Os paralelepípedos da rua da Mi

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Crônica publicada na Rádio CBN no programa: "Conte sua história de São Paulo" em maio/ 2007.*
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(Narrada da voz de Mílton Jung e com produção especial! Ouça-a sem sair do blogue! Acesse-a pela coluna da direita, junto ao logo do blogue do Mílton Jung)
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Por mais que os anos passem, há lugares que nunca vamos nos esquecer. A Rua Gonzaga Duque, no bairro da Pompéia, onde morava minha avó Emília, a Mi, pra mim é um deles.
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Gosto de lembrar de como ela era quando eu tinha 6 anos...
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Naquela época, a Gonzaga Duque era a típica rua de bairro de Sp dos anos 70. Era inteira de paralelepípedos e as casinhas todas tinham portão de ferro ou de madeira baixos, pois a violência ainda não era um problema tão grave como hoje. Os poucos carros estacionados em frente às casas eram Fusquinhas, Variantes e Kombis.
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Na frente de uma das casas da rua ficava parado um caminhão de caçamba de madeira que a molecada adorava. Era de uma família de japoneses que trabalhavam na feira; gostávamos de brincar embaixo dele, fazíamos ali a cadeia para as brincadeiras de polícia e ladrão. Às vezes subíamos na caçamba em grupo, e capetas, ficávamos lá em cima pulando forte pra ver o caminhão balançar. Isso até o japonês pai gritar bravo da janela, aí pulávamos lá de cima e corríamos antes que ele saísse!
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A casa da minha avó ficava na parte central da rua, bem ao lado da casa da Mafalda, sua companheira inseparável. Bem em frente, do outro lado da rua morava o Pituca, meu melhor amigo. Logo ao lado da casa dele, a casa da Cíntia, menina linda dos cabelos lisos e olhos negros, por quem eu era apaixonado.
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Todos os dias minha mãe me pegava ao meio dia no final da aula na “Escola Maternal o Peixinho” que ficava na avenida Pompéia e me deixava na Mi na hora do almoço para só me buscar à noite. Eu chegava na minha avó louco pra engolir a comida e ir brincar, mas ela não me deixava sair da mesa antes de limpar o prato. Saco vazio não para em pé, dizia.A criançada toda se reunia na rua à tarde depois do almoço, era um tempo em que as crianças de 6, 7 anos podiam se dar a este luxo. Os pais fiscalizavam vez ou outra pela janela das casas ou indo ao portão dar alguma bronca mais apurada.
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Nossas brincadeiras eram as triviais: futebol, pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, bolinha de gude... Havia também as brincadeiras sazonais: balões e bombinhas em junho, pipa em julho, peão em outubro e carrinho de rolimã em algum mês que não me lembro qual. Mas o futebol era a grande paixão, jogávamos bola o ano todo, quase todos os dias. Só entrávamos pra casa quando a noite começava a cair e as mães saiam pra buscar a meninada pelas orelhas pra tomar banho e jantar. O nosso campinho era feito no meio da rua mesmo, e o gol era demarcado com 2 tijolos separados por 6 dos nossos passinhos.
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Lembro-me de um dia em especial. Fazia um calor daqueles, já eram umas 18hs e aqueles mosquitos de noites de verão já tomavam conta da rua. Acima das nossas cabeças, ao redor das luzes dos postes, voavam milhares deles, muitos desciam disputando espaço com agente, colando em nossos corpos melados de suor e entrando nas nossas bocas ofegantes.Mas neste dia, já havia passado da hora de menino entrar pra casa, e várias mães, solidárias entre si, já se aglomeravam bravas, exigindo o fim da partida. Imploramos para aguardarem só um pouquinho, pois o jogo estava no fim.
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O sistema dos nossos jogos era sempre o 5 vira, 10 acaba e estava 9 a 6 pro meu time, faltava um último gol pra ganharmos!
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Foi então que, com todas as mães de braços cruzados nos olhando enfezadas na beira da calçada, eu peguei a bola num passe redondinho e corri acelerado pela lateral, rente ao meio fio! Como sempre, vestia só o short e nada mais.Disparei o mais rápido que podia, animado com a platéia de adultos, a bola ia colada nos meus pés. Planejava chegar lá na frente e mandar uma bicuda cruzada pra fechar o placar e ir pro banho em glória!
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Driblei o primeiro, escapei do segundo e me livrei do carrinho de um outro, acelerei então ao máximo que pude, ninguém mais na minha frente além do goleiro, minhas pernas se alternando velozmente, os pés descalços tracionando confiantes o solo! Quando estava pronto pro chute certeiro, minhas pernas perderam a sincronia e se enroscaram. Voei. Lembro que numa fração de instante, literalmente no ar, me dei conta de que me machucaria, pois vi num flash o chão se aproximar velozmente... Vozes maternas gritaram: “minha nossa senhora!” e “aí Jesus!”.
