Ah, a Bienal do Livro!


Artigo publicado no portal Mundo Mundano.

Acesse o meu menu a partir do logo ao lado,
depois clique na minha foto.
____________________________________


Lembro de, há uns 6, 8 anos, assistir a uma entrevista do Lobão no Jô Soares. Na época, o Lobão, que tinha alcançado o topo da glória nos anos 80 e de lá de cima despencado, estava vivendo uma já alongada fase de ostracismo e alijamento musical. Segundo ele, que sabe como ninguém ter irreverência suficiente para rir da própria desgraça, estava com dificuldade até mesmo de pagar a conta de luz. “Porra, Jô, me arruma um emprego aqui na Globo, cacete!”.
O papo rolou até que o Gordo perguntou como havia sido a temporada de shows que ele acabava de fazer nos Estados Unidos. De fato, ele tinha acabado de voltar de lá. Lobão deu uma baita risada e disse que, já que estava mesmo ferrado, era hora de fazer uma revelação que os artistas brasileiros não têm coragem de fazer.


“Jô, turnê de artista brasileiro nos Estates é negô tocando violão em boate cheia de putas peladas dançando naqueles postes, ou cantando em barzinho com quatro gatos pingados que nem olham pra cara dele... Já vi fazerem e já fiz isso tudo, Jô. Só não posso entregar os caras aqui, mas te digo que são os mesmos caras que sentam no seu sofá, empostam a voz, fazem cara de intelectual e mandam: ‘Sim, estive em turnê ao redor dos EUA e foi um sucesso etecetera e tal’. Jô, sinceramente? Só o Tom Jobim fez sucesso lá fora. Só o Tom. O resto da cambada arrota peru aqui pros brasuzas, mas comeu fiado lá pra não passar fome, para alguns só faltou tocar em porta de igreja”.


Na manhã deste sábado, enquanto eu mofava no estande da minha editora, na Bienal do Livro, lembrei-me dessa reveladora entrevista do Lobão.
Ali, na Bienal do Livro, desnudava-se para mim a verdade da coisa, essa grande comédia intelectual. A situação dos autores presentes, símile ao que esses pobres diabos vivem no dia-a-dia tentando vender e divulgar seus livrinhos, era digna de concorrer com o Chapolin em matéria de pastelão. Sentados em suas mesas dentro dos estandes, ficavam lá, sozinhos, ofuscados pela louca quantidade de títulos disponíveis nas três centenas de estandes de editoras presentes. Bilhões de livros, milhares de autores e pouquíssimos leitores misturados ao público de curiosos que nunca leram um livro sequer na vida e nem pretendem, mas jamais confessarão.

Fiquei pensando que aqueles autores todos sairíam de lá e diríam aos amigos, com a voz empostada: "Oh, foi um sucesso, havia muitos visitantes, muita visibilidade, o mercado editorial está crescendo e ganha com eventos como a Bienal. Isso é importante para nós autores e...". Ridículo.


Então lá estávamos nós, eu e o Gabriel, meu amigo escritor (que também tentava divulgar o seu livro), sozinhos no estande, como dois bananas-de-pijama sorridentes. De repente, não mais do que de repente, nos demos conta do quão cômico é se considerar escritor neste país. Contei ao Gabriel sobre a tal entrevista do Lobão. Rimos, mas logo silenciamos. Estávamos rindo de quem? Olhamos um para o outro, depois para nós mesmos. Bananas-de-pijama fantasiados de escritores. Nossos olhares diziam tudo. "O Lobão é que estava certo! O negócio é tocar na zona e assumir!"
Pegamos nossos panfletos e fomos para a beirada do estande abordar os passantes, como fazem aquelas meninas gostosinhas. A diferença é que a nós faltavam seios, nádegas empinadas, cabelos (principalmente cabelos),...

- Bom dia, senhor! O senhor já leu o Homem Suprimido?
- Olá, moça, experimente Crônicas Tardias!


