas análises das supernovas descobertas na Via Láctea, mostram que elas agem como uma espécie de máquina de aceleração de partículas ao acelerar elétrons a uma velocidade impressionante, de acordo com pesquisadores da universidade de Harvard...”
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Mirian permanecia ansiosa olhando para o rosto do marido. Conhecia Roberto havia 20 anos, desde que se viram pela primeira vez na faculdade. Na época, ela, com apenas 19 anos de idade, cursava psicologia e ele física. Foi paixão instantânea. Daquele dia em diante nunca mais se largaram. Casaram-se 6 anos depois quando ambos já estavam formados e ela atuava como assistente social em uma escola da prefeitura. Na época ele fazia parte de grupos de estudo de astronomia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Era um jovem talento emergente. Por opção, nunca tiveram filhos.
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A mulher aguardava assustada, sentia que alguma coisa ruim havia acontecido. Conhecia o marido como a palma de sua mão e aquele toque doce, aqueles gestos repentinamente cheios de carinho, aquele olhar terno, que traziam uma pitada subliminar de comiseração, eram sem dúvida indícios de algo muito ruim. Não que Roberto não fosse carinhoso, mas o quadro estava deslocado, aqeuilo tudo estava fora do momento oportuno. Lembrou-se da máxima do pensador alemão Johann Heinrich: “nada é mais silencioso do que um canhão carregado”. Mirian veria em breve como aquela frase se encaixava bem em tudo o que estava por vir.
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Segurando as mãos da mulher, Roberto passou a explicar detalhadamente o que ele estava desconfiado que poderia ter ocorrido. Explicou-lhe que uma queda de energia em uma cidade não poderia ter relação nenhuma com a telefonia móvel, a fixa e muito menos com a energia oriunda das pilhas de uma lanterna. Mirian permanecia quieta, tensa, aguardando uma solução. Roberto sempre trazia soluções boas, objetivas e pragmáticas para as coisas, Mirian amava tal característica do marido e tinha nela seu pilar de sustentação.
Roberto levantou-se e caminhou na escuridão até a cozinha puxando-a pela mão. Abriu uma das gavetas da bancada e pegou o isqueiro e o faiscador mágico. Colocou os 2 utensílios na mão da mulher e, na escuridão fria da cozinha, encostados no fogão, a pediu que os fizesse funcionar. Mirian tentou o isqueiro primeiro. Nada. O aparelhinho parecia não querer mais emitir as faisquinhas tão características. O acendedor mágico se comportou da mesma forma, apesar das diversas tentativas. Nada de faíscas.
Mirian sentia o impacto silencioso da verdade lhe atingindo o âmago. Suas mãos gelaram. Qual seria a conclusão daquilo? O que aconteceria agora? Nunca mais teriam luz? Seria só isso? Pensou, mas não perguntou nada. Ficou ali parada olhando para o marido, resignada, aguardando o desfecho.
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Roberto explicou-lhe que, possivelmente, um fenômeno astronômico de grandes proporções teria ocorrido na Galáxia, e se suas suposições estivessem corretas, diminutas partículas atômicas teriam sido disparadas contra o planeta Terra fazendo com que todos os elétrons livres que circundam os núcleos dos átomos que compõem tudo o que existe no planeta, poderiam ter sido parcialmente desativados. Desta forma, todas as emissão elétricas e magnéticas que conhecemos não existiriam mais de agora em diante. Portanto, a partir daquele momento, o mundo só disporia de discretas manifestações elétricas: a energia estática, as pequenas descargas elétricas que ocorrem, por exemplo, no cérebro dos seres vivos etc.
Mirian estava em choque. Estava apavorada, temendo perguntar o que fariam agora, e se aquilo era reversível ou não. Tinha medo da resposta do marido. Conhecendo Roberto como conhecia, estava certa de que o que acabara de ouvir era a mais pura verdade.
Roberto prosseguiu explicando-lhe que não teriam muita chance de viver em um mundo sem energia elétrica, pois tudo, absolutamente tudo o que o homem havia criado, dependia da energia. Até mesmo o funcionamento de um simples acendedor mágico. Só teriam uma saída: reunir todos os alimentos secos que pudessem carregar em mochilas e partir com as roupas do corpo numa longa caminhada em direção ao mar.
Mirian começou a chorar, queria buscar sua mãe, saber da sua irmã, de seus sobrinhos. Roberto abraçou-a e explicou que não haveria a mínima possibilidade de buscarem nenhum parente, nem mesmo a mãe de Mirian, que morava a cerca de 10km deles. Uma caminhada como aquela tomaria horas e, naquela escuridão, a chance de serem mortos ou atacados pelo caminho seria enorme. A cidade já deveria estar em colapso naquele momento.
Ficaram ali, em pé, na cozinha escura do apartamento enfrentando a dureza aterrorizante de uma verdade. Mirian chorava e soluçava encostada no peito do marido. Na sua cabeça, implorava a Deus que aquilo fosse apenas um sonho. Mas não era.
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“...em estudos publicados na revista científica britânica Nature, quatro equipes internacionais de cientistas provaram com experimentos laboratoriais, que a extraordinária explosão da supernova Silion, que ocorreu há 2 semanas e que foi sucedida por uma difusão curta e acentuada de raios gama e íons neutrais, poderia ter sido capaz de descarregar elétrons livres interrompendo a emissão da energia elétrica (...) o flagrante da explosão e o experimento juntos, afirmaram os cientistas, é a primeira confirmação de uma teoria segundo a qual as explosões de supernovas podem algum dia atingir fatalmente a difusão de energia elétrica do planeta Terra ...”
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Capítulo III
Em boa parte das cidades do hemisfério ocidental, o blackout ocorreu entre o pôr-do-sol e as 22h. Dado o grande número de pessoas nas ruas, a confusão se instalou em minutos e o pânico se generalizou em menos de 1 hora.
Quem estava dirigindo foi surpreendido pelo desligamento repentino do veículo. Em longínquas estradas vicinais motoristas ficaram perdidos no meio do nada. Quem dirigia em velocidade, com a interrupção do motor - e a conseqüente extinção do auxílio hidráulico aos freios -, não conseguiu frear. Em vias rápidas ao redor de todo o globo, carros, caminhões, ônibus e veículos de todos os tipos colidiram entre si, bateram em muros, chocaram-se contra postes, invadiram residências, despencaram de penhascos, pontes, viadutos, caíram em rios, córregos...
Os motoristas que estavam nos congestionamentos urbanos, trancaram seus autos e saíram em caminhada em direção às suas casas ou a procura de algum lugar onde pudessem fazer contato com as pessoas. Alguns, aterrorizados, optaram por aguardar trancafiados nos veículos. Grandes explosões foram ouvidas nos primeiros minutos após o ocorrido. Mais de 3 mil aeronaves, aviões e helicópteros de todos os portes, despencaram sobre solo, rios e mares. Milhões de pessoas morreram instantaneamente. Incêndios de enormes proporções crepitavam por toda a face da Terra.
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Multidões em desespero corriam pelas ruas à busca de informações. Sem telefones e meios de transportes motorizados, a desorientação e o desespero se instalaram rapidamente. Nos países imersos na madrugada, as pessoas acordaram com os estrondos das explosões. Quem não acordou, despertou horas depois percebendo que seus despertadores não haviam tocado; logo se dariam conta de que não só despertadores, mas nada mais funcionava. Nestas localidades o pânico e o tumulto demoraram um pouco mais para eclodir. A manhã avançou e as ruas permaneceram vazias e silenciosas como nunca se havia visto. Ficaram todos em suas casas, aguardando a volta da energia, que nunca mais chegaria.
Nos países subdesenvolvidos, os crimes contra o patrimônio começaram a ocorrer em poucas horas. Estabelecimentos comerciais, shoppings e supermercados foram invadidos, saqueados e depredados. Comerciantes baixaram as portas assustados com a correria e gritaria descontrolada nas ruas.
Polícias, Exército, Cruz Vermelha, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros ficaram de mãos atadas frente à impossibilidade de comunicação e mobilização, fato que lhes impedia quaisquer reações organizadas. As entidades civis e militares agora se resumiam a células autônomas, débeis e desassociadas. Agora a única forma das pessoas se comunicarem passou a ser pessoalmente. Aqueles que estavam perto retornaram às suas casas, mas a maior parte dos que estavam fora, em escritórios, escolas, nas ruas, no trabalho, não conseguiram fazê-lo.
Distâncias curtas transformaram-se subitamente em longas distâncias. Percursos de 5 ou 10km, pequenos para os padrões de uma megalópole, passavam a ser quase intransponíveis, pois exigiriam arriscadas e longas caminhadas para serem vencidos. As pessoas estavam definitivamente impossibilitadas de ir ao encontro dos seus.
Aterrorizados, os humanos se armavam. Qualquer aproximação era considerada suspeita. Não se podia mais confiar em ninguém.
Com a chegada da noite, estupros e assassinatos começaram a fazer vítimas, em sua maioria mulheres e crianças. Na escuridão da madrugada, gritos de horror podiam ser ouvidos ao longe, vindos de locais fechados e de bocas tapadas.
As informações, vomitadas aos bilhões por segundo via Internet, televisão, rádio e demais veículos de informação, foram inexoravelmente encerradas. De um instante para outro a civilização voltava à idade da pedra sem se dar conta. Não havia agora mais nenhuma maneira de se fazer um contato ou transmitir uma informação que não fosse pessoalmente.
