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O Léo não colecionava figurinhas


Prefácio


Atendendo ao pedido do meu amigo Mário, o Xara, segue uma crônica sobre Copa e  futebol. Esta crônica foi meu primeiro texto a ser publicado, há exatos 4 anos, na Copa passada. E foi a partir dela que me animei, com o incentivo dos amigos Jaime e André, a escrever prá valer. Foi como tudo começou.

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Desde o início do ano, nós, os meninos estávamos loucos, ansiosos. Era 1982. Era ano de Copa do Mundo, e a maioria de nós nunca havia assistido a uma. O Léo que era o mais velho, tinha treze anos. Eu, o Paulinho, o André, o Nicholas e os demais, tínhamos dez, onze no máximo. O Léo não era propriamente um curtidor de futebol. Nem sabia jogar. Tremendo perna de pau! Mas como era grandão, cabia como goleiro. Quem mais poderia tirar com uma esticada de perna aquela bola colocada lá no cantinho?
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Copa de 1982 - Em pé: Léo, André, André também, Alexandre
Agachados: Paulinho, Cesar, Rodrigo, Maurício, Vinicius, Nicholas e Kiko
(neste dia o Léo não estava no gol, aliás, acho que nunca esteve, tremendo perna de pau!)

Entre a chatice da escola pela manhã e o futebol da tarde, aquele ano teríamos a Copa pra ver! E nela nossos heróis. Como sabia aplicar bons toques de calcanhar, eu era o Sócrates. O Paulinho, o Éder, com suas bicudas incríveis. Ele fazia da bola de capotão uma arma; quando pegava de jeito na coxa ou nas costas de um coitado, deixava marcas roxas!
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A fabricante de chicletes Ping-Pong inventou um álbum de figurinhas que virou frenesi entre as crianças de São Paulo. Tinha todos os times da Copa, desde os mais desconhecidos, como República dos Camarões, até os favoritos: Brasil, Itália e Alemanha.



Era comum ver os garotos mastigando uns dez chicletes ao mesmo tempo. Inventava-se de tudo para levantar dinheiro e correr a banca do Corcunda para comprar um punhado de gomas.
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E o Brasil era uma máquina incrível de jogar bola!, atropelava os adversário com um futebol-arte de dar gosto. Meu pai dizia só ter visto algo parecido na copa de 1970. As eliminatórias para o mundial da Espanha foi um passeio. O Brasil encantava o mundo com o time regido por Telê Santana. À noite, na televisão, o Zezinho, personagem do Jô Soares no Viva o Gordo, fanático por futebol, pedia pelo orelhão da praça: "bota ponta Telê!". Telê, turrão como todo bom técnico, não ouvia a voz do povo. Jogava sem ponta. E jogava bem.
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Zézinho

Entre as jogadas de categoria do Falcão, as divididas raçudas do Serginho Chulapa, os dribles do Zico e as defesas espetaculares do Carlos, nós íamos completando nosso álbum, jogando nossas peladas e sonhando em ver o Brasil ganhar uma copa. A camisa do timinho da turma foi trocada temporariamente pela canarinho, ainda com três estrelas no peito.
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Independentemente daquela ânsia por ver a história acontecer, a vida era tranqüila naquela época para nós garotos. Tínhamos quem cuidasse de nós, todos os nossos pais eram vivos, e política e economia não nos impactavam nem um pouco. Nem sabíamos que existia isso. Só pensávamos em brincar de esconde-esconde, pega-pega, cuspe à distância, jogar nosso futebol e colecionar figurinhas!
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A do Sócrates e do Dasayev, goleiraço da União Soviética, abundavam no mercado. A do Tardelli, armador da Itália, a do Naranjito, mascote oficial da Copa e a do Valdir Perez, goleiro reserva do Brasil, ninguém tirava. Mas a coleção continuava. E a seleção também.

Brasil x Argentina 1982 - Maradona x Zico

Além do Zico, estávamos na era de Maradona e Paolo Rossi. Não era só o Brasil que tinha bons jogadores, não! Certo que o nosso futebol era de longe o mais lindo, mas corríamos perigo, apesar de ninguém se dar conta disso; talvez por estarmos todos amortecidos e embriagados com a beleza de futebol que depois de anos certamente nos daria o quarto título. Nos acreditávamos imbatíveis!
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Mas... - sempre existe um mas - o nome dele era Paolo Rossi. Em um vacilo da defesa brasileira, no jogo que garantiria a vaga para as quartas-de-final: estávamos no segundo tempo, 2 a 2, e o Toninho Cerezo, num passe de bola arriscado na nossa intermediária, foi interceptado por um ágil e atrevido Rossi, que só teve o trabalho de avançar e chutar na saída do Valdir. Aquele 3 a 2 silenciou o país, todos os milhões de brasileiros esperando pela gol de empate. Que não veio. Como o sonho do tetra, que foi por terra. E o de nós meninos também.

.Brasil x Itália 1982 - Cereza x Rossi

Da turma só eu consegui completar o álbum. Com a ajuda do seu Aloísio, que escreveu uma carta à Ping-pong relatando a tristeza do seu filho com a derrota do Brasil. Recebeu pelo correio as figurinhas que faltavam, inclusive a do Tardelli! Tenho o meu álbum até hoje. Abri-lo me remete àqueles dias, mais de duas décadas atrás. Tempo em que a criminalidade se resumia a trombadinhas que batiam carteiras e roubavam relógios e tênis dos meninos. Nada de PCC, seqüestro relâmpago...
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O Léo, que nunca gostou de jogar bola, também não ligava pra ver a copa nem preenchia álbuns. E foi na casa dele que, em junho de 2006, todos os garotos, 24 anos menos garotos, se reuniram diante da TV para assistir à estréia do Brasil na copa da Alemanha.
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2005 - Paulinho, André, Léo, Cesar e Nicholas
(pouco antes de eu desistir de usar cabelo - ou vice-versa)


Já somos jovens de 33, 34, 37 anos, a maioria acompanhada de namoradas e mulheres. E o Léo? Ah, o Léo continua o mesmo: aos vinte minutos do primeiro tempo já havia ido pro quintal adiantar o churrasco. Nós ficamos lá, roendo as unhas em frente ao monitor. Vendo aqueles onze milionários jogar bola. Mal, diga-se de passagem. Jogadores cibernéticos, geneticamente predispostos, frios.


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O doutor Sócrates

Saudades do Sócrates, que era doutor, fumava dois maços de cigarros por dia e ainda assim fazia gols de chaleira. E do goleiro Valdir Perez? Baixinho voador! Nada de genética nem laboratório. Só amor e disposição.

Feliz é o Léo, que nunca teve álbum, nem tem saudades daquela seleção. .


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Cesar Cruz
Maio/ 06
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Crônica publicada no livro: "Conte sua história de São Paulo" - Editora Globo/ 2006. E também no programa homônimo da rádio CBN, na segunda-feira após a derrota do Brasil na copa do mundo de 2006. Narrada da voz de Mílton Jung e com produção especial.
(Quem quiser ouvir, me peça que envio o áudio por email).






