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Distúrbio




Todos os dias acordávamos cedo como de costume. A Maria fazia o café, esquentava o leite e passava manteiga nos pães. Eu acordava nossos filhos para que se preparassem. Depois do café, as roupas trocadas e os dentes escovados, saíamos. Eu para a lavanderia e os meninos para a escola. Maria permanecia em casa para suas atividades regulares.

A noite todos estávamos reunidos novamente. Então jantávamos. Posteriormente, cada qual se dedicava aos seus afazeres noturnos. Os meninos às tarefas escolares, eu lia um livro e Maria lavava as louças do jantar. A televisão, assistida ou não, permanecia sempre ligada.

Mais adiante havia os banhos de cada um e, por fim, o sono merecido.

A um homem cabe o trabalho, trazer para a casa o soldo. A uma esposa a manutenção da ordem do lar, o preparo dos alimentos e o cuidado dos filhos. E aos filhos, o juízo e a responsabilidade nos estudos e na boa condução de sua juventude, que se sabe, sempre propensa a desequilíbrios e disfunções.

Todas as coisas estavam em seu lugar em nossa vida, e a cada qual cabia sua parte. E eu entendia que todos estavam de acordo com a ordem das coisas. Uma família é um mecanismo, como meu pai me ensinou, lição aprendida com meu avô. Há de funcionar com precisão se for bem fornida de insumos, substratos e regras claras, que permitam a correta tração de suas engrenagens.


Aparte disto, Maria vinha se queixando que a casa estava muito escura havia algum tempo. Era fato que havia mesmo certa penumbra na casa, e por vezes mal conseguíamos nos ver. Apliquei, assim, nova pintura de tinta branca às paredes.

Todavia, Maria prosseguiu reclamando, e me vi obrigado a intervir.

Fui à cozinha, pousei as mãos sobre seus ombros e olhei nos seus olhos, transmitindo-lhe segurança. Expliquei-lhe que aquela escuridão, que a ela parecia excessiva, era mais aparente do que real, e boa parte se devia ao fato de que o inverno tinha vindo com força naquele ano, e que não deveríamos nos preocupar com aquilo, visto que coisas assim, preocupações infundadas, poderiam quebrar a harmonia da casa e induzir ao rompimento dos estatutos do lar, por parte dos meninos.

Maria então se calou, compreendendo que eu estava com a razão, como sempre estivera.

As coisas corriam bem em nossa família, como esperado.

Todos os dias acordávamos cedo como de costume. A Maria fazia o café, esquentava o leite e passava manteiga nos pães. Eu acordava nossos filhos para que se preparassem. Depois do café, as roupas trocadas e os dentes escovados, saíamos. Eu para a lavanderia e os meninos para a escola. Maria permanecia em casa para suas atividades regulares.

A noite todos estávamos reunidos novamente. Então jantávamos.


Desgraçadamente, como eu alertei Maria, qualquer pequeno lapso pode ser indutor do desvirtuamento, e de fato foi...

Numa manhã, depois que todos havíamos comido nossos pães, tomado nosso leite e escovado nossos dentes, me dirigi à sala e me abaixei para pegar a maleta no canto do sofá, como sempre fazia. Foi então que vi o menino mais velho se precipitando e destrancando, inadvertidamente, a porta que dava acesso à rua. Ainda tentei gritar, alertando-o para que não fizesse tal coisa, mas não houve tempo.

Vi quando a pesada folha rodou nos gonzos se afastando minimamente do batente, deixando entrever o calçamento da rua. Olhei para trás e Maria estava estacionada sob a abóbada do corredor, a boca aberta pronta a proferir a advertência que não proferiu, as mãos paradas no ar num gesto de impedimento.

O menino, conscientizando-se de seu erro, lançou-se contra a porta conseguindo fechá-la. Passou as trancas de aço e se recostou na madeira, os olhos cheios de medo, lacrimejantes, o peito subindo e descendo. Olhou para mim e para Maria, depois novamente para mim. Ninguém disse palavra alguma.

Então lá fora se ouviu um ruído estúpido, descomunal. A casa de repente foi tomada por uma densa escuridão, e sentimos tudo vibrar num sismo poderoso.

O distúrbio, eu disse, me segurando pelas coisas e olhando-o sem rancor, mas com tristeza. O distúrbio, pai, o distúrbio!, ele gritou, chorando, a cara uma máscara congestionada. Maria baixou a cabeça e levou as mãos ao rosto. Nosso menor veio se proteger junto às nossas pernas e ali ficamos por um tempo que não posso precisar.


O tremor produziu a rachadura inicial, que começou a partir da porta e veio ziguezagueando, trincando o chão em uma fenda fina que se abria estalando como gelo jogado na água, até passar por entre nossas pernas e avançar pelas sombras do corredor.

Nunca mais vou me esquecer daquele momento.

Nos seguramos uns nos outros. Lembrei-me do conto de Borges, quando senti o lenço silencioso do estrangulador enrodilhar-me o pescoço.

O menino mais velho, envergonhado, distanciou-se da porta correndo ao nosso encontro. Éramos agora um grupo coeso e forte, mas Maria lembrou que era demasiadamente tarde, o distúrbio já estava instaurado, e eu os abracei com força dizendo que não, não, haveria de ter uma saída.

A rachadura entre nós foi se alargando, e o som agora não era mais de gelo trincado, mas de trovão. Pedaços do assoalho de madeira foram sendo tragados, brinquedos dos meninos que se achavam por ali, um tapete, a mesa do telefone, foram engolidos. Vimo-nos inclinados uns sobre os outros como bêbados, um abismo entre nós, e tivemos que nos soltar para que não caíssemos, e o ruído gutural e contínuo não permitia mais que ouvíssemos nossos choros e lamentos.

Não fosse pela fraca luminosidade do dia nublado que se infiltrava pelo teto e pelas paredes partidas, não conseguiríamos nos ver em meio à névoa cinzenta.

Olhei para baixo e a fenda já revelava um precipício, um vale de sombras que não se via o fundo; e para um lado acabei eu e para o outro Maria e os meninos abraçados a ela, os três ajoelhados; e então ela me olhou nos olhos, profundamente triste, e pareci vê-la balbuciar “o distúrbio, o distúrbio...!” e esticou o braço para que nos tocássemos mais uma última vez que fosse, mas nossos dedos, como o dedo de Deus e de Adão no afresco de Michelangelo, não conseguiriam se achegar, apartados por uma ínfima distância que começou a aumentar rapidamente quando o ronco e o tremor se tornaram mais fortes.

Acachapado, me detive vendo-os se afastarem. Agora já éramos partes de continentes distintos, e eles iam pequeninos ao longe, já sem faces, uma massa única, unidos como um mero borrão silencioso, que logo desapareceu no horizonte.



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Cesar Cruz
Fev. 2011




Imagem: O Cubo de M.C. Escher - obra representada em computação gráfica.
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O Ritual



Conto publicado no portal Mundo Mundano.
Acesse a partir do logo à esquerda. E clique na foto do Cruz.


Quando as luzes se apagaram, todos os presentes colocaram seus capuzes e olharam severos na minha direção, justiceiros. Pulei da cadeira e disparei por um corredor que afundava na escuridão, com dois homens no meu encalço. Consegui despistá-los e, cabeceando por entre o breu, entrei por uma porta e me refugiei ali. Um recinto pequeno. Girei uma tranca protegendo-me pelo menos temporariamente de meus algozes: homens, mulheres e até mesmo crianças. Seres embrutecidos e desumanizados, tomados pelo ópio místico de uma vã doutrina que sobrepuja a razão.

Com as costas contra a porta, ofegante, fiquei me lembrando dos instrumentos que vi sobre a mesa. Eu teria pouco tempo. Logo bateriam na porta; primeiro pedindo, como num simulacro de civilização, depois gritando e por fim arrombando, se preciso fosse.

A luz fraca da Lua que entrava através do basculante permitia-me começar a enxergar alguma coisa ao redor. Ladrilhos, pia e privada. Eu estava num banheiro. Flagrei minha imagem refletida num espelho. A pele azulada pelo pavor, da cor dos lábios. A imagem de um homem confrontado com o seu dia, o dia que marcaria – se eu me deixasse apanhar – o início do fim.

No reflexo, pálpebras já mais flácidas que outrora, vincos horizontais na testa, uma falta significativa de cabelos e a leve papada sob o queixo. Essa degradação física já não me bastava como penitência? Senti o peso dos anos, todos, simultaneamente despejados sobre minha cabeça num único instante. A ampulheta da vida até agora aparentemente estagnada, começava enfim a deixar precipitar sua areia para a âmbula inferior.

Achei ter ouvido um estrondo metálico, cavo. A monumental engrenagem que finalmente começava a se mover. O Tempo, essa poderosa força motriz querendo galopar por sobre mim, rio furioso que carrega os dias. Um animal arrastado pela enxurrada, era assim que eu me sentia.

Batidas brutais, socos enfurecidos na porta arrancaram-me de meus pensamentos.  Eu não conseguiria escapar, no fundo eu sabia. Pela escotilha envidraçada, cabeças deformadas se espremiam para me olhar. E não havia por perto nada que servisse como arma. Contudo, não adiantaria mesmo lutar, eu reconhecia o fato; eram muitos, dezenas deles. Não haveria acordo possível. Contra as tradições e os dogmas não há monções. Sentei-me contrito num canto junto ao vaso, abraçado aos joelhos.

Do lado de fora, o hino da morte começava a ser entoado em uníssono. Os lampejos de luzes nas paredes revelavam trechos dos azulejos antigos. Imaginei-os cavaleiros encapuzados, empunhando luzeiros, tochas medievais. Ordens se fizeram ouvir: Abra! Abra logo! O trinco sendo forçado repetidas vezes, com fúria.


Búfalos desnorteados, agora eles roncam enlouquecidos do outro lado, e então a porta se escancara violentamente e vejo duas dúzias de mãos ávidas, decididas se precipitarem sobre mim; e me tiram dali e vão me arrastando pelo corredor, suspenso no ar, as pontas dos sapatos resvalando o chão.

Não! – eu grito em vão – Não quero!

Chegamos ao patíbulo, à sala do ritual, escura. Todos silenciam repentinamente. Uma mulher, a líder, surge por entre as pessoas e enfia na minha cabeça um capuz piramidal. Em seguida, acende duas chamas sobre a mesa coberta por instrumentos. Como num sonho, percebo que há objetos inflados e disformes ao redor. Há números, estranhos números sob as chamas.

Quarenta, enxergo então, quarenta!, e o número se repete e sinto bater forte em minha cabeça. Quarenta! Não quero!, eu grito de novo, e me sacudo furiosamente enquanto as garras dos rudes me apertam ainda mais, e com as faces distorcidas pela luminosidade bruxuleante, gargalham em esgares medonhos.

Fecho meus olhos e tudo roda, o cântico volta a ser entoado ensurdecedoramente e os aplausos ritmados parecem celebrar o meu declínio. Arrastam-me enfim até junto à mesa, e uma faca brilha sob a tênue luz. Subjugado pelas mãos que me forçam pela nuca, cara a cara contra o calor, é chegada a hora derradeira. A inquisição, a purificação pelo fogo, sempre o fogo...

