De repente

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De repente, tudo o que eu considerava importante, imprescindível e vital, se tornou secundário, adiável, tolo.
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De repente, perdi minha mãe. Assim... tão de repente.
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De repente, percebi quão miserável, tola e frágil é a vida. Não poderei agora mais ouvir a sua voz, abraçá-la, ver no visor do celular: “mãe chamando”, e, ao atender, ouvir sua voz tão querida...
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De repente, fiquei órfão de seu amor absolutamente incondicional. Acabou-se, ninguém mais me ama faça eu o que fizer, me transforme no que eu me transformar.
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De repente, tive que me agarrar ao sobrenatural, a uma pontinha de fé que me sorri com a esperança de que em algum lugar do inimaginável, minha mãe vive e me aguarda.
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De repente, minha mãe acabou. Assim, de repente! E acabou-se com ela metade do que sou.
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De repente, não tenho mais história. Coisas que só mamãe sabia, partiram com ela. Quem lembrará das minhas peripécias ainda nas fraldas. Quem saberá da minha operação de hérnia aos 2 meses de idade.
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De repente, nunca mais comerei da sua comida tão boa.
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De repente, tenho tantos nunca mais... Tantos! Tão doloridos!
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De repente, um desconhecido do outro lado da linha me dá a notícia de que acabou. Nada mais poderia ser feito, a irremediável certeza veio para atingir a minha vida, e levar minha mãe...
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De repente, sobraram-me roupas e pertences com seu cheiro.
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De repente, só o que terei é o seu aroma, impregnado em coisas... Até que, de repente, se esvaia, acabe.
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De repente, eu me vi numa madrugada fria, de um dia onde minha mãe não acordaria de novo, à cata de documentos para agilizar processos e providenciar buracos...
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De repente, assim tão de repente, eu, o seu querido e amado filho, estava encarregado pela lei de decretar o fim oficial da sua história neste mundo...
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De repente, sobrou-me a sensação de que regulei amor, calculei abraços, cronometrei conversas...
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De repente, vi que fui um mesquinho pão duro, sempre tão ocupado pra poder me dar a ela...
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De repente, me veio esta dor, esta dor tão doida...
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De repente, me dei conta de que...
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De repente, fiquei só.
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Tudo tão... de repente.
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Cesar Cruz
Julho/ 07
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Um comentário:

Gabriela Souza Gomes disse...

Oi, Cesar.
Há tempos me falaste dessa crônica. Adiei lê-la o quanto pude, por saber que iria me emocionar. E assim foi.

Embora tendo minha mãe perto, compartilho da mesma sensação: "De repente, sobrou-me a sensação de que regulei amor, calculei abraços, cronometrei conversas...
De repente, vi que fui um mesquinho pão duro, sempre tão ocupado pra poder me dar a ela..."

Seria ainda mais lindo se não fosse tão doído.

Um grande abraço.