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Fragmentos de vida


Crônica publicada no Jornal do Cambuci e Aclimação*

Junho de 2010.
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Eu vivo atrás de lembranças para compor minhas histórias, e, nessas buscas, às vezes me deparo com interessantes fragmentos da minha vida. Alguns são faíscas que já se incendiaram, produzindo boas crônicas ou inspirando histórias ficcionais. A maioria não vingou, talvez por não ter substância suficiente para isso. São essas efemeridades cotidianas, essas pequenas coisas, estilhaços da minha existência, que compartilho aqui, agora, como uma forma de registrá-las para o futuro.

A minha lembrança mais remota é a noite do meu aniversário de quatro anos. Precisamente 9 de setembro de 1974. Já apaguei as velinhas do bolo e meus tios já foram embora. Está ficando tarde e é dia de semana. Me encaminho para o quarto, mas me deparo com a porta do corredor fechada. Olho para o alto, estico o braço e dobro a maçaneta da porta.

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Minha avó, Mi, bate uma gemada para mim. Assisto de perto, em pé ao lado da pia. A xícara está inclinada na mão dela, no ar, a quase noventa graus em relação ao chão. Os movimentos centrífugos da colher são ligeiros e incríveis. Vejo a gema amarela ser agitada em um louco turbilhão. Como não cai?, penso.
Devo ter uns cinco anos.

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Tenho sete anos agora. Olho nuvens de cima para baixo através da janelinha. Estamos indo, eu e minha mãe, para Minas Gerais passar férias na casa de uma amiga dela que mora na cidade de Sete Lagoas. Nunca viajei de avião e estou extasiado. Então mamãe me chama: “Cesar, olha o que a moça trouxe para você”. Eu me viro e vejo a aeromoça sorridente com uma taça de manjar branco, minha sobremesa predileta.

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1979. Parado, de frente para a janela aberta do apartamento, olho o mar. Estou na praia de Peruíbe, no apartamento da tia Eva, num prédio enorme, redondo, que fica de frente para o mar. É o maior prédio da cidade, quem já foi a Peruíbe o conhece. O mar se estende até onde a vista alcança. Meu primo, Milton, que está ao meu lado olhando também, aponta uma mancha esverdeada, bem nítida, que corta o mar azul horizontalmente a cerca de uns cem metros depois da rebentação, e me diz: - Cê tá vendo ali, é uma corrente gelada que arrasta as pessoas, já levou um monte de surfistas!


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Meu pai chegando em casa, tirando o aparelho auditivo e os óculos, e os colocando sobre o móvel. Olha pra mim e sorri, docemente.


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Olho para meu joelho e me desespero. Minha mãe vai me matar. Não dói, mas escorre sangue canela abaixo, encharcando meia e tênis. Caí. Caí correndo atrás do André no pega-pega e dei com o joelho numa quina de pastilhas afiadas. O André percebe e volta, caminhando devagar, assustado. Pára e arregala os olhos pro meu joelho. Uma tampa de carne espessa e sanguinolenta está levantada, exibindo uma carne interna branca, assustadora.

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Agora tenho 12 anos. O André, o mesmo André, me diz: Vai logo! Entra e fecha a porta! Entro e fecho a porta do quarto dele. O Paulinho já está lá. Paulinho é mais novo do que a gente, tem 9 anos. Todos estamos eufóricos. O André puxa a revista Playboy da Maria Zilda debaixo da cama. Abre a página central e mostra uma foto pra gente. Maria Zilda aparece nua, debruçada sobre um tronco de árvore.

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Estou com a Flávia, minha primeira namorada, dentro do carro, na frente do Hospital Panamericano. Hoje é dia 23 de outubro de 1990, oito da noite. A fisioterapeuta acabou de subir para fazer a fisioterapia em meu pai, que está há 60 dias em coma naquela UTI. Levará quarenta minutos, como de costume, mas ela volta em cinco. Bate na janela do meu lado. Me assusto. Desço a janela e ouço: - Cesar, o médico pediu para você subir, quer falar com você. Não digo nada. Meu pai morreu, eu já sei. Abro a porta, passo por ela e entro no hospital. Cruzo os corredores frios e vazios com o corpo regelado, pensando em como vou fazer para contar para a minha mãe.

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Tenho 22 anos e uma bela Honda CB 400 dourada, de 10 anos de uso, mas que adoro. Estou trafegando pela Ponte da Casa Verde, são umas quatro da tarde. O Santana azul me fecha e quase me derruba da moto. Estremecido pelo susto e furioso, me acalmo quando vejo o homem estender a mão para fora da janela, para o alto, em pedido de desculpas.

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Voltando a infância. Estou deitado no banco de trás do fusquinha, meio dormindo meio acordado. Meu corpo esticado não ocupa o banco inteiro. Estamos voltando de algum evento noturno na casa de alguém. Papai dirige e mamãe está ao seu lado. Vejo as luzes da cidade, invertidas, se alternarem pela janela. Ouço o motor roncar. Volto a dormir.
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Cesar Cruz
Junho 2010
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* crédito dos parceiros neste blogue

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O Meu Natal de 1975



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Crônica publicada em 6 veículos:

Jornal do Cambuci & Aclimação
Jornal Gazeta do Ipiranga
Revista Vidaqui
Programa "Conte sua História de São Paulo" da rádio CBN
Portal Mundo Mundano
Revista Atitude - SP

. (Imagens: Blog do Milton Jung - clique para conferir em aúdio, na voz de Milton Jung. Eu na escola, 1975 - clique para ampliar a foto)
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Era o Natal de 1975, e eu tinha recém-completado 5 anos. Como acontecia todo o ano, o Papai Noel apareceu lá na minha escola naquela semana. Só que neste ano eu estava me sentindo passado para trás... Pensava assim: como Papai Noel pôde ter ido justamente à minha escola, se tem tanta escola no mundo? Devem ser mais de mil! Por que escolheu justo a minha?

Outra coisa me intrigava: O Papai Noel do Shopping Iguatemi era muito diferente do da Sears, do da Mesbla e do que foi à escola? Diferiam no comprimento da barba, no tamanho da barriga, na altura, na cor dos olhos, na voz... Não podia ser o mesmo. Mais um mistério: por que o Bom Velhinho estava sempre no mesmo lugar em que eu estava? Será que eu era o menino mais sortudo do mundo? Havia alguma coisa de muito errada naquela história toda...

Ninguém melhor do que meu pai para me dar uma boa explicação!

Após o jantar, num daqueles dias, sentei ao seu lado na sala e enumerei todas as minhas inquietações natalinas.

Seu Aloísio parou o que estava fazendo e ouviu, sem interromper, concentrado, toda minha explanação. Então fez um longo e grave silêncio, olhando longamente para o final do corredor escuro. Parecia preparar-se para uma revelação complicada. Limpou os óculos, respirou longamente e, muito sério, falou:

— Cesar, você já está grande para saber de toda a verdade. Mas você terá que me prometer que não vai contar o que vou te dizer para nenhuma outra criança. Se fizer isso, vai estragar a fantasia da criança para sempre. Posso confiar em você?