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Pais perderam filhos, casais foram separados, irmãos não tinham como se localizar, trabalhadores ficaram presos em elevadores, câmaras, em cima de obras, em galerias de manutenção, minas de carvão, no interior de máquinas, no topo de linhas de transmissão, em salas de controle. O absoluto breu nas estações subterrâneas do Metrô geraram pânico sem precedentes, multidões sucumbiram pisoteadas. Muitos estavam em ônibus lotados, plataformas de petróleo, túneis marítimos, rodas-gigante. Navios de cruzeiro e de carga ficaram à deriva, alguns a centenas de quilômetros da costa; a bordo deles, milhares de almas estavam agora condenadas a viver até que o alimento e a água potável se esgotassem.
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Apenas 24 horas depois do ocorrido, cadáveres já se acumulavam como lixo pelas ruas. Os disparos de arma de fogo começavam a se generalizar. O sangue descia abundante pelas calçadas e ruas, tingindo de rubro as cidades. Em breve começariam os massacres organizados.
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“...o Senhor detesta os perversos de coração, mas os de conduta exemplar dão-lhe alegria. Esteja certo de que os ímpios não ficarão sem castigo e de que os justos serão poupados...”Provérbios 11: 20 – 21
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No 3º dia, a hecatombe já fazia mais de 60 milhões de vítimas pelo mundo. Número maior do que a II Guerra Mundial produziu em 6 anos.
Supermercados, restaurantes, fábricas de alimentos e residências foram invadidos por grupos enlouquecidos à busca de víveres. Os mais fracos, mais velhos, mulheres e crianças vergavam frente ao assalto violento dos mais fortes. Prosaicos objetos domésticos e de trabalho viraram armas letais na mão de homens antes civilizados, que se transformaram repentinamente em guerreiros animalizados, prontos a defender sua prole.
Os que se trancafiaram em casa, bloquearam portas e janelas criando verdadeiras barricadas domésticas. Tudo o que a mente humana criou em 100 anos de desenvolvimento tecnológico perdia agora o seu valor. Computadores, celulares, televisores, automóveis, arranha-céus, aviões, parafernálias eletrônicas de toda a espécie, nada disso valia agora um único pedaço de pão.
Não havia forma de se produzir luz, a não ser com o fogo. Ainda assim, para produzi-lo as dificuldades eram grandes. Fósforos podiam ser acesos, mas só inflamavam após longa fricção para gerar calor. Os pequenos palitos passaram a valer ouro, mas acabaram em pouco tempo.
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Nas ruas profetas gritavam anunciando o fim do mundo e a volta do Cristo para o julgamento final. Crentes de todas as religiões se enclausuravam em templos, igrejas, sinagogas e mesquitas para rezar, jejuar ou se penitenciar a espera do fim. Cidadãos em delírio, embriagados de desorientação e encharcados de suor corriam por todos os lados; gritos desesperados preenchiam o silêncio das ruas.
A partir do 5º dia, as famílias que haviam se entrincheirado em casas e apartamentos, tinham agora que deixar tudo para trás e partir. As geladeiras viraram caixas úmidas e abafadas e os alimentos começavam a acabar. A água potável não chegava mais às torneiras, pois dependia de bombas elétricas para impulsioná-la. O esgoto também parara de fluir, pelo mesmo motivo. Ratos e baratas saíam dos subterrâneos e estavam agora por toda a parte, misturados aos cadáveres em decomposição. As cidades começavam a feder de maneira insuportável e a se tornar inabitáveis.
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Dada a falta de comunicação e o isolamento das pessoas, muitos acreditavam que o problema poderia ser localizado; criam que em outras cidades tudo poderia estar normal. Era com esta esperança que pais de família partiam em longas jornadas com o desafio de buscarem socorro. Carregavam consigo apenas itens imprescindíveis e algum alimento, deixando idosos e crianças agarrados a uma cândida esperança... Desta forma familiares acabavam separados para sempre, pois não conseguiam retornar ou eram mortos pelo caminho.
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Ao final do 1º mês, as cidades estavam horrivelmente desoladas, tão inóspitas quanto o inferno apocalíptico. Residências, edifícios comerciais, empresas, indústrias, hospitais, comércios, estavam todos abandonados. Restos humanos se misturavam ao lixo e a excrementos. O medo vinha estampado na face dos sobreviventes, a falta de esperança havia se enraizado profundamente no íntimo das pessoas. Homens embrutecidos, desumanizados e truculentos espreitavam sorrateiramente, prontos a atacar grupos fracos para matar os homens e sequestrar as crianças com o intuito de fazê-las de alimento.
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Estradas permaneciam lotadas por grupamentos errantes que em romaria iam para os mais diversos sentidos. Famílias deixavam as cidades em direção a algum lugar, a maioria sem rumo certo; muitas pilotando bicicletas, que não raro, eram-lhes surrupiadas com brutalidade e morte. Em encontros fugazes, viajantes relatavam que, de onde vinham, só haviam visto mortos e cidades esquecidas. Destes encontros, novos exércitos se formavam decididos a partir em outras direções.
Os novos nômades pousavam por poucos dias nas localidades, partindo logo que a região se tornava desassistida de víveres, insalubre, inóspita. Animais domésticos e de rua, como cães, gatos e pássaros passaram a fazer parte do cardápio dos sobreviventes; eram cozidos em pequenas fogueiras, ou comidos crus. A busca por alimento e água passou a ser feroz e voraz. A realidade definitiva era a escassez.
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Por volta do 3º mês a população da terra havia sido reduzida a 1/6 da anterior, menos de 1 bilhão de habitantes, na sua maioria homens jovens.
Nas áreas urbanas, o caos, a desumanização das pessoas e a prática de canibalismo tornaram-se uma realidade cristalina. Graças à sujeira, insetos e ratos, as pestes e doenças contagiosas atacavam os moribundos de forma avassaladora. Sem medicamentos, estrutura hospitalar e resistência imunológica, era difícil resistirem as mais simples infecções.
Carcaças humanas parcialmente carcomidas, rasgadas ao meio e com as tripas à mostra, espalhavam-se por becos, ruas e estradas. Durante o dia, aves de rapina disputavam os cadáveres com homens armados com paus e pedras. Desesperadas e em busca da sobrevivência, as pessoas não se davam ao trabalho de cavar valas para os seus mortos.
Guerrilhas urbanas e rurais haviam se formado. Aqueles que partiram em direção ao interior invadiram propriedades, mas enfrentaram forte resistência dos moradores locais. Os mais fortes e numerosos venciam. Nas cidades, grupos armados lutavam até a morte, e os derrotados transformavam-se em alimento dos vencedores.
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... mesmo não florescendo a figueira e não havendo uvas na videiras, ainda que falhe a safra de azeitonas e os campos não produzam mantimentos, mesmo que as ovelhas sumam, as vacas sejam arrebatadas do curral e os bois do estábulo, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei do Deus da minha salvação... ”Habacuque 3: 17-18
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Final
Passados 3 anos, a população do planeta havia sido reduzida a 7% da anterior. Pouco mais de 400 milhões de habitantes viviam agora sobre toda a face do planeta, a maioria em áreas litorâneas e rurais. Os sobreviventes aprendiam técnicas de caça e pesca e como produzir fogo utilizando a luz solar e lentes de objetos ópticos. Pouquíssimas coisas criadas pela extinta civilização ainda eram usadas, a maioria virou entulho esquecido ou habitat de insetos e animais.
Todas as grandes metrópoles ao redor do globo estavam vazias e silenciosas. Arranha-céus transformaram-se em morada de pássaros e de aves migratórias. Após o fim dos restos humanos, os animais haviam partido das cidades em busca de alimento. Esqueletos de pessoas jaziam nos mais inusitados lugares; dentro de casas, deitados em camas, em corredores de escritórios, pelas ruas, em becos, tocas, alcovas, dentro de apartamentos, empresas, igrejas, clubes.
O dinheiro já não tinha mais valor algum. As relações mercantis voltaram a ser feitas na base da troca. As civilizações mais desenvolvidas tecnológica e economicamente foram as que tiveram que transpor os maiores obstáculos para a sobrevivência.
Aqueles que dispunham de mais recursos, mais poder, mais status social e mais bens, foram os que mais sofreram o choque da mudança. Tudo o que tinham não lhes serviu de nada, a maioria passou a viver como mendigos, mortos-vivos perambulando flagelados pelas ruas. Muitos morreram nos 3 primeiros anos, vítimas de doenças e de fome.
Quem tinha pouco a perder, pouco perdeu. Os miseráveis e os moradores de rua, abundantes em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México, Bangkok, Bogotá e Pequim, acostumados a carência e a miséria, adaptaram-se melhor. Para estes a verdadeira mudança foi terem agora como companheiros de desgraça as mesmas pessoas que antes lhes fechavam os vidros dos carros e não lhes dirigiam o olhar no passeio público.
A maioria dos que permaneceram nas cidades morreram. As únicas chances estavam no campo ou no mar. Quem partiu em direção às áreas litorâneas passou a viver da pesca. Nas margens de rios e em regiões rurais, milhões se estabeleceram formando novas comunidades. Pessoas antes adaptadas à civilização, aprenderam a caçar, pescar e fazer fogo.
Os animais foram os que menos sofreram. O mundo para eles melhorou muito. As florestas pararam de ser tombadas e queimadas, o concreto parou de avançar por sobre a natureza e agora, o verde começava a achar brechas para ressurgir no meio do concreto.
Os grupos mais aculturados se reuniram em guetos. Compreenderam que houve algum tipo de colapso no que passaram a chamar de “matriz elétrica”. Mentes privilegiadas em todas as partes pensavam em um jeito de reverter à situação, mas a extinção da faísca primordial não permitia que nenhuma tecnologia fosse ressuscitada.
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Após 12 anos, uma nova geração havia surgido. As crianças que haviam nascido após o fim da era elétrica, ouviam histórias sobre um mundo organizado e animado de forma que elas não conseguiam conceber.