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Aterrizei de peito sobre os paralelepípedos com os braços abertos para frente. Enquanto meu corpo era lixado eu via o chão passar por sob o meu queixo como nessas filmagens de dentro de carro de corrida. Nem sei como consegui livrar o rosto. Esfreguei de ventre por uns 5 metros antes de parar quase dentro do bueiro.Ralei mãos, braços, peito, barriga, e coxas. Fiquei em carne viva, completamente esfolado, sangrando... saiu até pedaço.
Minha mãe e minha avó correram desesperadas comigo pro pronto socorro do Hospital São Camilo, ali pertinho, também na Avenida Pompéia.
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Uma médica bonita me pôs deitado numa maca e com uma bacia de água morna e tufos de algodão, limpou meus ferimentos até tirar toda a sujeira entranhada dentro deles. Fui vendo a água ficar rosa, depois escarlate... Por fim ela desinfetou-os com mercurocromo. O suplício pareceu levar horas.Quando achei que tinha acabado, fui levado para outra ala da enfermaria e me deram 3 injeções na bunda: antitetânica, antiinflamatória e uma de penicilina contra leptospirose. Chorei muito.No final ganhei um carrinho, um chocolate, um beijo da doutora e fui pra casa.
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Tive febre por 2 dias e fiquei a base de pomadas, com minha mãe trocando curativos úmidos por quase uma semana. Acho que só me salvei de apanhar porque todo mundo ficou com dó de mim... “Onde já se viu correr daquele jeito?”, minha avó repetia a toda hora nos dias que se seguiram.
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Dia desses me bateu um saudosismo. Peguei o carro num domingo de manhã e fui até lá. Estacionei e andei a rua a pé de ponta a ponta. Mudou tudo. As casas hoje são outras, mais modernas. Imaginei quantas reformas sofreram ao cabo de 3 décadas, quantas famílias se alternaram em muitas delas neste período. São muros altos, portões automáticos, cores fortes nas fachadas, mudanças que produziram um contraste abismal com as casinhas das minhas lembranças.
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A casa da Mi, como eu a conhecia, também não existe mais, foi totalmente descaracterizada, engolida pelas modificações. Agora exibe um muro frio e texturado. Certamente o poço do quintal que minha avó mantinha misteriosamente tapado com chapas de madeira e dizia que morava um monstro dentro, foi há tempos soterrado pelos novos donos.
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Pensei em tocar a campainha da casa do Pituca, ou da Cíntia, mas não tive coragem. Possivelmente ninguém saberia de quem estou falando. Ou pior, atenderia a porta um Pituca gorducho, sem camisa, grisalho, barba por fazer, de óculos, talvez um menino pequeno espiaria por entre suas pernas. Então ele me olharia com cara de interrogação e perguntaria: “quer falar com quem amigo?” E eu diria o quê? Melhor deixar pra lá... Existem coisas que, após serem dissolvidas pelo passar dos anos, devem mesmo continuar a pertencer só ao passado.
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A casa dos japoneses e a da Mafalda sumiu. Desapareceu atrás de um muro enorme, altíssimo; no centro da muralha há um portão basculante para entrada de caminhões, uma firma na certa adquiriu ambos os imóveis. Até a pracinha que fica no final da rua, no centro da rotatória de carros, já não é mais a mesma. Era de terra batida, boa pra empinar pipas, correr... Hoje mantém ruínas do que um dia foram canteiros de flores, áreas gramadas, passeios centrais e bancos de cimento; coisas que incrivelmente nasceram e morreram entre o dia em que um menino de estatelou no chão e o momento em que um homem curioso desceu de um carro para bisbilhotar a quantas anda o seu passado.
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A única coisa que se mantém original na rua Gonzaga Duque são os paralelepípedos, meus algozes. Foram os únicos que surpreendentemente restaram como eu os conhecia. Descobri que os amo apesar da mágoa.
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Imagino que algum dia, o poder público derramará asfalto sobre eles, mas não adiantará tentarem apagar, pois sempre haverá algo de mim ali por debaixo.
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Cesar Cruz
Março/ 2007
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* créditos dos parceiros no rodapé do blogue.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Bom, ouvi este trecho da sua infância no áudio da CBN que vc me mandou. Que delícia imaginar a cena... Minha infância foi bem divertida, mas não teve rua, não teve futebol na rua, não teve mães com cara enfezada... Foi bem mais caseiro, com muitos amigos, isso sim, muitas pessoas, muitos brinquedos, muita dedicação e amor dos meus pais. Isso sim.
Gostei muito da sua história, do jeito que vc descreve... ótimo.

bjão
Mara Ruzza