Vidraça

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Escrever crônicas é se expor. Definitivamente. Os contos, os romances e as novelas são o território da ficção. Ainda que alguém aponte o autor como um facínora por ter escrito certa barbaridade, ele sempre pode se safar explicando: “Não sou eu que odeio os russos, mas sim a personagem da história, que os estripava a faca!”.
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Quem escreve sabe que, na maioria das vezes, uma ficção, seja qual for o tema, traz muito do inconsciente do seu criador. Aquele cruel assassino de crianças do romance pode ser, ainda que na maioria das vezes nem o próprio autor saiba, um alter ego dele próprio.
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Já o cronista, que opina acerca das coisas do mundo às claras, usando sua própria pele, está jurado... de morte. Mais dia menos dia cairá em desgraça. Sua carcaça será jogada aos cães e sua pele virará tamborim, na melhor da hipóteses.
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O que um cronista escreve está sacramentado para-todo-o-sempre-amém. Se não se cuidar, suas linhas podem ser a sua maldição, a tampa da sua sepultura.
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Ainda que ele mude uma opinião, a qualquer momento surgirá alguém dentre a multidão sacudindo acima da cabeça uma folha com um escrito seu, e gritando: “Ei! você escreveu isto aqui, agora vai negar?”. É terrível... Quem fala pode até ser irresponsável, superficial, leviano; quem escreve, jamais. Ser cronista é como ser domador de feras. Um dia, amigo, ainda que tarde a chegar, poderá ser o dia do leão!
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A Silvia, a gerente lá da Gazeta, me escreveu um e-mail: “Cesar, ligou aqui na redação uma mulher furiosa querendo falar com você! Expliquei que você é colaborador, não fica aqui, mas ela parecia querer te matar, disse que você é um machão, um porco!”. Surpreso com aquela reação tão visceral da leitora, respondi, indagando: “Mas, Silvia, o que foi que eu fiz?”. Resposta: . .“Cesar, acho que ela não entendeu a crônica d’ As mulheres e suas cores...”. Vejam vocês!
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Vai que uma maluca dessas me encontra pela rua? Pior é que na Gazeta a crônica sai com a minha foto! Posso ser esfaqueado pelas costas e nem saberei por que morri. Acho que vou comprar uma peruca.
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O curioso é que a tal mulher, tão senhora da razão, não teve coragem de me escrever, já que meu e-mail e endereço do site acompanham todas as crônicas que publico. Sou fácil de achar e sempre respondo a quem me escreve.
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Recebo muitos comentários no blogue, especialmente nos textos que saem nos jornais. Libero qualquer comentário. E os comentários elogiosos sempre vêm assinados. Já os depreciativos... quase nunca.
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Na crônica "Gosto dessa gente... " um comentarista anônimo escreveu isto:
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“Colunista,
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quero te dizer que o fato de você ter afirmado que gosta das pessoas que vendem porcarias na rua, transforma seu artigo numa apologia a esta imundície urbana. Você tem que tomar cuidado com o que escreve, amigo”
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Respondi assim:
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“Caro comentarista anônimo,
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uma pena você ter esquecido de se identificar. Eu sempre prefiro me dirigir às pessoas pelo nome. Creio que você não tenha entendido a crônica. No segundo parágrafo, grafei o seguinte: "Ainda que eu não concorde com a atividade de 'vender coisas na rua', me identifico com essas pessoas.". Então é isso... reitero a afirmação. E completo: gosto sim dessa gente. E gosto muito. Ah, importante: você tem que tomar cuidado com seus comentários, pode estar sendo reacionário e sectário, mesmo sem se aperceber. De qualquer forma agradeço a participação.
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Saudações,
Cesar Cruz.”.
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Por sinal, isso é muito comum nos críticos: a preferência pelo anonimato. Criticar anonimamente é como desferir socos no escuro, ou atirar pedras por cima de um muro. Covardia pura. “Mostre sua cara, velhaco! Tire este capuz!”, dizia, em represália aos seus críticos anônimos, o polêmico filósofo alemão Arthur Schopenhauer.
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Finalizo essa crônica me regozijando nas alentadoras palavras de Theodore Roosevelt que, há cem anos, saía em defesa do valentes que dão a cara pra bater.
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“Não é o crítico que conta, nem aquele que aponta onde o forte tropeçou, ou onde o realizador das proezas poderia tê-las feito melhor. O crédito pertence ao homem que está de fato na arena; cuja face está desfigurada pela poeira, pelo suor e pelo sangue; o homem que combate estoicamente; que erra e se vê prostrado vez após vez, mas que, ainda que tentem lhe matar, se levanta de novo e de novo e de novo... Esse é o homem que, por fim, conhece os grandes entusiasmos, as grandes devoções, e se deixa consumir pelas causas justas; e, na pior das hipóteses, se falhar, ao menos falhará agindo corajosamente, de modo que seu lugar nunca será junto aquelas almas tímidas e pusilânimes, que não conhecem nem a vitória, nem a derrota”
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Cesar Cruz
Abril 2009
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10 comentários:

Anônimo disse...