As metrópoles anteriormente habitadas pelo “homus urbanus” sucumbiram definitivamente. 18 anos depois, a maior parte do asfalto e do calçamento havia rachado sob a ação do tempo e tiveram suas placas retiradas pelos sobreviventes ávidos por terra propícia à plantação e a escavação de poços.
A vegetação havia tragado ruas e casas inteiras. Carcaças enferrujadas de carros agora estavam enredadas pelo mato que emergiu do solo rachado. Árvores nasceram por debaixo de veículos apodrecidos, rompendo latarias oxidadas e despontando para o céu de forma surreal.
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Mais 15 anos se passaram. Por entre as trincas das paredes dos edifícios, trepadeiras, heras e demais plantas da família das araliáceas e dicotiledôneas, agora davam abraços verdes em estruturas inteiras, subindo por 20, 30 andares. Os cadáveres humanos que ficaram em locais fechados de difícil acesso, onde nem as intempéries nem os predadores puderam alcançá-los, jaziam mumificados e ressequidos; a pele de alguns, como couro duro e escurecido, envolvia seus esqueletos delgados.
As casas e edificações térreas serviam como morada rudimentar para grupos de seres desumanizados que agora habitavam as cidades. Diversos animais também voltavam a viver e a se reproduzir nas metrópoles, fazendo delas sua morada definitiva. Viviam agora, nos mesmos locais onde, milhares de anos atrás, seus ancestrais viveram e foram gradualmente expulsos pelo homem e pelo seu progresso.
Os trabalhos baseados em atividades burocráticas e os estudos organizados nunca mais existiram. Decanos, sobreviventes da era elétrica, ensinavam seus descendentes a ler, escrever e a calcular, mas era só. A inexistência de recursos e a impossibilidade de grandes mobilizações organizadas impediam quaisquer possibilidades de avanços intelectuais e científicos organizados.
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E não haveria energia elétrica pelos próximos 63 anos...
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“...o que é o dia aceitável ao Senhor? Não é o soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo o cabresto? Não é partilhar a sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou e não recusar ajuda ao próximo? Faça assim, e a sua luz irromperá como a alvorada e prontamente surgirá a sua cura! (...) Aí sim você clamará ao Senhor e ele responderá; você gritará por socorro e ele dirá: Aqui estou. (...) O Senhor o guiará constantemente, satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam. Seu povo reconstruirá as velhas ruínas e restaurará os alicerces antigos; você será chamado reparador de muros e restaurador de veredas”Isaías 58: 6 -12
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90 anos haviam se passado desde o dia em que o fatídico cataclismo atingiu a humanidade.
O desenvolvimento humano voltou a ser lento, grotesco e tortuoso, como na pré-história humana.
Um dia, sem aviso prévio, houve uma alteração metafísica em alguma parte do universo próximo, então de repente tudo voltou ao normal. Os elétrons voltaram a chicotear ao redor dos núcleos atômicos, como não faziam havia quase 1 século, mas ninguém daquela geração tinha meios para saber disso. Os cientistas e as cabeças pensantes que poderiam identificar as sutis alterações, já haviam morrido há muitos e muitos anos...
Não havia sobre a Terra pessoas capacitadas a dirigir a humanidade no rumo de uma nova era tecnológica. Esta geração rudimentar tinha nascido, crescido e se reproduzido em um mundo selvagem e primitivo. Bastava para este novo homem, o local para pousar, a água para beber e o alimento para mantê-lo.
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A tragédia atingiu a todos igualmente: ricos, pobres, jovens, velhos, cultos, incultos, saudáveis, doentes, europeus, americanos, orientais... Embora nenhuma coluna de fogo tenha descido dos céus, o homem foi terrivelmente castigado. Punido com uma silenciosa e peculiar penitência, teve interrompido seu progresso e desenvolvimento e se viu obrigado a se submeter à própria vida selvagem que ele mesmo provocou a quase total extinção.
Durante estes 90 anos, a mãe natureza lançou seus tentáculos verdes por todos os 4 cantos do globo, apoderando-se impetuosamente das antigas ruínas que foram engolidas por densa e exuberante fauna e flora, voltando assim a tomar posse do que sempre foi seu por direito.
Direito que lhe foi surrupiado pelo extinto morador destas paradas, chamado homem civilizado.
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Cesar Cruz
Nov/ 07
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Um salto na multidão

Cesar Cruz e Gabriel Fernandes
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Prefácio
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Este é o segundo conto que escrevemos em conjunto, o Cesar e eu. O primeiro (A Despedida) escrevemos livremente, mas nos deixamos, de alguma maneira, nos influenciar pelo estilo um do outro. Desta vez nos propomos a nos policiar para não cedermos ao forte apelo de escrevermos de forma parecida. O Cesar é um entusiasta da Língua, como eu, mas muito mais arrojado, fecundo e criativo. Ele é mais afeito às modernidades lingüísticas, eu sou mais conservador. Quando começamos a escrever, não sabemos nada sobre os personagens, como a história se desenvolverá, nem como terminará, ou quem escreverá o último trecho. Caminhamos no escuro do bosque da ficção, sem saber como sairemos dali. Cada um traça seu caminho, escolhe sua trilha e no final um espera pela outro na saída da mata. Emprestamos ao texto um pouco de nosso conhecimento e de nossas experiências, e o resultado é um conto híbrido e intrigante, pelo menos para os autores... O desafio maior consiste em nos tourearmos reciprocamente, conduzindo a trama para um ponto intermediário entre o que um pretendia e o que o outro esperava. Neste conto, pareceu-me que o Cesar tentava desviar o enredo para um atalho sobrenatural, mas, em dado momento, teve o insight oportuno de abandonar o teclado, digitando de maneira surpreendente a palavra FIM após um trecho que eu escrevera propositadamente com o intuito de frustrar sua tentativa de desvio. O resultado é, quero crer, uma história também surpreendente e que possui um pouco das experiências e dos valores de duas gerações: a dele e a minha, que antecedeu a dele. Espero que você o leia, aprecie e não se perca no bosque.
. Gabriel

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Parte I
. “À lembrança do que fomos, desejamos parecer outro. Descobrimos que somos feitos de muitos outros ao longo do tempo. Sei que a maior parte de nós não insiste, pensando preservar ainda essa coerência ilusória e múltipla de nós mesmos, essa dispersão que chamamos nossa vida. Acontece que se insiste, que se persegue o espectro, a ficção que somos para nós mesmos, para fugir de outros fantasmas, e essa aventura pode nos enlouquecer”.
Frédéric Boyer, Les Aveux
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Baldeei na estação Sé. Havia tirado a parte da manhã para ver alguns documentos pessoais no centro. Djalma, o encarregado do meu setor, me deu essa colher-de-chá. Eram 14:45 e eu já estava voltando com as tarefas concluídas. Iria para casa. Pelas minhas contas, chegaria antes das 16:30. Uma maravilha! Estava louco para entrar na casa vazia e silenciosa, já me imaginava largando os sapatos ao lado da porta, atirando as roupas por cima do sofá e me refestelando de cuecas para ver os programas vespertinos na TV. Com um detalhe: na geladeira – eu tinha certeza – haveria uma lata gelada de cerveja me esperando.
. Pelas minhas contas, eu teria uma hora e meia - se conseguisse mesmo chegar naquele horário - antes que a Marli escancarasse a porta com sua habitual barulheira esganiçada, trazendo as crianças e suas mochilas da escola.
. Troquei de plataforma no meio da multidão que, apesar do horário ainda tenro, já se fazia volumosa na estação. Pegaria o trem no sentido zona leste e saltaria na Corinthians-Itaquera, a última estação. Pronto. Estaria em casa. Bastaria vencer dois quarteirões a pé, abrir o portão e ganhar o sofá. Saudades da minha casa...
. O vento aumentou no túnel e soprou gostoso no meu rosto acalorado. Os faróis do trem jogaram luz sobre os trilhos na curva lá adiante; o barulho característico. As pessoas se aproximaram com pressa da faixa amarela de segurança.
. Vi quando um rapaz precipitou-se pelo meio do povo, quase ao meu lado, e saltou deliberadamente sobre os trilhos. Aterrissou desequilibrado. Numa fração de segundo, numa piscada dos meus olhos, gravou-se na minha retina o momento em que ele, instantes depois de pousar, elevou um ombro e girou um braço ao redor da cabeça, num movimento de defesa. Vi a expressão contraída do seu rosto. Num rufo de som, vento e luzes, o jovem sumiu sob o trovão de aço.
. Fui imediatamente envolvido pela turba que afluiu para espiar pelo vão que formavam o trem e a plataforma. Nada se via ali.
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Os seguranças, cinco homens de preto, numa fila movediça, cortaram a massa humana com delicada truculência. A mim pareceu que uma enorme mão enluvada atravessava aquela horda colorida que, se afastando rapidamente, como que criava um gigantesco caleidoscópio. À frente seguia o Mata-piolho, gordinho, baixinho, peito empinado, barriga saliente. Andava com passos alongados e rápidos, numa postura de quem quer provar sua ascendência hierárquica. Quase colado às suas costas, o Fura-bolo, de estatura média, tinha o corpo marcado por uma musculatura bem definida, certamente tratava-se de um freqüentador contumaz de academias. Seguia-o como um sargento, dedicado, subalterno... Depois, um homem enorme, encorpado como um gorila, de aparência rude e arrogante, sobressaía do quinteto: era o Pai-de-todos. Em seguida, manquejava o Seu-vizinho, magro, também de altura mediana, e um pouco penso à esquerda, olhava ansioso para trás, parecia preocupado com o Mindinho que se afastara inexplicavelmente do grupo.muito frágil, franzino e agitado.". Pararam na frente do primeiro vagão. O que parecia o mata-piolho adiantou-se do grupo, cruzou a faixa amarela de segurança e ordenou:
. – Afaste essa gente! Desça na via! Procure o corpo sob o trem!
