O sequestro do seu Ricardo

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Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição nº 1104 - sexta, 07 de novembro de 2008.
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Na ocasião deste causo, o saudoso seu Ricardo, que já era sexagenário, chegou em casa altas horas, quase madrugada.
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Homem de ilibada reputação e acima de qualquer suspeita, trabalhador dedicado e pai de família exemplar, ele nunca havia chegado tão tarde ao seio do lar. A família já estava em desespero. Mais alguns minutos e sairiam para dar parte à polícia. Entretanto, nada disso foi necessário. Antes da eclosão do pânico e para alívio geral, seu Ricardo abriu a porta e adentrou a sala cambaleante. Coxeou até o sofá e ali se atirou.
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Estava em situação deplorável: mole, amassado e cheirando a bebida. Antes que os olhares mudos da família se transformassem em complicadas indagações, ele anunciou com voz pastosa: “Fui sequestrado”. Indignação geral: “O quê?!”; “Mas como, pai?!”; “Ai, meu Deus!”.
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O cheiro de álcool gerou certa desconfiança, mas seu Ricardo, com o rosto contraído pela tristeza e quase chorando, esclareceu: “Me obrigaram a beber! Me tiraram todo o dinheiro!”. Novas reações de horror: “Monstros!”; “Com um senhor de idade! Que covardia!”; “Onde estamos?!”.
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Os dois filhos homens se entreolharam em silêncio. Havia sangue naqueles olhares. Pegariam paus, facas, correntes e sairiam à caça dos animais! Queriam retalhar, esfolar, escarrar e virar as tripas dos desgraçados!
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A única que permanecia alheia àquela movimentação bélica, de braços cruzados, quieta, era Dona Terezinha. Em pé ao lado do sofá, ela espiava de olhinhos espremidos e ressabiados o marido esparramado, com cara de vítima.
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Eis que, de repente, a campainha soou: “Triiiiimmmmmm!!”. A rapaziada estancou silenciosa. Facas nos dentes e porretes em punho. Quem seria àquela hora?
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Vagner, o filho mais velho (que foi quem me relatou esta história e me autorizou a publicá-la), foi atender. Abriu a porta e deu com quatro rapazes de vinte e poucos anos.
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- Oi, boa noite! Desculpe-nos, é que o seu Ricardo esqueceu isso com a gente.
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Era um molho de chaves.
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- São as chaves do carro do papai! – estranhou meu amigo.
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- Pois é. É que ele estava muito mal e eu vim dirigindo, mas... Peraí! Seu Ricardo é seu pai?
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- Sim, é...
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- Pô, cara! Meus parabéns! Seu velho é a maior figura! Gente finíssima! A galera lá do pagode nunca viu um tiozão agitar todas que nem ele! Que gás, hein? Show de bola! Ahahaha!
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Partiram ruidosos, risonhos. Fechou-se a porta. Olhares fulminantes sobre o velho Ricardo. Silêncio sepulcral. Mas ele não se deu por derrotado. Passou a esmurrar o sofá e a gritar, desesperado:
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- São eles, os ladrões! Não deixa escapar! Pega, pega!
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Cesar Cruz
Outubro 2008
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* créditos dos parceiros no rodapé deste blog.
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20 comentários:

Anônimo disse...

divertidíssima essa história!
valeu!
Nilo - Cambuci

Anônimo disse...

César, há tempos que estou para lhe parabenizar pelas suas crônicas no jornal do Cambuci. Seus texto tem iluminado e dado cores de criatividade, humor e crítica social àquele jornal tão monótono. Parabéns!
Maria Aparecida
(sou da Vila Monumento e recebo o jornal aqui em casa)

Anônimo disse...

Cesar,

Mais uma vez, sua crônica, ou o ‘causo’, trouxe o bom humor característico dessas histórias que povoam nossa cidade. São histórias comuns a todos nós, mas, o sabor de cada uma delas está no modo como são contadas. Nesta, “O seqüestro do seu Ricardo”, desde as primeiras linhas já prenunciamos uma reversão no final, com boas doses de humor. A competência está em segurar o leitor até este final.

Mas, agora, falar sobre este ‘causo’ é apenas um pretexto para dar parabéns a vocês por causa da chegada da Michele. Que ela seja muito feliz, traga muitas alegrias e, também, que inspire muitos e muitos ‘causos’.

Abraços,

Carlos

Anônimo disse...

Caro Luis Frenando Veríssimo do Cambuci,

Muito bôa essa crônica! Admiro os cronistas por serem pessoas capazes de transformar acontecimentos corriqueiros em histórias brilhantes, como esta! Concordo com a colega vizinha: vc está dando seu show particular neste jornal tão apagado. Juro que só o abro para ler suas histórias.
Luiz Fernado (mas não sou o Veríssimo, sou o "Lima Stocolli"!).
Parque da Independência - Ipiranga

Anônimo disse...

Malandro o seu Ricardo! Tava bebum, isso sim!
Abs, Fábio

Anônimo disse...

Parabéns pela sua filha, eu a vi no seu blog, ela é muito linda, fiquei sabendo de sua viagem e realmente vocês são diferenciados merecem tudo de bom.

