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A minha experiência gay


Esta crônica é parte integrante do livro 
"A Idade do Vexame & Outras Histórias" - Pontes Editores  

Crônica publicada no Jornal do Cambuci
portal Mundo Mundano.
Revista Eletrônica Tuda
Portal Página Cultural

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Nunca mais a minha vida será a mesma. Tive uma experiência gay. Sim, gay. E chego a conclusão de que não é fácil ser gay neste país. No fundo dói, como você pode imaginar. Bem, aconteceu, fazer o quê. E foi com meu amigo George, o G. — pelo menos foi com alguém em quem eu confio. Com a permissão dele, vou contar tudinho, a gente precisava mesmo se abrir.

Comecemos pelas preliminares:

Como nossas mulheres tinham um compromisso naquela noite, resolvemos, eu e ele, ir com a Michele, minha filha, e com a Duda, filha dele (três e dois anos, respectivamente) passear no shopping SP Market, aqui em São Paulo.

A Michele e a Duda são meninas negras, e eu e o G., pais brancos. Por si só nossas famílias já atraem os olhares das pessoas, pois fica evidente que se trata de adoção. Eu já estou bem acostumado com isso, e imagino que o G. também. Mas o que não estamos acostumados, o que nem ao menos podíamos suspeitar quando inventamos de ir ao shopping com as duas, era que iríamos parecer, inapelavelmente, um casal gay.

O detalhe é que havia em torno da situação um número razoável de agravantes colaborando para firmar nossa vocação de casal feliz: As alianças na mão esquerda, estarmos vestidos de bermudas e camisetas-machão (aquele modelo enrustido, que não teve a coragem de sair do armário e ser uma verdadeira regata), o G. ser gordinho e peludo, e eu careca e taludo, e o pior: o fato das meninas adorarem andar de mãos dadas, o que nos obrigava a ficar cada um numa ponta com as duas no meio.

Sacou a cena? Feche os olhos e visualize. Viu? Confessa aí. Até você que se faz de politicamente correto, mas no fundo é um grande sacana, iria cutucar sua mulher e dizer “Veja, amor, que lindo aqueles maridinhos!”. E ela diria, com um beliscão na sua barriga “Não seja besta, Jorge! É lindo mesmo, você que é um bruto!”.

Estacionamos os carros e entramos no shopping.

— Ferrou, G. — eu disse, logo que dobramos o quiosque do Mac Donalds.

— Ferrou o quê? — ele perguntou, inocente.

— Estão achando que somos um casal gay.

— Quéisso... Será?

Sua dúvida durou apenas um instante. Um brevíssimo instante.

Tudo ficou óbvio quando passamos pela Copenhagen e cruzamos com uma velhinha de cabelos lilás, que juntou as mãos sob o queixo e sorriu docemente, a cabecinha se inclinando, acompanhando com um olhar cheio de amor a nossa linda família passar.

O que faríamos? Nada. Nada a fazer. E tínhamos duas horas pela frente. E agora que já tínhamos entrado no shopping, seria impossível tirar as duas dali em pleno mês de Natal e Papai Noel.

E lá fomos nós, shopping adentro, caminhando convictos de nossa macheza. Eu não me atrevia nem a olhar para os lados, mil olhos sobre nós. As pessoas cochichando, disfarçando. Eu quase podia ouvi-las “olha ali, Antunes, mas sem dar na cara! Disfarça, Antunes!”; “Não olha desse jeito! Eles vão achar que você também é, Wanderlei!”; ou os seguranças: “Q.A.P, Reinaldo na escuta?” — “Prossiga Q.A.P!” — “Disfarça e dá um bico no casal de bonecas que vai passar aí em frente à C&A, câmbio!”

Diante da situação que se apresentava, passamos de repente a falar grosso, defesa inconsciente de nossa masculinidade ameaçada. Quando dei por mim eu estava dizendo palavrões, coçando o saco, andando de pernas abertas — para não rebolar —, soltando tapas nas costas do G. e dizendo “Aê, meu velho!”. Até um cuspe de macho dei na lixeira, fazendo cara de mau.

No entanto, qualquer esforço para parecer menos passivo resultava em nada. O quadro parecia se agravar a cada corredor... Sim, porque se a senhora acha que todos os homossexuais são iguais, se engana, minha senhora! E o pessoal do shopping parecia saber muito bem disso. Já deviam estar achando que fazíamos o tipo gays-machões, estilo Village People.

E o tempo não passava...

Paramos para jantar, depois andamos pra lá e prá cá tomando sorvete (vai vendo), mais adiante nos encostamos num quiosque pro café expresso...

Acabou? Não.

A Michele precisava de um tênis, e lá fomos nós. Uma legítima família às compras. Eu provando o tênis na Michele e o G. correndo atrás da Duda que queria derrubar tudo pela loja, e todo mundo olhando, e os vendedores em grupo, com as mãos em frente às bocas, todos os olhos na loja sorrindo, inequivocamente.
Então, duas mulheres, mãe e filha, supus, provando suas sandálias e sem conseguir disfarçar a mórbida curiosidade, me sondaram:

— Que lindas, quais os nominhos delas? São irmãs?