Contudo, eu ainda vivo! E vivo ouço os urros insanos das hienas que riem e aplaudem:

Assopra! Assopra!


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Cesar Cruz
Set. 2010
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Motivos

Conto publicado no Jornal do Cambuci e Aclimação*
Fevereiro de 2010.
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Alípio Jorge do Nascimento acordou com uma sensação diferente. Dentro de si, agora, subitamente, passara a dar valor às coisas de fato importantes. Sempre ouvira isso: “O valor das coisas importantes”, mas agora, só agora, podia verdadeiramente compreender a profundidade abismal que havia entre o supérfluo e o essencial.

Ainda deitado na cama, com os olhos apenas ligeiramente abertos, vitimados pela sonolência, foi atingido por um impulso incontrolável de espichar o corpo, bocejar. Entretanto, refletiu, do que serviria um bocejo e uma espreguiçada, quiçá para aliviar a tensão acumulada num corpo que nem havia sido de fato exigido, já que esteve por sete horas em repouso? Considerando tal atividade desimportante, efêmera, eximiu-se de fazê-la. Sua mão esquerda, quase que automaticamente, foi ao interruptor do abajur para acendê-lo, mas, subitamente, estancou. Por que acender a luz? Para enxergar um quarto onde se sabia exatamente a localização das coisas? Atitude inútil aquela, evidentemente. Recusou-se a realizar atividade tão desprovida de importância. Aborrecido, sentou-se na cama e calçou os chinelos, até que atinou com a futilidade de tal gesto. Calçar-se-ia para ir à cozinha tomar café; depois poria uma roupa séria e iria para o emprego; posteriormente retornaria a casa para comer; finalmente dormir; e então começaria tudo de novo. Negava-se a se dedicar a uma sequência tão ordinária de afazeres. Precisava achar algo que valesse a pena realizar
Voltou a se deitar.

Dentro dele uma ânsia desconhecida se avolumava. Onde estaria o motivo primordial, o porquê para que tudo, todas as efemeridades que esteve praticando ao longo de toda uma vida, se justificassem? Logo se deprimiu, pois a resposta não veio. Não conseguiu encontrar motivos para nada. Trabalhar, estudar, comer, dormir, amar. Para quê? Qual a finalidade derradeira de tudo aquilo, ó Deus? Tudo lhe parecia sem préstimo, oco, despropositado.

Ainda deitado, correu a mão para a gaveta do criado-mudo. Abaixo de alguns papéis o trinta-e-oito permanecia lá, em sua robustez metálica. Por que tinha adquirido aquela arma? Segurança? Ora, segurança! Para que segurança? Para não morrer, vítima dum latrocínio? Às favas com essa besteira! Não havia utilidade para isso, já que a própria vida era, nada mais nada menos, que um conjunto louco de tarefas e paixões vãs.

Pegou a arma. Meteu o cano frio na boca.

As mãos segurando a coronha e os dois polegares pousados sobre o gatilho. Como alguém que sorve um milk shake num canudo grosso, permaneceu ali, parado, bicudo, pensando. O chumbo atravessaria seu palato e explodiria com aquela caixa produtora de irrelevâncias que se convencionou chamar de mente humana...

Mas... qual a utilidade disso? Sem resposta, exonerou-se de tão frívola tarefa. Não via proveito. Tirou o cano da boca.  Deixou a arma cair sobre o colchão. Os braços penderam ao lado do corpo, desanimados. As pálpebras desceram, sonolentas e entediadas. Afinal, para que ficariam abertas?

E assim adormeceu, levianamente.
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Cesar Cruz
Janeiro 2010
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Imagem: Obra de M.C. Escher (1898 - 1972).
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O homem suprimido

Conto publicado no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Edição 1141 - Agosto 2009.
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Conto publicado na Gazeta do Ipiranga*
Edição 2603 - Agosto de 2009.
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Acordou às 6 horas como de costume. Abriu os olhos e fitou o teto. Achou que algo estava estranho com sua visão, como se estivesse enxergando apenas por uma vista. Talvez fosse mais um efeito da desilusão.
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Piscou algumas vezes, mas nada mudou. Levou a mão ao rosto e foi então que percebeu. No lugar onde deveria estar seu olho esquerdo havia apenas uma cavidade. Correu para o banheiro, coração aos saltos. Acendeu a luz e olhou-se no espelho. Não acreditou no que viu. Faltava-lhe um olho. No lugar do olho havia um buraco escuro. Teve arrepios. Estremeceu de horror. Moveu a pálpebra que desceu sobre o vão oco como uma cortina amarrotada, frouxa. Só então gritou, apavorado. Mas o berro não o acordou como ele pensou que fosse acontecer. Não era um pesadelo, era um fato; seu olho desaparecera. Apoiou as mãos na bancada, curvou a cabeça e chorou. As lágrimas saiam pela vista que lhe restara e pingavam no mármore da pia.
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Enfim acalmou-se. Depois se banhou e tomou café sem apetite. Vestiu-se. Saiu para o trabalho usando óculos escuros, apesar do dia nublado. Explicaria a todos que era uma conjuntivite. Isso caso reparassem, o que era improvável. Depois marcaria com um especialista em olhos.
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No fim da manhã, enquanto redigia um relatório, sentiu uma violenta ardência num dos pés. Foi ao banheiro mancando, sentou na privada, descalçou o sapato, puxou a meia pela ponta e foi então que viu. No lugar dos dedos do pé havia apenas tocos curtos e ossudos. Seu coração pulou. Sumiram-lhe os dedos! Largou tudo como estava, pegou apenas a carteira e saiu sem avisar ninguém. Entrou num táxi e foi pra casa.
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No meio do trajeto sentiu um estampido seco num dos ouvidos que lhe obstruiu a audição. Os óculos cairam. Pôs a mão na orelha e não a achou. Olhou-se no espelho retrovisor do táxi e só então compreendeu. Sua orelha havia desaparecido! Tomado de terror, levantou as golas do paletó e solicitou ao chofer que estacionasse imediatamente. Vagou pela rua desacorçoado.
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O céu ficou negro como a noite. O tempo fechado trouxe chuva forte, trovoadas. Era hora do almoço. Ele caminhava à deriva pela calçada sob a tempestade, por entre os transeuntes apressados e desinteressados. Subitamente sentiu pesar um ombro. Foi quando percebeu que a manga esquerda do paletó estava caída ao lado do corpo, vazia, murcha. Seu braço extinguira-se. Perdera um braço inteiro!
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Com muito custo conseguiu chegar em casa, atabalhoado, ensopado, abatido. Entrou. Fechou a porta atrás de si com o braço que lhe restava. Cheio de autocomiseração, coxeou até o sofá e mergulhou de barriga afundando a face já sem nariz numa almofada. Despedaçado, chorou e soluçou. No trajeto até em casa havia perdido um pé, o nariz e os dentes. Em meio ao choro convulsivo, nem percebeu quando sua perna direita desapareceu totalmente, em um sonoro plopt!. Prostrado assim, adormeceu.
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Sonhou que acordava em pânico pela manhã. Havia sido acometido por um terrível pesadelo, no qual era gradualmente desapropriado de seu corpo, como se suas partes estivessem sendo abduzidas uma a uma...
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Então alegrou-se. Fora um sonho! Abriu a janela e havia sol forte esquentando o dia. Foi ao espelho do banheiro e fitou seu rosto corado, completo. Em seguida apalpou o corpo todo, de cima abaixo. Riu alto e satisfeito, jogando a cabeça para trás.
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Acordou, de repente. Escuridão absoluta.
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Estava de volta ao pesadelo, ou a vida real; não sabia mais. Procurou mover o braço para apalpar o olho que achava que ainda lhe restava, mas não havia mais braço para fazê-lo. Tentou gritar por socorro, mas não saiu som, pois já não havia mais boca.
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Rolou do sofá na escuridão e caiu de costas no chão em um baque seco. Lutou, balançou-se e conseguiu virar de bruços. Arrastou-se sem rumo pela sala como uma rã, auxiliado pelo membro que lhe restara. Um novo plopt! fez sumir sua perna esquerda, a última alavanca de que dispunha. Agora ele era apenas dorso e cabeça. Tentou tracionar o chão com o queixo para avançar. Mais um plopt! e seu tronco desapareceu.
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Então ficou ali, no chão da sala. A bochecha colada ao carpete. As duas cavidades occipitais assustadas e vazias fitando o pé da mesa à sua frente.
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A tempestade lá fora acalmara consideravelmente. Garoava de leve agora. Fazia frio e ventava.
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Ele ainda pode ouvir, através da orelha que lhe sobrara, as gotas da chuva chocando-se contra a janela.
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Cesar Cruz
Agosto/ 08
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*crédito dos parceiros no rodapé do blogue.
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Guarda-chuvas