. As ordens foram cumpridas prontamente. O que se portava como um sargento mandou um segurança que mandou o outro que mandou o menorzinho.
. De longe, eu observava o movimento. A cena do salto para a morte me pareceu fora de contexto. O salto fora ágil demais, certeiro demais, fácil demais. Não me pareceu mais um triste caso de suicídio no Metrô. Ninguém deixa a vida tão convicta, estóica e arrojadamente. O suicida premedita, tempera, cozinha lentamente seu ato. Procura justificativas que, em sua mente perturbada, corroborem seu gesto. O mundo já não presta, não o merece, a vida não vale mais a pena ser vivida. É como se de repente descobrisse que viveu uma farsa, uma penosa mentira.
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Alguém que criou uma falsa imagem de si próprio e que, num belo dia, um espelho em sua mente lhe revela um rosto que não conhece, uma imagem de que não gosta, uma realidade que despreza. Mesmo assim, entre a resolução tomada e a concretização do ato, há uma distância quase intransponível. O suicídio é para poucos. Um Hemingway, um Santos Dumont, um Hitler, um Sêneca, uma Virgínia Wolf, um Van Gogh, ou alguns infelizes anônimos, em sua grande maioria vítimas de enfermidades psíquicas graves, de doenças incuráveis, de dependência alcoólica ou química. "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia", disse Albert Camus.
. O que se assemelhava a um mindinho, curvou-se sobre os trilhos, procurou atentamente sob o vagão, mas nada viu. Nada de suicida. Olhou para o segurança que parecia o chefe, o mata-piolho, abriu os braços e disse, meio desapontado:
. - Não tem nada aqui, meu! – confirmando o que o povo já sabia.
Parte II
Olhei e ali estava ele... Ou um pedaço dele. Tratava-se da parte médio-inferior do seu corpo, peito para baixo. O pedaço estava prostrado de borco, sentado sobre os calcanhares, mas sem colo, sem um braço, sem cabeça. Era um corpo interrompido na altura do plexo. Se estivesse inteiro, graças ao braço que se projetava mais adiante, lembraria um muçulmano curvado em direção a Meca.
. Um rastro de sangue comprido e esfregado ia da ruptura dilacerada até onde a vista podia ver. Pensei que o restante deveria estar lá na frente, presa aos ferros da composição. Passeei os olhos ao redor. As pessoas se dispersavam desinteressadas. Reunidos, os homens de preto falavam entre si alguma coisa que, graças ao ruído, eu não conseguia ouvir. Saíram em grupo, conversando de outras coisas e, para meu espanto, riam. Um deles, macérrimo, com o terno largo que parecia emprestado de alguém bem maior, falava por rádio, alguns metros atrás, distante do restante do grupo: era o Mindinho.
. Minha cabeça ia do corpo à multidão, da multidão aos homens-dedo. Ninguém parecia se importar. Pensei em descer aos trilhos, ajudar o rapaz, porém estava claro que ele não poderia mais ser ajudado. Adiantei-me em direção a um homem que mexia nuns documentos numa pasta em fole apoiada sobre a coxa. Esbaforido, expliquei-lhe o ocorrido, gesticulei, apontei e me remexi; falei do descaso de todos, da inaptidão da polícia, da tristeza daquela morte. Por alguns instantes, ele me deu atenção, depois me olhou como seu eu fosse louco. Então, me dei conta de que falava sozinho; ele nem se dignava mais a me dirigir o olhar. Creio que o tenha aborrecido com meu alvoroço.
. Outro trem chegou bramindo. Certamente estraçalhou o resto do jovem abandonado sobre os dormentes. As pessoas entraram, inclusive o homem da pasta em fole. A plataforma esvaziou-se e o trem partiu. Olhei para os trilhos e o jovem permanecia ali, abandonado, moído. Chorei de desespero, impotência e solidão. Minhas pernas fraquejaram e, de repente, eu estava de joelhos, a face curvada contra o piso frio da estação. .
Pensei na minha vida, nos anos que desperdicei na cidade antropofágica que consumiu minha juventude, minha saúde, minha sanidade. Quantas vezes visitei minha memória, esse campo amplo, de vegetação rala, essa vastidão desolada de lembranças esparsas e desconexas? Quantas vezes questionei a razão de minha existência, perscrutando as planícies baldias de minha mente em busca de algo que justificasse meu desejo de continuar a viver ainda mais um dia? A idéia de suicídio não me era nova. Já não havia ninguém a quem pudesse me apegar, ninguém que sentiria minha falta se eu não voltasse para a desarrumação de meu apartamento na Vila Madalena, entre a visão tétrica do cemitério São Paulo e o ruído incômodo dos bares da região. Eu já não tinha para quem viver e não me dispunha viver apenas para mim.
. Minha filha mudou-se para a Europa logo após o casamento. A Marli a acompanhou para ajudá-la a adaptar-se à nova vida. No início, as ligações telefônicas eram diárias, mas aos poucos foram tornando-se escassas e deixei de recebê-las havia muito tempo. Eu não sabia se ainda estavam vivas, em que país moravam e em que condições. Meu filho igualmente desaparecera havia anos numa aventura juvenil no continente antípoda da Austrália.
. Incontáveis vezes esperei na plataforma lotada o trem aproximar-se ruidoso e rápido e imaginei, atravessando a multidão, saltar sobre os trilhos num ato premeditado de desistência e entrega. Li e reli inumeráveis vezes o drama do infeliz Werther, alimentando a esperança de imitar seu ato de desilusão e desespero. Queria transformar-me no personagem de Goethe. Porém eu queria uma morte rápida, mas espetaculosa, uma morte que por algum tempo me tirasse de meu anonimato abjeto.
. Realmente, não havia nada a ser resgatado de sob o trem, apenas minha imaginação afastara-me da realidade e minha vontade mais uma vez criara a cena de suicídio e indiferença. Provavelmente, se os seguranças-digitais tirassem meu corpo esquartejado de sobre os trilhos, ninguém deixaria de pegar o próximo trem para contemplar um pouco mais demoradamente o desfecho da minha vida miserável. Eu teria mais um dia para viver, mais um dia para prolongar a inutilidade da minha existência.
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Parte III . .
Levantei-me do chão. Outro trem se aproximava. Entrei.
. Durante a viagem, ora subterrânea, ora à luz do dia, pensei na Marli e nas crianças. Mulher e filhos que nunca tive. As crianças cresceram, viraram adultos e ganharam o mundo, mas apenas e tão somente nas minhas fantasias, na minha inconsciência... No entanto, de alguma maneira eu sabia como era cada um deles, suas faces, seus corpos, cabelos, cheiros, humores... Eu era capaz de me recordar, detalhadamente, de natais e aniversários que nunca ocorreram... Pensei também na firma, no trabalho diário, no Djalma e em toda aquela gente que opera a fábrica. Lugares, pessoas e atividades que jamais existiram.
. Saltei na Corinthians-Itaquera. Emergi da corrente humana pela escada rolante e avancei em direção à minha casa pelas ruas do bairro. Pelo menos o meu sofá estaria me esperando, aconchegante. Caminhei até minha rua. A velha e conhecida rua onde rodei peão e empinei pipas havia muitos anos, muito antes de construírem uma estação ali.
. Já na Rua Oleiros, avancei até o portão de casa. Parei em frente e enfiei a mão nos bolsos atrás das chaves. Não as achei. Mexi e remexi e não havia chave alguma neles. Mas onde estariam? Foi então que levantei o semblante em direção à fachada. O que vi fez meu coração pular. Minha casa fora posta à venda. Uma velha placa informava isso. A frente estava mudada, suja. A janela de madeira do nosso quarto parecia ressequida, esturricada pelo sol, colada aos quadrantes.
. O caminho de entrada que levava até a porta da sala estava tomado por mato alto, parecia que não era pisado por pés humanos havia anos. Pus a mão sobre a cabeça, cobri os olhos com as palmas, suspirei em desalento. Como tomado por uma certeza, por um impulso, saí dali. Não queria mais ver aquilo. Avancei pelas avenidas, cruzei o miolo do bairro e mais alguns poucos quarteirões estava em frente ao pequeno e antigo Cemitério Municipal de Itaquera. Parei diante do imenso portão. Foi então que olhei para os lados e vi os homens.
Final
Parados juntos a uma ambulância, eles me olhavam com comiseração. Eu odiava aqueles olhares, odiava ser visto como alguém que despertava piedade. Odiava aquele sentimento de dó. Aproximaram-se de mim lentamente e me cercaram de forma que eu não pudesse escapar.
. – Venha, seu Anton, o senhor não está tendo um bom dia! – disse-me gentilmente um dos homens que vestia calças brancas e um jaleco também branco.
. Eu o segui resignadamente.
. No interior da ambulância, deitei-me na maca e fui amarrado a ela por fortes tiras sintéticas. O jovem enfermeiro aplicou-me uma droga qualquer e dormi quase imediatamente. Eu me sentia renovado quando deixei a clínica após quatro meses de internação. O tratamento parecia ter tido o efeito desejado.
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. Voltei à minha casa na Vila Madalena. As lembranças de minha infância e adolescência em Itaquera haviam sido acomodadas em seus lugares apropriados num escaninho qualquer de minha mente. Não havia Marlis, não havia filhos, não havia Djalmas, apenas desejos irrealizados numa vida inútil, desperdiçada.