E eu, já de saco cheio depois de duas horas de massacre, engrossei a voz e disse:

— Não, minha senhora. Elas não são irmãs. E esta aqui é a Maria Eduarda, filha dele com a mulher dele. E essa é a Michele, minha filha com a minha mulher!

Pois é, amigo... A gente brinca com essas pequenas desgraças, mas a verdade é como eu disse no início: no fundo, dói.


Cesar Cruz
Dez 2010


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Texto relacionado - Os olhos dos outros
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A parte que me cabe deste latifúndio



Esta crônica integra o livro "A Idade do Vexame & Outras Histórias" - Pontes/ 2011


Hoje é dia 23 de outubro de 2010, domingo. Há pouco eu estava no quarto da Michele, só ela e eu. Ela veio me buscar na sala, me fez largar no sofá o notebook ligado, com meus escritos abandonados pelo meio, e me arrastou pela mão. Vem, papai, vem! — exigiu. Ambos nos sentamos como índios na sua cama e brincamos de Barbie e Ken. “Ela é namorado, papai?” — ela perguntou, me olhando com aqueles sensacionais olhos redondos e negros. “Ela é namorado?”, na língua da Michele, nada mais é do que uma simplificação da frase “Ela é namorada dele?”. Um grande recurso linguístico, tenho que admitir. Vai ser escritora, essa menina, pensei.


“Sim, meu amor, eles são namorados sim” — respondi, de forma simplificada, para que ela entendesse. Mas confesso que fiquei inclinado a contar toda a verdade da vida para ela ali, na frente da Barbie e do Ken, que nem ao menos enrubesceriam. Me contive. “Sim, meu benzinho, eles namoram, na verdade são casados por conveniência. Vivem uma relação que sempre se manteve por puro interesse comercial. A Barbie não suporta mais o Ken, por quem ela largou o pobre do Bob, deu um pé no coitado do Bob, que acabou se matando, pulando no Tietê. O Ken, aquele príncipe lindo, agora está com uma barriga enorme, bebe que nem um porco e só fica no bar com os vagabundos dos amigos desempregados dele. Ela, por sua vez, meu amor, arrumou um amante. Dizem, pelos corredores da Mattel, filha, que se trata de um chefão da organização, desses que tem elevador privativo e que chegam e se mandam de helicóptero. O mais engraçado, filha, é que esses bonecos idiotas estão com mais de 60 anos nas costas e, você e eu, possivelmente, já vamos ter morrido e eles ainda estarão por aqui, com essas caras sorridentes, se vendendo como prostitutos despudorados, enriquecendo gerações e gerações dos vagabundos herdeiros do seu criador, seja lá ele quem for”. Pensei tudo isso, mas não disse. O gostoso na minha filha é justamente a ingenuidade, que o tempo se encarregará de destruir; não é necessário que eu adiante as coisas.

E ali, entre Barbies e Kens, reparei no pezinho descalço da Michele, aquele pequeno pedaço de pão que eu amo tanto, aquela almofadinha macia, com os pequenos dedos, as unhas fininhas como cascas de ovo, ainda tão inconsistentes, quebradiças; as pernas ainda gordinhas da infância, que nem ao menos se dobram quando ela se senta numa cadeira, aquele rosto aveludado, pele de pêssego, diria meu pai, se a conhecesse, tão bom de passar as costas da mão... Observando minha filha assim, pensei que, logo, muito logo, ela crescerá, seus pés ficarão maiores, suas unhas enrijecerão e receberão esmalte, suas pernas dobrarão nos assentos das cadeiras e seus sapatos se apoiarão no chão, sua pele de pêssego será oleosa, encorpará, será maquiada... Logo, muito logo, tudo mudará. Chegará o tempo em que ela não pedirá mais para ver o DVD do casamento do papai e da mamãe, e não pedirá mais para que andemos, eu e ela, para lá e para cá no corredor de casa, de mãos dadas, enquanto eu resmungo mal-e-mal a marcha nupcial, tãrãrãrã! tãrãrãrã! tãrãrãrã! tãrãrãrã!... Ela rindo, importante, com uma fralda branca de pano sobre a cabeça a título de véu, se casando com o papai, depois dizendo: Casei-papai! Casei-papai! Em breve, muito em breve, eu não poderei mais carregá-la no colo, pois ela não deixará: Ridículo isso, pai — dirá —, e mais adiante não conseguirei mesmo, pois meus ossos já estarão mais frágeis e meus músculos mais miúdos. E a vozinha dela, aquela vozinha tão fininha, já não soará mais tão ingênua, ela já não pedirá mais, aos prantos, para que eu largue tudo o que estou fazendo para brincarmos de Barbie e Ken, e de casar e dançar com o papai, e então terá vergonha de receber meus beijos na frente dos amigos e amigas... Logo chegará o dia em que, nas festas, ela me pedirá para deixá-la um quarteirão antes para que os amigos não vejam que o papai a levou, que ela é ainda tão dependente de um pai que já está ficando em segundo plano.

