Pequenos mistérios

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Durante muito tempo me perturbaram aquelas escovinhas que ficam no rodapé de algumas escadas rolantes. Você já reparou nelas? Interessante é que as tais escovinhas não correm junto com os degraus, ficam fixas no corpo metálico da escada. Para que serviriam? Pois é, boa pergunta...
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Nunca ninguém soube me explicar, mas na falta de uma boa explicação, sua utilidade, de repente, saltou aos meus olhos, e a lógica liquidou o que parecia ser um enigma: as tais escovinhas nada mais seriam do que uma singela cortesia do fabricante da escada rolante que, sabendo da vida corrida dos urbanoides que usam o seu engenho, resolveu oferecer um sistema simples, gratuito e eficaz de se produzir brilho em sapatos ofuscados pelo uso. Muito bem bolado! Até pensei que poderiam criar um modelo mais sofisticado que pulverizasse graxa, bastando um toque, com o bico do pé, num botão que ficaria ao lado da escova. De qualquer maneira, mistério desvendado!
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Mistérios assim parecem me perseguir. São coisas que para muitos devem passar despercebidas, mas para mim são uma contínua fonte de curiosidade e perturbação. As grandes indagações que apoquentam a humanidade nunca me interessaram muito. Afinal, foi para isso inventaram o Canal Discovery. O que me interessa mesmo são os pequenos mistérios do dia-a-dia!
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Houve um outro enigma que levei anos para desvendar...
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Havia um barulhinho que vinha do chão do quarto de casa, bem do meio do recinto: tec, tec, tec, tec... Era insistente, ritmado e constante. No início pensei que poderia ser ruído de água escoando pelo encanamento, mas encanamento no chão do quarto? Consultei a planta hidráulica do apartamento para me certificar. Nada de encanamentos nos quartos, como eu supunha. O que seria, então? Às vezes, eu ficava a noite toda ouvindo aquele perturbante tec-tec, sem conseguir dormir direito. Uma tortura chinesa! Em certos dias ele sumia sem explicação e eu me esquecia dele. Aí, um belo dia voltava, quase sempre à noite.
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Comecei a fazer anotações com datas, horas, detalhes. Reparei, por exemplo, que só ocorria no verão. Consultei páginas de Ciências na internet e, cruzando informações, deduzi que os ruídos poderiam ser produzidos pela expansão física da estrutura do edifício nos dias quentes, ocasionada pelos diferentes coeficientes de dilatação dos materiais que entraram na fabricação da laje: concreto, aço das armações, conduítes que carregam fios elétricos etc. Mas como explicar o ritmo perfeitamente cronometrado dos estalos? Seria um relógio de corda que concretaram por engano dentro da minha laje? Impossível, o prédio é antigo e a corda já teria acabado.
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Um belo dia eu estava na casa da Vanessa (isso foi antes de a gente se casar) e ouvi um tec-tec-tec igualzinho vindo do piso de um dos quartos. Joguei-me no chão na mesma hora e colei a orelha no assoalho. “Pssssssssiu, silêncio!”, balbuciei. O tec-tec era idêntico ao da minha casa: insistente, ritmado, constante também, e vinha bem do centro do chão do quarto. Saltei em pé, eufórico pela descoberta, berrando: “Incrível, sua laje produz o mesmo barulho que a minha! Você está ouvindo?”. “É claro que estou ouvindo”, disse ela, e me olhou como quem observa alguém muito esquisito fazendo algo mais esquisito ainda; e completou: “Não é nada na laje, Cesar, é apenas o barulho do ventilador de teto do vizinho do apartamento de baixo”.
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Fim do mistério.
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Houve outro, esse também muito sinistro...
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Certa manhã, já depois de casado, enquanto eu escovava os dentes no banheiro, reparei em algo estranho na parede junto ao teto. Cuspi a mistura morna na pia, larguei a escova e subi no vaso sanitário para chegar bem perto. Inacreditável! Havia cabelos nascendo dos azulejos lá no alto da parede, junto ao teto. Cabelos humanos. E idênticos aos da Vanessa! Seria bruxaria? Algum trabalho? Pensei em jogar sal grosso, colocar nossos nomes numa corrente de oração e fazer uma bela promessa pra Santo Expedito. Aquilo era coisa do outro mundo, só poderia ser!
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Então, todas as manhãs eu os encontrava lá. Muitos. Subia no vaso e os retirava com papel higiênico. Não ficavam presos nos azulejos, mas apenas suavemente colados. Alguns mais audaciosos se arriscavam no teto e eu os recolhia também; acabavam todos, de uma forma ou de outra, indo descarga abaixo.
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Passadas algumas semanas, gradualmente fui abandonando as explicações místicas e passei a encarar o fenômeno pelo lado científico. Aquilo poderia ser eletromagnetismo, energia estática e por aí afora.
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Perguntas novas surgiram: por que só ocorre no banheiro? Por que só vão para o alto? Li sobre o Triângulo das Bermudas, sobre os aviões e embarcações que somem naquela região, e comecei a encontrar similaridades assustadoras! E se nosso banheiro estivesse em desacordo com algum pólo magnético?
