O Feici e o Guma


Crônica publicada no Portal Mundo Mundano - Jun 2011.
Para ler no MM, clique aqui.
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ou um neófito no admirável mundo das redes sociais. Com parcos meses de feicibuquismo, a primeira revelação: ninguém se relaciona com ninguém ali, tudo conversa. No máximo as pessoas se acham e se autorizam, depois mantêm seus fótons (e fotos) sorridentes convivendo entre si naquele estranho espaço, naquela peculiar e fugaz forma de amizade.

Feicibucar é isso: ir colecionando pseudo-amigos ao redor daquele caudaloso rio (o Feicirio), que desce pelo meio da página arrastando, em questão de minutos, qualquer coisa que ali tenha sido escrita por você ou por qualquer um. Uma correnteza enlouquecida de informações pessoais de altíssima relevância, coisas como: “Voltei do banco, affff, que calor!”; “Uhuu! Balada no Marquinhos hoje à noite!”. Há algumas de profundidade filosófica e poética, para os que apreciam um Baudelaire, um Sartre: “Sorria! Custa menos que a energia elétrica e dá mais luz!”.

Outra coisa pitoresca que descobri: numa rede social, quanto mais amigos se têm, mais status se adquire no mundo real. Achei um lá com 1000 amigos! Esse tá bem na fita, pensei quando vi. Se precisar de uma graninha será só pedir 2, 3 reais pra cada bróder. Não vai pesar pra ninguém.



Noite dessas dei umas buscas usando uns nomes do passado e eis que encontrei o Ricardo Gumelo. Chamei-o para ser meu amigo. E eu que não sabia do paradeiro do Guma desde a 4ªB, quando estudamos juntos, no Dante Alighieri, trinta anos atrás. Navegando lá pelas suas fotos, conclui que se trata de um ilustre desconhecido para mim. Eu não o reconheceria na rua.

E o que conversar com o Guma, já que agora somos feiciamigos? “Você tem visto o, o... Como chamava mesmo aquele de óculos que sentava no fundão com a gente? E aquela professora de Ciências, uma gostosa, mas que ferrava com todo mundo nas provas?” ou “Você ainda faz peidos com o sovaco?”

Desisti. Desisti mais fiquei por ali, fuçando a vida do Guma, que pelo jeito se acertou melhor do que eu. Vai ver que ouviu mais os conselhos do pai dele do que eu ouvi os do meu. Vai saber... O fato é que o Guma sempre teve grana. Nesse quesito, grana, eu era o lanterninha lá do colégio. O pai do Guma naquela época tinha um baita Del Rey, prateado, novinho, todo acarpetado por dentro, com ar-condicionado, relógio digital no painel, antena elétrica, luz de bordo e tudo mais. E meu pai, um Fusca marrom 72, com uma chave de fenda espetada por dentro segurando um dos vidros.

O Guma um dia apareceu na escola com um walkman, de fita, da Sony. O pai dele trouxe dos Estados Unidos. Você aí que nem sabe o que é isso, não imagina o que significava ter um walkman da Sony em 1980, ainda mais de fita! Aqui já tinham começado a fabricar alguns, mas só de rádio. Era que nem hoje o cara aparecer, sei lá, com um IPad 8.

Daí fiquei do sofá da sala, vendo melhor a casa do Guma na Riviera de São Lourenço, com piscina, sauna, quadra, churrasqueira e dois daqueles cachorrões cinza, altos, que comem coisas melhores do que eu e você comemos. Ele tem também um sítio ou coisa que o valha num lugar serrano, a casa toda em madeira rústica, com lareira e forno caipira, projeto de arquiteto. Numas outras fotos surge um apê com varanda gourmet de 12 metros de comprimento, com o Guma vestido de avental de churrasqueiro e um monte de amigos reunidos dando risada. Claro. Num bem-bom daqueles, quem poderia chorar?