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Sempre me causa curiosidade quando ouço alguém falar que perdeu um guarda-chuva. Só se ouve isso e nunca o contrário. É raríssimo alguém relatar que encontrou um perdido. De dez perdidos só um é encontrado. Estranho... muito estranho... Nunca comentei com ninguém, mas intimamente, sempre acreditei que devesse existir em alguma parte, um local onde todos os guarda-chuvas estariam refugiados, escondidos. Todos eles.
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Agora são exatamente 4h23 da madrugada de uma quinta-feira que deve revelar seus primeiros raios de sol dentro de poucas horas. Minha mulher dorme lá no quarto e nem imagina que nossa vida sofrerá uma reviravolta daqui a pouco. Após escrever esta carta, vou acordá-la e fugiremos antes do amanhecer com poucos pertences e as roupas do corpo, deixando tudo para trás.
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O relato que segue esclarecerá o motivo de tão radical atitude. Apesar de parecer absolutamente surreal, o que você vai ler a seguir é a mais pura verdade. Eu possivelmente não acreditaria caso isso me fosse contado, mas não posso deixar de registrá-lo, ainda que o amigo, seja você quem for, possa duvidar da sua veracidade.
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Moro no décimo primeiro andar de um prédio na zona sul da cidade de São Paulo. As madrugadas aqui são tranquilas, pois além da minha rua ser sem saída, o que dificulta a movimentação de carros barulhentos, a altura que me encontro do solo dissipa boa parte das ondas sonoras indesejáveis. Entretanto, há aproximadamente três horas, aconteceu que fui acordado por ruídos esquisitos, ruídos de vozes, como se fossem centenas, milhares de vozes reunidas. Perdi o sono. Olhei o relógio sobre a mesinha ao lado da cama: 1h30 da madrugada. Apurei os ouvidos e no silêncio da madrugada pude perceber pelo abafamento, que o som parecia partir de um local fechado. Assemelhava-se à torcida de um estádio lotado, envasada dentro de alguma caixa gigante. Mas como? Na região onde moro não há estádios ou ginásios fechados, além do mais, como poderia ser isso em plena madrugada de um dia de semana?
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A curiosidade, como a lava ardente de um vulcão, movia-se lenta e incontrolavelmente dentro de mim. Levantei da cama sem fazer barulho para não acordar minha mulher. Vesti minha jaqueta de lona por cima do pijama, calcei um tênis e saí de casa. Já na rua, em meio ao nevoeiro gélido, fui seguindo o som, disposto a descobrir de onde vinha e do que se tratava. Coloquei o capuz e fui andando, abraçado a mim mesmo.
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Virei na primeira rua à esquerda e me encaminhei até o seu final. Havia ali uma escadaria que eu nunca havia percebido que existia nas minhas andanças diurnas. O som agora estava mais forte, retumbante. Parecia mesmo se tratar de um grande ajuntamento de pessoas.
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O frio queimava minha pele, da minha boca ofegante saia densa fumaça. Parei um pouco a pensar; observei durante alguns instantes a íngreme sucessão de degraus que parecia sumir no breu e na névoa. Resolvi descer. Venci o longo escadão até a metade. Cheguei a um patamar de concreto que era como uma pequena pausa antes do início da segunda metade da descida. A escuridão e a neblina causavam um efeito assustador. Dali podia-se avistar toda a parte baixa do bairro e os telhados das casas. Localizei finalmente de onde vinha o som. Saía de um grande galpão que foi no passado um conjunto de quadras anexas a um colégio que havia partido dali há tempos. No local edificaram um prédio de escritórios, obviamente vazio naquela hora. O galpão, que deveria ter em torno de cinco mil metros quadrados de área, já há muito estava para alugar, desocupado. Pelo menos até onde eu sabia...
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Resolvi ficar por ali mesmo. Me alojei num ressalto de cimento, que parecia uma pequena banqueta; abracei firmemente minhas pernas para me proteger do frio cortante. Enterrei o queixo entre os joelhos e fiquei a escutar. Da minha posição dava para visualizar, por uma fresta no telhado de zinco da quadra, uma movimentação de homens baixos; baixos e aparentemente muito magros. Levei a mão ao bolso interno da jaqueta e peguei os óculos que havia trazido. Coloquei-os e... Não acreditei no que meus olhos estavam vendo! Meu coração saltou no peito, o medo do desconhecido me invadiu de forma avassaladora. Aquele mesmo medo que sentimos quando somos meninos e temos que encarar um quarto escuro, cheio de sombras.
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A movimentação de formas que meu cérebro queria negar que estivesse processando, não era de homens baixos e magros como eu acreditara, era de guarda-chuvas! Centenas, milhares deles!
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Consegui segurar o grito de horror que quis escapar de minha garganta, mas entrei em estado de choque. Tonteei e quase cai, meu corpo tremia dos pés à cabeça. Pisquei os olhos por várias vezes, com força, e sacudi a cabeça, para me manter lúcido e consciente. Por fim consegui vencer o descontrole e permaneci ali, petrificado, observando o que parecia ser um encontro, um insólito encontro de guarda-chuvas.
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Meus pensamentos atordoados foram interrompidos por uma voz que chegou varando a noite e ecoando pela escuridão até encontrar meus ouvidos. Apurei a audição atento, e, acreditem ou não, o que detalho a seguir não é nem mais nem menos do que a exata reprodução da verdade.
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- Boa noite senhoras e senhores! – disse, de cima de um palco de madeira, um dos guarda-chuvas que empunhava um microfone. - É um prazer incomensurável contar com a obsequiosa presença de todos os senhores aqui. Como todos já sabem, hoje estamos nos reunindo para deliberar em torno de um único assunto, porém de enorme relevância.
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Por um outro vão, mais à esquerda, eu podia ver outros guarda-chuvas que adentravam atrasados ao recinto e iam se assentando em esbeltas cadeiras. Nunca vi cadeiras tão magras como aquelas - possivelmente cadeiras próprias para guarda-chuvas. Alguns se exibiam abertos e agitados, outros fechados e mais tímidos. E o guarda-chuvas locutor prosseguiu:
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- Sem mais delongas senhores! Vamos logo à proposição que nos traz aqui.
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A insólita assembléia de guarda-chuvas estava em silêncio total. Nem um crispar de varetas podia-se ouvir, nem um único abrir e fechar de lonas. A atenção era absoluta. O guarda-chuva mestre de cerimônias continuou:
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- Pela contagem que me chega às mãos, estamos com um público de trinta mil companheiros articulados reunidos neste recinto; fato que por si só já é uma vitória! Que maravilha! Não temos nem lugares para todos!
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A audiência desmoronou em assovios, gritos e abres e fechas. Do meu privilegiado e insuspeitado observatório, podia ver os trajes que usavam. Alguns vestiam cinta de velcro e capa abotoada, outros mais velhos, usavam com cores mais sóbrias, estampas xadrezes e alça de madeira de lei, além de grandes ponteiras metálicas; sem falar nas sombrinhas também presentes: moçoilas floridas em cores alvissareiras. Algumas mais atrevidas, usavam roupagem sexy, semitransparente, pouco adequadas a evento tão austero.
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- Senhores, por gentileza! Vamos nos aquietar! Antes do pleito temos que expor todos os pormenores para que possamos votar com probidade e assertividade, para isso vou passar a palavra ao brilhante companheiro e nosso inspirado mentor, Teobaldo! Palmas, por favor!
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Seguiu-se uma longa ovação, enquanto Teobaldo subia ao palco e se preparava. Após alguns minutos, o tal guarda-chuva, modelo antigo e de vestes clássicas, pôs os óculos, empunhou o microfone e começou:
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- Senhoras e senhores guarda-chuvas aqui presentes, serei direto para que possamos partir logo para o plebiscito. Peço a todos que acompanhem atentamente o que vou dizer, pois enumerarei tópicos que deveremos analisar profundamente antes de colocarmos nossos votos na urna. Lembrem-se que, neste mesmo instante, outra centenas de reuniões como esta estão acontecendo no país todo e...
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Meu sangue congelou nas veias. O que estariam armando tantos guarda-chuvas reunidos na calada da noite pelo país todo? O tal plebiscito seria para decidir exatamente o quê? Pensei em ir à polícia, mas me contive e continuei a ouvir.
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Teobaldo então iniciou:
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- Tópico No 1: de todos os objetos de uso pessoal dos homens, somos o mais antiquado e o único, juntamente com o lápis, que não sofreu evolução alguma nos últimos trinta anos. Vejam que nem entramos na era da eletrônica ainda! Até mesmo nossos nomes e nossa forma de falar são antiquadas!
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O burburinho se reinstalou novamente. Todos falando ao mesmo tempo, uns concordando, outros protestando.
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- TÓ-PI-CO No 2! Gritou Teobaldo, salientando cada sílaba, com o intuito de aplacar os ânimos. Então prosseguiu:
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- Somos o artefato mais tradicional do mundo ainda em uso! Os fósseis mais antigos dos nossos ancestrais datam de três mil anos! Ainda assim, temos sido relegados a um canto, alijados dos melhores lugares da casa dos homens, fomos esquecidos quebrados em um armário, ou guardados úmidos e vestidos durante o verão! O ser humano tem sido ingrato e inclemente para conosco, senhores. Não podemos mais permitir tal tratamento!
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Novo alvoroço, desta vez contido energicamente pelo apresentador:
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- Senhores! Por favor, tenham a fineza de conter seus ânimos para que não percamos tempo. Guardem sua ira e sua indignação para a revolução, pela qual decidiremos hoje!
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Estava aí a resposta à minha indagação. Então seria isso; uma revolução. Comecei a ter medo, muito medo.
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Todos ficaram calados mais uma vez. Meus pensamentos rodopiavam em um turbilhão furioso de possibilidades, o nervosismo mantinha meu coração num ritmo assustadoramente acelerado. O que ele queria dizer com revolução? Será que nós, os humanos, correríamos riscos? Logo eu teria a resposta...
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- Obrigado – disse o líder, arrumando os óculos com a ponta de uma vareta. - Prossigamos. Tópico No3: De acordo com nossos levantamentos, somos o artefato de uso pessoal humano, mais perdido em todo o mundo e em todos os tempos. O cômputo das recentes pesquisas nos colocam à frente de diminutos companheiros como o grampo de cabelo e o clipes de mesa. Como pode isso? Vejam a diferença de tamanho, senhores! A mesma pesquisa mostra outro dado interessante: as pessoas que nos perdem nem ao menos voltam para nos procurar! É um enorme descaso e ingratidão para conosco! Milhares de anos de serviços prestados e é isso que recebemos?
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A platéia atenta e indignada parecia corroborar com tudo. Teobaldo continuou:
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- E pior, aqueles que nos encontram perdidos, dificilmente nos adotam, aumentando assim o número de órfãos em nossas fileiras. E é desta forma, senhores, que a população de irmãos indigentes e desassistidos nas cidades só tem aumentado nos últimos anos.
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O burburinho foi geral. O sentimento coletivo de injustiça era quase palpável. O locutor voltou a falar atraindo novamente as atenções e silenciando a platéia:
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- Já somos trinta milhões de desarrimados entregues à própria sorte só na América Latina, amigos. Até quando vamos permanecer em pé, embolorados atrás de uma porta, sem tomarmos uma providência? Temos que sair desta lassidão e precogitar nossa insurreição!
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A voz rouca de Teobaldo cortava agora o pesado silêncio que se instalara no salão.
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- Senhores, se não nos insurgirmos, acabaremos extintos e seremos em um hiato de tempo uma apagada reminiscência na mente dos homens mais velhos...
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Lágrimas de autocompaixão desciam por varetas e caiam ao chão.
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-... e, em poucos anos, as novas gerações nem saberão que existimos um dia. Seremos como o realejo, o penico e o chapéu panamá.
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Cabeças se moviam mostrando concordância.
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- Tópico No 4! Senhoras e senhores, precisaremos ir à sarrafusca se quisermos sair desse ostracismo em que estamos metidos. Essa rota nos levará Aonde? À extinção, é claro. Só lutando é que voltaremos a ser fabricados em fábricas de verdade! Queremos voltar a sair quentinhos de grandes linhas produção, experiência que só os mais velhos aqui deste recinto puderam provar. A maioria de nós foi mal feita, costurados e montados em fundos de quintal. Teobaldo então baixou a voz e passou a falar num tom íntimo, quase sussurrado:
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- Aqui de cima, queridos, posso ver irmãos ainda jovens já com aparência de velhos. A maioria de nós tem morrido antes dos dois anos de idade por pura falta de saúde. Como podemos admitir tal barbaridade?
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Com olhares que mesclavam indignação com autopiedade, aqueles milhares de guarda-chuvinhas acompanhavam a enumeração das suas mazelas feitas pelo veterano e sábio palestrante.
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Para mim, ali do meu frio belvedere, ficou claro que eles estavam dispostos, no mais íntimo das suas armações, a fazer a tal revolução. E possivelmente seria uma revolução sangrenta.
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A voz de Teobaldo ecoou pela escuridão tirando-me de meus pensamentos.
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- Senhores, eu já sou um vetusto perto da maioria de vocês aqui, mas meu sistema automático ainda funciona e nunca quebrei uma vareta. Sabem por quê? Sabem qual a diferença? A diferença é que nasci há vinte e sete anos, na época em que os homens nos fabricavam para uma vida longa e feliz ao lado deles, e não para o finamento precoce, no abandono, como ocorre hoje.
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O líder falava com a intenção de tocar os mais profundos sentimentos na multidão. Queria provocar uma comoção, uma comoção passional. E estava conseguindo.
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- E é só por isso, queridos, que estou aqui nesta noite. Estou aqui, pois quero ver em breve novas gerações vivendo com higidez e desfrutando do amor de seus donos. Nem que para isso tenhamos que verter sangue humano...
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Com sua tarimba de palestrante veterano, passava a erguer gradualmente a voz, provocando uma ebulição de emoções na audiência:
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- Amigos! Sonho em ver nossos descendentes, sejam eles automáticos, mecânicos ou quem sabe, eletrônicos, usufruindo saúde e longevidade!
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Os milhares de olhinhos na platéia estavam incendiados agora. Teobaldo passou a bradar:
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- Só nos resta a luta, irmãos! As urnas esperam nossos intrépidos votos! Coragem! AVAAANTEEEE! – proferiu estas últimas palavras acionando o seu sistema automático que o fez abrir gloriosamente os longos braços metálicos, revelando para o público a sua cobertura clássica em couro marrom.
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A multidão repetiu o gesto produzindo um rugido colossal, semelhante a uma grande explosão de fogos de artifício. O recinto se transformou em um espetacular mar de cores e formas.
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Eu não podia acreditar no que via. Decidi fazer a única coisa sensata que me ocorreu: pegar minha mulher e fugir.
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Enquanto eu subia a escada correndo, ainda virei para dar uma última olhada. Pude ver milhares de guarda-chuvas em fila indiana, caminhando em uma lenta e organizada procissão em direção às urnas. Um a um depositavam seus votos.
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Fiquei imaginando aquela cena se repetindo, naquele mesmo momento, em centenas de galpões, porões, becos e nos mais sombrios recônditos das cidades do país. Mais do que medo, tive pavor. Quantos seriam no total? Milhões possivelmente!
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Não tive dúvida quanto ao desfecho, o sim à tal revolução seria dado nas urnas, invariavelmente.
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Corri como um desesperado, até chegar em casa. Entrei silencioso para não acordar minha mulher. De repente, ocorreu-me uma coisa louca; fui à lavanderia conferir... Como eu previa! Nossos dois guarda-chuvas não estavam lá, atrás da porta! Para mim já era mais do que suficiente...
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Fiz uma pequena mala com nossos pertences pessoais e uma troca de roupas para cada um. Em seguida vim para a sala e me sentei aqui, frente a esta folha de papel, para deixar relatado tudo o que presenciei.
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Partirei dentro de instantes; mas é bom que todos saibam que, assim que o sol raiar, os moradores das principais cidades do país serão surpreendidos por milhões de guarda-chuvas em revolução organizada, bloqueando as estradas, fechando as principais avenidas, invadindo casas, prédios, colégios, empresas; tombando carros, incendiando ônibus... Farão isso, abrindo e fechando furiosamente suas lonas, perfurando, inclementes, com suas ponteiras e varetas, homens, mulheres e crianças... E cantando... cantando hinos de guerra.
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Cesar Cruz
Julho/ 2007
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O telefonema

