O tempo ensina


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“Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.”
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Marcel Proust - Em busca do tempo perdido
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Certa vez li uma frase: “Esperemos pelo maior dos mestres: o tempo”.
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Grande frase. Grande verdade. Eu, por exemplo, nunca entendi o amor desmedido que minha mãe manteve por mim durante a vida toda. Na infância, aquele amor hiper-dimensionado chegava a me sufocar. Minha mãe era daquelas que apareciam no meio do jogo de futebol da garotada e, lá do outro lado da rua, gritava: “Cé, meu filhinho querido! Vem tomar seu lanchinho!”.
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Moleque que é moleque sabe que aquele que a mamãe fica de muito nhem-nhem-nhem vira chacota da turma. Acontecia comigo. Ela não fazia por mal, mas eu sempre pedia: “Mãe, vê se não vai aparecer lá e ficar me chamando e me beijando na frente de todo o mundo!”. Não adiantava. Dona Diva, cega de amor, parecia não entender isso. Logo estava lá, de novo, para, inocentemente, me fazer passar vergonha em público. E eu fugia dela! Aquele seu amor cobria tudo, era como uma cortina de fumaça que não a deixava enxergar nada, só a mim.
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Na adolescência fiquei malcriado e respondão - como ela dizia -, mas sempre que eu chegava em casa ele estava lá, expresso no sorriso meigo e nos olhos doces da minha mãe: o amor.
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Dona Diva me dava beijos em público, exigia abraços, falava alto, para que todos vissem que ela, só ela, era mãe daquele menino maravilhoso. E eu, moleque agitado, interessado num mundo que se abria para mim, não lhe dava muitas chances. Hoje me arrependo.
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Anos se passaram, fiquei adulto e mudei. Mas, infelizmente, não mudei o suficiente. Nunca soube retribuir o amor que ela realmente merecia. Nunca demonstrei como deveria demonstrar... Só hoje, tardiamente, eu percebo isso, pois dona Diva já se foi. Oh, arrependimento! Eu daria tudo por só mais um daqueles jantares que fazíamos na casa dela, acompanhados por uma garrafa de vinho e muitas conversas e histórias...
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Dia desses fui lá remover objetos e pegar cartas. A casa está fechada. Em certo momento, parei e me sentei no sofá. Fiquei ali, olhando aquilo tudo, como alguém que olha o corpo sem vida da pessoa que ama. Ainda não cheguei a desmontar as coisas a ponto de descaracterizar a casa. Ainda é a casa da mamãe, mas há um frio agora, como num corpo sem vida, de que a alma já partiu. É casa, mas não é mais lar. Acabaram-se as vozes, os cheiros; há um vazio, um oco, um eco, uma tonalidade sépia no ambiente... Não sei explicar, confesso. Se eu fosse poeta, teria as metáforas certas para fazer você, leitor desta crônica, sentir, compreender!, mas não sou...
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Sei que fiquei por uns instantes ali, recordando, sentado, só. Pensava: “Foi ontem que estivemos todos bem aqui, reunidos, alegres. Mamãe, Maria Luisa, Vanessa e eu. A TV ligada, uns tira-gostos sobre a mesinha e cada um de nós com um copo na mão. Todos falando ao mesmo tempo. Uma família!”
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De repente, um clique desligou o sonho colorido e quentinho, e voltei para o inexorável presente: frio e sépia.
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Mas como eu dizia antes: o grande mestre é o tempo. Hoje sou eu o cego de amor. Sou enlouquecidamente apaixonado pela Michele. Penso nela o dia todo; com poucas horas distante, quase explodo de saudades. Muitas coisas que me interessavam antes, de repente perderam o brilho. Agora é só Michele, Michele, Michele. Quase a sufoco! Ela tem pouco mais de ano e meio, mas já se irrita quando eu a abraço demais, a beijo demais, não quero largar... Puxou o pai! É arisca! E eu sofro com isso... Às vezes me flagro implorando, choramingando, agachado de braços abertos: “Filhinha, vem cá dar beijinho no seu papai!”. Algumas vezes ela vem, linda, sorrindo e gritando, mas só às vezes. Normalmente ela fica brincando no seu canto e não vem, cheia de personalidade e opiniões próprias.
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Dona Diva não chegou a conhecer minha filha, infelizmente. Aí uma outra coisa que eu daria tudo para ver. Mas seria mesmo impossível, pois ela morreu três meses antes de a Michele nascer.
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É... o fato é que só agora eu compreendo a mamãe. A gente só entende quando vive. É o mestre Tempo ensinando, ensinando, ensinando...
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Cesar Cruz
maio 2009
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Foto:
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da esquerda para a direita - Maria Luisa, Diva, Cesar e Vanessa - Jan 2006.
Diva morreu em jun. 2007 e Maria Luisa em fev. 2009. .
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13 comentários:

Anônimo disse...

Fala Cesar,

Como sempre, texto tocante que nos faz parar pra pensar. Gosto desses que tratam da realidade, do cotidiano.
Hoje a coisa é com a gente, estivemos do lado de lá, agora estamos de cá, vendo nossos filhos, à medida em que crescem nos dando, às vezes abraços, às vezes as costas.
Dar atenção, amor e carinho aos nossos filhos é nosso dever como pais, mas receber de volta não é nosso direito, para que possamos reclamar. Mas fazer o quê? Não fosse assim, não seria amor, mas interesse.

Grande abraço!

Marcelo Lopes

Mariana disse...

Linda crônica!!!!
Abs!

Debora Ocsemberg disse...

Nossa... posso comentar?
Bom, eu acredito que, assim como vc entende a Michele, sua mãe te entendia. E eu acho tb que o que é material realmente não tem cheiro e não tem vida... por isso a casa dela não é mais lar. Mas eu sou espírita, então eu tb acho mtas outras coisas...
Faz tempo?
Se quiser trocar idéia, estamos aí!
Beijos!
E manda fotos da fofinha! Ela deve ter crescido, quero ver!

bjo
Debora

Helio Katura disse...

Gostei muito desse pensamento...... Também perdi meus pais, os dois, e me entristeço muito quando penso nisso. Ainda bem que tenho irmãos e boa parte da família próxima de mim. Espero que você também tenha irmãos que te apoiem e te acompanhem na jornada.

1 abraço
Helio Katura
Presidente Prudente

Anônimo disse...

Cé,
Sabe porque eu adoro seus contos e crônicas? Porque eu me expresso através de você!
Incrível a identificação que eu tenho com tudo o que você escreve.
Mais uma vez, me emocionei.Obrigada.
Beijo, Yeah.

Glaucia disse...

Existe texto palpável?
Se não existe por que tenho essa indelével sensação ao ler seus textos?
Pude quase sentir os abraços da Dona Diva, ouvir os risos e conversas...me senti da família!
Escrever é fácil, mas transformar letras em artes é para poucos, e você é um desses.
Parabéns César
Glaucia

P.S Amei o texto sobre bebe reborn!!!!

Poemas e Cotidiano disse...

Meu querido Amigo Cesar!
(ainda bem que hoje nao te chamei de Celso! rs).
Nosssssaaaa como me identifiquei com seu texto! Parecia estar dentro dele...sentindo o que voce estava sentindo. Que vida dura, ne meu amigo? Por que a gente soh vai perceber as coisas tanto tempo depois? Porque nao tivemos TEMPO de mostrar e nao nos envergonhar desse amor? A GRANDE VERDADE eh que a gente somente sente isso QUANDO TEM FILHO! Essa eh a PURA verdade! Somente atraves do amor que sentimos, podemos entender o amor da MAE.
Lembro Cesar, que eu trabalhava na Johnson e saia de casa cedinho de onibus. E ela nao me via.
Entao TODOS OS DIAS ela me ligava para saber como eu estava.
Aquilo me IRRITAVA! Um dia meu chefe perguntou: "Voce mora com sua mae, Maria Ines?" Falei: "Sim"... e fiquei com uma vergonha...
Ah! como eu queria hoje que ela ligasse...como eu queria hoje ve-la, abraca-la, esmigalha-la (risos) e dizer O QUANTO EU A AMO e A AMEI! Mas sabe, nunca eh tarde demais para expressarmos nosso amor. O amor sempre esta "em tempo"em nossa vida, essa eh a verdade!
Eu tambem fui como voce de SUFOCAR minha filha... hoje ela nao quer chegar nem perto de mim...(rs). Mas com certeza, quando for mais velha, vai sentir o mesmo que hoje sentimos.