. Entrei na solidão de meu apartamento. Estava sujo. Cheirava a mofo e restos de comida. Uma réstia de poeira dançava preguiçosamente num tênue facho de luz. No interior dessa casa, cheia de sonhos, a dor me invadiu lentamente, como uma lua nascida do silêncio.
. Liguei o televisor e tirei o som. Peguei uma cerveja na geladeira e um copo tulipa no congelador. Sentei-me no sofá desbotado e fiquei a olhar as imagens que se sucediam no televisor mudo.
. Eu queria pensar na vida, na minha vida. O que restava para mim? Nunca me casei. Não tive filhos. Perdi meu último emprego não sabia há quanto tempo. Vivia da caridade da Previdência Social: aposentado por esquizofrenia.
. Eu queria me livrar do passado, da imagem que construíra para mim mesmo. Minha vida tinha sido uma ficção, uma mentira. Eu tinha me apegado a minha imagem juvenil, de galã, de boa pinta, de roupas extravagantes, cabelos compridos, pulseiras e brincos. Sempre acreditei que haveria tempo, mais tarde, para me aprofundar nos estudos, fazer carreira profissional, casar-me e ter filhos.
. Agora parecia tarde demais. Talvez contasse com a benevolência do Tempo. Talvez o Tempo me esperasse, esperasse que eu me encontrasse e assumisse minha condição de homem maduro. Eu não queria ser apontado nas ruas, ridicularizado como um retardado apegado a valores e símbolos da Jovem Guarda.
. Abri mais uma cerveja.
. Os pensamentos ainda eram coerentes. Ainda podia considerar o absurdo de minhas atitudes. Depois da quarta lata, o raciocínio tornava-se mais lento, as imagens começavam a se abraçar.
. Abri a sexta lata, ou será que foi a sétima? Pouco importava.
. Meu cérebro voraz produzia palavras que eu não conseguia processar. Se tentasse falar, elas saíam entredentes, mordidas, mascadas como um velho chiclete.
. Antes da décima, eu já dormia. Sonhava com a plataforma do metrô, o trem ruidoso, a multidão indiferente. Certamente acordaria com a mesma vontade de morte, a mesma compulsão suicida. .
Do lado de lá da vidraça, o cemitério São Paulo me espreitava.
FIM
Cesar Cruz e Gabriel Fernandes
Agosto 2008
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A despedida

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por Gabriel e Cesar
. Prefácio . Este é um conto escrito a quatro mãos. As minhas e as do meu amigo Gabriel. Gabriel é um escritor talentoso e criativo, aliás, foi ele que teve a idéia maluca de escrevermos um conto juntos! Foi assim: um dia recebi um e-mail seu com o título e o primeiro parágrafo do conto. Acompanhava uma breve explicação de como procederíamos. Dizia que a regra seria cada um acrescentar um trecho e enviar ao outro. E assim sucessivamente.
Poderíamos dar o rumo que bem entendêssemos à história. O tempo que teríamos para escrever as partes também seria livre, um dia, uma semana, um mês.
E assim fizemos. Levamos exatos 30 dias para concluí-lo. Até que foi rápido, pois escrevíamos quando tínhamos tempo e quando a criatividade cooperava. O interessante é que em certo momento, não estávamos mais apenas criando novos capítulos, estávamos também nos intrometendo e metendo o bedelho um no trecho do outro! Isso sem falar nos boicotes; em dado momento - preciso confessar - quase o impedi de levar o protagonista de volta a sua terra natal!
Vamos ao conto.
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I
O trem, puxado por uma locomotiva Baldwin-Westinghouse 1922, partiu da estação lentamente, como um fantasma clástico, um enferrujado amontoado informe de chapas de aço, porcas e parafusos que ameaçava ruir sem aviso a qualquer momento. A lua cheia atravessou relutante a densa neblina que se desprendia do negror do céu invernal e, através da vidraça embaciada do vagão, refletiu como uma minúscula pérola na lágrima solitária que deslizava do rosto entristecido de Elisa. Ela se foi como a infância, silenciosa e imperceptivelmente, mas deixou marcas indeléveis no coração das pessoas que tiveram o privilégio de contemplar-lhe os olhos de intenso azul que sobressaíam de seu rosto perfeito, de ouvir-lhe a voz sempre terna, doce, compassiva. Jonas ficou sozinho na estação, perplexo, alquebrado, abandonado como uma velha mala sem utilidade esquecida sob um banco qualquer da plataforma áspera e deserta. Sentia-se diminuído, desamparado como no dia em que seus pais morreram.
O auxiliar de plataforma, que observava à distância, compadecendo-se do homem, aproximou-se em silêncio, passou os braços ao redor dos seus ombros como se fosse um velho amigo e o conduziu a um dos bancos de cimento alinhados próximos às grandes vidraças da velha estação, ajudando-o a se assentar. Afastou-se em silêncio, possivelmente preocupado com tarefas e ponderações de sua vida ainda imberbe, não era realmente de se esperar que um quase-menino como ele pudesse compreender como o coração de um homem maduro padece ao ser remoído pelas circunstâncias de um destino aziago.
Jonas ficou ali como fora deixado, daquele jeito, sentado, só, sentindo o frio concreto lhe regelar as pernas e a alma. Apenas o silêncio da madrugada que se aproximava, abjeta, impiedosa, lhe fazia involuntária companhia. Com a mão esquerda segurava uma ponta de seu casaco próximo à boca e, inconscientemente, sugava seu polegar esquerdo. Estava prostrado, tácito, os ombros caídos e o olhar úmido encravado no denso matagal que imergia na insondável escuridão além dos trilhos. O gesto do adolescente destruiu o pouco da auto-estima que ainda lhe restava. Ele não admitia que sentissem pena dele, considerava a piedade, a comiseração, um sentimento que destrói o brio de um homem e ele havia se transformado num objeto de compaixão. A fumaça cálida que saía de sua boca esboçava lépidos e efêmeros redemoinhos esbranquiçados que logo se esvaiam no ar como fantasmas, intangíveis e irrecuperáveis como só o amor pode se tornar.
. Ele conhecia bem aquele monstro de aço que engolira sua Elisa e a levava para longe. Durante sua infância e adolescência, que já estavam muito distantes, brincara sobre os trilhos que cortava a cidade de São José dos Campos, imitava um maquinista nas cabines das locomotivas que invadia sem consentimento ou simplesmente dormia num dos vagões de carga estacionados ao longo da ferrovia. Queria ser maquinista como seu avô, que por décadas conduziu as pioneiras marias-fumaça, ou como seu pai, um homem rude e severo que pilotou por anos as primeiras locomotivas elétricas trazidas dos Estados Unidos. Com a decadência das ferrovias, a cidade também decaiu, os adultos perderam seus empregos, inclusive seu pai, e os jovens partiram atrás de um sonho qualquer. Para ajudar a complementar o rendimento familiar, sua mãe viu-se forçada a trabalhar na Companhia Fiação e Tecelagem Parahyba, antiga fábrica que costumava empregar centenas de moradores da cidade e de vilarejos próximos, e na qual o marido conseguira, por sorte, um emprego humílimo de ajudante geral.
Jonas nasceu numa família pobre, mas de rígidos princípios de religiosidade e de valores éticos estritos. Perdeu os pais, ainda criança, no incêndio que destruiu parcialmente a única fábrica da pequena cidade. O incêndio provocado por um de seus proprietários, segundo especulação dos moradores, serviu para que a empresa recebesse uma indenização do seguro que lhe proporcionaria alguma sobrevida. O fogo matou os pais de Jonas e outros trinta e dois empregados, mas a indenização recebida não impediu que a fábrica fosse à falência alguns anos mais tarde. A polícia nunca investigou as causas do incêndio e as famílias vítimas da tragédia nunca foram indenizadas.
Sentado ali naquele banco frio, ele rememorava a trajetória de sua vida, de desafios precoces, de sofrimentos constantes, de infelicidades perpétuas e de desesperança. Para ele, parecia que os deuses, se existem, haviam tramado contra ele. A perda prematura dos pais constituiu um acontecimento de conseqüências nunca superadas. Em luto perene, o sorriso parecia haver se apagado de seu rosto para sempre.
Jonas foi criado pelo irmão mais velho, Haroldo, que apesar de jovem - vinte e dois anos – transformara-se num desvirtuado, beberrão, boêmio e mulherengo, desde sempre revoltado contra a educação rigorosa do pai. Cuidou mal do pequeno irmão, que na época tinha apenas três anos de idade. À noite, deixava o menino sozinho em casa e saía para se esbaldar em farras homéricas, em casas de tolerância, regadas a uísque vagabundo e entre meretrizes gordas, malcheirosas e infectadas por doenças venéreas. Só voltava pela manhã, sujo, cambaleante, muitas vezes ferido. Com freqüência vomitava no tapete roto da sala e emborcava sobre a própria imundície, acordando somente no meio da tarde. A criança ficava só, no escuro da casa miserável, um pequeno e imundo cobertor preso à mão esquerda e o polegar enfiado na boca. Chorava durante horas até, vencida pelo cansaço, entregar-se a um sono instável, agitado, povoado de pesadelos assustadores. Às vezes Haroldo trazia alguns companheiros de bebedeiras para continuarem a farra em sua casa até, completamente embriagados, adormecerem no cimentado sujo da cozinha. Foi nesse cenário e convivendo com esses personagens que Jonas cresceu e, desde cedo, aprendeu a se virar.