É claro que podia! Jurei que guardaria segredo. Afinal, eu estava sendo inserido numa nova categoria do saber, a categoria dos adultos!

Então, papai me contou tudo...

Contou que nem o Papai Noel dos shoppings, nem o da escola, nem os que aparecem nos programas de TV, nas revistas ou em qualquer parte do mundo, nenhum deles é o verdadeiro. O legítimo nunca apareceu, nunca ninguém o viu e nem nunca verá, apesar de todos saberem que ele existe.

Para as crianças não ficarem tristes, ele envia todo o ano, mundo afora, milhões de ajudantes. São meros representantes fantasiados de Papai Noel, que são encarregados de anotar os pedidos de presentes, posar para fotos, propagandas, ir às escolas e animar o comércio, fingindo ser o verdadeiro Papai Noel.

É só quando a noite do Natal chega, enquanto todos dormem, que o verdadeiro Velhinho sobrevoa a cidade como um raio em seu trenó puxado por renas voadoras, indo de casa em casa, escondendo os presentes das crianças sob as árvores de Natal, atrás das cortinas, sofás... Ele é tão rápido que, numa única noite, percorre todas as casas do mundo sem que ninguém o veja.

E foi assim que, graças à presença de espírito do seu Aloísio, a minha crença no Papai Noel, que estava por um fio, ganhou vitalidade para sobreviver, inocente, por mais uns dois Natais... Feliz Natal!
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Cesar Cruz
Dez. 2008
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O Solapador




Poema publicado no Jornal do Cambuci e no portal Mundo Mundano.
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O Solapador é um destruidor impiedoso, especialista em cavar. Cava e é assim que destrói, silenciosa e diligentemente. É um maligno, ardiloso e embusteiro que se locupleta da derrocada alheia.


O Solapador é um trabalhador paciente. Trabalha sem pressa, mas com afinco e assiduidade; não perde chances para fincar sua pá, que ao invés de terra, remove a honra do desavisado.

O Solapador trabalha na escuridão, sob teus pés, sem que tu, pobre de ti, ao menos imagines. Age na tua distração, enquanto tu dormes, distrai, sai...

O Solapador não se identifica facilmente, pois atua nas tuas brechas, nas ranhuras da tua ingenuidade, da tua inocência e credulidade.

O Solapador não tem sexo nem idade, pode ser homem, mulher, jovem ou velho. Pode ser parente, amigo, colega de trabalho, da igreja, do grupo, vizinho... Pode ser quem tu menos esperas. Há uma certeza inabalável: é sempre um velhaco, ordinário e matreiro.

O Solapador é ganancioso e invejoso. Deseja tua posição, tua mulher, teu carro, tua casa, tua inteligência, tua vida, teu emprego...

O Solapador não ataca o fraco, cuja fraqueza o derruba por si. Busca o forte, gosta do desafio de minar grandes alicerces e ver desabar grandes construções.

O Solapador planta a semente da desconfiança, encomprida conversa ruim sobre ti; às vezes, até o edifica publicamente, para assim fazer que não é solapador.

O Solapador levanta contra ti um falso, alardeia um deslize teu aqui, incrementa, com maldade, uma falha tua acolá; e assim remove mais uma pazada de teu solo já instável. Covarde e dissimulado, finge ser teu amigo para, oculto pela ilusão que produz, derrubar-te sem que tu possas te defender.

O Solapador estará lá, saibas, no dia em que o terreno sacudir sob teus pés repentinamente. Quando tudo estiver ruindo em tua vida, tu, em tua queda, ainda terás tempo de arregalar os olhos, olhá-lo ali ao lado e, inconformado, gritar: Você?!

Oh, pobre crédulo, agora é tarde! Sim, creia. Era ele o carregador da pá silenciosa.

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Cesar Cruz
outubro 2009
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O maior amor do mundo



Crônica publicada no Jornal do Cambuci e no livro A Idade do Vexame & Outras Histórias.

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Dia desses, a amiga Tais Luso, escritora também, dirigiu-me um email que dizia: “Cesar, escreva mais coisas bonitas como essas"

As coisas bonitas a que a Tais se referia são os textos que escrevi sobre a minha filha Michele. Lendo o email da Tais, fiquei pensando que bonitas mesmo são as coisas que ocorrem dentro de mim quando olho pra carinha da minha filha, quando penso nela durante o dia, quando a observo dormindo, naquela paz que para mim caracteriza toda a plenitude da inocência dos ingênuos.

Perto disso, as coisas que escrevo não significam nada. São insípidas e inodoras, tamanha a distância que têm do real sentimento que as produz. É então que compreendo quão incapaz sou para materializar essas inexplicáveis emoções, inapto para transformar em letras e frases esse meu imenso amor. E isso é duro para um escritor.

Nos dias em que escrevia este texto, por uma incrível coincidência, dei com um poema que me consolou. Descobri que não estou sozinho na dificuldade de expressar certos sentimentos. Há companhia ilustre! Veja o que escreveu Fernando Pessoa:



O que sinto, na verdadeira substância com que sinto

É absolutamente incomunicável

E quanto mais profundamente o sinto

Tanto mais incomunicável é.


“Absolutamente incomunicável", seja para os mestres, seja para os pobres mortais.

Mesmo consciente desta incapacidade, me sinto compelido a falar, escrever, bradar! Quero poder dizer a você que me lê, que aquele pequeno pedaço de chocolate que dorme ali naquele berço (enquanto escrevo este texto aqui no sofá da sala), naquele quarto, cobertinha com sua mantinha, sob os cuidados da gente, como eu poderia imaginar, ou ao menos supor, que pudesse impactar tanto a minha vida?

Só sabe quem vive... Alguém já disse isso, e é um fato. Só compreende verdadeiramente as coisas quem passa ou passou por elas, seja o que for.

O louco amor que um homem tem pelo seu filho, quem não tiver um filho jamais compreenderá.  Estou convicto disso, pois até pouco tempo eu mesmo achava que sabia como era.

Não sabia.
 
A Michele me comove de forma especial. Emociono-me ao olhar para aquele seu pequeno rosto, liso, redondo, sorridente. Sentir aquele seu cheiro de criança, de inocência, aquele cheiro tão bom. Parar para apreciar aquelas suas mãozinhas gordinhas, curiosas, que em tudo mexem; aquela sua expressão doce, aquele seu dedo que vive na boca... Não chupe o dedo, filha! Puxo seu dedo repentinamente e ela ri pra mim. Ri um riso que eu sou incapaz de descrever a você como é... O riso do filho da gente.

Quem é pai me entende, acho. Às vezes acho que não. Nesses momentos que acho que não, acho que não, pois julgo que meu amor pela Michele é o maior amor do mundo, e que ninguém tem um igual ao meu. Isso deve ser injusto da minha parte. Não tenho de fato como medir o amor dos outros pelos seus filhos.