Pô, o que esse Guma fez que eu não fiz? Isso sem falar nos relógios desse tamanho que ele carrega no pulso, um diferente em cada foto. Gostei mesmo foi de uma jaqueta marrom, de couro agreste, que ele aparece usando ao lado de uma morena, num lugar com uns picos nevados ao fundo; no cangote dessa jaqueta uma golona caramelo, de crina de cavalo árabe — suponho. Coisa de cinema! Se eu tivesse uma daquelas vendia e dava entrada numa casa nova.

E ali no Feicibuqui do Guma a coisa não tem fim. É esqui nos Andes, mergulho na Austrália, paraquedismo na Flórida; Guma na Torre Eiffel, Guma no Big Bang, Guma nas Torres Gêmeas, Guma jantando num restaurante suspenso por um guindaste em Las Vegas; é Guma pra lá, Guma pra cá, Guma num iate com duas louras estendidas no deck tomando sol, flutuando sobre um mar tão azul, mas tão azul, que se aquilo não for photoshop suponho seja Caribe mesmo.

Tô contando isso aqui porque de repente me dei conta de que posso estar sendo injusto com o Feicibuqui...

Pensativo, olhando aqui para estes meus gastos pisantes e esta muda cansada de roupas, que data de 2003, isso sem falar no alternador do meu carro que deu pra finar de uma hora pra outra, carregando junto bomba d'água, duas correias e uns tantos acopladores, retentores, mancais, gaxetas e o escambau, imprevisto automobilístico desagradável que me deixou a pé em plena Vila das Belezas — lugar belíssimo — e que me custou quase dois mangos, assim, numa tacada-surpresa, daí me ocorreu que esse lance de amizade de Feicibuqui pode ser uma coisa boa para a alma e o espírito cansado da gente, engrandecedora e edificante, do mais elevado querer-bem e de saudosa recordação!

Então me veio novamente o velho Guma... E pensei que já que somos frutos dessa amizade que atravessou décadas, ele que é pra mim mais que um irmão, envolvidos que nos encontramos pelos fortes laços da mais plena estima, sólida e pródiga amizade feicibuqueira, bem... Acho que ele não se importaria em me emprestar unzinho!

É ou não é, Gumão?


 

Cesar Cruz
Junho 2011
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19 comentários:

Regina Cláudia disse...

Adorei o Feici e o Guma, um dia desses eu também estava filosofando sobre rede sociais e o relacionamento que mantemos com as pessoas. Estou até pensando em escrever, depois te envio.

bjos
Regina

Gabriel Fernandes disse...

Marvilha, meu amigo, perfeito! Só tem um problema: vou excluí-lo rapidinho da minha relação de amigos no Feicibúqui. Vai que você decide me pedir unzinhos... Hehe!
Paabéns.
Abraço.

Gabriel Fernandes disse...

Marvilha, meu amigo, perfeito! Só tem um problema: vou excluí-lo rapidinho da minha relação de amigos no Feicibúqui. Vai que você decide me pedir unzinhos... Hehe!
Paabéns.
Abraço.

Marcelo Lopes disse...

Fala Cesinha,

Também já me peguei refletindo nesse sentido e concordo plenamente contigo! A onda feicibuquiana mantém os "grandes amigos sempre próximos"...rs

Nada como os bons churras na casa do Alê com a galera, é ou não é?
Aliás, vamos marcar um qualquer dia desses pelo feicibuque? rs

Abração!

Anônimo disse...

Será que o Guma completou a coleção de mini-garrafas da Coca-Cola? Só consegui o engradado e uma garrafinha que eu sempre fui louco para beber seu conteúdo mas disseram que aquilo poderia até mater (igual a tomar mais do que um yakult por dia)... Cesinha, pode se considerar meu amigo real, mas no momento não posso te ajudar com o conserto do carro... só com uma pizza, talvez... abraaaaaço! Marcão

Gláucia de Oliveira disse...