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No auge do desespero, como uma tentativa de neutralizar perigosos magnetismos no corpo da Vanessa, escondi nos bolsos de suas calças e em suas bolsas alguns pequenos imãs. Não funcionaram... Seus cabelos continuavam a surgir no alto...
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De qualquer maneira não devia doer, pois ela nunca reclamou de nada, e nem parecia perceber. Deixei quieto, como dizem, fingi que não sabia de nada e nem comentei sobre aquelas estranhas abduções capilares que ela vinha sofrendo sem saber, para não assustá-la.
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Para não enlouquecer, tratei de esquecer o assunto.
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Num domingo pela manhã, após tomar banho, a Vanessa ligou o secador de cabelos e foi então que vi e, finalmente, compreendi tudo...
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O potente sopro de ar quente da máquina sobre seus cabelos umedecidos fazia alguns fios se desprenderem de seu couro cabeludo e ganharem as alturas do banheiro em um turbilhão de ar quente. Uma parte desses fios acabava colada aos azulejos suados, e ali ficavam.
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Caso encerrado.
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O pior de todos os mistérios vou contar a seguir. Este me perseguiu por quase vinte anos. Foi o mais intrincado, o mais perturbador e aparentemente insolúvel que enfrentei em minha carreira de desvendador de mistérios. Uma curiosidade que, pelo jeito, parecia querer me lavar para a tumba sem resposta.
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Este mistério girou em torno de um ladrilho decorativo que tenho em casa. Essa peça era do meu pai, mas só dei com ele depois da morte do seu Aloísio, em 1990.
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Mede aproximadamente 20x10cm e tem 1cm de espessura. Na frente traz, estampado na louça, um desenho aparentemente feito com técnica de grafite. É o desenho de uma paisagem antiga. No último plano aparece um castelo, com um riacho à sua frente, e, em primeiro plano estão dois homens que parecem conversar. Um está sentado sobre uma pedra e desenha algo numa prancha sobre o colo, o outro está em pé ao lado do primeiro e aponta algo à distância. Os trajes dos homens, a paisagem e todos os detalhes parecem remeter ao século XVII. Encimando a gravura está grafada a palavra Gieffen. No verso da peça, em baixo relevo, há a inscrição “Gail Germany”. Pesquisei a palavra Gieffen em livros alemães e na internet, nada. Parece não existir tal palavra em idioma nenhum. Perguntei a amigos que viajaram o mundo, nada também.
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Há uns cinco anos, postei um resumo com a descrição desta peça no site brasileiro da empresa Gail, fabricante de cerâmicas, nada. Não me responderam.
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A GAIL é mesmo uma corporação alemã e sua fundação remonta ao início do século XIX. Fundada por Georg Philip GAIL, na cidade de Giessen (vejam a semelhança do nome da cidade com a palavra escrita na peça! Só mudam as letras do meio.), a GAIL começou como uma fábrica de charutos e anos depois passou a fabricar cerâmicas.
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Resolvi pesquisar no Google a palavra Giessen, com “s” em vez de “f”. São dezenas de páginas com fotos da cidade e de obras de arte públicas, monumentos, castelos, mas não encontrei nada que se parecesse com o desenho do meu azulejo. Ainda assim, permaneci firme achando que a letra dobrada no meio da palavra não poderia ser um “s”.
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Finalmente, nesta semana, meu mistério pessoal mais antigo foi solucionado. Resolvi tentar de novo e mandei um email para a empresa contando, dessa vez com mais detalhes, toda a história.
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Fui surpreendido ao receber a gentil e atenciosa resposta do próprio presidente da empresa, a qual reproduzo abaixo (observem que eu estava enganado com relação à letra dobrada: eram mesmo dois esses.)
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Caro Sr. Cruz,
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Obrigado por sua mensagem!
Estas placas foram produzidas em serie especial para eventos que fizemos no final dos anos setenta e nos anos oitenta. São reproduções históricas.
Foram grandes eventos (bi anuais) quando convidamos os nossos melhores clientes da Europa para vir ao Brasil com palestras de grandes personalidades, palestras técnicas, apresentações de novos produtos e uma noite de show. Durante alguns anos ofertamos estes placas como brindes. Esta do anexo que você nos enviou, mostra a cópia de um “Stich” antigo de Giessen do século 16 ou 17. Giessen, no norte da Alemanha, é o berço da GAIL, onde nosso parque industrial nasceu, sobrevivendo e crescendo a despeito de muitos eventos difíceis, como duas guerras mundiais.
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Cordialmente,
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Fernando Veiga Prata, Ph.D.
Presidente (CEO)
Gail Arquitetura em Cerâmica
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Palavras do presidente.... E mais um mistério solucionado. Qual o próximo?
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Cesar Cruz
Junho 2009
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11 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

