Sobre leitura

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Sem que eu pergunte ou provoque o assunto, algumas pessoas me dizem coisas assim: “Poxa, Cesar, que legal que você consegue ler! Eu adoraria conseguir ler, mas não tenho tempo...”. Outra variação: “Vi a sua lista de leituras lá no seu blogue, poxa, você lê bastante, hein? Eu fico só na vontade, pois tenho filhos, trabalho muito, não acho tempo...”.
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Existe uma outra que não tem relação com o tempo, mas com o custo do nobre lazer: “Que legal ler, né, Cesar? Pena que os livros sejam tão caros... eu às vezes quero comprar um, mas o preço... acabo não lendo.”
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Será que quem me diz isso acha que eu fico o dia inteiro jogando paciência no escritório? Ou que a minha filha é a única que não exige atenção? Ou que fiquei rico e, para disfarçar, dirijo um Uno pela cidade, mas torro, às escondidas, toda a minha fortuna em pilhas de livros todo o mês?
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Acho que as pessoas não pensam nada disso. É pura balela. Elas me dizem essas coisas para, de alguma forma, justificar o porquê de não lerem. O estranho é se sentirem na obrigação de se justificar pra mim. Pô, minha gente, justo pra mim! Parem com isso, por favor! Não estou cobrando nada de ninguém. Muito menos acredito que quem lê é melhor do que quem não lê. Tais coisas, definitivamente, não têm relação.
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Talvez tenha sido só porque comecei a escrever umas baboseiras, que alguns acabaram achando que virei uma espécie de erudito, um intelectual chato, desses que, quando estamos na presença, nos sentimos idiotas energúmenos, sempre devendo em saber e cultura. Credo! Também tenho terror desse tipo de gente... Nada disso. Sou o velho e bom Cesar: um baixinho, careca, remediado e com umas espinhas secas nas costas (que me obrigam a levar no carro uma daquelas mãozinhas de madeira chinesas para alcançar as coceiras inatingíveis).
Sou só isso.
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Outro dia publiquei uma crônica sobre o BBB e acabei reforçando o estigma de “o chato que só lê”. Besteira. Gosto de ler, isso é verdade, mas também adoro assistir a porcarias bem estúpidas na TV, que não exigem o menor esforço mental, mas que são ótimas pra gente refrigerar o cérebro depois de um dia cansativo.
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Pois bem. Isto posto, vamos àqueles raros casos em que a pessoa não está dando desculpas, mas mostrando os reais problemas que o impedem, coitado, de poder se entregar à sua tão desejada paixão: a leitura. Estes, sinto que devo ajudar!
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Comecemos pela questão do tempo.
Quanto tempo temos? Vinte e quatro horas por dia, certo? E você? E o Obama? E eu? Também. Todos. Todos dispomos do mesmo tempo; o tempo é democrático, e cada qual o utiliza como bem quer. Até aí, beleza!, mas como achar tempo livre em meio a tantas tarefas e afazeres? Deixar de trabalhar, de dormir, de brincar com as crianças?
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Tenho duas dicas para lhe dar. Primeira: O que você faz, dentro do carro, durante o congestionamento, naquele anda-pára do trânsito? Sabe o que eu faço? Leio. Sim, leio. Trechinhos curtos, claro. Mas avanço. E avanço melhor que o trânsito, que anda parado. E como saber quando o semáforo abriu? Não se preocupe, o taxista atrás de você o avisará, gentilmente.
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Segunda: O banheiro. O que você faz no banheiro? Sim, pois todos vamos ao banheiro, certo? Pelo menos uma vez ao dia. Quinze minutos? É o que você fica ali, sem fazer nada (por assim dizer)? Viu? Você já sacou! Eu tenho sempre um livro que fica sobre a pia, ao alcance da mão. Detalhe: não é o mesmo livro que fica no carro. Cada um com seu cada um, e cada livro com sua sina.