Usando dessas frases muito criativas, dignas de escritores-Chapolin, fomos estendendo nossos folhetos às pessoas. A maioria afastava nossas mãos com cara de quem está sendo assediado por um bêbado pedindo fogo. Muitos nem nos olhavam. Com sorte, um sorriso. Me senti como um mendigo esmolando, ou como aquele velhinho, coitado, que por quinze reais fica no centro da cidade um dia inteirinho, sob o sol, oferecendo o folhetinho da Mãe Guiomar.
Súbito, no meio daquela tragédia dos tempos modernos, lembrei-me que, todos nós, os humanos (não só os escritores e os músicos), vivemos desta farsa-social-circense. Pois é... Ninguém quer parecer menor, desimportante, inculto...
- Bom dia, senhor, tenho certeza que o senhor já leu algo a respeito de Gabriel Fernandes, certo?
- Oi? Oh, sim... claro, claro que já li!
- Ah, bom. Então, como uma pessoa culta, não deixe de adquirir um exemplar do último lançamento deste nosso esplêndido escritor!
Para umas mocinhas, estudantes, perguntei, incisivo:
- Oi, sei que vocês leem Jorge Amado, Graciliano Ramos, Cesar Cruz, estou certo?
- Oh, sim, claro, lemos esses autores para a faculdade!
- Maravilha! Vocês assistiram a entrevista do Cesar Cruz no último Roda-Viva da Cultura, suponho?
- Ahn? Ah... Ah, bem, eu não estava em casa, mas fiquei sabendo e...
- Ótimo, pois fiquem sabendo também que o Cesar Cruz, o famoso Cesar Cruz, estará aqui no estande dando entrevista ainda hoje, a tarde!
- Não! Jura?
- Sim, sim! E deixou alguns exemplares de seu mais novo livro, O Homem Suprimido, vocês já leram?
- Oh, ainda não, mas uma amiga minha leu e...
.
.
.
Cesar Cruz
Ago 2010
.
.
.
.
.
.

15 comentários:

Cacá disse...

Olá, meu caro companheiro de estrada. Eu cheguei lá no sábado depois das 4 da tarde. Fiquei naquela fila do onibus gratuito do terminal Tietê desde dez da manhã. Gente, de fato não faltou na bienal. Fiquei lá a semana toda e posso corroborar cada letra de seu texto, que acabou falando por todos nós, iniciantes nesta caminhada suada. Descupe-me não ter chegado a tempo. Veja depois uma fotos no meu blog da minha presença lá também. Fiz uma contas em cima de uns dados que obtive na bienal. Tá tudo lá. Vamos seguindo em frente, meu amigo! Eu não vou esmorecer, acho que você também não. Afinal, sua literatura é de uma qualidade imensa. No passado isso demorava menos a ser reconhecido. Hoje, as coisas estão mais superficializadas, demora um pouco mais. Chegaremos a um lugar bom. Eu lhe desejo muito. Um abraço fraterno. Paz e bem.

Quase ao Acaso disse...

Adorei, meu amigo. As pessoas podem pensar que você inventou a histórias dos panfletos e das respostas mentirosas das pessoas. Pura realidade. Pobre, feia, mesquinha. Veja a minha versão em:
http://quaseaoacaso.blogspot.com/2010/08/bienal-dos-vampiros.html

Abraço,
Gabriel

Anônimo disse...

Hahahahahahaha!
Fala sério.
O povo ainda quer viver de status!
Affff!


Essa semana eu compro seu livro. E por quem vc é de verdade, hahaha!

Beijos Mara Ruzza

Andre Whitaker disse...

Haha! Você não inventou essas tiradas hoje! Sempre foi super cara-de-pau, no bom sentido! Essa só você vai entender: lembra quando você inventou da gente ficar na porta do prédio e quando passava uma gostosa cada um perguntava: Que pinto são? Olhando para o pulso... e a pessoa achava que era para dar as horas... demos umas boas risadas, pode parecer super ridículo, mas era engraçado na época...!!

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro, César Cruz, esta crônica me leva a década de 70 quando a gente saia com os livrinhos debaixo do braço e ia para frente dos cinemas, dos circos, das festas de madame e acabávamos mesmo recitando poemas para putas de quinta categoria aqui em Teresina. Parece que não mudou muita coisa não, a não ser as putas que agora se profissionalizaram mas continuam sem gostar de ler. Brasil, meu Brasil, continuemos, amigo!

Antônio Caldas disse...

Olá Cesar Cruz, bom dia.

Obrigado pelo e- mail. Gostei muito do que li, Ah,a Bienal do livro!
Apesar das dificuldades enfrentadas que voce mesmo relata, vá em frente, voce tem
talento para escrever, parabens!

