Fragilidade


Este conto integra o livro O Homem Suprimido, Scortecci 2010.
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Segurei-me na travessa metálica com as duas mãos, firmei um dos pés no piso de aço corrugado e me impulsionei para frente, para o alto, imprimindo o máximo de força muscular que tenho. Se não fosse pela ajuda dum rapaz que me empurrou, com energia, pela base das costas, quase pelas nádegas, eu não teria conseguido. Tive a sorte de ter alguém solícito e desinibido atrás de mim. As pessoas têm vergonha das demais. Importam-se até mesmo com o que desconhecidos possam achar disso ou daquilo. O ser humano, aprendi na Academia, não é nada mais nada menos do que a soma das máscaras que o compõe. Isto é Jung. Você deveria ler as coisas que esse homem escreveu. Essas várias máscaras que usamos, as personas, colocamos para enfrentar o mundo, para ocultar o nosso verdadeiro Eu, a nossa real e sombria face. Estudei psicologia na Academia, minha querida, tudo para poder lidar com a pior espécie de gente que há. Me passa o adoçante, por favor, meu bem. Obrigada. Ninguém é verdadeiramente transparente e autêntico. Vá aprendendo. Isso é uma utopia. O ser humano é imundo e dissimulado. Assim como a Lua, tem uma face oculta que não revela a ninguém. Alguém já disse isso; apesar de ser um clichê, é a mais pura verdade. Eu mesma já vi filho matar mãe com tiro na cabeça, já vi terrorista explodir escola cheia de crianças, presenciei bestialidades que poriam gente menos preparada no hospício. A vantagem que levo hoje é que quem me vê não imagina. Mesmo depois de tantos anos, tantos quilos a mais, a bacia trincada e esse diabetes que é o meu suplício, percebi hoje cedo que ainda dou uma boa meia-sola, rarará. Humm, adorei esses biscoitinhos! São amanteigados? Olha, estou vendo que você está se saindo uma caprichosa dona de casa, hein? Ah, sim, sim. Já prossigo. Só me deixe ir urinar. Ajude-me a me erguer desta cadeira, por favor, querida.


Pode deixar, para sentar é mais fácil. Ai, que dor! Obrigada. Isso, bota um pouco mais desse chá maravilhoso para sua avó. Ah, envelhecer é tão ruim! Você vai passar por isso mais dia menos dia. E chega rápido, viu? A pior parte é que sua mente não envelhece, e você vai achar os rapazes bonitos, atraentes, vai ter desejos por eles, mesmo tendo cinquenta anos a mais do que a maioria; mesmo sabendo que um garotinho daqueles olha para você e vê a vovozinha dele materializada ali. Uma coisa ridícula, certamente, esses pensamentos, mas que você não precisa contar a ninguém. Aliás, não conte mesmo. Vá por mim. Ah, a certeza de que o tempo da gente já se passou, dói. Mas é assim a vida. O pior é que os jovens nem se atêm à existência dos velhos. Nem te olham. Isso é o mais comum, e talvez o mais doloroso; mas lá dentro, dentro de você, sem que ninguém saiba, você continua a ser a mesma que sempre foi, ainda que para os jovens você seja um saco de merda. Não, não exagero, não, minha querida! Digo isso para você sem a menor autocomiseração. Estou bem resolvida com isso tudo. É apenas um fato da vida. Você vai sentir na pele um dia, o tempo é democrático, passa para todo mundo igualmente, aí você vai se lembrar desta velha aqui, que já terá morrido há tempos.

Oh, sim, sim! Voltemos a hoje cedo. O ônibus não estava muito cheio, mas também não estava lá muito vazio, não havia lugar para se sentar. Havia umas dez pessoas em pé entre mim e o cobrador. Assim que entrei, o jovem que me impulsionou no degrau passou avoado ao meu lado, todo encolhido, nem percebeu o meu agradecimento. Seu olhar fugidio evitou-me, assim como evitou a todos no coletivo. Cruzou o corredor apertado driblando as pessoas com os ombros, de cabeça baixa, as mãos metidas nos bolsos de uma jaqueta de nylon, já bastante russa. Então, se atirou num dos assentos que tinha acabado de vagar. Nem se importou com uma senhora mais velha do que eu que estava em pé logo ao lado, já se movendo para se sentar ali. Coitada. E ele parecia suar, sabe? Vi de longe que tinha gotas na testa. Estranhei, porque fazia certo frio. A verdade é que ele não me enganou. A maneira como pôs as mãos em mim para me ajudar a subir... Entendi logo tudo: ele não quis ser gentil, queria mesmo era me desentalar da porta para poder passar, isso sim. Iria roubar o ônibus, era questão de minutos.

