Fragmentos de vida


Crônica publicada no Jornal do Cambuci e Aclimação*

Junho de 2010.
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Eu vivo atrás de lembranças para compor minhas histórias, e, nessas buscas, às vezes me deparo com interessantes fragmentos da minha vida. Alguns são faíscas que já se incendiaram, produzindo boas crônicas ou inspirando histórias ficcionais. A maioria não vingou, talvez por não ter substância suficiente para isso. São essas efemeridades cotidianas, essas pequenas coisas, estilhaços da minha existência, que compartilho aqui, agora, como uma forma de registrá-las para o futuro.

A minha lembrança mais remota é a noite do meu aniversário de quatro anos. Precisamente 9 de setembro de 1974. Já apaguei as velinhas do bolo e meus tios já foram embora. Está ficando tarde e é dia de semana. Me encaminho para o quarto, mas me deparo com a porta do corredor fechada. Olho para o alto, estico o braço e dobro a maçaneta da porta.

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Minha avó, Mi, bate uma gemada para mim. Assisto de perto, em pé ao lado da pia. A xícara está inclinada na mão dela, no ar, a quase noventa graus em relação ao chão. Os movimentos centrífugos da colher são ligeiros e incríveis. Vejo a gema amarela ser agitada em um louco turbilhão. Como não cai?, penso.
Devo ter uns cinco anos.

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Tenho sete anos agora. Olho nuvens de cima para baixo através da janelinha. Estamos indo, eu e minha mãe, para Minas Gerais passar férias na casa de uma amiga dela que mora na cidade de Sete Lagoas. Nunca viajei de avião e estou extasiado. Então mamãe me chama: “Cesar, olha o que a moça trouxe para você”. Eu me viro e vejo a aeromoça sorridente com uma taça de manjar branco, minha sobremesa predileta.

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1979. Parado, de frente para a janela aberta do apartamento, olho o mar. Estou na praia de Peruíbe, no apartamento da tia Eva, num prédio enorme, redondo, que fica de frente para o mar. É o maior prédio da cidade, quem já foi a Peruíbe o conhece. O mar se estende até onde a vista alcança. Meu primo, Milton, que está ao meu lado olhando também, aponta uma mancha esverdeada, bem nítida, que corta o mar azul horizontalmente a cerca de uns cem metros depois da rebentação, e me diz: - Cê tá vendo ali, é uma corrente gelada que arrasta as pessoas, já levou um monte de surfistas!


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Meu pai chegando em casa, tirando o aparelho auditivo e os óculos, e os colocando sobre o móvel. Olha pra mim e sorri, docemente.


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Olho para meu joelho e me desespero. Minha mãe vai me matar. Não dói, mas escorre sangue canela abaixo, encharcando meia e tênis. Caí. Caí correndo atrás do André no pega-pega e dei com o joelho numa quina de pastilhas afiadas. O André percebe e volta, caminhando devagar, assustado. Pára e arregala os olhos pro meu joelho. Uma tampa de carne espessa e sanguinolenta está levantada, exibindo uma carne interna branca, assustadora.

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Agora tenho 12 anos. O André, o mesmo André, me diz: Vai logo! Entra e fecha a porta! Entro e fecho a porta do quarto dele. O Paulinho já está lá. Paulinho é mais novo do que a gente, tem 9 anos. Todos estamos eufóricos. O André puxa a revista Playboy da Maria Zilda debaixo da cama. Abre a página central e mostra uma foto pra gente. Maria Zilda aparece nua, debruçada sobre um tronco de árvore.

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Estou com a Flávia, minha primeira namorada, dentro do carro, na frente do Hospital Panamericano. Hoje é dia 23 de outubro de 1990, oito da noite. A fisioterapeuta acabou de subir para fazer a fisioterapia em meu pai, que está há 60 dias em coma naquela UTI. Levará quarenta minutos, como de costume, mas ela volta em cinco. Bate na janela do meu lado. Me assusto. Desço a janela e ouço: - Cesar, o médico pediu para você subir, quer falar com você. Não digo nada. Meu pai morreu, eu já sei. Abro a porta, passo por ela e entro no hospital. Cruzo os corredores frios e vazios com o corpo regelado, pensando em como vou fazer para contar para a minha mãe.

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Tenho 22 anos e uma bela Honda CB 400 dourada, de 10 anos de uso, mas que adoro. Estou trafegando pela Ponte da Casa Verde, são umas quatro da tarde. O Santana azul me fecha e quase me derruba da moto. Estremecido pelo susto e furioso, me acalmo quando vejo o homem estender a mão para fora da janela, para o alto, em pedido de desculpas.

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Voltando a infância. Estou deitado no banco de trás do fusquinha, meio dormindo meio acordado. Meu corpo esticado não ocupa o banco inteiro. Estamos voltando de algum evento noturno na casa de alguém. Papai dirige e mamãe está ao seu lado. Vejo as luzes da cidade, invertidas, se alternarem pela janela. Ouço o motor roncar. Volto a dormir.
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Cesar Cruz
Junho 2010
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* crédito dos parceiros neste blogue

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11 comentários:

Bianca Parisi disse...