Outra coisa, o verão está chegando temos que tomar um chopp lá no Avelinos do Guarujá...(pertinho do
sobre-as-ondas)

Um grande abraço

Caldas

Tais Luso de Carvalho disse...

Oh, Cesar Cruz, mas que crônica mais verdadeira! É hilário, mas corajoso alguém colocar isso para ser lido, mas é tudo assim mesmo, e tem de ter coragem e ser muito verdadeiro para assumir isso. É um mundo de vaidades e de muito sacrifício. Parece que estou vendo a cena aqui na Feira de Porto Alegre: algumas filas dão a volta no quarteirão; outras - com autores iniciantes - não dão a arrancada no pavilhão de autógrafos esperando...esperando e nada! E já vi acontecer com escritor de nome: nem umazinha alma! E a praça lotada. Bateu o constrangimento.
Gostei muito do parágrafo do Lobão e do teu diálogo com as moçoilas oferecendo o livro...

Parabéns pela sabedoria. Eu venho aqui porque quero te ler. É o que vale, realmente.
Bjs
Tais luso

M. Sueli Gallacci disse...

Cesar me desculpe a fraqueza, mas vc consegue ser engraçado, inédito, e surpreendente até na desgraça... Que talento!!!

Mas é exatamente isso, quem escreve deve saber que será seu próprio “garoto propaganda” eternamente... E haja criatividade!!! Mas isto vc tem de sobra... Seu suce$$o virá, não tenho dúvidas...

Se servir de consolo, prefiro vc ao Paulo Coelho hahaha Não gosto dos livros dele!

Bjo gde!

Glaucia disse...

Césinha, não se importe com a Bienal, no nosso coração vc pode se considerar um José Saramago!!!!
Beijos e postei no blog o texto sobre cores que tem tudo combinadinho com o meu tema não acha?
Beijos

Miriam de Sales Oliveira disse...

Amigo,guiada pelas sábias mãos do Cacá cheguei ate aqui.
E,gostei demais do q/ li.E é verdadeiro,o pior é isso...
Tem gente vendendo a alma p/ aparecer.Enche a boca e diz:Vim da Bienal.E,isto parece resolver tudo.
Mas,César, a carreira de escritor é tarda e demorada.Balzac vendia os folhetos da Comédia Humana nas ruas de Paris e muitos outros fizeram o mesmo em partes diferentes desse mundo.Escrever é coisa prá macho,mesmo aqueles a quem lhes faltam as bolas,como eu.
O negócio é persistir;e,vc tem talento,camarada.
Abraços

Anônimo disse...

Perfeito Cesar! E o pior é que alardeiam essas coisas como se fossem a panaceia de onde brotará o prazer e a descoberta da leitura entre as pessoas! Balela. Para estimular o jovem a ler a de se fazer campanhas publicitárias, dar apoio governamental a movimentos de escritores, fazer campanhas publicitárias que tirem o cidadão da frente da tv e mostre a ele o prazer, a viagem de um bom livro, etc, etc.

Eventos como esse só servem para ser mais um evento comercial e vazio de uma cidade grande. Aparentemente uma fruta saborosa, mas no fundo só uma casca, sem conteúdo, sem propósito, sem objetivo claro.

Abraços amigo
Henrique

Anônimo disse...

é meu amigo, o problema é quando o ridículo torna-se crônico, passando a um estado adiante e aí se torna hipocrisia, aí hhhuuuummmmm.... dói heim! E todo mundo aceita ou por indiferença, como verdade, falta de opção, por achar graça etc. Mas tudo bem, como disse o cumpadi Milton "Todo artista tem de ir a onde o povo está..."

abraços
xara - ipiranga - sp-sp

J.L. Rocha do Nascimento disse...

Maravilha de crônica, César Cruz.
Rir das próprias agruras. Esse fime eu já vi.

Abraços,
João Luiz

Marcantonio disse...

Sensacional! É o que me ocorreu dizer enquanto ria a valer!

Abraço.

Marcantonio.

stheffania disse...

kkk não sou escritora ainda , mas pretendo ser e realmente essa é uma realidade, posso perceber pelas minhas amigas e amigos que não dão valor nenhum a literatura , não leem um livro sequer e quando a faculdade pede afff é aquela chiadeira
uma amiga me pediu emprestado um livro e disse que não iria comprar pq depois iria virar lixo , bem complicado bastava dizer que não estava a fim de comprar, mas até eu fã de livros , literaturas e ótimas escritas me senti ofendida.