Inacreditáveis gentilezas

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Cena 1 – O carro fantasma
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Mesmo tendo a preferência, resolvi ser generoso. Afinal, alguém teria de ceder, já que a rua era estreita e impossibilitava a passagem de dois veículos, lado a lado. Meti uma ré e subi. Quase bato de traseira num outro carro que vinha pela rua transversal. O cara buzinou e me xingou pondo a mão pra fora, indignado. Estiquei o braço em pedido de desculpas. Ele estava certíssimo, eu não poderia mesmo dar ré na ladeira, invadindo a pista principal.
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Passado o susto, olhei com mais atenção. Ninguém na principal. Lá fui eu novamente, com presteza e sorte, consegui.
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Pois bem. Depois de todo o sufoco, deixei o caminho aparelhado e livre para o sujeito que veio subindo. Suando e sorrindo amarelo, fiquei olhando o cara se aproximar. Confesso que aguardei o agradecimento. Eu merecia.
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Ele passou ao meu lado, lentamente. Consegui vê-lo, por trás do vidro fechado. Era um homem de uns 60 anos; conversava com a mulher ao seu lado. Passaram por mim entretidos em seu mundinho e nem me olharam, muito menos acenaram... Foram-se, impassíveis, como se eu não estivesse ali.
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Cena 2 – Obrigado a ser gentil
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Eu estava no supermercado na fila “até 10 unidades”. No meu cesto havia uns sete volumes. Logo atrás de mim, uma senhora com uma caixa de leite e um saco com pães.
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Quando chegou a minha vez, cedi meu lugar a ela, ainda que aquele não fosse o caixa para idosos. “Passe a senhora, por favor”, disse eu, sorrindo e dando-lhe a vez. Ela aceitou. Quieta. Sem sorrir e sem me olhar. Esprememo-nos no estreito corredor do caixa e trocamos de lugar.
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A dita senhora pagou as compras bufando para a atendente e saiu sem agradecer ou se despedir. “Deve ser muda, a velha” - pensei, bronqueado.
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Cena 3 – Respeitosamente humilhado
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Fui receber a pensão para a minha tia hospitalizada. Consulado Geral da Itália, Avenida Paulista. Peguei uma senha e me postei no local indicado, um canto com cadeiras. Fiquei aguardando em companhia de diversos velhinhos aposentados, muitos parlando entre si num gostoso italianês. Minutos depois uma moça surgiu:
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- Quem é o número 12?
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Um dos velhinhos se levantou e foi ao seu encontro, estendendo-lhe a senha:
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- Sono io!
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- Bom dia, seu Giuseppe, mas... o senhor veio para receber?!
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- Si...
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- Seu Giuseppe, eu já não disse ao senhor, várias vezes, que o seu caso é no segundo andar?, e que não adianta o senhor vir falar comigo?
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- Ah si...
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- Então, por favor, seu Giuseppe, faça a gentileza de ir ao segundo andar! Está bem? – completou sorrindo, falsa e cinicamente. Abandonou o velho ainda gaguejando escusas e, dirigindo-se aos demais, gralhou:
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- Número 13!
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Enfiei a cara no meu livro para ver se conseguia me esconder da vergonha que senti pelo pobre homem. A senhora dona do número 13 entrou seguindo a moça e ambas sumiram por um corredor. Todos os demais permanecemos em silêncio, vexados pelo que tínhamos presenciado.
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Surpreendentemente, seu Giuseppe, ainda em pé, vergado de velhice e vergonha, quebrou o silêncio com uma voz rouca, gasta pelo passar dos anos:
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- Os senhores e as senhoras me perdoem pela humilhação que acabei de sofrer aqui. Estou muito envergonhado... Tenham todos um bom dia. Virou as costas e saiu, corado.
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Cena 4 – O homem invisível
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Entrei no elevador. Lá estava o vizinho do quinto andar que sempre insisto em cumprimentar.
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- Olá – disse eu, sorrindo e meneando a cabeça.
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- ...
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O elevador chegou ao andar dele e eu, ingênuo, ainda arrisquei.
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- Boa noite!
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- ...
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Fiquei ali, com cara de palerma, vendo a porta se fechar.
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Cena 5 – O próximo que se dane
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Havia duas vagas no estacionamento defronte a padaria. Acionei o pisca para indicar que iria estacionar. Nesse exato momento, uma robusta caminhonete me cortou pela direita e se meteu na minha frente, ocupando a vaga que eu tinha a esperança de assumir. Freei e aguardei, achando que o motorista arrumaria o carro de maneira a possibilitar que eu estacionasse ao lado, na outra vaga. Engano.
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Ouvi o freio de mão ser puxado e o carro ser desligado. Estacionou exatamente sobre a faixa que dividia as duas vagas.
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Do veículo saltou uma moça bonita, de uns 28 anos, muitíssimo bem vestida. Bateu a porta, jogou o cabelo, caprichando no charme, travou o veículo com o acionador de alarme e entrou na padaria. Fiquei ali, com o carro meio que na rua, parado, com meu já tradicional sorriso de idiota.
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Cesar Cruz
Abril 2009
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14 comentários:

George Saguia disse...

Oi Cesinha...

Há algum tempo atrás, olhando no espelho, vi que eu tenho cara de bobo. Imediatamente tomei uma decisão: Vai ser pra uso próprio! Não vou deixar que ninguém faça uso dela.

A partir desse dia, eu decidi que escolheria os sapos que engoliria... porque afinal, quando a gente decide ser gentil, a gente decide por engolir esses pequenos e jeitosos anfíbios.

Decidi também que engoliria até grandes jacarés (e tenho engolido alguns bem calibrosos) sempre que escolhesse engoli-los...