A propósito a causo de Sr Ricardo é muito bom.

Abraços!
Waldemar (da Artesana)

Anônimo disse...

Foi pra gafieira esse velhinho! Rerere! Sei como é isso... meu velho também dava umas assim.
abraços e parabéns pela história muito maneira!
Antunes
Vassouras - RJ

Anônimo disse...

Sempre q posso passo aqui para ler suas famosas crônicas...
Morro de rir! hauhauhauahua!

Viviane Borchardt

Anônimo disse...

Que sem-vergonha esse seu Ricardo!
Muito divertida sua crônica César.

Carla

Anônimo disse...

Seus textos são entretenimento puro! mutcho divertido esse!
abs do Pepino da Vila Monumento

Manuela Malachias disse...

cara de pau... eu não estava o levando a sério desde o inicio...
Parabéns pela filhota... Ela não vai ter problema se quiser uma historinha para dormir, não é mesmo?
kkkk
abraço

Anônimo disse...

Engraçado que as pessoas vão ficando mais velhas e começam a agir como crianças/ adolescentes. Há uns 5 anos atrás, minha mãe que já estava na época com 62 anos, resolveu beber! Passou a esconder a bebida em lugares na cozinha bem escondidinhos. Meu irmão que era solteiro na época e que morava com ela, foi quem descobriu. Aí fomos conversar e ela baixava a cabeça e dava uma desculpa furadíssima igual adolescente pego no flagra! Ela e meu pai são separados há muitos anos. Mas a minha mãe nunca pôs álcool na boca antes disso! Quem explica uma coisa assim! Eu acho que a vida deles começa a ficar monótona, os filhos casam, as tarefas e a correria diminuem, e aí eles acham estas válvulas de escape, né? Quer dizer: me parece que pode ser isso, senão como explicar esses comportamentos.
No caso da minha mãe, agora ela assumiu que passou a gostar de um goro. Vê se pode? Achamos que ela ia descambar e virar uma alcolatra! Nos preocupamos muito na época, mas para a nossa surpresa, ela virou uma bebedora social. Gosta de conhaque. Todos os dias enquanto faz almoço, jantar toma uns golinhos do seu conhaque. Tivemos muita sorte, pois nunca mamãe passou do limite, apareceu bêbada nem nada parecido. Não é engraçado? Acho que assim ela se sente mais livre, autônoma e independente. Como uma adolescente que começa a fumar pra ser mais mulher e se sentir dona de seu nariz!
Meu amor, nem te conheço, mas adoro seus causos! Os causos do Cruz! Que ótimos eles são! Sempre leio quando sai no jornalzinho. Já percebi que nem toda a semana sai. Você deveria publicá-los toda a semana! Pense nisso! Aqui em casa leio eu e lê meu marido. Adoramos! Apesar que agora que descobri a mina de ouro (seu blog), poderemos vir direto a fonte!
Um grande beijo!
Ana Rita
Liberdade

Anônimo disse...

Parabens meu velho! Os causinhos tão causando! OLha aí hem? O velho ricardo podia até ser um bom bebum, safado, sem vergonha, gandaiero ou o que for mas a gente tem que admitir que o véinho era bom de prosa e labia! Eu é que não conseguia me sair assim bem numa saia justa dessa! A família toda fitando! A patroa secando na cola! Inda mais briacão total das idéia! Kkkkkkkkkk!! Muito bom!!
Abracão meu velho.
Márcio
Vila Mariana
SP

Anônimo disse...

quanto mais velho mais safado. isso sempre foi assim.
Vânia

Anônimo disse...

CÉSAR, ADOREIIIIIIIIIII!!
ACHEI O MÁXIMO, DA PRÓXIMA ME INCLUI TAMBÉM HAHAHAHAHAHAHA!!

BEIJÕES

FERNANDA

Nota do autor: A Fernanda é a filha mais nova do seu Ricardo. No momento do ocorrido, dormia o sono dos ingênuos, no escurinho do seu quarto.

Anônimo disse...

Só tive tempo de ler hoje, Cruz. Ótimo causo! Ótimo também o seu Ricardo! Fala pro seu amigo que o velho era bão! hehehehe
abç Everaldo

Anônimo disse...

CÉSAR...ADOREI MESMO!!!!!
MAIS FIQUEI FELIZ MESMO FOI DE VER A MICHELE COM VCS!!!!!
FIQUEI MUITO EMOCIONADA EM VER O BRILHO NOS OLHOS DE VCS E O SORRISO ANGELICAL DELA!!!!!

FERNADA ( FILHA DO SEU RICARDO)

Anônimo disse...

véinho safado esse hem?
Abraços!
Gilson (Aclimação, SPaulo)

Tomás Barbosa disse...

Esse ai é meu avô !
Parabéns Cesar, você reproduziu muito bem a história do meu avô !
Exatamente como a minha vó ( Dona Teresinha ) me conta !!!!

Anônimo disse...

Cé,
Esse seu Ricardo é a cara do meu pai!
Beijos, Yeah