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Eliseu acordou sobressaltado com o telefone tocando. Levantou a cabeça e viu que sua mulher dormia pesadamente na extremidade oposta do sofá. Na TV um desses filmes legendados que as emissoras só têm coragem de exibir nas madrugadas de domingo quando não há ninguém acordado para ver.
Atendeu:
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- Alô? - falou baixinho, já se encaminhando com o aparelho sem fio para a cozinha, para não acordar a mulher.
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- Alô - uma voz de homem do outro lado respondeu.
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- Quer falar com quem?
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- Com você mesmo – disse a voz. – É o Eliseu?
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- Sim, quem é?
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- Sou eu, Eliseu. A voz era conhecida, Eliseu achou que fosse algum amigo seu armando uma brincadeira, ou alguém que não via há algum tempo talvez, mas estranhou o horário, inadequado para qualquer das duas opções. O relógio do micro-ondas marcava 3h17. Quem seria capaz de ligar na casa dos outros neste horário?
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- Eu quem? Desculpa amigo, já é de madrugada e...
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- Eu mesmo, Eliseu, você!
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- O quê? Não entendi!
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- Isso mesmo que você ouviu, eu sou você, Eliseu. Ou você sou eu, como preferir.
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Eliseu finalmente reconheceu a voz. Já a havia ouvido outras vezes. Ouvira-a gravada na secretária eletrônica de casa e também em um vídeo de Natal, em que ele fez papel de entrevistador de tios, primos e avós. Mas ele nunca gostou daquela voz, aquela que era a sua verdadeira voz, não a que ele ouvia quando falava, mas a voz real que as pessoas ouviam vinda dele.
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- Amigo, que brincadeira é essa? Isso aqui é uma casa de família, você vai acabar acordando meus filhos!
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- Não seja ridículo, Eliseu, você não tem filhos. O máximo que pode acontecer é você, com esta gritaria que está fazendo, acordar antes da hora a Fátima que está dormindo no sofá tão bonitinha.
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O coração do Eliseu disparou. Fosse quem fosse os estava enxergando dentro de casa e sabia muito da vida deles. Sem falar naquele negócio da voz ser igaul à sua.
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Correu fechar as cortinas da sala, mas ficou surpreso ao ver que já estavam fechadas. Foi até a base do telefone para espiar no identificador de qual número o homem chamava. Era um número estranho, ao invés dos oito dígitos habituais, havia apenas cinco.
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O homem do outro lado ria uma risada familiar:
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- Quer tentar descobrir quem sou, Eliseu? Não precisa, já lhe disse, sou você! Não precisa temer. Só preciso que você me escute por 1 minuto...
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Eliseu desligou o telefone. O coração quase saindo pela boca. Ligou o aparelho de novo e discou para o estranho número de apenas cinco algarismos que apareceu no visor do identificador. Achou que não ia funcionar, que não haveria linha, mas, surpreendentemente, funcionou. Tocou três vezes até que atenderam.
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- Alô? – uma voz de mulher jovem. Ao fundo barulho de carros passando e crianças brincando.
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- Por favor moça, eu estava falando com um rapaz agorinha mesmo neste aparelho...
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- Nesse telefone aqui?
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- Isso...
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- Não pode ser não senhor, este telefone aqui é um orelhão comunitário e fica bem em frente ao bar da minha mãe. Não tem ninguém aqui há horas, moço.
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- Bar? Mas vocês abrem esse bar de madrugada?
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- Madrugada? O senhor tá louco?
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- Filha, que horas são aí? Aqui são quase 4h da matina.
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- Nossa, o senhor deve estar longe mesmo. Aqui são 2h da tarde.
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Eliseu já havia sido tomado por um misto de terror e inquietude. O que estaria acontecendo? Estaria sendo vítima de um trote muito bem elaborado? Porém, um frio diferente na base da espinha o estava acompanhando desde a hora em que atendeu ao telefone. Não sabia por que mas sentia medo, muito medo.
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- Que cidade você está moça?
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- Altana do Serrado, senhor.
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- Onde fica isso? Qual estado?
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- Fica em Brôscoli, perto de Garitá.
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- Meu Deus, onde é isso? Como pode ser 2h da tarde aí? No Brasil não temos fusos tão distintos!
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- Sei disso não, moço... Minha mãe já tá me chamando, tchau.
Desligou.
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Eliseu ficou petrificado de medo, por alguns minutos, pensando. O que faria agora? Fátima dormia e roncava de bruços no sofá. A TV muda continuava a exibir aquele filme, que parecia pelos figurinos, ter como tema o império romano na época de Cristo. Teve uma ideia. Ligou novamente o aparelho e discou para o serviço de auxílio à lista.
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- Auxílio à lista bom dia, em que posso ajudá-lo?
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- Eu preciso saber de que região é um determinado telefone.
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- O número, por favor?
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- 38417
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Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos.
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- Senhor?
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- Sim?
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- Pode repetir o número completo, por favor?
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- 38417
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- Senhor, este número está incompleto. Estão faltando três dígitos.
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- Olha moça, eu também achei estranho, mas me ligaram deste número. Aliás, eu retornei e o número existe. Uma pessoa atendeu. Parece que fica em uma cidade chamada Altana do Serrado em... Brôscoli... acho que é isso.
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- Um momento, senhor, vou verificar.
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Eliseu tremia dos pés à cabeça. Tremia como se tivesse saído de um banho bem quente num daqueles invernos rigorosos, e ido direto para o quintal de casa, nu. Não conseguia se controlar.
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- Senhor obrigado por aguardar. Consultei meu supervisor e no território nacional não existem números de telefone com cinco dígitos há mais de quarenta anos.
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- Imaginei...
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- Também não constam entre os mais de cinco mil municípios da Federação em que operamos, um que se chame Altana do Serrado ou Brôscoli...
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- Obrigado senhorita. – disse desconsolado, desligando.
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O relógio do micro-ondas agora marcava 3h39. Eliseu voltou para a sala, pôs o telefone na base e se sentou no sofá junto aos pés da mulher. Decidiu esquecer tudo aquilo. Decidiu nem contar à Fátima para não dar corda para aquele assunto estranho.
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Pegou o controle remoto e desligou a TV. Sentia frio e medo. Colocou a mão nos pés cobertos da mulher e pensou em acordá-la. Assim iriam para a cama quentinha e aquilo tudo estaria esquecido no dia seguinte pela manhã. Afinal teriam um domingo de descanso para desfrutar.
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De repente o telefone tocou novamente, sobre o seu colo. Ele atendeu rápido, num susto:
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- Alô? – disse baixinho.
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- Eliseu, meu querido...
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- Amigo o que você quer de mim?! Quem é você afinal?!
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- Sou você, já disse.
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- Isso é impossível!
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- Por favor, me ouça. Sou você, mas não sou você hoje, nem aqui neste lugar; sou você em uma outra dimensão espaço-tempo, entendeu?
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- Você é louco! Não, não sei de nada disso!
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- Eliseu, preste atenção: nada disso está acontecendo do jeito que você imagina, mas não se preocupe com isso, o que você precisa fazer é avisá-la agora mesmo! Agora!
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- Quem? Avisar quem do quê?
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- Avisar sua mulher Eliseu... Avisá-la que você morreu.
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Aquela última frase veio como uma explosão no seu ouvido, seu coração disparou instantaneamente de forma enlouquecida. O pânico o invadiu junto com uma sensação de desolação. Sentira aquela descarga de adrenalina algumas poucas vezes na vida, que acompanha a sensação de que aquilo que ocorreu não pode estar, de fato, ocorrendo conosco. Lembrou-se de ter sentido este peculiar impacto pela última vez há cinco anos. Foi no dia em que ouviu do médico na sala de espera da UTI de um hospital, que seu pai não havia resistido aos tiros e havia morrido.
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- O quê? Não brinca comigo! - gritou de volta.
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- Lamento, querido, mas você morreu aí no sofá, dormindo, há 2 horas. Precisa acordar sua mulher para que ela tome os procedimentos e avise às pessoas...
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Eliseu tonteou largando o telefone, que bateu no seu colo e caiu no chão de madeira da sala produzindo um estrondo na madrugada. Seus olhos estavam marejados; sentiu violenta tontura, tudo começou a rodar rapidamente. A tontura o fazia se sentir desnorteado, como se estivesse subindo em piruetas em direção ao teto.
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De repente estava vendo a sala lá de cima, a mesinha ao centro, o telefone no chão, e o sofá com ele próprio deitado de bruços, um braço largado tocando o chão com as pontas dos dedos. Estava sonhando, só poderia estar.
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Agora viu sua mulher acordar com o barulho do telefone que caira. Viu-a se levantar, apanhar o aparelho no chão, colocá-lo na base e o sacudir, delicadamente:
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- Querido, acorda, vamos dormir na cama que já é quase de manhã.
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- Amor? Aí meu Deus, você está gelado, Eliseu... Eliseu?!
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- ELISEU!!
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Cesar Cruz
Jan/ 2007
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O reflexo