Eu sinceramente preciso de um pc em casa.
Sabe que rede social pode ser uma furada, mas o Orkut me trouxe gratas surpresas e amigos queridos que mesmo não os encontrando sempre moram no meu coração e nem pagam aluguel?
Tem 3 que vivo pensando neles e sentindo saudades e nada de combinar um churras ou um Mac ( criança adora Mac)...Precisamos nos relacionar nem que seja com uma telinha mediando né?
Saudades de vc e das suas meninas.
Beijos
Glau
P.S ainda espero a sua história de adoção

Tais Luso disse...

Oi, Cesar:
rsrs... Olha, recebo muito convites para entrar nestas redes sociais. Todos recebem. Mas não aceito porque não tenho nada a mostrar e nada a dividir, somar, multiplicar.

Você sabe bem o quanto um blog toma nosso tempo quando a gente se propõe a fazer algo com gosto. Os blogueiros se relacionam, mas é outro tipo de relacionamento, outro tipo de afinidade: a escrita. Há um envolvimento com a criação. Queremos mostrar, apenas, um bom texto.

Não sei como funciona o facebook, Orkut etc. Mas respeito os que gostam, afinal são milhões de pessoas. E gostei desta sua crônica, assim dá pra ver que não sou só eu... Gostei da abertura. Achei impressionante seus dois primeiros parágrafos. Não sabia disso, desta forma. Quem não faz parte de redes, tem certa curiosidade, mas apenas curiosidade, para ver como funcionam. E com esta sua crônica... fechou.

E quanto ao Guma... lá se vão 30 anos; custamos a descobrir que este 'intervalo' faz de dois amigos, dois desconhecidos. É muito tempo. Com certeza não é mais o 'Guma'.

Boa crônica, Cesar.
Beijo
Tais Luso

Anônimo disse...

Cruz, façamos o seguinte, vc me apresenta o Guma (quem sabe rola um rolê de Iate no Caribe), e eu juro que compareço com os 2 reais que me cabem como seu amigo de Feici, aliás pago 4, já que o Marcão tá muquirana...
Abraço

Baxo

Anônimo disse...

No começo uma forte reflexão:

"...ninguém se relaciona com ninguém ali, tudo conversa. No máximo as pessoas se acham e se autorizam, depois mantêm seus fótons e elétrons sorridentes convivendo entre si naquele estranho espaço, naquela peculiar e fugaz forma de amizade."

Perfeitas essas palavras. Acho exatamente isso, mas não saberia me expressar assim!

Bom, no final, boas risadas. A golona selvagem de crina de cavalo foi demais!

abços
Alessandro

Dalinha Catunda disse...

Olá Cesar,
Eu sou super fujona amigos e amigas me procuram, me acham mas eu sempre escapo das redes sociais.
Outra: Sempre quebro todas as correntes.
E mais... não tenho tempo! Gosto de visitar os blogs amigos, mas termino fazendo pouco. Pois não gosto de chegar e fazer um comentário sem ler.
Amei seu relato!
Um abraço,
Dalinha

Andre Whitaker disse...

Maravilha. Adorei, prefiro este estilo realista do que os causos inventados. Excelente. Uma crítica mordaz dos nossos tempos. Eu participo, mas detesto o FB justamente porque a gente só mostra o lado bom. É como uma foto com Photoshop. As arestas e os problemas, os cânceres e os problemas cardíacos a gente retira. É como aquele tal de Second Life. A vida para inglês ver. Não a vida como ela é. Um banho de água fria na nossa vaidade vã e ridícula.

Anônimo disse...

MUITO BOM, ESPETACULAR

1 - Desde que te conheci, a uns 3 anos atrás, Vc tem 40 anos, essa idade tinha eu na época, agora já estou indo pra 44.

2 - Manda um tuiti pro Guma dizendo que dou 5 paus na blusa de couro dele pra ele me ajudar aqui no aluguel da loja.