O que sei é que ergo a minha menina no colo e algo se enche dentro de mim! Surge uma bolha de inexplicável contentamento e plenitude, enorme e morna. Acho que é isso o amor. Essa sensação física de preenchimento, de quase não caber dentro de si próprio.

Então quero beijar e apertar a Michele, mantê-la nos meus braços, espremida num abraço sufocante para senti-la colada a mim. Não quero mais soltar. Dá um nó na garganta e um amor tão grande no peito, que chego a chorar um chorinho disfarçado, sem ninguém ver.

Nessas horas, quem acaba chorando é ela, coitadinha, porque o papai apertou demais.



Cesar Cruz
Outubro 2009
 
 
 
N/A - O poema do Pessoa é do "Livro do Desassossego", assinado pelo seu heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.


As histórias dos velhinhos

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Crônica publicada no programa "Conte sua História de São Paulo" da rádio CBN, sábado dia 13 de junho de 2009.
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Narrada da voz de Mílton Jung e com produção especial! (Escute o áudio sem sair do blogue! Acesse-o na coluna à direita, junto ao logotipo do blogue do Mílton Jung)
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Como são gostosas as histórias que os velhinhos contam! Quando eu era menino lembro de ouvir meu pai dizer a cada vez que perdíamos um ancião da família: “Que pena, mais um velhinho que parte levando suas histórias!”. Hoje eu sei... uma grande pena mesmo!
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Meu tio Milton, irmão mais velho do meu pai, contava causos sensacionais passados na meninice deles. Tais histórias envolviam tios e parentes que eu e meus primos nem havíamos conhecido.
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Era sempre uma delícia ouvir relatos de uma época tão diferente da nossa, e de imaginar nossos pais ainda crianças, aprontando as mais diversas safadezas em uma cidade tão diferente da que conhecemos hoje, com poucos carros, outros hábitos de vida... Tão ingênua!
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Minha mãe também era dona de histórias espetaculares. Eu gostava de uma em especial. Nela, papai e mamãe ainda namorados, no final dos anos 50, foram numa certa tarde ao cinema e depois a uma lanchonete no centro da cidade comer um hot dog, programa típico de casaizinhos jovens da época. Pouco antes de irem embora, já à noitinha, minha mãe (que era linda e as fotos não desmentem) levantou-se e desfilou em direção ao banheiro.
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Na outra extremidade do estabelecimento havia um grupo de 4 sujeitos mal-encarados rindo e bebendo. Quando ela passou toda graciosa em sua saia e blusa, um deles curvou-se para trás na banqueta e segurou-a pela cintura: “oi chuchuzinho, vem comigo, vem...”. Minha mãe, temperamento forte que sempre teve, não titubeou, tascou-lhe um sonoro tapa na cara. Meu pai que terminava seu hot dog na outra ponta da lanchonete ouviu o bafafá e, quando se virou, viu parte da cena. Tomado por uma ira explosiva, característica de sua personalidade, não contornou o balcão em formato de “U” duplo, preferiu ir saltando-o olimpicamente, pisando alternadamente nas banquetas fixas e nos balcões, para desespero dos casais de namorados que, assustados, recolhiam apressadamente suas garrafas de Grapete e seus pratos com misto-quente!
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Em segundos seu Aloisio estava cara a cara com os sujeitos. Deste momento em diante, minha mãe dizia que sua vista escureceu e ela não conseguiu ver mais nada. Apenas alguns flashes ficaram tatuados em sua lembrança para sempre. Neles, dona Diva via homens sendo arremessados pelo ar e se estatelando sob pilhas de copos e pratos, como nos filmes de saloon.
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Em certa parte do relato, ela passava a falar baixinho e a espiar por cima do ombro, como se houvesse o perigo de alguém, 50 anos depois, ouvi-la. Confidenciava que, na escuridão do seu pânico, pôde escutar os sons dos murros, os gritos abafados de dor na voz dos homens e os ruídos secos de maxilares e ossos sendo quebrados. Terminava dizendo que não esqueceria aqueles sons ainda que vivesse 100 anos, e que desde aquele dia, passou a morrer de medo a cada vez que meu pai ficava nervoso: “ninguém segura ele, Cesar... ninguém segura!”.
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No final da história, o jovem Aloisio, atleta praticante de judô e boxe, deixara os 4 maus-elementos moídos no chão em meio aos escombros.
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Partiram correndo a tempo de pegar o bonde andando.
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Minha mãe, assim como o meu tio Milton, já se foram. Partiram levando com eles todas aquelas apaixonantes histórias. Irrecuperáveis, por mais que nós, os filhos, tentemos reproduzi-las.
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Eu, infelizmente, não tenho mais avós nem pais vivos. Transformei-me precocemente num órfão de causos sensacionais como estes. Arrependo-me tanto por não ter gravado os meus velhos contando-os!
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Mas ontem à noite... Ah, ontem à noite tive uma oportunidade única! Pude ouvir, assim de surpresa, uma legítima história de velhinho!
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Aconteceu assim: Eu e a Vanessa fomos buscar a avó dela, Dona Olinda, para jantar. No caminho, enquanto eu dirigia o carro, elas iam conversando. Dona Olinda passou a falar do amor que tinha pela neta, que sempre foi sua companheira desde a mais tenra idade etc e tal. Então, para minha grata surpresa, Dona Olinda, de repente, começou a relatar uma história maravilhosa, que juro, farei-a repetir de frente para uma filmadora em breve, antes que eu me arrependa de novo!
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A história rememora uma época há 21 anos atrás, em que a Vanessa, com apenas 3 anos e meio de idade ia todo o domingo ao culto evangélico com a avó.
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As duas caminhavam a pé por 3 quarteirões até chegar à pequena igrejinha. A avó geralmente vestia a menina com vestidinho florido e prendia parte do seu cabelinho em cima da cabeça com um elástico colorido. O restante deixava solto, lisinho, caído na altura do ombro. Tapando a testa, sempre a obrigatória e geométrica franja da Xuxa.
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A liturgia do culto era a mesma todo o domingo. Em determinado momento o pastor anunciava: “agora a irmãzinha Vanessa vai cantar um hino para os irmãos”. Ela olhava para a avó ao seu lado, aguardando aprovação; então escorregava com certa dificuldade de cima do longo banco de madeira e caminhava confiante por entre as fileiras em direção ao púlpito. Subia, recebia o enorme microfone das mãos do pastor e após saudar todos os presentes com: “a paz do Senhor, irmãos”, se punha a cantar uma das inúmeras canções cristãs que conhecia de cor:
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Vamos marchando para a linda terra, vamos marchando para a terra prometida!
Vamos marchando para a linda terra, vamos marchando para a terra prometida!
Eu avistei a linda terra, e esta terra é Canaã!
Eu avistei a linda terra, e esta terra é Canaã!
Se você não vai, não impeça a mim!
Se você não vai, não impeça a mim!
Glória a Deus aleluia, pois eu vou para Canaã!
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Quando terminava, devolvia o microfone ao pastor e voltava para o lado da avó, sob os aplausos e os sorrisos de toda a igreja. Dona Olinda não cabia dentro de si de tanto orgulho!
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Certo dia o pastor surpreendeu Vanessa pedindo-lhe que cantasse uma música que ela não se lembrava muito bem. Encabulada, arriscou mesmo assim, mas errou a letra em diversos momentos. Sentadas na primeiro fileira, 3 garotinhas de uns 10 ou 12 anos tentaram ajudá-la, mas sem querer, constrangeram-na ainda mais.
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De acordo com a Dona Olinda, a pequena Vanessa, envergonhada, devolveu o microfone ao pastor, voltou para o lado da avó segurando o choro e daquele dia em diante nunca mais quis cantar na igreja.
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Cesar Cruz
Set/ 2007
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* créditos dos parceiros no rodapé do blogue.
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Por onde andará?