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Almoçaram a especialidade da casa: macarronada à bolonhesa acompanhada de uma garrafa de tinto. Barrigas cheias, a tarde morna de domingo convidava a uma sesta. Adelaide dormia seu cochilo merecido, espichada no sofá com os pés sobre o colo de Benvindo, que folheava uma revista cuidando para que o farfalhar das páginas não acordasse a mulher. Estavam sós. Maria Paula estava numa festinha na escola.
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Fazia calor e Benvindo sentia um certo mal-estar. Resolveu banhar-se. Levantou do sofá cuidadosamente e, com grande perícia, retirou os pés da mulher de seu colo e depositou-os sobre uma almofada. Foi para o chuveiro.
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Vinte minutos depois, fechou a água, correu a cortina plástica e buscou com a mão a toalha no gancho. Não estava lá. Esquecera de pegá-la no varal. Pensou que se atravessasse a casa nu e molhado ensoparia todo o carpete e apanharia uma constipação. O único jeito seria acordá-la e pedir-lhe que trouxesse a toalha.
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- Dê! - gritou de dentro do cubículo do chuveiro.
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Não recebendo resposta, gritou mais duas vezes, a última com mais vigor. A mulher parecia dormir pesadamente. Enxugou-se mal-e-mal com a toalhinha de rosto e dirigiu-se para o quarto a fim de se vestir. De passagem, olhou para a sala e surpreendeu o sofá vazio.
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Colocou a roupa e foi à cozinha; depois à área de serviços; depois ao quintal. Adelaide parecia não estar em lugar nenhum. Estranhou. Ela não sairia sem lhe dizer nada. Olhou pela janela da sala e o carro não estava na vaga. No seu lugar havia uma montoeira de coisas que subiam quase até as telhas de fibrocimento da cobertura: caixas de papelão, tapetes enrolados, bicicletas velhas, pneus, pilhas de telhas, enferrujados botijões de gás, fardos volumosos de jornal presos por barbante, além de uma geladeira antiga sem a porta. "Ela saiu de carro sem me avisar!" - pensou alarmado.
Correu ao telefone e discou para a mãe. Atenderam:
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- Alô!
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- Mãe, sou eu! A Adelaide foi praí?
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- Pai? É o senhor?
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- Oh, desculpe-me. Preciso falar com minha mãe, Dona Diolina, é o filho dela...
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Seguindo exatamente a recomendação médica, a moça interrompeu o homem:
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- Sou eu, pai, Maria Paula. Acalme-se e me ouça: a vó morreu faz 23 anos e...
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O homem explodiu em fúria:
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- Seja lá quem diabos você for! Chame minha mãe imediatamente!
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Maria Paula, treinada, inverteu a estratégia:
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- Sim, senhor, claro... só que ela está no banheiro. Posso pedir que ligue de volta daqui a pouco?
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- Pois diga a ela que estou aguardando! Minha mulher saiu de carro sem me avisar! Estou muito preocupado!
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- Claro, claro... Ela já, já ligará de volta!
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Benvindo bateu o telefone com força, sem agradecer, aborrecido com a impertinência da mulher. "Deve ser uma das vizinhas inoportunas que não saem da casa de mamãe" - pensou.
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Voltou ao quarto, sentou-se na beirada da cama, pegou um par de meias na gaveta baixa da cômoda, vestiu-as e calçou os chinelos. Começava a sentir frio. Ergueu-se com dificuldade; suas costas doeram e seus joelhos rangeram. Abriu o armário e puxou uma malha do cabide.
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Enquanto a vestia, reparou que, na parte interna da porta do móvel, havia uma imagem emoldurada e afixada por quatro parafusos. "Uma linda fotografia artística!" - pensou, efusivo.
Ficou olhando o retrato, admirado com sua perfeição. A foto exibia um velho ancião, recurvado, o rosto com os sulcos profundos, característicos dos septuagenários; os cabelos brancos ralos sobre a cabeça, as manchas na pele, os olhos amarelos enterrados nas pálpebras moles.
"Quem seria ele?" - pensou. Logo em seguida alegrou-se:
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- Ah, Adelaide e suas surpresas! - balbuciou em voz baixa, sorrindo. O velho da foto pareceu sorrir-lhe de volta.
Adelaide sabia que ele adorava fotografias. Possivelmente a escondera ali para presenteá-lo posteriormente. Decidiu fingir-se de bobo para não estragar a surpresa.
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Maria Paula pôs o telefone na base, saiu à porta e disse ao marido que lavava o carro na calçada:
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- Amor, precisamos ir até o papai agora mesmo. Aconteceu aquilo de novo. Definitivamente, ele não tem mais condições de viver só.
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Benvindo fechou com cuidado a porta do armário e arrastou os chinelos pelo corredor. Sorria marotamente.
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- De-eê! Onde você está, mocinha arteira? Pensa que se esconde de mim? Vou te achar!
Compenetrado em seu folguedo onírico, o velho avançava em direção à sala, cuidadoso, pé ante pé, como um garoto que brinca de esconder.

Cesar Cruz
Setembro 2008
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A retirada

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Escrevi este conto para um concurso de crônicas. Chegou o resultado! Agora vamos prestigiar a crônica campeã:
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A chuva caía com violência lá fora. Trovoadas e raios rasgavam o céu naquela manhã escura. Seria o último e derradeiro presente da natureza, vindo em forma de adeus. Para mim o que sucedeu não foi surpresa.
Na hora em que a chuva começou a apertar, fomos todos trancados nas celas, como sempre faziam nessas ocasiões. Fiquei assistindo por entre as grades da diminuta janela, à chuva precipitar-se sobre o pátio. Sempre gostei de chuva, desde menino. Que delícia sentir os pingos caindo pesados, duros, sobre a pele da gente! Como é maravilhoso o aroma doce e morno que se desprende do chão e invade nossas narinas!
Então, eu estava lá, com o nariz metido entre as grades de aço, sentindo aquele delicioso perfume da natureza quando, subitamente, o registro celestial pareceu ter sido fechado. Jamais vi coisa igual. A chuva que caía abundante foi instantaneamente interrompida. Fez-se um silêncio assustador nos corredores do hospício. Logo os gritos recomeçaram e ouvi todos correrem às janelas, disputando espaço, cabeça a cabeça, para ver o que ocorrera.
Enfim, destrancaram os ferrolhos das portas liberando-nos ao ar livre.
O pátio estava bastante empoçado, mas o céu absolutamente límpido. Médicos, inspetores, enfermeiros e loucos, todos olhavam para cima sem compreender nada. Nunca ninguém vira uma tempestade ser interrompida daquela estranha maneira.
Cortei caminho em meio ao tumulto e ao burburinho e fui em direção ao meu refúgio predileto. Um setor distante do pátio, junto ao muro leste. O melhor ali era a suntuosa figueira existente no local. Aproximei-me e reparei que, dessa vez, a sua enorme copa projetava uma sombra pouco menor que a habitual. Olhei com atenção e a árvore inteira pareceu-me, de alguma forma, reduzida. Também havia algo estranho com o muro. A unha-de-gato, que ia do chão à cerca elétrica, sumira completamente.
Só então compreendi tudo: a retirada começara. Eu sabia que isso aconteceria... Talvez eu fosse o único humano a sabê-lo. Sentei-me sob a sombra da árvore e, em lágrimas, rememorei...
Dois anos antes, em certo domingo de verão, saltei da cama cedo, por volta das 6h.
O calor já começava a me perturbar, mesmo antes do raiar do sol. Minha mulher e as crianças dormiam. Fui à cozinha, preparei um café e fui tomá-lo no quintal, como de costume. Um clarão fraco já começava a se insinuar por entre as nuvens. De repente, ouvi vozes. Estanquei imóvel. Apurei os ouvidos. Pareciam vir do nosso pequeno pomar. Avancei na ponta dos pés em direção às plantas e hortaliças que cultivava com tanto amor. Quase cai de costas. As vozes vinham delas; as plantas estavam... Conversando!
A princípio eram só as plantinhas menores, mas logo o coro foi engrossado pela goiabeira e pelas samambaias africanas. Eu não queria crer!
O dia enfim clareou e os cochichos extinguiram-se. Vigiei o resto do dia. Silêncio total. Imaginei que tais reuniões só ocorressem na calada da noite.
Acordei na madrugada seguinte e me postei numa banqueta bem no meio do jardim. Permaneci assim, quieto, aguardando. Como eu já suspeitava, logo a reunião começou. Entre as vozes finas e fracas, um vozeirão grave destacava-se emitindo opiniões: era nosso poço artesiano que, como um barítono lírico, produzia notas guturais que emergiam à superfície. Dias depois descobri que a voz não era do poço, e sim das águas do lençol freático.
E assim foi... Por dias, semanas, meses...
As reuniões eram regulares. Caderno na mão, passei a anotar tudo o que deliberavam. Discutiam basicamente sobre o que chamavam de “A retirada”. Seria o dia em que, caso o homem não tomasse juízo a tempo, desistiriam terminantemente e abandonariam o planeta.
Descobri que reuniões como aquelas vinham acontecendo em todos os lugares do mundo. Resolvi contar às pessoas, começando por família e amigos. Todos riram de mim. Insisti. Nada. Escrevi para jornais, revistas, emissoras de TV e rádio. Não me deram crédito.
Por fim, acabei como louco e fui internado.
Faz 1h que estou aqui junto à figueira. Ouço-a recolher-se centímetro a centímetro para o fundo da terra. Percebo os funcionários se mobilizando, capto rumores de que está faltando água. Não sabem como a caixa d’água pode estar seca. Olho para a minha esquerda, ao longe, e vejo o canteiro antes ajardinado, agora vazio.
Ah! Não quiseram me ouvir! Pagarão agora o preço da ignorância! Dentro de poucas horas as cidades estarão inoperantes e inóspitas! Não haverá água, alimento, energia elétrica. O ar se tornará irrespirável, faltará oxigênio. Os moradores das regiões litorâneas verão o mar recuar e a faixa de areia crescer até que alcance o horizonte. Atribuirão o fato às marés, mas logo todo o oceano transformar-se-á num deserto seco e esturricado pelo sol. Em poucos dias não haverá mais mar sobre a face da terra.
Os animais e os homens perecerão aos bilhões, até sua extinção total. A espécie humana sucumbirá sob o peso de sua inconsciência e de seu descaso.
Eu tentei avisá-los! Ah, eu tentei! Agora todos pagaremos... Todos, todos!
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Cesar Cruz
Agosto 2008
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A casa do penhasco