Uma manhã, sem explicação, Haroldo, às pressas, reuniu uns poucos pertences, espremeu-os em duas velhas malas e tomou o trem para a cidade da São Paulo. Parecia fugir de um fantasma, de uma grande ameaça. Jonas o seguiu como um cachorrinho impotente. Desembarcaram na Estação Central do Brasil, próxima ao Largo da Concórdia. Dirigiram-se a pé para uma pensão decrépita no coração do Bairro da Lapa. Abandonou o menino de apenas nove anos e saiu para a rua. O menino, sem entender o que acontecia, ficou sentado na beirada da cama. Procurou entre as tralhas das malas seu velho cobertor encardido, segurou-o por uma das pontas com a mão esquerda, colocou o polegar na boca e o sugou até adormecer.
Apesar de dissoluto e perdulário, Haroldo tinha lapsos de responsabilidade. Num desses momentos, matriculou o pequeno Jonas numa escola pública próxima à pensão. Aos poucos o menino familiarizou-se com o bairro e encontrou entre as professoras uma que, conhecendo seus problemas, o orientava como a um filho.
Aos doze anos, em 1962, já assumia as responsabilidades de um homem adulto. Saía do modesto quarto da pensão pouco antes do nascer do sol, equilibrando sua caixa de engraxate em um dos ombros franzinos. Perambulava pelos bares da Lapa, nas imediações da estação da Estrada de Ferro Sorocabana e do Mercado Municipal. Na época, o bairro não era decadente como hoje e suas manhãs eram povoadas de homens engravatados que se apressavam para bater o ponto nas empresas sediadas nas imediações. Acostumado a essa rotina, Jonas entrava confiante nos bares e lanchonetes e invariavelmente conseguia engraxar um ou dois pares de sapatos. Era muito comum ouvir os adultos que conheciam sua história cochicharem a seu respeito coisas como: “O pobre menino se vira sozinho que nem homem-feito e ainda cuida daquele porco, daquele traste do Haroldo”.
Era uma vida de trabalho árduo e de resignação, mas que preservava sua dignidade. O pequeno Jonas tinha um único prazer na vida: ir à estação e ficar assistindo aos trens que chegavam e partiam. Tentava identificar os modelos das locomotivas e o ano de fabricação, o que o fazia recordar seus dias de inocência na pequena São José dos Campos. Era verdadeiramente apaixonado por aquelas caixas metálicas, coloridas e fumegantes que levavam e traziam as mais incríveis histórias.
O menino imaginava-se de volta a sua pacata cidade e ao grupo escolar onde havia estudado durante três anos. Ali ele conhecera a pequena Elisa, filha única do dono da farmácia, uma doce menina de cabelos dourados e olhos dum azul intenso que rivalizava com o céu de outono de sua cidade. Embora uma criança, ele sabia que a amava em cada detalhe. Seu sorriso banguela de menininha de sete anos, suas faces rosadas, seus gestos delicados, sua boca perfeita, sua voz meiga e o carinho com que ela o tratava, apesar de pobre, órfão e irmão de um bêbado irresponsável. Ele ainda conservava o caderno com os poemas pueris que dedicava a esse amor platônico. Às vezes os lia na solidão do quarto infecto da pensão.
II
A plataforma esvaziara-se completamente, apenas Jonas permanecia imóvel na frieza do banco de concreto. Fazia lembrar uma escultura de Rodin, uma imagem rija de bronze, a personificação da tristeza rude, do fracasso inflexível, da impotência peremptória. Nada se movia, apenas uma sombra, às vezes, projetava-se por uma das vidraças da estação sobre o piso áspero da plataforma e sugeria a existência de vida naquele deserto de argamassa, tijolos e vidros. Era o jovem ajudante de plataforma que de tempos em tempos conferia se Jonas ainda estava lá.
III
Passados três anos, Jonas tornou-se um adolescente bastante alto e forte para a idade. Certa noite, por volta das nove horas, lavava louças na pia, que servia de cozinha no minúsculo quarto e deixava cozer a escassa comida em velhas panelas apertadas sobre as duas bocas do fogão, quando ouviu baterem à porta. Olhou para o irmão e viu que ele dormia profundamente no sofá diante do televisor ainda ligado. Reduziu as chamas do fogão, secou as mãos num pano de pratos vermelho que estava sobre a mesinha, jogou-o sobre um ombro e abriu a porta. Deparou-se com dois homens mal-encarados, vestidos com roupas estranhas, um usava uma touca de moletom e o outro um inusitado óculos escuro; esbravejaram:
- Cadê o Haroldo, esse filho da puta?
Pressentindo que algo de ruim estaria por advir, tentou em vão mentir, sustentando que o irmão não estava em casa. Não lhe deram ouvidos. Afastaram-no com um tapa no peito e entraram no cômodo, sacando das cinturas revólveres escuros. Os homens desferiram doze tiros a queima roupa que desfiguraram completamente o rosto de Haroldo. O jovem nem mesmo acordou. Se realmente existe Inferno, como o que descreveu Dante, certamente Haroldo acordou diante do diabo completamente desorientado, sem ao menos saber que tinha morrido.
Jonas, instintivamente, pegou um pontiagudo facão sobre a pia e avançou em direção a um dos matadores que se curvara sobre o corpo de seu irmão. Desferiu um poderoso golpe, de baixo para cima, que entrou na base do pescoço do matador. Para o adolescente, tudo se passava como que em câmara lenta. O aço pontiagudo atingiu a touca que cobria a cabeça do assassino, rompeu a trama da malha, atravessou o tecido e avançou em direção à epiderme. A lâmina fria penetrou na pele quente, derme, intraderme, gordura, músculo; desviou numa das vértebras rígidas e seguiu seu curso; dilacerou a jugular interna, banhou-se no sangue denso da carótida e, através do maxilar, irrompeu na boca do desgraçado, decepando-lhe a língua, arrebentando-lhe os dentes e saindo com um rubro bólido pelas carnes de seu lábio superior. O sangue escuro jorrou de sua boca. O homem estrebuchou no chão como um porco. Urinou. Defecou. Contorceu-se num sinistro estertor.
Atônito com o gesto inesperado do garoto, e sem poder reagir a tiros, pois havia gastado todas as balas na encomenda, o outro homicida permaneceu estático por alguns segundos, a arma ainda fumegante à mão, os braços pendentes junto ao corpo. Enquanto vislumbrava uma maneira de se defender de tamanha fúria, uma lâmina faminta atravessou-lhe uma das lentes escuras dos óculos, destruindo-lhe o globo ocular e penetrando-lhe profundamente o cérebro. O infeliz caiu sobre o comparsa formando um amontoado aterrador de carne morta, sangue, urina e fezes.
. Jonas limpou suas mãos no pano de louças, tingindo-o de um vermelho ainda mais escuro. Olhou os corpos no chão, o rosto deformado do irmão, o facão cravado no olho do bandido. Sentindo o cheiro nauseante que infestava o quarto, vomitou.
. Cobriu o corpo do irmão com seu velho cobertor e sentou-se no chão ao seu lado. Com a mão esquerda reteve uma ponta do cobertor junto ao rosto e introduziu o polegar na boca. Ficou ali desorientado, sugando avidamente seu dedo. Sua indecisão, entretanto, durou poucos minutos. Recobrando seu autocontrole, levantou-se num salto e rapidamente recolheu alguns de seus pertences nas duas velhas e imundas malas, as mesmas que anos antes tinham acondicionado a bagagem dos dois na vinda para São Paulo. Agora decrépitas e com os fechos defeituosos, eram as únicas de que Jonas dispunha. Ajoelhou-se pesadamente sobre elas e amarrou-as fortemente com um barbante grosso de cisal. Com alguma dificuldade, desceu a vidraça guilhotina fechando-a completamente. A comida queimava. Apagou o fogo, mas deixou o gás escapando, propositalmente, pelos queimadores do fogão. Colocou uma vela acesa perto do corpo do irmão e abandonou o quarto, fechando a porta atrás de si.
Jonas deixou a pensão, atravessou a rua e caminhou até a esquina. Depositou as malas no chão e grudou seu olhar na fachada deteriorada do casarão. Repentinamente uma explosão. As janelas são lançadas sobre a rua, vidros e detritos voam sobre os automóveis, as janelas dos prédios vizinhos tremem, muitas se quebram, fumaça e poeira cobrem temporariamente a noite. O adolescente recolhe as malas e afasta-se indiferente.
IV
Afixado à parede acima do banco em que Jonas permanecia sentado, um relógio elétrico, cujo painel exibia esmaecidos algarismos romanos, badalou mais uma vez a hora exata como vinha fazendo havia mais de oitenta anos, vinte e quatro vezes todos os dias. Jonas não se virou para olhar, mas os ponteiros góticos marcavam duas horas já vencidas daquela gélida madrugada. Elisa tinha partido havia quase três horas.
O jovem ajudante aproximou-se novamente do homem. Carregava alguma coisa em uma das mãos. Surpreendeu Jonas ao lhe cobrir as costas com uma manta de lã com tramas que formavam losangos azuis e verdes. Com mais coragem do que alguém de sua idade costuma demonstrar, quebrou o silêncio que até então prevalecera entre eles:
– O senhor gostaria de tomar um café pra se esquentar? – ofereceu o ajudante, estendendo-lhe uma xícara fumegante.
Jonas meneou a cabeça negativamente sem dirigir-lhe o olhar ou agradecer-lhe a oferta. O rapaz não sabia, nem tinha como saber, mas aquele homem estranho e sombrio prostrado à sua frente no rude banco de cimento não pretendia ficar ali, inerte, sentado por muito mais tempo. Para onde ia, certamente não precisaria de café quente para aquecer seu corpo.