Crônica publicada na Gazeta do Ipiranga*
Edição 2598 - julho de 2009.
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Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição 1137 - julho de 2009.
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Andei pensando a respeito das pessoas que passam pela vida da gente e somem. Entre elas há as que permanecem anos em nossa companhia, e as que ficam apenas poucos minutos. Há também as que convivemos superficialmente, ainda que tal convívio perdure por décadas.
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Morei num prédio desde muito novo até os 16 anos de idade. Ali fiz amigos que mantenho até hoje. Garanto que nenhum de nós se esquecerá do Raimundo, o porteiro do prédio. A nossa relação com ele, obviamente, era superficial, pois éramos meninos bagunceiros e ele, homem feito em horário de trabalho. Mas... Estará vivo o Raimundo? Morando onde? Envelhecido em demasia? Em minha mente mantenho a fotografia de um Raimundo de 30 anos atrás... Vai saber como estará hoje.
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Há ainda os encontros que são rápidos, mas marcantes...
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Seu nome era Alessandra. Alessandra Lessa. Na escola tem dessa coisa de a gente saber o nome inteiro dos amiguinhos. A Alessandra Lessa era sobrinha do escritor Orígenes Lessa. Uma minicelebridade daquela turminha da 2ª série primária do Colégio Dante Alighieri. Entre as leituras obrigatórias, tivemos de ler um livro infantil escrito pelo tio famoso da Alessandra. Claro que com toda a fama e beleza de que dispunha, ela nem me olhava... mas eu nunca me esqueci dos seus penetrantes olhos azuis e dos seus cabelos loiros e cacheados como os de um anjo.
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Por onde andará a Alessandra? Pelas contas soma hoje 37 primaveras. Terá se casado? Teve filhos? Engordou e enfeou? Nunca saberei.
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Eu e o Gil ficamos amigos quando eu, aos 20 anos, fui trabalhar de garçom no Restaurante Alcaparra, na Avenida Pompéia, aqui em São Paulo. Isso foi em 1990, após a morte do meu pai. Ele já era garçom lá havia uns 2 anos. Experiente. Alguns anos mais velho do que eu. Foi o Gil quem me ensinou o ofício de carregar bandejas e servir pessoas. Se hoje sou capaz de subir escadas e desviar de verdadeiros tumultos equilibrando duas bandejas cheias de pratos, copos e talheres, sem deixar nada ir ao chão, devo ao Gil, o bom e erudito baiano de Vitória da Conquista que, além de me ensinar a arte de servir mesas, me ensinou a ler Jung. Tenho até hoje o livro “Introdução à Psicologia Jungiana”, presente que ele meu deu, 18 anos atrás.
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E onde, diabos, estará o Gil Baiano?! Um amigo em comum ouviu dizer que ele teria se casado com uma coroa ricaça, italiana, e se mandado pra Nápoles. Só Deus sabe...
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E o Silvio César Cavalcante Mirandez? Passamos anos da adolescência juntos, prá lá e prá cá. Éramos parte de uma turma grande. A maior parte daquela galera está por aí, se achando vez por outra, mas o Silvinho, simplesmente sumiu. De 1990 a 1993, namoramos meninas que coincidentemente tinham o mesmo nome: Flávia. Dizíamos coisas assim: “Vamos pegar as Flávias e sair hoje?”, ou “Silvinho, pega a sua Flávia que eu pego a minha, e vamos rodar de moto!”.
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Anos de amizade e, de repente, por contingências da vida, as pessoas se afastam, se perdem.
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E o seu Monteiro? E a doutora Geni, advogada amiga da minha mãe? E o Fernando, que estudou comigo na 8ª série? E o Júlio e a Sônia? E o Dentinho, amigo de infância? E a Carla e a Karina? E o Arquimedes dono daquela adega, lá em Taboão da Serra? E o Roque, lá do prédio, e o Sergião, dono da academia de musculação? Onde se meteram todos eles?
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Peraí!, alguém não disse que o mundo era pequeno? Sempre dizemos isso, não é verdade? Pois bem, por que então não topamos com os nossos sumidos por aí? Não tenho a resposta...
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Cadê o Chico? Cadê o Índio? Cadê a Claudinha, que namorava o Dirceu? Onde estarão todos os meus alunos de karatê? Lembrei-me do Marquinhos, que aos 5 anos era doido pelo sensei Cesar. A mãe dizia: "Professor, ele só fala de você! Até a tia da escolinha perguntou quem é o tal Cesar!".
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Hoje, aquelas crianças todas são adultos. Estarão casados? Com filhos? Se lembrarão daquele tempo? Terão uma foto com este professor no fundo duma gaveta?
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Sempre trocávamos um dedo de prosa enquanto ele abastecia o meu Chevette verde. O Lima era mesmo um boa-praça. Trabalhava das 22h às 6h naquele posto. O posto ainda existe, fica numa esquina da Avenida Alvarenga, quase no início da Raposo Tavares. Três vezes por semana, por volta das 23h, eu parava lá para abastecer meu carro, vindo das minhas aulas noturnas.
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Num dia de frio, daqueles em que as mãos da gente vão sozinhas para o bolso da jaqueta e os cotovelos se esticam, lá estávamos nós, soltando fumaça pela boca e papeando, em pé ao lado do carro, enquanto aguardávamos a bomba travar avisando o final do abastecimento. De repente o Lima sacou da carteira uma foto, esticou em minha direção e disse: "Minha filhinha". Era uma garotinha de uns três anos, linda e usando cabelo maria-chiquinha. Lembro de ter dito: "Xi, Lima, tá danado, meu amigo! Vai ter trabalho com essa coisa linda aí!". Ele riu. Hoje a coisa linda pode estar casada e até já ter dado netos para o Lima.
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Onde estarão eles todos?! Será que acontece de passarmos perto de uma dessas pessoas sem nos apercebermos? Será que já parei num semáforo e, dois carros atrás do meu, havia um amigo que eu adoraria reencontrar sentado ao volante, mas eu não tive como adivinhar? Então, no instante seguinte, cada um de nós foi para o seu lado da vida, desperdiçando, assim, talvez definitivamente, a possibilidade de um reencontro. Quem poderá saber?
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Posso ter pulado para dentro da composição, no tumulto diurno do Metrô, sem ver que, pela porta imediatamente ao lado da minha, saía o meu velho e sumido amigo de tantas histórias juntos. Nunca saberei se isso, ou algo do tipo, ocorreu um dia.
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Tomara que haja alguém por aí com saudades de mim! Afinal, quanta gente não conheci nesta vida! E este mundão é tão grande e povoado que, neste exato instante, alguém pode muito bem estar pensando: “por onde andará o Cesar, aquele baixinho cabeludo gente-fina?”
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Cesar Cruz
Abril 2009
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foto da esquerda - Silvinho e Cesar - 1994.
foto da direita - Marquinhos, 5 anos. Cesar, 23 anos - 1993.
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* créditos dos parceiros no rodapé do blogue.
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A paisagem