Quem tem algum comentário que lance as primeiras palavras!

Quem vai se arriscar a fazer uma critica agora?

Bom, eu faço! Como sempre adorei sua crônica, mas não estou gostando que estou ficando viciada em seus textos. Toda quarta espero até tarde para ler, e quando não dá quinta eu estou aqui lendo.

Bom, continue assim.

Um grande abraço de sua amiga anônima, rsrs

Lena

Anônimo disse...

Muito bom, meu amigo. Jaque eu estou à toa... Você vai precisar de um guarda-costas. KKK!
Abraço
Gabriel

Anônimo disse...

Verdadeiríssimas as palavras do ex-presidente estadudinense! Como é mais fácil apontar o dedo acusador, destruir e depreciar a luta alheia. Dar a cara pra bater ninguém quer! Adorei a crônica e adorei essa do Roosevelt que eu não conhecia. Vou copiar e guardar.
Abraços!
Rubens, Vila Monumento (leitor da Gazeta e agora do Cruz)

Anônimo disse...

É Cruz, você é mesmo um fascínora, como pode dizer aquilo das pobres mulheres e suas cores, eu sabia que um dia te pegariam, um texto contundente como aquele , não ficaria impune. KKKKKKKKKK

Mas como eu sou seu amigo, não vou virar-lhe as costas, neste momento tão perigoso.

Que venha a véia...estaremos preparados...(será que ela é dautônica?)

Baxo

Anônimo disse...

César

Boa tarde. Gostei bastante do seu blog pela organização e beleza. Seus textos também são ótimos. Gostosos, leves e irônicos. Apreciei essa crônica sobre a fragilidade de quem se atreve a se expor. Essa fragilidade surge em qualquer nível ou tipo de exposição, viu, César! Eu vivi muito isso quando dirigi uma escola... Da-lhe pedradas!

Gostei especialmente das imagens que ilustram os posts do seu blog. Lindas! Muitas falam por sí só. Amei! Destaque para a expressiva foto da história pó, graxa e infância e os guerreiros pó-de-arroz. Parabéns, parabéns e parábéns, pelos textos e pela sensibilidade.

bjo grande a voce
Lucia Yutaka
professora
xxxxxxxx@ig.com.br
Cambuci S.PAulo

Anônimo disse...

Olá César,
Sobre o comentário que a tal Silvia (minha xará!) fez sobre a tal mulher furiosa, te chamando de machão e porco... bom, é uma opinião... mesmo não concordando com a maneira que preferiu fazer isso. O outro que reclamou do texto "Gosto dessa gente".... mesma coisa... é uma opinião. O que quero dizer com isso? Não acho que vc deveria justificar... muito menos supor que eles não "entenderam" o que vc escreveu.... não, não. Como diz um grande escritor sulamericano: “Cuidado, qdo vc começa a escrever vc não tem mais ninguém, só os personagens...esses sim, estarão com vc pra sempre e é com eles o compromisso que vc estabeleceu.... eles serão seus aliados...”
Amei esta reflexão! Faça isso! Deixe que as pessoas fiquem indignadas, não as reprima tentando colocá-las dentro de uma caixa que vc supõe seja a correta. Tô sendo muito transparente com vc? A moça que ficou endiabrada com o seu texto sobre as mulheres, bom, se você parar pra pensar, pelo menos no ponto de vista dela, até que pode fazer um sentido. Provavelmente a leitura que ela fez de seu texto foi: mulher, sinônimo de futilidade. Talvez tenha achado superficial a "mulherzinha" que vc criou no texto, e daí? mesmo que sua intenção tenha sido outra. Eu adoro isso! Não importa! Tenho muito receio qdo a gente tenta se justificar, pode dar uma ideia de repressão. Por isso, não concordo com a maneira q vc expõe isso, mas concordo com muito do que vc disse!
Bjs, Silvia

Cesar Cruz disse...