3 - Redes sociais? Como em tudo, lado bom, lado ruim. Lado bom: compromissos eventuais ou, "se tiver (quiser) mais sorte" consegue até casar, campanhas (quando sérias), eventos, manifestações... Lado ruim, navegue e constate em poucos segundos, tem umas fotos divertidíssimas, aquelas de pescocinho caído e dedos em V são o máximo. A vaidade humana é muito bem humorada só não mais sem noção.

4 - De fato meu amigo, tem um conhecido meu que, no msn dele faz coisas do tipo: "aguarde, estou no banho", "fui abastecer o carro", "balada tal, não furem heim...", "São Paulo (time) é mais..." e por ai vai. Sem dizer certas comunidades de dar náuseas, tipo de cachorrinho da pessoa e blá blá blá... Olha que ponto chega a solidão, trauma, vagabundagem das pessoas não é mesmo?

5 - Mas, em fim, embora tenha sido um dos primeiros a ter Orkut quando surgiu e também a ser um dos primeiros a cancelá-los, fora todo lixo que corre e fermenta em fedor, ainda assim julgo-as mais úteis que nocivas, cabe a cada um separar o joio.

abraços a todos, a gente se encontra por aí, no mínimo pela Net
xara - ipiranga - sp-sp

Muito bom Cesar... vlw mesmo

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Cesar. Eu acho que as redes sociais são uma forma bem educada de a gente não dar muita atenção a ninguém enquanto finge que dá atenção pra todo mundo. Agora o Guma, hein? que evolução, que evolução!!! hahahaha!

PS: você falou do fusquinha do seu pai com a chave de fenda e eu me lembrei do meu que tinha um jipe com as portas amarradas com arame.

Abração, Cesar. Paz e bem.

Anônimo disse...

Porra Cesinha!

O pobre do Guma vai ser sequestrado por sua causa!

abço
Danilo

Henrique disse...

Cesinha, eu que tenho por baixo uns 15 anos a mais que voce, e que Fusca com chave de fenda no vidro já tive uns quatro, posso te garantir que essa sua crônica está um primor, além de divertidissima.
Pontos altos: os fotons e os eletrons se relacionando sorridentes; e a vida do Guma, falsa e digna de ir para a revista Caras.
Vou mostrar este teu texto para minhas filhas, quem sabe caia a ficha, com elas dizem.
Abraço pra ti. Vê se aparece lá no escritório pra um café.

H.L.

Anônimo disse...

tava esquecendo, e quem aqui também já não acelerou o fusquinha no barbante com o motor aberto, por falta de cabo do acelerador?
bom, eu já... sem dizer vezes inúmeras de pedir gasolina para os outros...

novamente
xara - ipiranga

Vagner Barbosa disse...

Cesar

Adorei. Você deu conta com, filosofia + humor, da encomenda. A propósito: o Guma existe?

Vagner

Celêdian Assis disse...

Texto espetacular César, com a sua visão lúcida e muito coerente sobre a realidade da virtualidade (proposital)das ditas amizades "feicibuquianas" "orkutianas" e afins.

As redes sociais permitiram atribuir-se à amizade, uma conotação diferenciada, do que naturalmente presume-se da afinidade e proximidade. "Amigos" que normalmente conseguíamos contar nos dedos, hoje conta-se aos milhares e quanto maior número, melhor, já que a quantidade é que confere status de simpatia. Salvo as raríssimas excessões em que as redes sociais nos aproximam das pessoas e com elas travamos uma amizade real, o resto é só mesmo uma forma que as pessoas acham para tornarem-se visíveis e diga-se de passagem, uma imagem que nem sempre retrata o que é o sujeito, mas o que ele gostaria de ser. Será que o Guma está entre esses tais?

César sobre a dificuldade que encontrou de comentar "logado" em meu blog, já o deixei da forma mais simples, mas creio que o Blogger ainda não funcionando 100% após os últimos problemas que tiveram, pois tenho encontrado dificuldades também para acessar e comentar alguns blogs. Obrigada!
Um abraço,
Celêdian

Ângela Marconato disse...

Partidão esse Guma em Cesar?!

bjo
Ângela