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Crônica publicada na Rádio CBN no programa: "Conte sua história de São Paulo", em jan de 2007.
(Ouça o áudio na voz de Mílton Jung, e com produção especial! Junto ao logo do blogue do Mílton Jung, na barra à direita)
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Vista à distância a cena era bucólica, enternecedora. Pescadores à beira mar, o Sol nascendo por entre nuvens; um dia que prometia ser parcialmente nublado. Homens em grupos silenciosos, unidos pela concentração e determinação em busca das últimas pescas antes do pleno alvorecer.
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A paisagem: uma divinal praia selvagem onde as embarcações modestas completavam a sensação de simplicidade; algumas ao mar, outras espalhadas pela areia.
Já se podia ouvir o som distante e altivo do gralhar eventual das aves de rapina, atraídas, decerto, pelo odor dos peixes ainda vivos nas cestas de vime. Quantas manhãs aquela cena se repetiu bem ali sem que eu soubesse? Só de imaginar que eu poderia tê-la saboreado antes...
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Fui me aproximando inebriado pela beleza da cena. Pretendia me achegar a eles, me apresentar, agradecer por alguma coisa que eu não sabia dizer o quê. Dizer-lhes que, apesar de eu ser da cidade, estava disposto a largar tudo e viver por ali, naquele lugar, pescando a cada manhã com eles, talvez para sempre.
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De repente uma mão no meu ombro! Possivelmente um pescador! A mão apertou e sacudiu de leve, como para me acordar. Virei ainda em transe. Era a Vanessa, minha mulher. Com a outra mão estendia-me, em silêncio, a chave do carro para me lembrar que a sua mãe já nos aguardava para o almoço. Fomos, deixando para trás a feirinha de artes da Igreja Betesda de Interlagos, mas levei comigo aquele momento naquela praia!
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Hoje, ele está lá em casa, eternizado na parede do nosso quarto, ao lado da cama. Trata-se de um enorme quadro a óleo, aparentemente pintado há muito tempo, não se sabe quando, por quem, onde, nem por quê. Mas agora posso olhá-lo antes de dormir e voltar àquele indescritível lugar, onde, na verdade, nunca estive, não sei onde fica, nem quando foi tão hábil e magistralmente registrado.
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Cesar Cruz
Jan/ 07
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* créditos dos parceiros no rodapé do blogue.
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Eles

Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição nº 1096 - sexta, 12 de setembro de 2008.
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Crônica publica na Gazeta do Ipiranga*
Edição 2580 - sexta, 27 de fevereiro de 2009.
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Manhã. Dirijo meu carro em direção ao escritório. O rádio sintonizado na emissora de notícias, ouço a informação: "Eles esperam que a taxa Selic encerre o ano em 14,75%".
Não demora muito, já na firma, converso pelo telefone com um cliente que me surpreende com o seguinte alerta:
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- Cesar, fique atento, eles não admitirão atrasos nessa entrega!
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Saio para o almoço e aproveito para abastecer o carro. No posto o frentista comenta:
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- Eles aumentaram o preço do gás por causa dos rolos com a Bolívia.
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Espanto-me. Eles, de novo! E envolvidos nas questões do Mercosul? Não podia suspeitar!
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Procuro esquecer o assunto. Está me fazendo mal. Após o almoço vou ao banco. Na fila, um velhinho atrás de mim mostra-me seu extrato e indaga:
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– O senhor já percebeu que eles subiram de novo as tarifas?
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Quase devolvo a refeição! Deixo o velhinho falando sozinho e saio assustado do banco, sem pagar as contas. Olho para os lados; sinto-me perseguido.
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Volto ao escritório. Enquanto espero o elevador, o zelador conta-me que “na assembléia de ontem eles decidiram que irão ampliar o estacionamento". Meu Deus! Já estão operando no prédio!
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A noite cai. Busco minha mulher no trabalho. Fico sabendo que "Eles estão pensando em suspender as aulas na outra unidade". Oh, não! Agora atingirão a minha renda doméstica!
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Chego em casa. Na garagem há um aviso no quadro: "Amanhã ficaremos sem água, pois eles farão limpeza na caixa". Estão por toda parte! Fazendo de tudo e chegando cada vez mais perto!
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Encomendamos uma pizza. Passados 20 minutos, o interfone toca. Atendo. O porteiro informa:
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– Seu Cesar, eles já entregaram a pizza do senhor. “Deve estar envenenada!” – penso.
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Como apenas um pedaço. Perdi o apetite. O medo agora toma conta de mim.
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Após o jantar, ligo a TV e descubro no noticiário que "eles estimam que a Olimpíada de Pequim tenha tido a maior repercussão de todas as edições". Jesus Santíssimo! Até na China!
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Na cama, o perturbador silêncio da madrugada me aflige. Rolo de um lado pro outro. Só consigo dormir por curtos intervalos de tempo. Tenho pesadelos com personalidades etéreas, intangíveis. Num deles, estou num beco estreito, enevoado, é noite. Um grupo de seres metidos em sobretudos negros e chapéus sombrios, avança determinado em minha direção; todos de cabeças baixas. Quando se aproximam o suficiente, erguem suas faces e... pânico! Nenhum deles tem rosto!
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Acordo gritando, num sobressalto de suor e exaustão. Vou ao banheiro, lavo o rosto e me demoro no espelho, ofegante.
Uma inquietante interrogação martela em minha mente: QUEM SÃO ELES?!
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Acordo no dia seguinte no horário de sempre. Minha mulher me lembra:
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- Amor, não se esqueça que hoje, eles virão te buscar.
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Cesar Cruz
Agosto 2008

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* créditos dos parceiros no rodapé deste blog.
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Chambinho