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Em pé na beira do precipício o homem experimentava uma mistura louca de sensações. Metade dos pés estavam para fora no ar, pensos no abismo. Subia-lhe pelo ventre um fino arrepio e uma desconcertante vertigem assaltava-lhe a mente a cada vez que seu corpo balançava para frente e para trás. O homem fechava e abria os olhos que, por vezes, reviravam-se desordenadamente nas órbitas. Imaginava-se flutuando pesado, de braços abertos, como uma ave que não voa, caindo em direção à morte. Desejava ser puxado ou empurrado, pois não conseguia, por si só, projetar-se; apesar de desejar muito fazê-lo...
Por entre as pontas de couro dos calçados podia avistar o colossal abismo e o mar explodindo contra os rochedos, cem metros abaixo. O rugido leonino do oceano parecia chegar aos seus ouvidos com uma fração de atraso em relação ao que se avistava. Apesar do esforço que a vento fazia para dissipá-lo, o cheiro denso e morno da maresia já era intenso naquele princípio de manhã de primavera.
Havia dirigido por duas horas, embriagado pela mistura de tristezas, decepções e inexorabilidades que a vida tinha definitivamente lhe imposto. Construíram aquela linda casa de veraneio na porção mais cara e exótica do litoral, em uma região árida de caiçaras e turistas. Ali tinham sossego para descansar, e claro, possuíam aquela vista única, do alto dos rochedos.
A casa era a materialização de todos os sonhos que ele havia um dia se atrevido a sonhar com Maria Inês, era um símbolo da felicidade dos dois. Combinaram que quando ficassem velhos e inaptos para o trabalho se refugiariam na casa até que a morte os viesse buscar. Nunca tiveram filhos, pois assim a natureza determinou. Após muitas tentativas descobriram que a mulher era estéril. Isso foi três anos após terem se casado. Pensaram em adotar um guri, mas não passaram do mero pensar. Tiveram um cão por um tempo, mas, um dia, o cão correu para a rua na hora errada e foi atropelado.Após quinze anos de um casamento feliz, Maria Inês atravessou com seu carro um cruzamento na hora errada.
O semáforo estava aberto para ela; eram onze horas da noite e ela voltava para casa depois de dar aulas na faculdade. O caminhão perdera os freios e o cruzamento era em declive... Maria Inês morreu na hora.
Haviam acordado que, no caso de um deles morrer, o outro se encarregaria de cremar o corpo e lançar as cinzas naquele penhasco. Ele havia cumprido a promessa, há exatos três meses. Ficara só no mundo desde então. Já não tinha os pais vivos e não se dava com o único irmão, isso desde que eram jovens adultos, ainda imberbes. A única coisa que sabia era que o irmão vivia com mulher e filhos na Inglaterra, distante física e mentalmente dele. Era homem de poucos amigos, sua única amiga era Maria Inês. Depois que o acaso a tirou da sua vida, não conseguiu mais fazer os dias fluírem e caiu em profunda tristeza e depressão. Já não tinha ânimo nem motivo para trabalhar. Nada mais o entusiasmava, nem cinema, nem leitura. Só sabia fazer coisas com Maria Inês. Não conseguia agradar-se de nada sozinho. Passava o dia no escritório da construtora em que trabalhava, mudo para os colegas. Sua atividade de gerenciador de projetos exigia pouco contato cara a cara com as pessoas, desta forma, o computador e o telefone produziam uma conveniente distância dos profundos, interrogativos, curiosos e inquisitores olhos alheios.
Uma manhã, ao abrir seu programa de e-mails no escritório, deparou-se com a seguinte mensagem:
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De: um amigo Para: fernando.lima@jrbempreendimentos.com Data: 23 de julho de 2002 5h27min - a.m Assunto: pare de sofrer Amigo, sei que não me conheces, mas à distância, tenho acompanhado teu martírio. Não posso me eximir de lhe ajudar, pois um dia fizeram o mesmo por mim. Também tive uma perda. Uma irreparável perda. Tive um filho morto pelas mãos do crime. Mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que perdas deste tipo podem ser reparadas! Um dia fui apresentado ao bruxo Gonzales. Em um primeiro momento não acreditei que seria verdade, mas fui ao seu encontro e descobri que sim! Que há saída! Não peço que acredites em mim, só peço que dê a si mesmo e à Maria Inês uma nova chance. Tel: 271-3597
Desejo-lhe a vida!
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Não foi capaz de produzir uma única linha de trabalho naquela manhã. Sua mesa foi represando papéis e sua mente recados e tarefas passadas por sua secretária, mas ele não conseguiu mais se concentrar em nada. Leu e releu a mensagem inúmeras vezes. Por fim, respondeu pedindo ao remetente que fizesse um contato telefônico. Precisava descobrir de onde o conhecia e como ele sabia o nome de sua mulher.
Os e-mails que enviou voltavam imediatamente com mensagens que indicavam endereço inexistente.Quem seria ele? Fosse quem fosse parecia conhecê-lo, e ao seu sofrimento, e a sua Maria Inês... Mas como? Pensou em muitas pessoas, mas foi excluindo uma por uma. Algumas porque não estavam ligadas a correios eletrônicos ou à internet, outras, pois não teriam como ter o seu endereço eletrônico que era exclusivamente comercial; e as demais, pois nem sabiam que Maria Inês havia morrido. Por fim, não sobrou ninguém. Naquela noite não dormiu. Vagou pela casa durante a madrugada inteira. Na mão carregava uma folha com a impressão do e-mail já marcada pelo manuseio e pelas dobras. Lia e relia para ver se encontrava alguma pista. Ia à janela ver a rua vazia com o guarda que vez por outra passava assoviando seu apito, ou descia à garagem e depois voltava à sala; fez assim até ver o dia amanhecer. Quem ele conhecia e que teria tido um filho assassinado? Talvez o amigo de algum conhecido? Não, não se recordava de ninguém em tal situação. Pensou também acerca do estranho cumprimento final: “Desejo-lhe a vida!”. Que grupo organizado usava tal cumprimento? Algum grupo cristão? Pesquisou pela web e nada. Talvez os maçons ou os rosa-cruzes? Os gnósticos? Não achou nada. Nenhum grupo esotérico ou religioso parecia usar tal saudação.
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Quando o dia amanheceu resolveu fazer o que vinha protelando desde que lera a mensagem. Puxou o aparelho do gancho e começou a teclar os números do telefone indicado. Espiou o relógio: quase 6h da manhã. Deu-se conta de que há exatas 24h, alguém, em alguma parte, havia resolvido sentar de frente para um computador e lhe enviar aquele e-mail. Tal pessoa poderia, portanto, ter aquele momento matutino como o único disponível em todo o seu dia para checar e responder à correspondências eletrônicas. Voltou o aparelho para a base na hora e correu para o computador, ligou-o na esperança de que o amigo, fosse quem fosse, poderia responder a uma das três mensagens que ele havia disparado. Ou ainda, quem sabe, poderia retornar para os números que ele havia deixado. Aguardou por alguns minutos e logo foram chegando muitas mensagens, mas nenhuma do tal amigo.
Foi para a cozinha e fez café. Tomou-o acompanhado de bolachas salgadas para fazer matar o tempo, mais do que a fome, que na verdade não sentira. Espiou o relógio do forno: 06h35min.
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Voltou à sala, apanhou o telefone e discou o número, desta vez decidido. Três toques e atendeu a voz de um homem idoso com sotaque castelhano, mal ele começou a explicar que havia recebido um e-mail com aquele telefone etc., o homem interrompeu-o dizendo: “hombre, la muerte viene cuando menos se espera. Para estos momentos estamos los amigos. Vem a verme hoy. Estoy en la calle...”, e passou a ele um endereço em uma região na periferia da cidade que ele nem sabia que existia.
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Quando ligou para a empresa do celular, já a caminho do local indicado, já eram oito horas. Disse à secretária que passara a noite em claro com vômitos e que se melhorasse apareceria após o almoço. Desligou e foi dirigindo, com o guia da cidade no colo aberto sobre uma das coxas.
Chegou ao local após ter remexido o guia muitas vezes e pedido dezenas de indicações. Rua de terra, crianças sem camisa empinando pipas, um botequim bem próximo com homens jogando sinuca e bebendo.
Bateu palmas na frente do portão que tinha o número que trouxera especificado em um pedaço de papel. A casa era muito pequena e bastante recuada no terreno, tinha toda a frente em terra tomada por galinhas e cães que reagiram com alvoroço à sua presença. Um homem velho acenou para ele à distância, da porta que dava acesso à casa. Tinha os cabelos brancos e amarelecidos amarrados em um rabo de cavalo e cobertos por um boné. Ele pensou que este deveria ser o tal bruxo Gonzales.
Passou pelo pequeno portão de madeira, fechou-o atrás de si e caminhou pelo declive acidentado do quintal, amassando o barro úmido e fofo, produto de alguma chuva recente. Avançou por entre os cães que o cheiravam, saltavam e latiam sobre ele, espargindo lama em suas calças e colocando as patas em sua camisa branca. Ao contrário dos cães, as galinhas fugiam correndo à sua frente, como se estivessem sendo perseguidas por ele, e então, como em um exercício de balé bem ensaiado, descreviam círculos centrífugos; grupos seguiam à direita e grupos iam para a esquerda, e por fim, terminavam se posicionando em um único bloco compacto atrás dele.
Foi recebido à porta sem aperto de mãos e levado à sala, que parecia ser também dormitório, pois havia duas camas encostadas nos cantos.
O teto não tinha laje, as tesouras de madeira úmida, que suportavam o telhado de barro, pareciam apodrecidas e exalavam um cheiro doce de fermentação. O chão era de concreto queimado vermelho-terra e havia três baldes de metal posicionados aqui e acolá, colocados de forma a conter as goteiras dos dias chuvosos. O cheiro de cachorros era forte e se misturava ao de umidade.
Foi-lhe indicado um sofá esburacado e seboso. Sentado no chão ao seu lado um menino de mais ou menos seis anos que assistia a um desenho animado mal sintonizado e em alto volume, parecia indiferente à sua presença.
O velho puxou uma banqueta e sentou à sua frente. Era um tipo indígena-boliviano. Acendeu um cigarro mal cheiroso que produzia densa fumaça amarronzada, apoiou as mãos sobre os joelhos e inclinado encarando-o olho no olho, perguntou: “estas seguro de lo que quieres hacer, hombre?”. Antes que o homem tivesse tempo de responder, ou de perguntar, o velho falou expondo um sorriso amarelo de dentes por demais apodrecidos: “tus ojos me aseguran que sí”. Então, produzindo baforadas volumosas de fumaça, e sem dar espaço para que qualquer palavra fosse emitida pelo outro, o velho índio falou durante vinte minutos sobre tudo o que ele teria que fazer.
