Se fosse comigo...


Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*

Novembro de 2010
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Olha aquilo! — eu dizia, indignado — Olha que criança mais sem limites! Ah, se fosse comigo...!


Sim, porque criança mal-educada a gente trata com firmeza — pensava eu — impõe limites, explica que não se pode espernear, chorar e esgoelar como se estivesse sofrendo uma amputação sem anestesia em pleno Carrefour, com todo mundo olhando e fazendo aquela cara de credo-que-horror-de-criança-sem-educação. Sim, comigo seria diferente, sem sombra de dúvida.

Aquilo ali acontece porque essa gente em vez de ler as coisas certas, livros sobre psicologia infantil, preferem ficar de frente pra televisão à noite. São uns ignorantes que não sabem educar! Esse é o mal desse país, a falta de cultura do povo. Vê no que dá? Vê? Uma criança não chega a esse ponto de desobediência e rebeldia assim, de repente, nã-nã-não! Isso é fruto de um processo de desamor, falta de atenção e falta de limites. Sim, limites! (Eu adorava essa palavra: limites). E, para se botar limites, não se precisa usar de força. Basta explicar à criança as coisas, em casa, antes de sair. Criança entende. Essa gente que não estudou é que acha que criança é burra. Burros são eles, isso sim.

Vocês vão ver quando eu tiver o meu. Ah, aí vocês vão ver como se faz! Vou simplesmente explicar que presente, brinquedo é só no Natal, aniversário e Dia da Criança. Vou explicar que suco, doce, chocolate, salgadinho, além de não serem lá os itens mais nutritivos, já que não contêm substâncias naturais e salubres, apenas corantes e conservantes cancerígenos (é só explicar, criança entende), não podem ser comidos durante as compras.

Sim — pensava eu —, basta explicar isso. É só dizer assim “o papai compra, mas a gente vai comer só em casa, tá bom?”. Pronto. Simples. Qual dificuldade há nisso? Melhor do que ter que bater, gritar como esses loucos fazem. Criança entende. Li no livro do Içami Tiba isso. Criança não é burra. Basta conversar, baixinho, fazer acordo. Tudo se resolve com crianças que recebem limites e fazem acordos.

E criança que vai à casa das pessoas e mexe em tudo?, puxa os vasos para o chão, pega os bibelôs de cima da mesa e sai correndo, o pai atrás, aos gritos? Um ab-sur-do! — dizia eu. Comigo não, ah não! Meu filho vai saber respeitar regras, saber o que pode e o que não se pode fazer. Vai ter bom-senso. É isso! Criança pode ter bom-senso, é só os pais se sentarem com o filho, lado a lado no sofá, e explicarem:

— Meu benzinho, vamos hoje à casa da tia Auxiliadora, lá não tem criança, você sabe, e a casa da tia é toda arrumadinha, cheia de cristaleiras e vasos, e ela não está habituada com bagunça, nem com berros. Portanto, quero você sen-ta-di-nho na cadeira depois do jantar, hein? Bom-senso, hein, amorzinho? A tia Auxiliadora é cardíaca, por favor. Vamos pedir para ela deixar que liguemos a televisão, e você vai assistir, quietinho, enquanto os adultos conversam, tá bom assim? Pronto! Ele fará que sim com a cabecinha, e, depois, lá na tia Auxiliadora, ao menor desajuste, com um simples olhar de alerta ele se lembrará do que conversamos e nem se atreverá a agir de outra forma. Tem segredo?

Limites. São só limites, bom-senso e conversa, muita conversa.

Certo, Michele? Conta pra eles que o papai tinha razão.
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Cesar Cruz
Ago 2010
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9 comentários:

Cacá disse...

Tem gente que diz que sou um cara de sorte. Minhas duas filhas não me deram esse trabalhão todo não, nem precisaram de uns trancos para entender de limites. Mas foi muita e muita conversa. Claro que às vezes bem ríspidas. Aquela história de mostrar autoridade sem ser autoritário está num limite muito tênue. Mas se fosse comigo uma situação daquelas, ah, também ia ser diferente. hahaha! Muito legal! Abração, Cesar! Paz e bem.

Edson Duarte disse...