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Estacionei no posto para abastecer o carro. Entreguei a chave ao frentista e desci do veículo. Na bomba ao lado, havia um outro carro sendo abastecido. Aguardando também do lado de fora, um jovem de mais ou menos 20 anos acompanhava atento à rolagem de litros e valores avançar no marcador da bomba.Meus olhos passaram por ele e por uma fração de instante, achei que o conhecia. Era alto e magro, cabelos ruivos cacheados e sardas no rosto. Com uma calculadora sobre a palma da mão, realizava cálculos observando os valores; os olhos iam da maquininha pro visor e do visor pra maquininha. De repente desviou o olhar e o dirigiu a mim. Sua testa que vinha franzida pelo esforço do raciocínio foi se desanuviando gradualmente enquanto ele me fitava. Os olhos pregados em mim se arregalaram como se ele estivesse tendo uma visão; em seguida foram se espremendo gradualmente, assumindo aquela expressão típica de alguém que tenta se recordar de algo. Então abriu um sorriso e veio na minha direção, agora convicto:
- Sensei Cesar! – falou se aproximando, todo sorridente.
Sensei significa professor em japonês. É a forma como os alunos de karate se dirigem ao professor. E eu, que já fui sensei de karate, fui levado a rememorar rapidamente uma época situada entre 1989 e 1998, período no qual ganhei a vida dando aulas desta e de outras modalidades; em escolas, condomínios e academias.
Aquele jovem com aparência nórdica possivelmente teria sido um dos 800 alunos que tive ao longo daqueles 9 anos. O problema, é que somados os mais de 15 locais nos quais dei aulas, o giro enorme de alunos que iniciam e desistem, e considerando que há 10 ou 15 anos atrás ele era uma criança, ficaria difícil lembrar.
- Sou eu sensei, o Vitor! – falou entusiasmado já parado na minha frente com a mão estendida.
Apertei sua mão e sorri amarelo. Eu não estava conseguindo me lembrar quem era ele, mas estava certo de que conhecia aquele olhar. Comecei a ficar aflito e sem graça. Foi então que, percebendo minha cara de interrogação, ele falou uma palavra que fez com que a busca frenética que meu HD mental estava realizando por imagens, sons e memórias, fosse instantaneamente interrompida:
- Sou eu, o Chambinho.
Lá dentro do meu cérebro, um arquivo foi pinçado daquele carrossel enlouquecido que girava furiosamente buscando ligar o rosto sardento à minha frente, a bilhões de outras situações, cenas, diálogos, vozes e feições. Uma luz verde passou a piscar ao lado do arquivo selecionado: encontrado!
- Chambinho! – falei aliviado sacudindo sua mão. – Rapaz, que surpresa! Nem te reconheci, já está um homem, cara!
Percebi que ele ficou meio acabrunhado por eu ter gritado aquele prosaico apelido ali, bem no meio do posto de gasolina.
- Pois é sensei, quanto tempo! Como o senhor está?
- Pelo amor de Deus, não me chame de senhor e nem de sensei aqui. Vamos fazer um acordo: eu te chamo de Vitor e você me chama de Cesar, combinado?
Rimos e trocamos um abraço caloroso. Ficamos ali conversando até que o frentista nos pediu para tirarmos os carros já abastecidos de frente das bombas. Obedecemos e num canto do posto, engatamos um papo de quase 30 minutos antes de nos despedirmos. Quando parti, fui dirigindo e lembrando como conheci o Chambinho e tudo o que havia ocorrido...
Numa ensolarada manhã de sábado, no verão de 1993, fui procurado na academia por um homem que vinha trazendo pela mão um garotinho incrivelmente ruivo e obeso, de uns 7 anos.
O pai me explicou que o menino estava muito acima do peso, e que vinha sendo alvo de gozações por parte dos amiguinhos na escola. A situação havia piorado bastante, pois estava no ar um comercial do iogurte Chambinho, da antiga Chambourcy, onde o protagonista da propaganda era um garoto absolutamente igual ao pequeno Vitor: bem gordinho, ruivo e com sardas em abundância. Se fossem irmãos gêmeos não seriam tão parecidos. Expliquei ao pai, que também se chamava Vitor, que poderíamos sem dúvida ajudar bastante, mas dependeríamos da ajuda dele e de sua mulher, restringindo excessos de doces e de gordura na alimentação do menino e mantendo-o incentivado a não faltar às aulas na academia. Acordo firmado e menino matriculado. Já no dia seguinte, o exótico Vitor, vulgo Chambinho, se tornou meu aluno nas aulas de karate. Logo começou a freqüentar a academia também pela manhã, espontaneamente. Vinha para andar na esteira e na bicicleta ergométrica, como forma de auxiliar no trabalho de queima de gordura.
Eu que o acompanhava de perto em todas as modalidades, passei a me surpreender com a força de vontade do pequeno ruivinho, coisa incomum em garotos pequenos, especialmente nos obesos.
Numa daquelas manhãs Chambinho me inquiriu:
- Sensei, o senhor pode trocar a bicicleta e a esteira por outra coisa? Não gosto de nenhuma das duas.
Pedido complicado, pois estes eram os 2 únicos exercícios 100% aeróbios e bons de fato para a queima rápida de toda aquela gordura.
- Chambinho, não tem jeito cara. Se você quiser emagrecer rápido, tem que fazer esteira e bicicleta, não há outra opção e...
- É que eu queria aprender a pular corda como o senhor!
Eu era mesmo um bom pulador de corda. Quando pulava, juntava gente para ver. Mas corda é uma atividade muito intensa e de difícil aprendizado, especialmente por crianças. Nunca imaginei aplicá-la no condicionamento de um garotinho obeso. Além do mais, como ensinar uma bolinha daquelas a pular corda, se ele mal conseguia coordenar os passos na esteira?
Então falei:
- Chambinho, pular corda não é fácil como parece, sabia?
Ele fez que sim com a cabeça olhando para o chão. Era um menino tímido e de poucas palavras.
- Mas se você quiser mesmo eu te ensino. Mas você tem que assumir um compromisso comigo de não desistir, combinado?
Os olhos dele se iluminaram.
- Vou pular que nem o senhor pula?
- Vai, mas vai levar tempo, eu já pulo há 10 anos, demorei pra ficar bom. Você vai ter persistência?
- Vou sim!
- É difícil, não vai desistir que nem fazem esses frouxos por aí?
- Juro que não!
E foi assim que eu passei a ensinar aquele gordinho ruivo bochechudo e repleto de sardas a pular corda. Na academia nenhum dos colegas acreditava que eu conseguiria.
Treinávamos todo o dia pela manhã. Só após 1 semana inteira é que ele passou a conseguir dar 3 saltos consecutivos sem enroscar os pés.
A tarefa parecia impossível. Mas na semana seguinte ele já estava pulando seguidamente por quase 20 segundos, mas ainda dando aqueles saltos muito altos e desgastantes, usando os 2 pés e fazendo um barulhão danado no chão. Mas mesmo com todas as dificuldades, todas as manhãs estávamos lá, eu e ele, impávidos.
- Chambinho, você precisa sair menos do chão...
- Chambinho, eleve os pés apenas o suficiente para a corda passar...
- Chambinho, não dobre os joelhos...
- Chambinho, só os punhos giram...