V
Ele tinha pressa, projetava o corpo à frente, andava a passos largos. Quando chegou à Rua Guaicurus sentia-se cansado. Olhava para os lados disfarçadamente temendo ter sido seguido. As malas pesavam como halteres em suas mãos. Parou na área de estacionamento em frente a uma pequena loja. Retirou suas bugigangas de ambas as malas e as espalhou pelo chão. Separaria o que considerasse que teria mais utilidade para ele, sem exceção. Trabalhou rapidamente. Colocou o que lhe interessava na mala que lhe pareceu em melhores condições. Meteu seus documentos dentro de saco plástico junto com um velho canivete suíço e o protegeu entre algumas cuecas. Fechou a mala com sofreguidão. Preparava-se para partir quando percebeu seu velho caderno de poemas semi-oculto por uma velha calça de jeans. Voltou a abrir a mala: aquela seria a única exceção, confirmando mais uma vez a regra inescapável.
. Uma ambulância passou em alta velocidade. Os gritos lancinantes de sua sirene ameaçaram arrebentar seu coração. Apressou seus passos, agora facilitados pela menor carga que carregava. Deixou a rua Carlos Vicari e entrou na avenida Francisco Matarazzo. Caminhava apressadamente. Em pouco tempo, viu surgirem à sua esquerda os muros da Indústria Matarazzo, as três chaminés fumegantes, o cheiro acre no ar. Mais adiante, à direita, assomou a fileira de árvores frondosas que ocultavam, ajudadas pela neblina e pela fumaça, as cocheiras do Parque da Água Branca. Sentia-se mais seguro, ninguém parecia segui-lo. A avenida estava praticamente deserta, o frio era cortante, mas Jonas suava intensamente. Um bonde solitário deslizava pela avenida. O motorneiro pilotava sonolento enquanto o trocador dormia a sono solto em um dos bancos de madeira. Apesar de suas preocupações e seus medos, não pôde deixar de se impressionar com a grandiosidade da fábrica. Lembrou-se do amido Brilhante, do azeite Iguape, do licor Brasil, em especial do sabonete Rex, do enjoativo perfume Sedução e da suave fragrância da água de colônia Mimi que vira as prostitutas, que seu irmão costumava levar para a pensão, deixarem sobre a mesinha do quarto.
. Jonas queria chegar logo ao seu destino, sabia o que devia fazer. Seus passos comiam vorazmente as distâncias: a avenida General Osório e a São João, o Largo do Café, a Praça da Sé. Seus pensamentos viajavam ainda mais rapidamente. A mala parecia arrancar-lhe o braço. Trocava de mão, colocava-a sobre os ombros, sobre a cabeça, abraçava-a junto ao peito. O dia amanheceria em no máximo duas horas. Avenida Rangel Pestana, agora seriam umas poucas centenas de metros de decida, teria algum alívio na sua caminhada. À frente, algumas poucas árvores do Largo da Concórdia já podiam ser vistas. Um pouco mais de esforço e determinação e conseguiria.
. Um carro da Rádio Patrulha passa num farol vermelho e aproxima-se rapidamente. Seu coração bate em sobressaltos. Jonas pára resignadamente junto à esquina. Deposita a mala na calçada e controla a vontade de chorar. A viatura policial agora está mais perto. Ele já pode imaginar a violência com que será abordado. Cobrirá o rosto, cairá de joelhos e deixará que o espanquem. Seja o que Deus quiser. Sem sinalizar, a RP faz uma conversão à esquerda e segue em direção à Rua do Gasômetro. Jonas fica sem respirar por alguns segundos. Não era com ele. Finalmente pôde ver o Largo da Concórdia. Enfim, e antes dele, a Estação Roosevelt. Entrou na estação, sentou-se num banco de ripas espaçada longitudinalmente, colocou as pernas sobre a mala e adormeceu instantaneamente.
. Alguns raios tíbios de sol, que tentavam atravessar os vidros baços da grande vidraça em que Jonas se apoiara, atingiam suavemente sua cabeça. O burburinho das primeiras pessoas que desembarcavam para ir ao trabalho o faz acordar. Eram centenas de operários que trabalhavam nas fábricas situadas na região do Brás: Moinho Matarazzo, Souza Cruz, Alpargatas, Irmãos Spina, Confiança entre outras. Amanhecera havia poucos minutos. Inda meio desorientado, dirigiu-se a uma das bilheterias:
– Uma passagem de segunda classe, só de ida, para São José dos Campos, no Expresso, por favor! - e voltou a sentar-se.
A locomotiva elétrica fabricada pela General Electric, a gigante pintada com as cores azul e amarela, encosta lentamente na plataforma empurrando velhos vagões de madeira desbotados e gastos. Os alto-falantes ruidosos e fanhosos anunciam agudamente:
– Senhores passageiros do Trem Expresso com destino à cidade do Rio de Janeiro. A partida da composição está prevista para as oito horas. Por favor, apresentem-se para embarque imediato na plataforma de número um.
Jonas pega sua mala e praticamente arrasta-se pela plataforma. Entrega sua passagem ao chefe do trem que confere os dados, picota o bilhete e lhe indica o vagão em que deve embarcar. Ainda temeroso, o jovem olha para todas as direções antes de subir no trem. Procura sua poltrona, encaixa sua mala no compartimento para bagagem, senta-se, fica observando, pela janela, o movimento das pessoas que embarcam e circulam na plataforma. O sono começa a se insinuar.
. Atravessar uma cidade carregando pesadas malas teria derrubado qualquer um, mas não Jonas, pelo menos não fisicamente. Certo de que tudo o que vivera nos parcos quinze anos que o separavam do ventre de dona Lair, fizera dele um adulto precoce, mas as últimas horas, desde o momento em que aqueles dois facínoras bateram à sua porta, não haviam sido nada fáceis. Sua estafa mental era tão grande que nem se deu conta quando seus olhos se fecharam e ele adormeceu, aconchegando-se instantaneamente nos braços de Morfeu. Sonhou com a farmácia do pai de Elisa. No seu sonho, eles estavam sentados na calçada, de mãos entrelaçadas, eram namorados. Ela estava com medo. Temia que seu pai surgisse do fundo da farmácia e os visse assim, íntimos. Certamente a poria de castigo. De repente um ruído estridente: sirenes da polícia. Jonas levantou-se do meio-fio, soltou a mão de Elisa e olhou ao longe em direção à outra rua. O céu, repentinamente, congestionou-se. O sol foi encoberto por nuvens que se aproximaram numa velocidade incomum. Gotas grossas de chuva começaram a pipocar. Jonas sentiu seu coração disparar: a polícia estava ali. Virou-se para Elisa, mas ela havia sumido, não estava mais sentada na calçada. Olhou por sobre os ombros, não havia mais farmácia, em seu lugar surgira um muro alto, sujo, todo pichado, uma barreira que parecia querer afastá-lo de seu objetivo, de sua Elisa, de sua liberdade! Voltou a olhar para a esquina. Novos sons de sirenes. Seria preso.
. Acordou com um sobressalto. Suava; a camiseta colada ao corpo. Olhou pela janela e viu duas baratinhas da polícia que contornavam a rua que dava acesso à estação. Pulou do assento, pegou a mala no compartimento de bagagens, abriu-a e retirou seus documentos que guardara num saquinho plástico, junto com seu canivete, entre algumas cuecas. Enfiou o saco no bolso traseiro da calça e transferiu a mala para outro compartimento de bagagens que ficava imediatamente acima do assento dum senhor que dormia de boca aberta, a cabeça encostada ao vidro. Dirigiu-se ao banheiro em passos rápidos. Entrou e fechou a porta. Ficou em silêncio. Ouviu os policiais perguntarem aos seguranças que estavam num guichê se tinham visto embarcar um jovem alto e forte. Desesperou-se. Examinou o pequeno compartimento, em que estava encurralado, à procura duma saída, duma escotilha que lhe possibilitasse a fuga. Parecia não haver como escapar ou onde se esconder. Para a polícia, tratava-se dum caso de duplo homicídio, ou mesmo triplo. Acabaria preso numa unidade do Juizado de Menores, entre ladrões, homicidas e traficantes. Certamente os policiais entrariam no trem e interrogariam passageiro por passageiro, não conseguiria ficar por muito tempo naquele cubículo. Pensou na distante São José dos Campos. Agora não tinha mais certeza se conseguiria desembarcar lá. Pensou em Elisa. . Procurou acalmar-se. Ele conhecia bem aqueles vagões de madeira. Lembrou-se de suas brincadeiras no interior dos trens estacionados ao longo da ferrovia na sua São José, pegou o canivete no bolso e, com algum esforço, soltou os parafusos que fixavam o vaso sanitário ao piso de madeira do toalete e o afastou. O espaço era pequeno para que ele passasse. Despregou um par de tábuas e testou o buraco. Perfeito. Destravou a porta silenciosamente, meteu-se pelo buraco e, com certa dificuldade, encaixou as tábuas no lugar, puxou o vaso cuidadosamente com as pontas dos dedos, em seguida deitou-se sobre as molas da suspensão do vagão. Esperou. Os músculos retesados. Cruzou os dedos torcendo para que os guardas não resolvessem inspecionar o banheiro, ou pior, a fixação da privada. Foram momentos de imensa angústia. Jonas manteve-se imóvel, de olhos fechados, como se dessa forma se tornasse imperceptível aos olhos da lei. De repente os ruídos e vozes ficaram mais próximos. Prendeu a respiração. Ouviu quando um dos agentes abriu a porta do toalete. Jonas quase pode vê-lo verificando minuciosamente o interior do compartimento. Foram longos e terríveis segundos, até que a porta se fechou e ele pôde soltar o ar preso nos pulmões.