De repente se levantou, tirou o boné e o pôs sobre a banqueta onde sentara, com a concavidade virada para cima. Saiu sem se virar para ele, sumindo por uma porta lateral do cômodo. O homem que já se preparara para tal momento. Abriu a carteira, sacou cinco notas robustas e colocou-as no boné. Entendendo que não haveria maiores despedidas, levantou-se e saiu.
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A matilha de cães e as galinhas pareceram menos interessada nele agora do que na chegada, ainda assim dois vira-latas o acompanharam até a porteira, latindo alto e jogando-lhe mais lama. Quando fechou o portão atrás de si, o velho índio gritou de dentro da casa: “Hernando! no hagas nada desto si no estas mui seguro... Recordate que pocas cosas seran como fueran um dia!”. De alguma forma o índio sabia o seu nome, e ele tinha certeza que não havia lhe dito, aliás, não conseguiu falar mais do que três palavras naquele insólito encontro.
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Passaram-se quase cinqüenta dias daquela estranha entrevista. O homem havia feito, logo na primeira semana, tudo o que o velho bruxo o mandou fazer. Comprou a cabra, imolou-a com uma faca virgem em um descampado à noite e ofereceu o sacrifício e o sangue vertido aos deuses em um ritual solitário em uma praia deserta. Durante o ritual teve que ler em voz alta alguns trechos - que levou copiados em um papel - em uma língua que desconhecia. Realizou tudo com esmero. Sentiu-se ridículo em alguns momentos e assustado em outros.
Nos dias que se seguiram aguardou por algum tipo de sinal. Não sabia bem o que esperar. Pelo que tinha entendido, Maria Inês deveria voltar, mas o velho índio não havia lhe dado oportunidade alguma de fazer perguntas. Não entendia, portanto, como aconteceria. O misterioso amigo que lhe enviara o e-mail, nunca mais...
Estava novamente só com seus pensamentos desconcertantes e a ansiedade que não lhe dava trégua. Com o passar dos dias e o suceder de tarefas, acontecimentos e demandas da vida foi gradualmente se esquecendo do que fez. Sua inquietação foi esmorecendo, diluindo-se. Houve momentos em que ele nem mesmo acreditou que houvesse feito tudo aquilo. Parecia para ele um sonho. Teria sonhado? Como pôde crer em tal absurdo! Como pôde crer que Maria Inês poderia voltar à vida? Justo ele, um homem tão culto, estudado.
Houve dias em que esteve tão atarefado no trabalho, que nem mesmo pensou em tudo aquilo. Ah, o tempo...
Havia lido sobre o passar do tempo e suas peculiaridades algumas vezes; nada como o tempo para apagar as coisas! E o tempo estava operando justamente isso nele. Não um esquecimento, mas uma trégua, uma cessação no enlouquecido turbilhão mental pelo qual passou nos primeiros quatro meses após o desastre.
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Certo dia levantou-se da cama antes do dia amanhecer. Havia tentado concatenar o sono desde as 23h, mas não foi capaz de dormir. A saudade, aquela dama cruel, havia lhe tomado em um apertado abraço de urso, e parecia não querer largá-lo. Nos poucos momentos em que cochilou, sonhou com Maria Inês. Estavam em uma praia linda e o céu estava avermelhado. Maria Inês sorria sem dizer uma palavra, estava muitos metros distante dele e quando ele tentava alcançá-la, ela parecia se afastar, mas sem mover os pés, como se flutuasse.
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Ligou o chuveiro. Fazia algum frio, era madrugada de sábado para domingo, 04h15min. Tomou um longo banho quente. Saiu do chuveiro, secou-se e vestiu-se com uma calça de moletom e uma camiseta de algodão de mangas longas. Escovou os dentes em uma das pias. A longa bancada de granito negro contava com duas pias e lindos lavadores de aço escovado em arco, que pareciam postes de iluminação pública. Todo àquele luxo fora exigência de Maria Inês na ocasião do projeto do banheiro. Olhou seus olhos no espelho e pensou: “como pude acreditar naquilo, meu Deus!”. Foi para a sala e ligou a TV para passar o tempo. Um programa sobre agronegócios estava no final. Zapeou os canais com o controle remoto. Imagens desinteressantes se alternavam. Baixou o volume e quase cochilou.
De repente ouviu um barulho forte vindo da cozinha e saltou do sofá. Era o ruído característico da porta da geladeira sendo aberta. Foi ver.
Chegou à porta da cozinha e estancou congelado. Maria Inês estava de costas para ele, uma mão segurava a porta da geladeira aberta, com o tronco curvado parecia procurar algo nas prateleiras baixas do refrigerador. Vestia a mesma roupa com que fora sepultada; a calça de linho bege bem cortada e a camisa branca de mangas curtas. Calçava os sapatos de couro marrons que foram cortados à tesoura na lateral pelo encarregado do necrotério para caber em seus pés inchados pela morte. Ele deve ter feito algum ruído, pois ela se virou e o olhou nos olhos. Ainda mantinha a porta da geladeira aberta. Olhou para ele com aquele olhar tão doce e não disse nada. A luz da geladeira quebrava a escuridão da madrugada jogando uma luz oblíqua sobre ela, conferindo-lhe um aspecto gostoso, algo de lar, de afeto, de retorno...
-Meu amor! - suspirou o homem se surpreendendo pela voz hesitante e cacofônica que produziu. Ela o fitou mantendo a expressão doce, porém distante; então, lenta e surpreendentemente virou-lhe as costas e curvou-se voltando a remexer a geladeira. “Ela não me reconheceu!”, pensou.
O homem sentia seu corpo ferver com os arrepios provocados pela adrenalina, sentiu-se zonzo, desnorteado. Pôs a mão nas costas da mulher e sentiu-a quente, viva, viva!
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Deveria ter desmaiado, pois acordou deitado sobre os azulejos frios da cozinha. Pensou que provavelmente teve aquele sonho estranho e perambulou como um sonâmbulo pela casa, até chegar à cozinha e cair prostrado. Concluiu que batera a cabeça forte, pois lhe doía muito o crânio logo acima da orelha direita. Encontrava-se estendido bem em frente à geladeira, justamente no local onde estava no sonho.
A dor profunda na cabeça pareceu aliviar quando ele espremeu os olhos com força. Olhou para o relógio do forno: 07h23minh. Imaginou que ficou muito tempo ali, caído naqueles azulejos frios. Caminhou em direção ao quarto, pretendia saltar na cama e simplesmente dormir, dormir por horas e esquecer aquele sonho, aquele episódio de sonambulismo e aquele maldito bruxo seboso. Deitou na cama, o quarto com as janelas ainda fechadas estava escuro. Entrou pelo meio dos cobertores e sentiu um calor. Espichou o corpo e tocou em algo sólido. Pulou da cama como um gato. Maria Inês estava embaixo das cobertas deitada em posição fetal, de costas para ele. Dormia em silêncio, quase enrolada em si mesma. Ele colocou-se em pé ao lado da cama, coração disparado. Então não fora um sonho, aquilo estava mesmo acontecendo. Observou que sobre o criado mudo ao lado dela havia um prato com os ossos do frango que sobrara do jantar e que ele guardara na geladeira no dia anterior. O escuro, a quietude do quarto e o sono silencioso de Maria Inês trouxeram-lhe uma inesperada calma. Sentou na ponta do colchão e ficou ali respirando, olhando-a e atinando com as idéias.
Como aquilo era possível? Apesar de não ter resposta para tal pergunta, tinha a certeza de que não estava em um sonho. Pensou a respeito dos sonhos e lembrou-se de uma de suas peculiaridades: às vezes quando ele sonhava, costumava pensar que poderia mesmo estar sonhando e então tentava acordar, e quando não conseguia, ficava na dúvida se vivia um sonho ou se estava acordado. Entretanto, em todas as vezes em que esteve realmente acordado, como agora, sempre soube diferenciar o devaneio de um sonho, da incomparável palpabilidade da vida real. Nada se compara à sensação de se estar vivo e acordado! A textura a acidez e a brutalidade que compõem o tecido da vida são únicas e inconfundíveis! Não se tem dúvida quando a experimentamos de fato...
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Sabia, portanto, que estava acordado e bem acordado; e que, por mais incrível que pudesse ser aquilo tudo, era verdade. Estava mesmo acontecendo. Maria Inês voltara da morte. Deu a volta na cama e se ajoelhou bem ao lado dela. Ficou olhando seu rosto bem de perto. Sentiu pela primeira vez, desde que a viu na cozinha, um nó na garganta. As lágrimas passavam a lhe descer pela face e os soluços forçavam para subir traquéia acima. Tapou a boca e o nariz com a barra da camiseta para não acordá-la e chorou doído, baixinho, enquanto permaneceu ali parado admirando aquele inexplicável milagre. Maria Inês respirava pesado, como alguém que dorme após um dia de muito cansaço. A boca ligeiramente aberta, como sempre foi seu hábito ao dormir. Tocou-lhe a testa com as pontas dos dedos e desceu contornando-lhe as maçãs do rosto. “Meu Deus do céu ela está aqui!”... Aproximou-se mais e tocou-lhe o rosto com os lábios. Pôde sentir o hálito que subia de sua expiração. Era fedido, quase insuportável. Permaneceu ali sentado um bom espaço de tempo sem saber que espécie de coisas pensar, nem o que fazer a partir de agora.
De quando em quando olhava com algum sobressalto por cima do ombro para o corredor além da porta do quarto, onde acreditava ter ouvido algum rumor.
Levantou-se e foi ao lavabo. Molhou nuca, testa e rosto em abundância. Secou-se com a toalha e fitou-se no espelho longamente. Olhou dentro dos seus olhos. Não entendeu o que viu. Poderia ser a imagem de um homem que estava enlouquecendo. Achou-se pálido ao extremo e surpreendentemente envelhecido. Ficou uns minutos mirando seus olhos fundos nas órbitas extremamente cavadas. Os olhos de alguém que certamente enlouqueceu e não sabe. Alguém que sonha e acha que está acordado. Alguém que crê que as pessoas podem voltar da morte, e de tanto crer, acaba por vivenciar algo tão verdadeiro e surreal como um delírio esquizofrênico.
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Voltou para o quarto e deixou-se largar ao chão com as pernas enroladas ao lado da mulher. Passou a tocar e revolver os seus cabelos que pareciam duros e secos como palha. O que faria agora? Avisaria as pessoas exatamente do quê? Imaginou-se comentando com o pessoal da empresa: “não estranhem, mas no jantar anual vou levar Maria Inês, é que ela voltou da morte e...”. Ou ligando para a mãe dela e dizendo: “Bom dia Dna Eulália, tenho uma notícia muito boa para lhe dar, Maria Inês está dormindo aqui na cama...”. Era impossível imaginar uma maneira socialmente aceitável de trazer uma pessoa morta de volta à vida.
