O Ritual



Conto publicado no portal Mundo Mundano.
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Quando as luzes se apagaram, todos os presentes colocaram seus capuzes e olharam severos na minha direção, justiceiros. Pulei da cadeira e disparei por um corredor que afundava na escuridão, com dois homens no meu encalço. Consegui despistá-los e, cabeceando por entre o breu, entrei por uma porta e me refugiei ali. Um recinto pequeno. Girei uma tranca protegendo-me pelo menos temporariamente de meus algozes: homens, mulheres e até mesmo crianças. Seres embrutecidos e desumanizados, tomados pelo ópio místico de uma vã doutrina que sobrepuja a razão.

Com as costas contra a porta, ofegante, fiquei me lembrando dos instrumentos que vi sobre a mesa. Eu teria pouco tempo. Logo bateriam na porta; primeiro pedindo, como num simulacro de civilização, depois gritando e por fim arrombando, se preciso fosse.

A luz fraca da Lua que entrava através do basculante permitia-me começar a enxergar alguma coisa ao redor. Ladrilhos, pia e privada. Eu estava num banheiro. Flagrei minha imagem refletida num espelho. A pele azulada pelo pavor, da cor dos lábios. A imagem de um homem confrontado com o seu dia, o dia que marcaria – se eu me deixasse apanhar – o início do fim.

No reflexo, pálpebras já mais flácidas que outrora, vincos horizontais na testa, uma falta significativa de cabelos e a leve papada sob o queixo. Essa degradação física já não me bastava como penitência? Senti o peso dos anos, todos, simultaneamente despejados sobre minha cabeça num único instante. A ampulheta da vida até agora aparentemente estagnada, começava enfim a deixar precipitar sua areia para a âmbula inferior.

Achei ter ouvido um estrondo metálico, cavo. A monumental engrenagem que finalmente começava a se mover. O Tempo, essa poderosa força motriz querendo galopar por sobre mim, rio furioso que carrega os dias. Um animal arrastado pela enxurrada, era assim que eu me sentia.

Batidas brutais, socos enfurecidos na porta arrancaram-me de meus pensamentos.  Eu não conseguiria escapar, no fundo eu sabia. Pela escotilha envidraçada, cabeças deformadas se espremiam para me olhar. E não havia por perto nada que servisse como arma. Contudo, não adiantaria mesmo lutar, eu reconhecia o fato; eram muitos, dezenas deles. Não haveria acordo possível. Contra as tradições e os dogmas não há monções. Sentei-me contrito num canto junto ao vaso, abraçado aos joelhos.

Do lado de fora, o hino da morte começava a ser entoado em uníssono. Os lampejos de luzes nas paredes revelavam trechos dos azulejos antigos. Imaginei-os cavaleiros encapuzados, empunhando luzeiros, tochas medievais. Ordens se fizeram ouvir: Abra! Abra logo! O trinco sendo forçado repetidas vezes, com fúria.


Búfalos desnorteados, agora eles roncam enlouquecidos do outro lado, e então a porta se escancara violentamente e vejo duas dúzias de mãos ávidas, decididas se precipitarem sobre mim; e me tiram dali e vão me arrastando pelo corredor, suspenso no ar, as pontas dos sapatos resvalando o chão.

Não! – eu grito em vão – Não quero!

Chegamos ao patíbulo, à sala do ritual, escura. Todos silenciam repentinamente. Uma mulher, a líder, surge por entre as pessoas e enfia na minha cabeça um capuz piramidal. Em seguida, acende duas chamas sobre a mesa coberta por instrumentos. Como num sonho, percebo que há objetos inflados e disformes ao redor. Há números, estranhos números sob as chamas.

Quarenta, enxergo então, quarenta!, e o número se repete e sinto bater forte em minha cabeça. Quarenta! Não quero!, eu grito de novo, e me sacudo furiosamente enquanto as garras dos rudes me apertam ainda mais, e com as faces distorcidas pela luminosidade bruxuleante, gargalham em esgares medonhos.

Fecho meus olhos e tudo roda, o cântico volta a ser entoado ensurdecedoramente e os aplausos ritmados parecem celebrar o meu declínio. Arrastam-me enfim até junto à mesa, e uma faca brilha sob a tênue luz. Subjugado pelas mãos que me forçam pela nuca, cara a cara contra o calor, é chegada a hora derradeira. A inquisição, a purificação pelo fogo, sempre o fogo...