Um sino badalou nas cercanias. Eram oito horas. O maquinista liberou os freios, acelerou a locomotiva que se movimentou preguiçosamente. Ele estava salvo. Esperaria o trem deixar a estação e voltaria ao interior da composição. Fazia frio. Ele não poderia ficar ali muito tempo. Quando se sentiu seguro, atravessou o buraco, travou a porta do toalete e repôs as tábuas e os parafusos nos devidos lugares. Voltou a ocupar seu assento. O senhor ainda ressonava, a boca aberta, a cabeça apoiada no vidro. Acomodou-se o mais confortavelmente possível. Fechou os olhos e dormiu.
VI
O dia começava a amanhecer na estação. Uma luminosidade branda fazia brilhar algumas folhas e galhos do matagal além dos trilhos, que minutos antes ainda estava mergulhado na penumbra. O horizonte assumia um tom alaranjado escuro, mas Jonas continuava encolhido no banco, a manta nas costas, a cabeça tombada para trás. Dormia profundamente. Para os primeiros transeuntes que circulavam pela plataforma, aquele corpo largado sobre o banco era, certamente, de um mendigo.
. Os primeiros e ainda discretos ruídos matinais finalmente despertaram Jonas. Ele abriu os olhos e num primeiro momento não se deu conta de onde estava. Seu corpo estava moído; já não era mais o menino de outrora, uma noite mal-acomodado num banco de concreto numa estação fria havia acabado com seus músculos lombares. O relógio dependurado sobre sua cabeça indicava 5:32. Dormira por três horas. Uma sineta ressoou por alguns segundos e a voz do locutor da estação rompeu o silêncio. A cena lhe pareceu quase um déjà-vu vivido quarenta e três anos atrás.
. – Senhores passageiros do Trem Expresso com destino à cidade de São Paulo. A partida da composição está prevista para as 5:40. Por favor, apresentem-se para embarque na plataforma, imediatamente.
. Jonas retirou a manta das costas largando-a sobre o banco. Levantou-se. Uma senhora gorda, mas muito bonita, com um lenço vermelho na cabeça, passou apressada rente a ele, sem lhe dirigir o olhar. Quase o jogou sentado de volta ao banco. Ela puxava um menino pequeno pelo punho. O garoto, que avançava trôpego, ainda conseguiu torcer o pescoço e olhar para Jonas durante um breve tempo até sumir, ainda arrastado pela mão, no meio da multidão que começava a se formar antes da chegada do sol.
Empunhando uma pasta marrom, um homem, de bigodes grisalhos, metido num terno marinho, conferiu seu relógio de pulso e estancou subitamente para procurar algo no bolso. Uma mocinha magra quase colidiu com suas costas. À esquerda, um casal de meia-idade discutia. O homem ia à frente e a mulher o seguia com o dedo em riste. Vociferava coisas que Jonas não conseguiu compreender. As pessoas demonstravam ter pressa. Muitas se moviam em curtas corridinhas para adentrar a composição. Ninguém parecia se importar com Jonas. Ele girou a cintura até o limite produzindo um estalo seco. Repetiu o movimento para o lado contrário, mas dessa vez não se ouviu um estalo. Olhou para o monstro metálico parado mais adiante, uma velha amiga; quase meio século de amizade. Jonas fitava, saudoso, a velha máquina. Em seu corpo rústico, as cores azul e amarela corriam como faixas paralelas de espessas camadas de tintas que se sobrepunham havia décadas. As inscrições em sua gasta pele metálica trouxeram a Jonas a certeza de que fora aquela composição que o trouxera de volta a São José, havia mais de quarenta anos. .
Subitamente, como num mergulho no tempo, num intervalo de existência, tudo pareceu esmorecer. Os passantes apressados, agora se arrastavam como que em câmera lenta, os ruídos pareciam graves e pastosos, a fumaça do cigarro de uma mulher subia morosamente, enquanto seu sorriso amarelo parecia congelar-se. Jonas viu um jovem vestido com roupas antigas saltar do trem com agilidade. Entre aquelas letárgicas figuras humanas, era o único que se movia normalmente. Jonas conhecia aquele jovem. Quis abordá-lo, aconselhá-lo, dizer-lhe o que fazer, o que não fazer; mas não conseguia se mover, suas palavras pareciam colar-se à sua garganta. Espantado, olhava-o. O rapaz deitara no chão a velha mala que trazia abraçada ao peito, amarrada com grossos barbantes. Jonas sabia o que passava em seus pensamentos. Conhecia seus planos.
. O jovem olhou para os lados e pareceu refletir por um instante. Abraçou novamente a mala, jogou-a sobre ombro, como se fora um estivador, e, decidido, seguiu à esquerda pela plataforma, driblando as pessoas que vinham em sentido contrário e que agora, em um átimo de tempo, passaram a se mover normalmente, mergulhados nos ruídos e na normalidade que sempre caracterizaram aquela estação.
VII
Jonas como que atravessara um lapso temporal. Aquela visão do passado servira para reforçar sua decisão...
. O jovem Jonas conseguira chegar a São José sem transtornos. Procurou a ajuda de Elisa que lhe conseguiu um emprego na farmácia do pai.
. Ele continuou a encher as páginas de seu caderno com apaixonados poemas dedicados a Elisa. Ele amava suas mãos, seus cabelos, seus olhos, seus sorrisos, sua voz, suas roupas. Elisa o amava como a um irmão.
. Jonas afastou-se dela no dia em que ela apresentou seu namorado ao pai. Aquilo o arrasou. Ele pegou suas coisas na edícula onde morava, no fundo do prédio da farmácia, e desapareceu.
. Vivia mudando-se de cidade, e dessa vez o motivo era mais do que justo. Permaneceu algum tempo em Caçapava. Depois se mudou para Taubaté, Santo Antônio do Pinhal, Campos do Jordão e Quiririm. Exerceu as mais humildes profissões, acabando por aposentar-se como fiscal de trem na cidade de Taubaté.
. De longe, ele acompanhava a vida de Elisa, através de amigos, de ligações telefônicas esporádicas, de visitas secretas a São José. Quando soube que Elisa ficara viúva, a procurou. Ela estava mudada. Madura, segura e ainda muito linda.
. – Vou embora para São Paulo. – ela lhe disse – Não tenho nada que me prenda a São José. Meus pais já morreram, não tive filhos. Vou morar com minha tia.
. – E eu, como fico? Eu a esperei tanto tempo...
. – Como? Você não percebeu que você nunca me amou? Você amou minha beleza, minha feminilidade. Você não me queria...
.
Carinhosamente, Elisa aproximou-se dele. Passou ambas as mãos em seu rosto e pousou-as em seus ombros. Lágrimas desciam dos olhos do homem. Elisa sorriu docemente, como só um irmão sorri a outro. Por fim falou:
. – Jonas, querido. Eu preciso lhe dizer uma coisa. Uma coisa que eu sempre soube, mas acho que você talvez não saiba.
. Jonas olhou-a. Os olhos molhados, uma expressão interrogativa no sobrolho. Elisa prosseguiu, docemente, para não machucar o amigo:
. – Você queria ser eu, Jonas. Você sempre quis.
. Jonas foi tomado de um sobressalto. Tirou as mãos dela de seus ombros. Arregalou os olhos, balançou a cabeça em negação. Não saíram palavras. Estava em choque. Cenas de seus anos na Lapa voltaram à sua mente. Haroldo bêbado, largado na cama. Ele ali, só, exposto às sanhas sexuais dos amigos alcoolizados que o irmão trazia para a pensão. Aqueles monstros molestaram o pobre menino, recorrentemente. Haroldo simplesmente ignorava suas reclamações. De alguma forma aqueles acontecimentos haviam acionado algum estranho mecanismo dentro do menino, algum mecanismo inexplicável...
. Sim, Jonas queria ser Elisa. Queria seus olhos, sua voz, seus perfumes, suas roupas sensuais, seus cabelos loiros. Elisa era seu lado mais bonito, a fêmea insinuante e esguia.
.
Saber que Elisa conhecia seu segredo foi devastador. Num ato de coragem e resignação, ele a acompanhou à estação e a viu partir definitivamente
VIII
Jonas lamentava seu destino infausto. Gostaria de ter sido pai. A bela senhora que arrastava a criança na plataforma povoada da estação poderia ter sido sua Elisa, o gracioso menino seu neto... .
Não lhe restava mais nada... Sem os pais, sem amigos, viveria como um fantasma. Recolheu a manta de lã, de losangos azuis e verdes, e caminhou vagarosamente até a extremidade da plataforma.
. Com a mão esquerda, segurou uma ponta da manta junto ao rosto e, disfarçadamente, colocou o polegar na boca.
. Sua única amiga era a velha locomotiva que começava a movimentar-se lenta e ruidosamente na estação.
. Jonas chorava. Seu coração estava disparado. O maquinista puxou o cordão dentro da cabine fazendo soar o apito, uma longa e melancólica melodia. Era como se sua velha amiga lhe dissesse adeus. Aquele foi o último som que Jonas ouviu.
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As pesadas rodas de ferro da locomotiva atritaram ruidosamente contra os trilhos desgastados. O maquinista interrompeu a partida.
. O ajudante de estação correu em direção à pequena multidão que se formara próximo à velha máquina. Forçou sua passagem por entre as pessoas aglomeradas que emitiam gritos e preces e estancou mortificado.
. O corpo dilacerado de Jonas era cuidadosamente retirado de sobre os trilhos. Sua mão direita ainda segurava firmemente seu caderno de poemas onde, entre manchas espessas de sangue, ele pôde ler:
“Elisa”
“Tivesse eu teus encantos,
Teu cheiro doce de mulher,
Não teria vivido em prantos
Um destino avaro qualquer.”
Fim
Gabriel e Cesar
Julho/ 08

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