Cesar Cruz,
EU ADOREI LER ESTES SEUS TEXTOS DE HOJE, OLHA VOC6E OS ESCREVEU DIVINAMENTE BEM, LI ATENTA DO COMEÇO AO FIM, QUE LEITURA AGRADAVEL, DESVENDADO OS MISTÉRIOS,
EFIGÊNIA COUTINHO
ESCRITORA

Carlos Camargo disse...

Cesar,
Não consegui evitar algumas associações ao ler esse seu saboroso texto. Sobre as escovinhas nas escadas rolantes, nunca lustrei meus sapatos porque raramente os tenho nos pés. Tênis são os meus calçados habituais, mas, ainda assim, sempre imagino que aquilo lá é um excelente lustrador, entretanto, ele há de exigir um contorcionismo e tanto para conseguir dar brilho em todos os lados dos pares. Às vezes rio sozinho ao imaginar necessárias piruetas para alcançar as totalidades dos ditos pisantes. Agora, sobre o tal 'tec tec tec', este ruído eu escuto todas as manhãs, há anos, em meu quarto. E eles vêm do teto. É que minha vizinha de cima, elegante secretária executiva, passeia pela sua casa todos os dias às 6h da manhã com seus sapatos sociais salto agulha, provavelmente medindo 30cm de altura cada um. Não se trata, portanto, de um ventilador de piso, mas, considerando o já observado, figurino da moça, leve, cheio de sedas, algodões e organzas, ele termina por produzir, a seu modo, outro tipo de ventania.
Por fim, sobre o ladrilho que pertenceu a seu pai, a história comove, por causa da memória que ela contém e se expõe, ao lado de outra memória que ela oculta, ou ao menos ocultava. Um pequeno e delicado mistério.
Abraço,
Carlos

Anônimo disse...

Se está procurando algo novo para desvendar, venha passar uma semana em casa... a Yeah é uma fonte inesgotável de pequenos e delicados mistérios. Um abraço, Marcão.

Jacir disse...

Cara, taí! Nunca falei pra ninguem mas sempre achei um mistério aquelas escovas! e confesso que já dei muita lustrada no sapato usado uma delas!

abraço

Majoli disse...

Olá Cesar, sobre as escovinhas no rodapé de escada rolante, vixe, nunca percebi, da próxima vez vou reparar.
O mistério do cabelo, desvendou isso prea mim, pois o azulejo de meu banheiro vive com cabelos meus no alto e nunca soube porque.
O tec tec, já morei em apartamento e vários barulhos ouvi, mas sempre me desligava deles.
Agora esse último, gostei de saber de sua insistência em descobrí-lo.
Tenha uma linda sexta-feira, beijos.

Anônimo disse...

Cé, já que você é o desvendador de mistérios, me faz um favor e vai até em casa desvendar onde se escondeu meu RG e como um par de brincos estava guardado dentro do meu tênis...

Beijos,
Yeah

DANY LIAS disse...

AHAHA! A MINHA CASA TAMBEM É CHEIA DOS MISTERIOS! SERÁ QUE ALGUEM SABERIA ME DIZER PORQUE CERTOS LUGARES DO CHAO DA MINHA CASA SAO QUENTES? MISTEEEEERIO!!

BJOS DANIELA LIAS

Ricardo Gondim disse...

Querido Cesar,

Quando estiver rico e famoso, não esqueça da gente.

Um beijo,

Ricardo

Andre disse...

Oi Cesinha, agora lembrei que o Sr. Valdenor Fernando Nogueira trabalhava nessa bendita Gail antes de trabalhar no Eldorado. E tinha um barulhinho no meu apê do Rio que vinha também do chão mas não era tec tec, era um maldito bip bip que parecia estar embutido embaixo do piso e teimava em acontecer só de noite. Fora um cheiro esquisito de incenso que também surgia à noite, do nada, quando não tinha nenhuma ventilação que me ligava a algum outro apartamento. No corredor do prédio não tinha cheiro nenhum. Abraço do "Polegar"

Anônimo disse...

xara (mario)
ipiranga

uai rapaz, este estava quase me escapando, mas agora irei comentá-lo. As escovinhas da escada rolante, creio eu, foram colocadas pelo seguinte motivo, a uns bons 20 anos atrás estava eu numa delas, no metrô e no degrau de baixo do meu uma criança enroscou o cadarço do tenis entre a escada e a parece da mesma (na época não existiam essas escovinhas) e começou a sugar seu tênis, infelizmente chegou a comer dois dedos do pé. Então, embora não tenha conferido, acredito que seja para evitar esse tipo de acidente mantendo certa distância, isso é suposição própria, a que se perguntar o fabricante para a fidedignidade de sua existência. Quanto aos mistérios sonoros já os resolvi desde seis anos atrás, durmo com protetores auriculares...rs, nem a última chuva de granizo percebi.
Mas admito, esses mistérios são necessários e divertidos, aliás tenho um cá comigo, porque geralmente são os homens que lhe dão atenção e valor?

abraços a todos.

Jackie Kauffman disse...

Cesar, seu texto é divertido, leve e nos aprisiona até o fim. Não dá pra lê-lo até a metade.
Dá pra perceber seu olhar inquieto e atento, além de sensível e questionador.Coisas simples que, pontuadas adquirem mais significado. Muito bom.