Contudo, eu ainda vivo! E vivo ouço os urros insanos das hienas que riem e aplaudem:

Assopra! Assopra!


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Cesar Cruz
Set. 2010
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11 comentários:

Cacá disse...

Leiua a Vida do Bebê, Segunda Parte para aliviar a barra desse rito de passagem. hahahha! Brincadeiras, à parte, César, Parabéns (eu vi que sua idade mudou por esses dias) Alegrias, saúde muita e que nunca se sinta um homem sitiado, como nesse belo conto. Meu abraço. Paz e bem.

Silvia Loio disse...

Absolutamente maravilhoso Cesar! AChei que fosse uma caçada a um pobre homem para um ritual satanico, mas não consegui compreender algumas coisas. Só no finalzinho fui entender. Muito, muito bom. Ler de novo depois de entender a base da história deu a mim então a compreensão plena. Ah, agora sim! Um conto de mestre! Meus parabéns Cesar!

Silvia
Cambuci

angela disse...

Quase morri de medo e de horror! E cá entre nós me sinto meio assim nos meus aniversários...rsrs
beijos

pensandoemfamilia disse...

Olá
Que conto! Medo e horror neste ritual de passagem, enfim é como o deseja expressar.

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro, Cesar Cruz, continuo achando as tuas narrativas um exercício constante de aprendizado no campo do conto. Neste texto, por exemplo, percebo que a tua forma de narrar que, apesar de ser linear, ganha muito na construção sintática de uma prosa barroca/moderna que quer se impor. Contudo, meu caro amigo, sem querer ser professor, reveja a questão do narrador onisciente da tua prosa, às vezes ele interfere muito no andar dos personagens, não sei se é bom ou não, mas a sensação que nos deixa é de que estes seres que povoam teu universo contístico não têm vida própria e eles precisam ter.

Um abraço fraterno,

Emerson

DEVA disse...

Uau! Que conto Cesar!

E que perspectiva para um aniversário! rs

A ampulheta do tempo é cruel. Espera estarmos mais preparados, termos mais experiência e discernimento e aí nos diz que nos resta pouco. Lamento por a vida ser tão curta. Tenho a impressão que não dá tempo de realizar tudo.

Contudo, não vejo o envelhecer como algo ruim, apesar de todos os males. Só acho que poderia demorar mais para tal acontecer. Ruim mesmo é sentir-se velho. Se acomodar e não desfrutar as coisas pelo caminho.

Ah... Li alguns contos do Cortázar e do Rubião. Incríveis. Procurei no sebo daqui e não achei nada, to juntando dinheiro para comprar um livro.
Já tinha lido ‘O ex-mágico da Taberna Minhota’ no colegial. Lembro de ter adorado. Mas sabe como é adolescente né...

Beijos
Deva

Gabriel Fernadnes disse...

Pombas, Cesar, sensacional. Uma inspiração (ou uma piração) diabólica. Sem dúvida seu melhor texto. Você está pronto para escrever qualquer coisa sobre qualquer assunto. Parabéns.
Abraço,
Gabriel

Pedro Luso de Carvalho disse...

Cesar,

Está muito bom o seu conto "A Ampulheta", no qual vi a história ser contada de forma realista, com os tons cinzas que condizem com a fase em que, na ampulheta, resta pouca areia na sua parte superior, anunciando o final desta aventura, para a qual não pedimos para participar.

Grande abraço,
Pedro.

Martha Castello disse...

Cesar,

Esse me deixou desconcertada. Por um momento não entendi e voltei a ler. Depois li o comentário de seu amigo sobre o ritual de passagem. Aí clareou. A imagem assustadora do “parabéns” é demais!

beijos
Martha

Tais Luso disse...

Poxa, Cesar, depois desta não quero relógios, ampulhetas, nenhum contador do tempo... Deixe-me na ilusão, fantasiosa, de que a hora está longe. De que o mundo parou.
Beijos
Tais luso

ju rigoni disse...

Só uma palavra para definir teu conto: genial!

Bjs, Cesar, e inté!