Pois bem, imaginei que ele tivesse um canivete ou um revólver pequeno naquele bolso, não mais que isso. A jaqueta era menor do que ele, justa. Ganhou de segunda mão, ou o defunto era menor, sei lá. Nervoso como estava, se fosse uma arma de fogo iria acabar matando alguém. Ladrãozinho novato. Jovem demais, pouco mais novo que você, talvez uns dezenove anos. O tipo mais perigoso. Agem sem ciência nenhuma. É a combinação explosiva do medo com a inexperiência. Para as pessoas comuns ele passaria por mais um mocinho apressado numa manhã no coletivo, mas não para mim, meu bem. O ser humano, conheço bem. Se sobrevivi até hoje, se enfrentei trinta anos nas Forças Especiais, numa época que não existiam mulheres lá, e encarando os piores bandidos, terroristas e as situações mais limítrofes que se possa imaginar, é porque aprendi algo, não acha? Somos amigas, hein? Não me conte isso pro seu pai nem pro seu marido, pelo amor de Deus! Sei, sei que nem preciso pedir. Confio em você.

Então me esgueirei pelo meio das pessoas e me postei em pé, junto ao assento dele. Curvei-me um pouco, pus uma das mãos no seu ombro e com a outra segurei, forçando pelo cotovelo, o seu braço direito de forma a mantê-lo quieto dentro da jaqueta. Eu sabia que era o direito. Tive que ser firme na ação, não se pode titubear nessas horas. Isso é a primeira coisa que se aprende. Ele se sobressaltou, mas quando viu que era eu pareceu se acalmar momentaneamente. O bom de ser velho é isso: ninguém desconfia. Aquela velha agora resolveu se apoiar em mim, ele deve ter pensado. Não dei tempo para mais deduções. Preste bem atenção e não faça nenhum movimento, cochichei, baixinho, no ouvido dele. Morre se cair na besteira de piscar. Solte a arma dentro do bolso que eu vou pegar e ninguém vai perceber. Ainda vou te deixar ir embora, veja que bom! Se for burro, o meu agente ali atrás estoura seus miolos sentadinho aqui mesmo e sua mãe vai enterrar um filho sem cabeça, combinados?

Senti seus músculos se afrouxarem. Sinal de concordância. A mente humana é uma só. Ele não pagaria para ver. Todos somos parecidos em situações limites. Jung explica isso. De perto, ele era um menininho. Vi pelo cheiro e pela pele do rosto, ainda pouco oxidada. Mas não se pode menosprezar. Atrás de muita carinha de anjo já encontrei verdadeiros filhos da puta sanguinários, mas a surpresa aliada à firmeza garante o sucesso. Escorreguei a mão por cima do braço dele para dentro do bolso e peguei o revólver. Eu estava certa: arma pequena. Trinta-e-dois cano curto, número de série batido, velhíssimo, mais velho do que o ladrão, me certifiquei depois, antes de jogá-lo num bueiro no centro da cidade. No coletivo ninguém percebeu nada. Nada mais natural do que uma velha gorda, usando vestido florido de vestir botijão de gás, falar ao pé do ouvido de um jovem num ônibus. Deve ser avó dele, oras. Além disso, muito barulho, buzinas, o pára-anda, as pessoas falando.

Pus a arma dentro da bolsa. Agora você se levanta e desce sem olhar para trás. Se olhar no meu rosto eu te encontro e te mato, combinados? Ele fez que sim com a cabeça. Burro não era. Motorista, aguarde, por favor! O meu netinho tem que descer neste ponto. Me passe mais algumas dessas amanteigadas, querida? Ai meu diabetes, hoje estou abusando!


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Cesar Cruz
Fevereiro 2010
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8 comentários:

Gabriel Fernandes disse...

Muito bom, mesmo! Que será que você anda lendo? Adorei.

abraço

Anônimo disse...

A imagem do vidro partido ilustra bem, perfeita. Tão fágil, mas ao mesmo tempo tão perigoso.

abraço - DANILO
CAMBUCI

Alessandro Franco disse...

Cesinha,
fui surpeendido.
Adorei esse conto da velhinha.
Muito esperta!!
Mandou ver. Muito bom mesmo.
Alessandro (Goiânia-Go)

katine walmrath disse...

uau!
que maravilha!
perfeito.
adorei.
abração.

Dalinha Catunda disse...

Olá Cesar,
Depois de um mês fora passar aqui e encontrar essa maravilha de conto, é realmente lavar a alma.
Parabéns,
Dalinha Catunda
Rio de Janeiro

Pedro Luso de Carvalho disse...

Amigo Cesar,

Li "Fragilidade" com a mesma atenção e interesse na história, como ocorre quando apanho um bom livro de contos,de escritor conhecido, na certeza de que a leitura valerá a pena. E valeu a pena ter lido esse seu conto, tão bem estruturado. Parabéns.

Forte abraço,
Pedro.

Tais Luso disse...

Oi, Cesar: Pedro já havia me falado deste teu conto. Realmente muito criativo, também gostei muito. fui do começo ao fim levada pela curiosidade...

bjs
tais luso

Crônicas do Submundo disse...

Saudações caro Pedro!

Gostei do teu conto, é bastante atual, mas de uma forma inusitada!
Fico satisfeito quando encontro o reflexo social em belas palavras como as tuas.

Hasta!