Um beijao proce meu querido amigo!
MARY

PS: Quando li seu texto, tao humano, tao sentido, eu desenhei uma poesia na minha cabeca... Depois se ela se transformar em realidade eu te mando!

Poemas e Cotidiano disse...

PS: O que voce sentiu, eh mais ou menos o que diz o fim da poesia do meu irmao, que coloquei no meu Blog:

"Fostes e fiquei,
com a saudade,
com as lembranças,
no meu, já agora,
experiente coração.

Ave Maria,
cheia de graça;
bendito fruto
que retornou
ao teu ventre!

Majoli disse...

Fiquei emocionada ao te ler, passo pelo que sua mãe passou, meu filho mais velho já "morreu" de vergonha de mim, pelo meu tão estonteante dedicar à ele, seja onde for e perto de quem for.
Hoje ele chega à sorrir com tudo que faço, mas percebo ainda que se intimida com minha exagerada forma de cuidar dele.
Beijos no teu coração.

Guto Oliveira disse...

César, eu também venho de uma familia numerosa e sei o gosto amargo de ver a casa vazia. Mas o passado, as lembranças, as coisas vividas ali, ficarão sempre em nossos corações. Ainda bem. Seu texto é comovente. Abraços.

Anônimo disse...

Amor,

Realmente igual a dona Diva nunca terá ninguém, com todo aquele amor conseguiu ser como uma mãe pra mim e vc sabe como nos amavamos e eramos amigas.
Mas, não posso deixá-lo dizer que não soube demostrar amor..
Nos ultimos tempos vc ficou muito carinhoso com sua mãe, dando-lhe toda a atenção que ela queria e fazendo todas as suas vontades..
Lembro-me muito bem como ela dizia que vc estava mais carinhoso dando todos abraços e beijos que ela queria...
Claro que sempre que perdemos alguém que amamos muito, temos a sensação que não fizemos o suficiente..
Mas sei como sua mãe partiu feliz com todo seu carinho e sua atenção, pois a ultima pessoa que ela viu sorrindo e segurando sua mão foi vc...
Te amo.
Van

Anônimo disse...

Dona Diva, que saudade !
Eu lembro bem dela te chamando para o lanchinho da tarde.
Mas ela não era a única que tratava a pão de ló os seus queridos filhos. Tem uma leitora aqui do seu blogue que todos os dias, pela manhã, dizia ao filho mais novo, quando ele saia para a escola: " Quiq...nho, pegou a sua maçã ?" HAHAHAHA !
Perdão, Dona Car...ina, mas eu não resisti !
Beijos a todas as mamães da Itu, Tânia (Cerqueira César/SP)

Tais Luso disse...

Que linda esta crônica, Cesar... Quantas donas Divas se vão, sem darmos tanto valor, envergonhados de sua demonstração de tanto amor como se amor e carinho fossem coisas para termos vergonha. Agora teríamos orgulho desses sentimentos que só existem numa pessoa, ou em poucas. E fazer o quê, né amigo? Só há uma coisa: não repetir a dose com outras pessoas que apenas demonstram amor e carinho por nós.

Só quando perdemos é que dizemos: que pena, gostaria que este tempo voltasse para fazer tudo diferente! Mas agora é tarde. Esta sua dor, também senti. Penso que todos sentem. Pelo menos os que têm sentimentos nobres. Também tenho isso, mas quero lembrar como apenas um equívoco que aconteceu em minha vida. O tempo para remediar já se foi.

Tais.