Pesadelos literários

Crônica publicada no Jornal do Cambuci e Aclimação*
Junho de 2010.
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Esse negócio do lançamento do meu livro está me enlouquecendo. Esta noite tive dois pesadelos. No primeiro deles, estou eu sentado atrás da mesa de autógrafos, no dia do lançamento, de caneta na mão aguardando as pessoas chegarem, mas ninguém aparece. Subitamente, o céu enegrece lá fora e o dia vira noite. Desaba uma violenta tempestade, com raios e trovoadas retumbantes.
O vento traz sacos plásticos, lixo da rua e folhas de árvores livraria adentro. As portas de vidro são fechadas pelos seguranças. Logo as pedras de granizo começam a desabar furiosamente, ricocheteiam na calçada e batem nas vidraças com violência. As portas de aço são baixadas. Vejo-as se desenrolarem até o chão, e serem travadas com aqueles tambores cilíndricos de latão. Fico ali dentro, parado, sozinho, ouvindo o barulho da tempestade. Então, sinto uma mão no meu ombro. Me viro. É o gerente da Martins Fontes (um sujeito de bigode estreito, estilo hitleriano) que me olha friamente e sentencia:

– Por falta de condições, seu lançamento está encerrado!

Antes que eu diga algo, ele se vira de costas e some na penumbra, por entre as prateleiras de livros que avançam e desaparecem no denso nevoeiro. Tudo escurece e eu acordo.

No segundo pesadelo, estou com o livro nas mãos, recém-saído da editora e, quando o abro, percebo que a impressão está completamente apagada, com muito esforço dá para se ler um trecho ou outro. De repente, um corte na cena e agora estou de frente para um gordo de cabelos grisalhos que, com um palito no canto da boca, a camisa aberta no peito, me olha desinteressadamente. Ele é o dono da editora, eu sei. Estou mostrando o problema a ele.

–  É... –  murmura o gordo, rolando o palito pro lado oposto do beiço –  Às veiz sai meio apagado, mas não tem pobrema não, dá pra lê.

Tento mover os meus braços para agarrá-lo, mas percebo que estou paralisado. Grito, mas não sai som. O gordo gargalha, com o peito de cabelos brancos à mostra, subindo e descendo. O livro cai da minha mão numa poça suja. Acordo suado, sentado na cama.



Cesar Cruz
Junho 2010










11 comentários:

murmex'leila disse...

... Fortes emoções provocam tempestades no espírito. É bom dispor o ânimo para formar um juízo sereno em torno de qualquer questão.
Sucesso Cezar Cruz.

Anônimo disse...

...Imagine só o sonho da última noite antes do lançamento...
abs.
Pj

Anônimo disse...

Hahahahaaha!
Você é ótimo!

E só uma coisinha: VAI DAR TUDO CERTO! hahaha

Beijão Mara

J.L. Rocha do Nascimento disse...

Caesar, vc tá me assustando!
Será que vou passar por isso quando, e se ocorrer,publicar o meu livrinho.

Como já tinha te falado, possivelmente vou estar em SAMPA entre 21 e 24 de junho no Congresso da LTR,por mais dois dias ficaria pro lançamento do teu livro. Mas vou ver esssa possibilidade.
De qualquer modo, para o sim ou para o não, sucesso no lançamento.

Abs,

João LUiz

Rafael Drigo disse...

Não posso perder essa! Estarei lá!

Quem aguenta esse careca agora? Entrevista no jornal com direito a foto! Noossaaa!

abço
Rafael

Anônimo disse...

na verdade já tivestes tres desgostos, os dois pesadelos e a impossibilidade de colocar este texto no livro... ehehe. A propósito, os responsáveis pelo evento são mesmo do jeito que Você descreveu aqui? Se não forem deixa só Eles ficarem sabendo... mas endoço o que a murmex'leila disse esteja preparado para tudo e não terás surpresas, confirmo minha ida e de minha esposa, a não ser que...

abraços
mario / ipiranga

Tais Luso disse...

kkkkkk... Sabe aquela gargalhada que damos com toda a espontaneidade do mundo?

Cesar, eu juro se morasse em São Paulo iria no lançamento!! Estava lendo os teus pesadelos e dei uma gargalhada que o Pedro lá do escritório perguntou o que era...

- São os pesadelos do Cesar com o lançamento do livro!! Deve estar horrorizado...
Adorei. Vou ler avidamente!

Bjs
Tais Luso

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro, Cesar Cruz, não enlouquece não. Tudo faz parte na vida da gente quando a alma é grande. Tua alma é grande, cara!
O J. L. do Nascimento vai ao teu lançamento aí e com ele vai a minha solidariedade piauiense/maranhense.

Abs

Emerson

Silva Lima disse...

HAHAHAHAHAHA!! to rindo aqui. Essa do Pesadelo foi engraçado!! Adorei o texto, divertido e bem humorado!

Agora, ser o entrevistado do Jornal foi o melhor! Gostei!! Tá ficando famoso hein??... .rsrs
Beijão
Silvia

M. Sueli Gallacci disse...

Cesar, passando para agradecer a visita, o comentário, e a "lembrança" da minha "envelhescencia"... Francamente!,,,, vc tinha mesmo que me lembrar disso??? Justo agora que eu já havia esquecido?... Sou distraída, lembra?
E agora ficou muuuuuito pior depois que vi que vc só tem 39 anos... rssss

Teu relato é hilário, digo, teus sonhos... Eu, pelo menos, não sonho... Se sonho, não lembro.
Logo, concluo: devo ser distraída até em sonho. rsssss

Um Gde Abço!

Pedro Luso disse...

Cesar,

Claro que a famosa noite ou tarde autógrafos é apenas o chute inicial para que o jogo se desenvolva.

Conheço alguns escritores que se diziam calmos nessas ocasiões, e só mais tarde descubro que também eles sofriam com essa espectativa; sempre tem alguém que entrega, em segredo, a mulher, o filho ou amigo mais íntimo.

Mas, sei que vai dar tudo certo. É o que desejo ao amigo.

Forte abraço,
Pedro.