O problema é que o resto do mundo não sabia desta minha decisão e não colaborou nadica de nada com o meu dia-a-dia.

Confesso que algumas vezes só percebi que havia engolido o batráquio quando ele já se encontrava confortavelmente instalado em meu estômago. Porém houve vezes que cheguei a me engasgar com o tamanho do rabo do jacaré que tive que mandar goela abaixo...

Depois de quase vinte anos dessa decisão, ainda sinto o gosto de alguns desses que se tornaram meus companheiros de jornada.

Mas tenho que confessar... não me arrependo... mesmo daqueles que entraram forçadamente...

Prefiro ser assim, um engolidor de sapos e jacarés semi-profissional com o estômago cheio e pesado por causa desses anfíbios e répteis, mas com a consciência bem levinha, ao ponto de poder dormir bem tranquilamente a noite...

Um abraço

do amigo

G

Laguardia disse...

Caro Cesar

O que você contou acontece todos os dias. É falta de educação que vem do berço.

Há algum tempo atrás comprei um lanche no drive through do McDonalds. Ao mudar para a janela do lanche vi que o caixa havia me dado dinheiro a mais de troco. voltei devolvi o dinheiro. A moça agradeceu.

Quando cheguei em casa com o lanche vi que faltava um pacote de batatas fritas.

Apesar de tudo que você contou e que acontece todo o dia, ainda vale a pena ser gentil e ser honesto.

Assim pelo menos podemos dormir em paz com nossa consciência.

Anônimo disse...

Muito legal, afinal de contas que nem diz o Lenine: "Gentileza é fundamental..."

Ah! a cronica tá 10 mas o comentário do seu amigo " G " tb tá show heim, acho que esse cara (com todo respeito tá?) também devia pensar em escrever. Abraços

xara
ipiranga

George Saguia disse...

Ôpa!

Muito obrigado pelo elogio!

Obrigado também pelo comentário! O privilégio é meu ter você como meu amigo.

Um grande abraço

G

Anônimo disse...

Perfeito, meu amigo. Também sou vítima de inacreditáveis gentilezas. Bem-feito! Quem mandou ser civilizado num país de bugres imbecis?

Está muito bom.

Abraço
Gabriel

Anônimo disse...

Cruz, te conheço de outros Carnavais...., galera que lê o blog...é tudo mentira (ou ficção).
O Césinha deve ter descido do carro, amassado a lateral da SUV, xingado a loira e seu companheiro, pois loiras não conseguem estacionar SUVs (brincadeirinha....).

Baxo

Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive por aqui lendo e aprendendo com suas crônicas!!!
Abraço Ademar!!!

~.~Dany~.~ disse...

Adorei seus textos!!!
Parabéns..eles são ótimo e bem reais!!!

Bjokinhas....

Neylinha disse...

Nossa...fiquei de de boca aberta com o cara do elevador, que falta de educação...
È mesmo muito difícil ser educado, mas nem sempre as pessoas reagem dessa maneira, né? As vezes...dizem obrigada.
Amei o comentário do G, foi demais!! Deveria escrever algumas crônicas tb!
Seu texto esta maravilhoso,virei leitora assídua.
Bjs

Anônimo disse...

Oi Césinha,
Sabe, eu também já insisti no"Bom dia" dentro do elevador com uma cidadã, que sempre me deixava com a tal cara de palerma, só que em uma ocasião , eu estava saindo na correria (filhas ao colégio,sabe como é, vivo atrasada),fechando a porta do ap,e ela, a cidadã, estava lá, dentro do elevador ,percebeu a minha pressa, e simplismente, fechou a porta !!
Só pra ter uma idéia da minha irritação, a distancia entre a porta de casa é a do elevador é de 1 metro e 55 centímetros(é,eu medi),
Bom p resumir, o meu lado gentil desapareceu da face da terra,e eu soltei(na verdade gritei)um sonoro "VAGABUNDA"!!!! que até o porteiro deve ter ouvido...eu sei q ñ foi um exemplo muito legal , mas as minhas filhas cairam na gargalhada,riram até chegar ao colégio...
o engraçado mesmo é que depois disso, encontrei a tal no elevador,e pra minha surpresa quando eu falei , "Bom dia", ELA RESPONDEU!!!
bj
bj
bj
Gabi

Anônimo disse...

Nossa, com certeza! Que dificuldade que a maioria das pessoas tem em ser gentil!

Mas tudo bem não desisto NUNCA. Digo "bom dia", "boa noite", "por favor", "com licença", "obrigada"...

Beijos a todoS!
Mara Ruzza

Anônimo disse...

Oi, César!!! Sou fã do "Gentileza" e adorei vc ter lembrado dele e ter colocado aí, no seu blog, como "foto". Essa escolha não poderia ter sido melhor.

Ai a Gentileza.... estamos nos distanciando dela. Que triste.

Gosto dos vários exemplos q vc deu e a escolha de falar sobre isso. Parabéns pelo texto, César. Arrisco dizer que a maioria já passou por situação parecida. Mas há a Gentileza do olhar, esse é a que mais gosto e quase sempre pratico...já viu isso? Olhar alguém que quer ser visto? É uma delícia. Olhe pra vc ver... sempre terá um sorriso de volta. Pra ser gentil é preciso ter a consciência de como vc mesmo quer ser tratado. Qdo se tem essa consciência, a gentileza, sem vc perceber, já faz parte de vc! É incrível! Parabéns pelo texto!!!

bjos
Silvia

~.~Dany~.~ disse...

Obrigada pela visita no meu blog!
Volte sempre...

Eu estarei sempre por aqui!
Bye

Ester disse...

Oi Cesar,

Vc escreve muito bem, amigo!

Feliz de encontrá-lo!!

Voltarei..


bye,