- Chambinho, descontraia os ombros...
E assim foi. Dia após dia, mês após mês. Surpreendentemente, ele começou de fato a aprender. Em determinado momento não parecia mais um garotinho pulando corda, parecia um adulto, um atleta. Eu já não precisava ficar tão grudado no pé dele, passei a deixá-lo desenvolver sozinho. Ele já sabia onde teria que corrigir e estava começando a pegar gosto pela coisa. O resto era treino. Discutíamos detalhes técnicos e ajustes finos dia sim dia não, mas ele estava lá, diligente, todo o dia. O tempo foi passando. Alunos começavam e paravam constantemente, uma rotina normal no mundo das academias. Adultos, jovens e crianças, todos desistem; em geral muito facilmente. Como é rara a virtude da perseverança! A academia nos ensina isso, em especial nas modalidades individuais e mais solitárias. Mas para surpresa de todos, Chambinho continuava firme e forte.
Um ano havia se passado. Ele havia espichado e emagrecido significativamente. Praticava o karate as terças e quintas de noite e pela manhã fazia corda por cerca de 1 hora.
Era engraçado ver a cara das pessoas vendo o Chambinho pular velozmente com sua corda de couro que havia ganhado de aniversário. Parecia um pugilista profissional. Era de fato estranho um gorducho ruivinho de 8 anos pulando a ponto de não se conseguir ver a corda girar ao seu redor, os pés se alternando rapidamente e saindo do chão apenas os centímetros necessários para a corda passar, e aquele barulho seco marcando o ritmo no chão: tchec, tchec, tchec, tchec, tchec, tchec, tchec. Era tão esquisito como ver um cachorro falando! Simplesmente surreal.
Com o tempo ensinei-lhe o pulo cruzado, os punhos unidos alternando os lados, o pulo duplo com duas passadas no ar e outras técnicas de exibição. Chambinho se tornou uma máquina de pular corda, passou a pular por prazer e em 2 anos já pulava melhor que eu, sem sombra de dúvida!
O Vitor pai vinha buscá-lo e ficávamos proseando, estava orgulhoso do filho! Na escola as brincadeiras haviam parado. Contou-me que um dia Chambinho levou sua corda pra escola e na hora do recreio, sem dizer uma palavra, tirou-a da mochila e fez uma exibição silenciosa no meio do pátio. Foi tão bonito que abriram uma roda pra ver. Nem os bedéis tiveram coragem de interrompê-lo. Por fim ele parou, dobrou a corda, guardou-a na mochila e saiu caminhando com sua expressão séria, seguido dos olhares de admiração e espanto de todos. Era a sua forra pelas humilhações que havia sofrido. Bem ao seu estilo: sem palavras.
O pai me relatou que em casa, era Deus no céu e o professor Cesar na terra. O garoto só falava em mim, eu havia me tornado seu herói.
No dia dos professores e no meu aniversário me trazia presentes. Numa certa manhã, ele veio a mim e esticou a mão em silêncio. Eram 2 ingressos para uma peça de teatro que a rede de lanchonetes Arby’s, em que o pai trabalhava, estava apoiando. Fui assistir com minha namorada da época. Foi no teatro de um shopping e após o espetáculo, fomos convidados a saborear lanches de rosbife, refrigerantes e batatas na loja do Arby’s na praça de alimentação ao lado!
No dia seguinte contei a ele como a minha namorada havia ficado feliz e como os lanches eram gostosos. Ele pulava silenciosa e ritmadamente sua corda de frente pro espelho enquanto eu falava. Parecia concentrado. Por fim agradeci o presente, ele não disse nada. Era mesmo um menino quieto... De alguma forma havíamos nos tornado amigos, amigos que juntos, desfrutavam em silêncio, o esforço e a dedicação em prol de um objetivo. Apesar da diferença de idade, havia uma cumplicidade entre nós. Uma cumplicidade que nunca precisou ser combinada em palavras. Ela simplesmente havia surgido, como um cogumelo surge num tronco de árvore.
. Uma noite, após a aula de karate da turma de adultos, o Vitor pai apareceu na academia. Não era o dia da turma infantil, Chambinho não estava com ele. Estranhei. Fechei a academia e saímos juntos ganhando a rua. Ele me convidou para uma cerveja na padaria, queria conversar comigo. Fui receoso. Será que havia acontecido algo? Será que ele e a mulher estavam chateados com algo que fiz?
Sentamos no balcão e dividimos uma latinha. Vitor me contou que a rede Arby’s estava pensando em sair do Brasil e já começara a demitir pessoal e a fechar lojas. Ele havia sido cortado. Dentro de poucos meses teria que partir de São Paulo com a família. Iriam morar no sul, na casa de parentes. Queria me avisar que o menino não viria mais à academia a partir daquele momento, pois a contenção de despesas domésticas era uma necessidade imediata.
Protestei dizendo que eu fazia questão que o menino prosseguisse treinando mesmo sem pagar. Ele não aceitou de forma alguma. Usei todos os meus argumentos, falei que não era por ele, mas sim pelo menino, por mim etc... Não houve jeito de convencê-lo. Vitor era um tipo sério e de poucos sorrisos, descendente de escandinavos, era duro como um viking, irredutível. O menino tinha bem a quem puxar. Chambinho não veio mais à academia desde então. Fiquei mal com aquilo. Na semana seguinte fui na casa deles numa noite. Fui convidado para entrar e jantar. Enquanto jantávamos na cozinha, ele me olhava de soslaio, tímido e quieto do outro lado da mesa. Havíamos desenvolvido um entendimento no olhar. Ele sabia por que eu estava lá.
Após o jantar a mãe passou um café e toquei no assunto com os pais. Chambinho via TV na sala, possivelmente ouvindo tudo. Sai daquela casa minutos depois, vencido. Não houve jeito.
. Ainda vi o Chambinho mais uma vez. Era um domingo à tarde e ele ia no carro com a mãe. Eu estava a pé na rua, ele me viu e acenou. Não sorriu, parecia triste. Ficou me olhando até o carro desaparecer. Foi a última vez que o vi. Tempos depois soube que ele e a família estavam bem, morando em Santa Catarina. Um homem se aproximou de nós e disse que teríamos que tirar os carros dali. Pedimos mais um minuto. Foi o tempo dele me contar que o pai havia tido um derrame e estava parcialmente paralisado desde então. Pai e mãe estavam vivendo de uma pequena aposentadoria por invalidez que recebiam da empresa que o Vitor pai trabalhara nos últimos anos; mas apesar de tudo, estavam bem. Contou-me que estava de passagem pela cidade a trabalho, havia casado e vindo morar no interior de São Paulo, onde a sede da empresa fabricante de bombas para lavoura, na qual ele trabalhava como estagiário, estava estabelecida. No final deste ano se formará em engenharia agrônoma. Disse-me ainda que já tem um filhinho de 1 ano e que assim que o garoto ficar maiorzinho, vai ensiná-lo duas coisas: a pular corda, e a não desistir fácil das coisas, assim como eu o ensinei. Partimos cada um no seu carro. Ainda deu tempo dele acenar e gritar:
- Sensei! Continuo pulando corda todo o dia!
Cesar Cruz
Set/ 2007
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