Seu livro vai sair?!

Que maravilha!!!
Esta não podemos perder! Já anotei na agenda!

Será uma honra muito grande estarmos com você numa conquista tão importante.
Que este seja o primeiro de muitos livros que você ainda vai escrever.

Você é um artista nas palavras. Trabalha de maneira talentosa com elas de maneira a tocar nos sentimentos de quem lê o que você escreve. Ao ler suas crônicas somos levados a meditar, filosofar, rir, chorar... é uma delícia ler suas obras.

Parabéns, querido amigo! Estamos torcendo muito por você.
Obrigado pelo carinhoso convite.

Estaremos lá para te dar um abraço e adquirir seu livro autografado, tá?

Te amamos e te admiramos muito,

Bianca e Milton

Anônimo disse...

Minha mais remota lembrança é de ontem....xi esqueci...
Também com esse cabeção, baita HD, vai ver foram as memórias que expulsaram os cabelos.

Abraço

Baxo

Carolina Bruno disse...

César
Dia a dia, me surpreendo e cada vez mais, ao ler os seus "causos"
Hoje me enterneci com essa crônica.
Beijos para as mulheres de sua vida,
Carolie

Gabriel Fernandes disse...

Muito legal! Você tirou leite de pedras.

abço
Gabriel

Anônimo disse...

Cara, eu lembrei do talho que vc fez no joelho! Bem impressionante e tinha umas gorduras brancas saindo para fora! Bem punk! A da Maria Zilda eu não lembrava... mas do jeito que eu era, tinha um montão de revistas debaixo da cama! O FDP do meu padrasto fazia um escândalo quando achava, fazia que jogava fora mas depois elas acabavam aparecendo dentro da gaveta dele! Nossa se for fazer uma sessão nostalgia o papo vai longe com várias taças de vinho e nacos de churrasco! Parabéns pelo livro, vc sabe que eu fui um dos maiores incentivadores, especialmente do blogue!

André

Karen disse...

PRIMO...QUERIDO

VC. ME FEZ CHORAR NAS 2 CRONICAS FRAGMENTOS DA VIDA, QUANDO COMENTOU DO APTO. DA TIA EVA EM PERUIBE, DO HOSPITAL PANAMERICANO ONDE MEU TIO VEIO A FALECER....

LEMBREI DO MEU PAI, TODOS OS DIAS IA VISITA-LO, E FALAVA QUE O TIO ESTAVA CADA DIA MELHOR E LOGO SAIRIA DE LÁ......

MUITAS RISADA QUE DEI COM MINHA TIA EM PERUIBE, NAS VÁRIAS FÉRIAS QUE PASSEI POR LÁ...


UM MILHÃO DE BEIJOSSSS

PRIMA

Therezinha Eunice disse...

Oi

Que saudades de Peruibe da minha querida irmã... estes dias estou muito triste, vai fazer um ano que ela não esta mais conosco, mas é a vida, tenho outro irmão que esta muito mal, o Constante, mora no sul, talvez em Agosto vou visita-lo.

Nós estaremos lá dia 26!

Beijos na Mi, Van, e um grande abraço para você.

tia

Gabi Alkmin disse...

Olá!

Post interessante! Curioso, nunca parei para pensar qual é a minha lembrança mais remota... Acho que ela é do jardim de infância, hehe.

Passei aqui para agradecer a dica também! Adorei o blog que você me indicou, muito interessante!

E, claro, agradecer pelo comentário no meu blog. É um grande incentivo!

Ah, aproveitando para responder ao comentário, a história não é real... O narrador é realmente fictício, bem como a família descrita! Mas fico feliz que tenha ficado verossímil! =)

Beijos.

Pedro Luso disse...

Amigo Cesar,

Aí está uma cronica excelente, que dá gosto de ler. Voce conta essas suas lembranças com sensibilidade, inteligencia e técnica apurada.

Grande abraço,
Pedro.

Tais Luso disse...

Cesar, como nossos relatos de infância e de adolescentes são importantes para nosso desenvolvimento! Muitas vezes um carinho de nossa avó fica marcado para sempre. Uma visita à praia, uma casa que moramos e escutávamos o sinal do guarda noturno nas esquinas; um fusquinha; experiências com amigos, a história do aparelho auditivo e os óculos de teu pai, até engraçada... Tantas coisas normais, mas que encheram nossa vida de boas lembranças. Menos, é lógico, das coisas ruins; estas a gente não quer nem lembrar...

Ótima crônica.
Bjs
Tais Luso

Silvia Lima disse...

Legal suas memórias, fragmentos, criativo essa maneira de relatar suas lembranças. Não ficou chato , ficou dinâmico e gostoso de ler.

bj
Silvia