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Agora, por exemplo, estou lendo dois livros (quase sempre estou lendo dois livros, justamente por isso): “Contos”, de Scott Fitzgerald e “O Presidente Negro”, de Monteiro Lobato. O do banheiro é o segundo, só para que você saiba, caso eu vá te emprestar depois.
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Portanto, se você dirige, anda de trem, metrô, ônibus ou lotação, e se usa o vaso sanitário, aí está a solução! Meia hora de tempo por dia está garantido, e com essa meia hora você acabará lendo dois livros por mês, vinte e quatro em um ano. Já tinha feito essa conta? Caso você more em São Paulo, ou tenha prisão de ventre, esse tempo pode triplicar! Beleza, hein?
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Se a sua questão não é tempo, mas dinheiro, anime-se, pois seus problemas acabaram!
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Mês passado fui de metrô visitar um cliente na Consolação. Na volta, percorri a pé o trechinho final da avenida e tive que usar a tradicional passagem subterrânea que cruza por debaixo da pista, bem em frente ao Cine Belas Artes/ HSBC. Sabe qual é? Acho que ela existe ali desde antes de eu nascer. E já fazia uns quinze anos que eu não passava por ela.
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Apesar de tanto tempo, eu me lembrava que o lugar era apavorante, cheirava fortemente a mijo, era todo pichado, escuro e sempre havia por ali uns tipos mal-encarados e suspeitíssimos que ficavam recostados com os pés apoiados nas paredes úmidas, só de olho nos transeuntes incautos. Era também ponto de encontro de uns puxadores de fumo e moradia de alguns mendigos que, mesmo durante o dia, ficavam espalhados pelos cantos, dormindo enrolados em seus cobertores.
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Tirei o relógio, pus no bolso da calça e desci, espertíssimo. Quando fiz a primeira curva, já no patamar que dobra para o último lance, olhei e... Surpresa! Tudo estava claro e limpo! Havia luz! Terminei de descer e parei, de boca aberta. A parede à minha esquerda estava perfeitamente revestida com acrílico branco, a da direita, toda envidraçada, revelava um jardim de inverno, só que não havia plantas nele, mas quadros. Uma mostra de obras de arte com iluminação dirigida e muito charme. No centro do passeio, uma verdadeira livraria posicionada como uma ilha, com prateleiras; bichos-grilos folheando livros, vendedores cabeludos atendendo... Mas nada daquele ar de Saraiva Mega Store. Não, ali estava preservado o mais legítimo estilo underground paulistano! Que eu, aliás, gosto muito.
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Sabe o que fizeram daquele calabouço? Deram-no na mão de uma cooperativa de livreiros de rua. Vejam só que grande ideia! Perdi uns quarenta minutos lá. Fiz amizade com um dos organizadores, o Maurício, e saí com dois livros: o primeiro de contos, do Cortázar (Todos os fogos o fogo, de 1964) e um do Veríssimo da década de 80 (O analista de Bagé). Sabe quanto gastei? R$9,00 no do Cortázar e R$10,00 no do Veríssimo, total de R$16,00. Ué, que matemática é essa? Calma, é que tive desconto de R$3,00 por pagar em dinheiro.
Ainda acha caro ler?
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Outra boa opção para quem quer ler coisa boa e está duro, são os livros de bolso, conhecidos como pocket books. O termo em inglês é da época em que só havia por aqui versões neste idioma. Agora existem em Português, e são vários títulos. Livros novinhos que custam R$9,00 ou R$10,00 e você os encontra em qualquer banca de médio porte. Pode procurar e verá. Quais títulos? Só os clássicos! Kafka, Dostoevsky, Schopenhauer, Machado de Assis et cetera e tal.
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Caso você, verdadeiramente, não tenha o menor saco para ler, não se avexe! Faça como meu bom amigo Ivan Luiz, que jamais irá ler está crônica pois, de peito aberto e sem pudor, como é seu estilo, me disse assim outro dia: “Ah, não, Cesinha, não me vem com esse papo de ler seu blogue! Prefiro o Mengão da TV!”.
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Cesar Cruz
Abril 2009
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10 comentários:

Anônimo disse...

Opa, essa do banheiro é válida! No meu tenho revistas semanais! Prevalece aquela máxima de gosto duvidoso: "entra o que é bom, sai o que não presta" husauhsahusahusahusa!

beijos
Vera Lúcia
do Ipiranga

obs. te li na Gazeta hoje. Delícia os Rabugentos Precoces! Eu também sou uma delas!

Carlos Camargo disse...

Cesar,
Estou aqui, mergulhado, entre dois saborosos livros, alternando suas leituras, com mais alguns na fila de espera. Isso quando, por causa de meu trabalho, não misturo aqueles teóricos, que possuem outros sabores. Ler é bom demais.
Meu maior problema, se é que isso é um problema, são as prateleiras que vão ficando cada vez mais lotadas. Além de ler, sinto prazer enorme em ter os livros por perto, ainda que fechados depois de lidos, porque todos eles guardam memórias: as dos autores e as minhas.
Abraço,
Carlos
PS. A dica que você me deu do blog "usuariocompulsivo" foi ótima!

Anônimo disse...

É Cesar, cá estou, veio bem ao encontro esse texto, ler é bom, saudável e educativo, claro, dentro daquilo que promova tudo isso, mas... não querendo fugir já fugindo um pouco, todos nós, vamos repetir: "TODOS NÓS" também podemos escrever, mesmo que para a gente seja baboseira, pois, para mais de 90% de quem irá lerá, não será e sabem porque? Porque lá estará escrito algo que acontece comigo, algum detalhe que penso. Será que sou só eu quem faço, penso ou imagino isso? E quando menos imaginamos algum Cesar da vida postou o dito E acima disso aquilo que " E U " escrevo é algo meu, que saiu de mim, de minha autoria e isso é tudo meu irmão, é único, especial, intransferível, pois se mil pessoas escreverem a mesma coisa, ainda assim será diferente, viu como tudo isso é magnifíco? Então gente a desculpa para não ler o Cesar já eliminou agora vamos também começar a escrever, sem medo de ser feliz, mãos as obras, abraços a todos.

xara
ipiranga

Anônimo disse...

César

você esqueceu de falar que quem lê escreve melhor, fala melhor, desenvolve a inteligência, a capacidade de análise, de síntese, a capacidade de organizar idéias, de compreender assuntos de maior complexidade, etc. Outra coisa é que quem lê, abre seu mundinho pequeno para os novos e magníficos mundos que os livros abrem para as pessoas. Li um livro de um presidiário que havia mudado a sua formqa de ver o cárcere graças ao habito da leitura. Ele se refugiava daquela desgraça toda, no mundo dos outros! Os personagens dos livros que lia!

Bejos! Estela Frias – Ipiranga SP

Laguardia disse...

Você deu ótimas dicas sobre achar tempo para leitura. Quanto a falta de dinheiro também existem as bibliotecas de onde você empresta livros sem custos.

A leitura ajuda a imaginação. Você não fica preso ao que a TV apresenta. Um bom livro é sempre melhor do que um programa de TV.

Anônimo disse...

Bom dia césar. Muito boa essa!! rarara as desculpas de que não lê. rarara. Olha, recebi e-mail de um aluno dizendo que gostou do seu blog. motivo: dão boas risadas. É meu amigo, acho que o povo tá "carente" de risada hehhe

Abraços
Alessandro Franco

Majoli disse...

Bem, minha primeira vez aqui e também só li este post, por enquanto, mas gostei muito do jeito que você escreve, simples e prende bastante a atenção da gente.
Eu gosto muito de ler, e achei bastante interessante suas dicas de como ter tempo pra leitura.
Um abraço.

Anônimo disse...

Cesar

o sucesso crescente que esta obtendo é devido a escrever com sentimento, quando escrevemos com sentimento algo fica gravado de alguma maneira no que escrevemos que aqueles que leem sentem e percebem tal, qual e o quanto profundo e importante é tudo aquilo para o autor, e aqueles que se envolvem de alguma maneira, participam, vivem ou já vivenciaram o que ali esta grafado e o que ali esta impresso de maneira inexplicável, sendo assim, caso pudesse pedir-lhe algo, pediria que nunca, mas nunca mesmo deixasse que assim não mais fosse. E isso independen do meio, se é por blog, folha, jornal, rádio etc. É uma coisa mágica, real, envolvente e poderosíssima, inabalável e sem inimigos naturais.

Quando assim escreve abre as janelas da sua alma, sem medo de ser envadida, sem receio de críticas, sem temores de reprovação, sem sentimento de nada, escreve por alegria, prazer, carinho, amor. Faz o que "qualquer um", qualquer ser humano poderia fazer, mas não faz, porque não sei ainda, não achei essa resposta, arriscaria algumas: orgulho, vaidade, medo, inibição, ignorância, ixi... chega.

Abraços
Márcio

Anônimo disse...

Sobre leitura. As pessoas não se exercitaram nesta arte. Digo que ler é como fazer exercício. No começo dói, dá preguiça, mas depois...

As pessoas reclamam do preço dos livros, mas gastam com pizza que no dia seguinte desce na privada. E que tal os sebos? Por que não os visitam?

Abraços,

Ricardo

Elaine disse...

Querido Cesar.

Adorei seu texto e gostaria de dizer que se alguem der a desculpa que nao tem dinheiro vai mais uma boa dica: Sebo.
Aliás, hoje em dia existem até sites de sebos, entao acabaram as desculpas...rs
Beijos meu querido.

Elaine