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Estava inquieto e angustiado para vê-la acordada. Queria conversar com ela, entender o que ela estaria pensando, do que se recordaria. Será que teria lembranças deste período em que esteve morta? Era admirável para ele pensar em barbaridades tão insólitas como aquelas, mas por mais absurdo e extravagante que pudesse parecer, aquilo tudo estava mesmo acontecendo. De repente lembrou-se que Maria Inês fora cremada. Como ela poderia estar viva e perfeitamente reconstituída ali na sua frente? E de que forma ele teria que entender o absurdo daquele sapato aberto na lateral, se toda aquela roupa havia sido incinerada? O que significava aquilo?
Era como se tudo de razoável e tangível que ele se propusesse a pensar, estivesse perdido na densa fumaça de um descomunal contra-senso.
Não havia como encaixar nada daquilo dentro de uma lógica mínima. Cansado de pensar aqueles borrões de obscuridades mórbidas, levantou-se do chão, deitou ao lado da mulher e encaixado a ela, abraçando-a por trás, adormeceu.
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O fim de semana passou lenta e inalteradamente. Maria Inês não disse nenhuma palavra e não emitiu nenhum ruído. Só olhava para ele quando ele se sentava à sua frente para falar. Falou do período em que esteve sem ela, de como sofreu, da saudade que sentira e de como a vida havia ficado sem graça. Algumas vezes terminava puxando-lhe para si e a abraçando longamente apoiando sua cabeça em seus seios pequenos. Maria Inês não lhe devolvia o abraço, mantinha os braços parados ao longo do corpo e o olhar mirava através da parede à sua frente. Aquela sua tranqüilidade catatônica e silenciosa, produzia nele uma dor aguda. Era como se aquela pessoa fosse apenas um espectro da verdadeira Maria Inês. Talvez uma casca oca, sem o recheio de Maria Inês que deveria conter.
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A semana começou e ele não voltou ao trabalho. Pediu o adiantamento de uma semana em suas férias e ficou em casa trancado com a mulher.Sentava-a na cozinha e preparava longos cardápios da sua comida preferida para que comessem juntos. Enquanto se movia pela entre fogão aceso, pratos, temperos e preparos, ia lhe contando tudo o que havia acontecido com ele naqueles longos seis meses em que estiveram distantes. Contava-lhe também sobre o que ocorreu no mundo e no país; pretendia colocá-la a par de tudo, afinal Maria Inês sempre foi tão bem informada, certamente gostaria de saber daquilo tudo. Ela ficava estática, de frente para o prato, observando-o se mover, falar e produzir. Na hora da refeição ele se sentava ao seu lado e a servia na boca. Ela comia, sem expressar qualquer reação de desagrado ou prazer. “Talvez tenha sido um trauma morrer e ficar lá naquele silêncio e naquela escuridão da morte”.
Ansiava por ouvir sua voz. Dava-lhe banho e vestia-lhe com suas próprias roupas, que lavou uma a uma para tirar o cheiro de mofo. Punha-a ao seu lado no sofá e assistiam à TV e a filmes em DVD. Ele comentava com ela sobre tudo, como nos velhos tempos; mas não recebia retorno de nenhum tipo. Nem gestos, nem sons.
Por vezes ela adormecia ao seu lado e ele a punha na cama e voltava para a sala para ficar no escuro e pensar. Lembrou-se da frase do velho naquele dia: “Hernando! no hagas nada desto si no estas mui seguro... Recordate que pocas cosas seran como fueran um dia!”. Sim, ele foi avisado, mas simplesmente não deu atenção. Pensou que é incrível a desatenção inconsciente que temos nas coisas que não nos interessam ouvir. Como ele não ouviu aquilo!?
Voltou ao trabalho na semana seguinte, mas não conseguia trabalhar. Estava entrando em um espiral descendente. Não sentia mais fome e nem vontade de falar com ela. Não suportava mais olhar nos olhos daquela estranha Maria Inês, e sentir aquele vazio abismal, aquela surreal e quase doce indiferença.
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Duas semanas haviam transcorrido. Maria Inês vagava pela casa por vezes de madrugada. Às vezes ele a ficava espiando escondido para ver o que ela fazia quando não sabia que estava sendo observada. Descobriu que não fazia nada diferente do que fazia quando ele estava por perto, ou quando ele tagarelava olhando-a nos olhos. Tinha sempre as mesmas reações robóticas. Ficava parada ou em pé olhando para frente, por horas a fio. Por vezes baixava os olhos ou o queixo e ficava assim um tempo. Depois, como se respondesse a uma programação, se deslocava para algum outro lugar da casa, e ficava ali por mais minutos ou horas. Não só não falava nem exibia expressões faciais, como também não demonstrava humanidade em seus movimentos. Movia-se estranha e lentamente. Dava passos letárgicos e indolentes; até a cabeça parecia mover em câmera lenta.
Como ele sabia de tanta coisa? Como sabia seu nome? Como soube, naquela manhã ao telefone, que ele queria reviver a mulher? “... recordate que pocas cosas seran como fueran um dia...”. Ah, se ele soubesse! Estava tão arrependido, tão desacorçoado, tão fraco física e mentalmente.
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Havia parado de cuidar da mulher, não suportava mais tê-la e não tê-la daquela forma. Distanciou-se daquele ser. Reparava que ela de alguma maneira se virava por si só. Abria a geladeira e comia coisas que achava por lá. Ia ao banheiro também. Mas não tomava banho e não escovava os dentes. “Talvez no inferno não ensinem estas coisas!”, pensava. Estava enlouquecendo. Evitava-a pela casa e evitava olhá-la em sua catalepsia monstruosa.
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Um mês havia se passado daquela madrugada na cozinha. Exatos trinta dias. Estranhamente acordou de forma espontânea naquela madrugada no mesmo horário em que acordara no dia em que a mulher voltara: 04h15min. Levantou-se e foi à cozinha. Por algum motivo achou que a veria parada na frente geladeira novamente, mas Maria Inês não parecia estar em lugar nenhum.
Voltou e deu com ela em pé na sala, no escuro. Estava bem no meio da sala de frente para a parede atrás do sofá. Por um instante sentiu dó de ela; uma pena intensa que moeu seu coração. Um pranto violento e incontrolável chegou tomando conta dele. Então chorou ali em pé, olhando aquele fantasma que um dia foi sua amada Maria Inês. Quis gritar; gritar e esmurrar a parede de ódio do mundo, da morte, da fatalidade que atingiu sua felicidade, da vida, do velho índio maldito, do amigo do e-mail.
Caminhou até a mulher e a abraçou com força, fazendo-a soltar parte do ar dos pulmões. Abraçado a ela chorava e sacudia o corpo, a autocomiseração seccionava-lhe as entranhas como uma faca quente que atravessa uma barra de manteiga.
Maria Inês permanecia fitando a parede da sala escura, impassível. Ele não soube calcular quanto tempo ficou ali abraçado àquela casca de Maria Inês, àquele holograma que trazia a ele tantas recordações de sua verdadeira mulher. Segurou aquela réplica do rosto lindo que tanto amou entre as mãos e beijou sua boca de borracha morna.
Foi ao quarto e vestiu-se com decisão. Pegou-a pela mão e desceu à garagem da casa. Colocou-a no carro. Seria a primeira vez que Maria Inês sairia de casa depois de ressuscitar. Saiu pela garagem ganhando a rua e disparou cantando os pneus. Nem ao menos se lembrou de dar um simples toque no controle remoto que faria baixar o portão eletrônico.
Por uma fração de segundos teve a impressão que alguém os espiava por detrás da porta de vidro da varanda da sala escura, mas pensou que isso não importava mais. Dirigiu com o pé em baixo por duas horas em direção ao litoral rochoso; haviam construído um sonho de casa ali, e em um fim de tarde de verão, juraram na beira dos rochedos e de frente para o oceano, viver ali os seus últimos dias quando estivessem aposentados, velhos e senis.
Lá naquelas pedras ele havia jogado as cinzas de sua mulher que agora, por algum descalabro ou desconjuntura divina, estava ao seu lado no carro. De repente lembrou-se do cerimonial com a cabra, do sangue e do mantra lúgubre que recitou. Nunca foi religioso, mas não precisava ser para saber que não havia nada de divino naquilo. Não fora com Deus que ele havia feito um pacto, “até por que, Deus não faz pactos”, pensou.
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Chegou à casa da praia já com o dia iluminado e bem nascido. Estacionou o carro na alameda de pedriscos.
Desceu, deu a volta e tirou a mulher pela outra porta; levou-a até o penhasco com aquela sua eterna e espetacular vista. “desejo-lhe a vida!”, lembrou da frase no e-mail e sorriu sarcástico. Tinha desenvolvido uma repulsa irascível daquele absurdo todo. Ele fora fraco e deixara se levar por ilusões efêmeras.
Olhou para aquela estranha e mórbida Maria Inês ao seu lado. Estavam na beiradinha do despenhadeiro agora, lado a lado. Ela mirava com aquele jeito indiferente o horizonte à sua frente e por um instante pareceu a ele que sorriu um sorriso sombrio, mas era bem provável que fosse mera ilusão de sua mente desnorteada. Certamente não havia nenhum sorriso e nenhum sentimento naquele corpo estéril.
Espalmou a mão em suas costas e a empurrou para frente: “Vai meu amor, e perdoe-me por tudo”. A mulher não tentou se segurar ou reagir. Caiu ereta como cai um tronco de árvore que é simplesmente solto; as expressões de seu rosto, serenas e indefiníveis, assim permaneceram enquanto ela tombava para o nada. Caiu sem se debater, apenas suas roupas e seus cabelos negros e longos flanaram furiosamente sob a ação do vento. Podia-se ver os seus olhos abertos a observar coisa alguma enquanto caia. Segundos depois, um baque seco nas pedras junto às ondas que rebentavam espumantes, pôs fim àquela vida morta. Balançou um pouco nos pés, desejava que alguém tivesse misericórdia e o empurrasse. Mas não havia ninguém para fazê-lo.
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....por entre as pontas de couro dos calçados podia avistar o colossal abismo e o mar explodindo contra os rochedos, cem metros abaixo. O rugido leonino do oceano parecia chegar aos seus ouvidos com uma fração de atraso em relação ao que se avistava. Apesar do esforço que a brisa marinha fazia para dissipá-lo, o cheiro denso e morno da maresia já era intenso naquele princípio de manhã de primavera...
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Foi possuído por uma instantânea nostalgia. Lembrou-se de Maria Inês e de tudo o que lhes foi surrupiado. Um chumaço seco de pano pareceu fechar sua garganta e marejar seus olhos. Um dos seus pés escapuliu na lisura de um musgo traiçoeiro finalmente desequilibrando-o. Não lutou para se segurar. No giro penso do corpo em direção ao vazio, ainda teve tempo de avistar a casa fechada com suas cortinas serradas e que lhe trazia tão boas recordações. Aquela casa que nunca mais seria aberta para o vento ou para a vida.
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Cesar Cruz
Mar/ 08
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