Olá Silvia! Obrigado por seu comentário. Gostei tanto da polêmica que você levanta, que resolvi responder a você aqui mesmo, coisa que não costumo fazer. Acho que assim será legal, pois todos os leitores se beneficiarão, não é?

Silvia, não é que eu não goste que as pessoas emitam suas opiniões. Gosto sim, mesmo as que vão na linha oposta das minhas crenças. Acho mesmo que devem! E publicarei aqui TODAS elas. Essa diversidade é o que enriquece o debate e a reflexão.

O que me incomoda é a crítica anônima! Poxa, eu queria ter tido a chance de responder àquela mulher, explicar pra ela que, talvez, eu tenha sido mal interpretado, ou ouvir o porquê ela me considerou um porco-machista!

Da mesma forma queria um debate maior com o tal anônimo da crônica "Gosto dessa gente...". A prova que não fujo do debate, e que sou flexível para ouvir críticas e absorvê-las, é a própria crônica "Gosto dessa gente...". Não no texto em si, mas nos comentários. Dê uma olhada e veja! Houve um verdadeiro "quebra-pau" entre mim e meu bom amigo Gabriel!
Bom, definitivamente, o Gabriel não pensa como eu a respeito daquele assunto. Ainda assim somos amigos e nosso debate foi bem engrandecedor e enriquecedor para quem o leu. Dê uma olhada.

Agora, Silvia, pedradas no escuro não! Saí pra lá cramulhão! ahaha!

bjão e obrigado pelo rico debate.
Cesar

Carlos Camargo disse...

Cesar,
Por ironia do próprio Blog, veja que, dos 7 comentários feitos até agora, 6 deles possuem por cabeçalho "Anônimo disse...", ainda que sejam assinados ao final. Já me perguntei porque o Google faz isso nesta opção. Não poderiam eles deixar um pequeno espaço em aberto para escreverem, por exemplo, "Carlos disse...".
Eu costumo e gosto de ler os comentários anteriores, antes de escrever os meus. É prazeroso, aos poucos, reencontrar conhecidos seus que passaram por aqui em crônicas passadas. Eles não são anônimos, porque assinam aquilo que escrevem, por vezes, com apelidos que fazem parte de seu universo. Um universo repartido entre outros leitores. E não são anônimos.
E vai explicar para o Google aquela história do "Anônimo disse...". No máximo eles enviarão uma resposta padrão sem assinatura, portanto, anônima.
Abraço,
Carlos

Gabriel disse...

Oi, meu amigo. Não dirijo a você este meu comentário, mas a Sílvia. Provavelmente ela não vai lê-lo, mas mesmo assim acho que vale o registro.
Parabéns pela sua lucidez e bom senso, Sívia. Algumas mulheres (talvez a maioria, exceto, seguramente, as cinzas mulheres hortifrutigranjeiras) são dotadas desse sentido inexplicável, dessa inteligência sensível que nós, machos, não podemos bordejar nem em sonhos.
Certamente, você é uma dessas mulheres coloridas. Já meu bom amigo Cesar é um cara meio desbotado. Talvez seja o desgaste que vem com a idade. Acho que ele queria ser mulher. KKK!
Abraço,
Gabriel

Carlos Camargo disse...

Cesar,
Pois é, enquanto eu lia sua crônica “Vidraça”, ficava pensando naquela “armadilha dos anônimos” do Google, afinal, acabei me tornando um adepto dos blogs e, desde então, meus amigos desacostumados com as ferramentas do dito me dizem: “Como posso selecionar ‘anônimo disse...’ se eu não sou anônimo?”. E eu sem saber explicar respondo: “Fala pessoalmente até eu descobrir como faz...”. Aliás, foi exatamente por essa razão que eu demorei um tempo para aprender a colocar mensagens em seu blog.
Em tempo, aquela fotografia sobre a qual você fez um comentário, é um cartão postal de uma pintura do séc. 19 (um auto-retrato) de Gustave Courbet. Este cartão está fixado numa parede, entre outros cartões, aqui em casa. Eu estava fazendo uma experiência com um fino feixe de luz sobre as superfícies, quando vi aquele resultado e fotografei.
As outras imagens do blog, com chuviscos brancos, são “sopros” de farinha no espaço, sobre o mesmo feixe de luz. São experiências e tenho gostado dos resultados. O problema é limpar a farinhada que fica no chão depois. A máquina fotográfica fica protegida, mas eu também fico coberto de farinha.
Ah! E obrigado pela sua visita ao Blog.
Abraço,
Carlos