Muito bom Cruz!
Meus filhos são uns anjos... Em parte, digo as vezes pego o mais novo escalando a estante da "Tia Auxiliadora" ou a mais velha cutucando a cristaleira...
As vezes é melhor mais de um olhar... no geral eles entendem. Mas criança, como dizia minha vozinha, "pinga fogo" Rs...

Glaucia disse...

Imagina...sem educação são só os dos outros! Os meus são uns anjos, jamais que batem no coleguinha, brincam de lutinha isso é coisa de criança selvagem que assiste só o que quer e os pais não ligam!
Imagina, chilique no mercado! Os meus jamais fariam isso pois conhecem os seus limites, e os meus.
Pai e mãe tem de ser controlado, calmos, exemplos...nada de dar piti em público, nem chilique nem nada...

bjão!

Therezinha Eunice disse...

oi Cesar, gostei! A sua avo Helena sempre comentava que seu pai era um terror, a onde ia destruía tudo, quando entrava no banho não queria sair, quebrava ate a torneira.

beijos

tia

Anônimo disse...

Educação sem limite não existe! E.. as professoras não gostam!

Falado por uma professora que convive com muitíssimas crianças diariamente.
Risos.
Beijos Mara

Tais Luso de Carvalho disse...

Ah, Cesar, tudo certinho! Nossos filhos quando pequenos eram educadíssimos e era fácil pôr limites... Foi tão fácil!

O problema não está enquanto pequenos, não!! Os medonhos crescem e ninguém pega mais; quanto mais velhos pior ficam, rsrsrs. Bem, mas aí já estão fora, tudo com eles. A gente só fica olhando... E dando graças a Deus que as 'gracinhas' moram sozinhos. Já imaginou 4 adultos morando juntos??? É rolo, amigo!

Bjs
Tais luso

Paula: pesponteando disse...

kkk Este texto me fez dar risada. Estou pensando numa Michele que segue todas as regras. Por certo não seria uma criança como as outras. Daquelas q até se comportam, mas qdo é hora de mostrar q são umas fofas, deixam os pais com aquela cara de "ela nunca fez isso antes. O q aconteceu"...Agora me diz, a Michele tem bom-senso e faz uso dos limites?

Bom texto para reflexão!


bjs

Anônimo disse...

meu filho era o erro, quando pequeno (agora c/ 14), tinha que pedir: "filho, bagunça um pouco", "faz alguma arte"... mas sinceramente Deus faz as coisas certas não é mesmo? Com essa coisa de educação infantil sou radical, prefiro passar imagem de enérgico, autoritário, militar (como me apelidaram em família), do que ver crescer possiveis monstrinhos criados por traficantes. Criança gosta e clama intimamente que lhe imponham limites, MESMO QUE DEMONSTREM O CONTRÁRIO, claro, façam isso em paralelo com amor, é possivel? Sim, é. Se Vc é pai e mãe e não sabem como, procurem ajuda especializada, só não desistam, pois convenhamos, quando pensamos em ir a casa de alguém, e lá, sabemos ter determinada criança, com determinado comportamento, ou quando vem nos visitar, e isso nos causa repulsão, fala sério né? Não é desanimador? A culpa é de quem? Da criança? (Só da criança?), imaginem terem essa imagem do meu filho? Bom, outro segredo, ou dica, pois admito que os filhos não são padrões, sejam firmes desde pequeno, com o meu comecei a partir dos tres mes, podem pensar que é loucura, mas no processo de separação entre mim e minha ex, se foi loucura ou não, acabou ele por o militar, então, não devemos estar tão errados assim. Não sou a favor da violência, muito menos pancadaria, mas firmeza sempre, meu filho faz tudo isso que o César expos, na risca, se não....rs.

xara - ipiranga - sp-sp
abraços a todos.

Marcela Rossi disse...

"A tia Auxiliadora é cardíaca" foi muito bom! Aqui em casa reina a paz, ainda mais com a chegada do segundo, estou no céu. O segredo está no auto-controle, ajo como uma frequentadora das reuniões dos narcóticos anônimos, inclusive uso o mesmo lema (que já virou um mantra para mim): "SÓ POR HOJE" - agora vivo assim "só por hoje não vou perder minha paciência...", "só por hoje não vou esganar nenhum pescocinho..." assim por diante. Pura paz! Hahahahha Bejijos, Yeah