Época virá em que ela encontrará um namorado sério, e esse namoro resultará em um casamento. Então, finalmente, eu entrarei com ela numa igreja, de mãos dadas, segurando o choro, porque afinal sou um cara durão, e aquela música vai tocar de novo tãrãrãrã! tãrãrãrã!... e ela rindo, importante, ao lado do papai; ela estará de véu e vestido, toda orgulhosa, como fazia quando era pequenininha no corredor de uma antiga casa, só que, dessa vez, lá na frente, haverá um rapaz que a levará dos meus braços, um homem que a tomará de mim para morar em uma outra casa, e que — Deus me livre —, poderá maltratá-la, fazê-la sofrer, e eu não poderei dizer nada, ela agora é uma mulher, senhora de si, com opiniões sobre a vida e as coisas: Pai, da minha vida sei eu! — possivelmente me dirá, mulher feita, mesmo que eu, mesmo depois de tantos anos, ainda sinta seus corpinho em meus braços, seu pezinho em minhas mãos, sua pele macia, sua barriguinha protuberante de criança, o corpinho nu que ensaboo hoje no chuveiro enquanto canto musiquinhas que ensinam que o corpinho-vai-ficar-limpinho-e-sem-bichinhos e, então, só então, entenderei que o meu tempo está enfim se esvaindo definitivamente, e que somos mesmo iguais aos nossos pais.

Mas eis que, um dia, uma esperança renascerá no meu coração, uma esperança de que a Michele, minha linda Michele a quem eu tanto amo, poderá, quem sabe, me dar uma neta, uma menininha igual ela mesma foi um dia. Velho então, me sentarei como índio na sua cama, frente a frente com ela, e brincaremos com a Barbie e o Ken, aqueles bonecos que não amam, não conhecem a vida, não têm filhos, e para quem o tempo nunca passa.

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Em 23 de outubro de 1990, há exatos 20 anos, eu perdia meu pai. Mês passado fiz 40 anos. Exatamente meia vida vivi sem seu Aloisio, que tanta falta me faz. Duas décadas que passaram tão incrivelmente rápidas, e eu aqui fico pensando em quão rapidamente poderá passar essa outra metade da vida que há de vir para mim, essa outra metade a que tenho direito, a parte que me cabe deste latifúndio. Espero me manter saudável, e vivo, para ver a Michele, paixão da minha vida, crescer e transformar-se em mulher.

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Cesar Cruz
Out 2010
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Se fosse comigo...


Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*

Novembro de 2010
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Olha aquilo! — eu dizia, indignado — Olha que criança mais sem limites! Ah, se fosse comigo...!


Sim, porque criança mal-educada a gente trata com firmeza — pensava eu — impõe limites, explica que não se pode espernear, chorar e esgoelar como se estivesse sofrendo uma amputação sem anestesia em pleno Carrefour, com todo mundo olhando e fazendo aquela cara de credo-que-horror-de-criança-sem-educação. Sim, comigo seria diferente, sem sombra de dúvida.

Aquilo ali acontece porque essa gente em vez de ler as coisas certas, livros sobre psicologia infantil, preferem ficar de frente pra televisão à noite. São uns ignorantes que não sabem educar! Esse é o mal desse país, a falta de cultura do povo. Vê no que dá? Vê? Uma criança não chega a esse ponto de desobediência e rebeldia assim, de repente, nã-nã-não! Isso é fruto de um processo de desamor, falta de atenção e falta de limites. Sim, limites! (Eu adorava essa palavra: limites). E, para se botar limites, não se precisa usar de força. Basta explicar à criança as coisas, em casa, antes de sair. Criança entende. Essa gente que não estudou é que acha que criança é burra. Burros são eles, isso sim.

Vocês vão ver quando eu tiver o meu. Ah, aí vocês vão ver como se faz! Vou simplesmente explicar que presente, brinquedo é só no Natal, aniversário e Dia da Criança. Vou explicar que suco, doce, chocolate, salgadinho, além de não serem lá os itens mais nutritivos, já que não contêm substâncias naturais e salubres, apenas corantes e conservantes cancerígenos (é só explicar, criança entende), não podem ser comidos durante as compras.

Sim — pensava eu —, basta explicar isso. É só dizer assim “o papai compra, mas a gente vai comer só em casa, tá bom?”. Pronto. Simples. Qual dificuldade há nisso? Melhor do que ter que bater, gritar como esses loucos fazem. Criança entende. Li no livro do Içami Tiba isso. Criança não é burra. Basta conversar, baixinho, fazer acordo. Tudo se resolve com crianças que recebem limites e fazem acordos.

E criança que vai à casa das pessoas e mexe em tudo?, puxa os vasos para o chão, pega os bibelôs de cima da mesa e sai correndo, o pai atrás, aos gritos? Um ab-sur-do! — dizia eu. Comigo não, ah não! Meu filho vai saber respeitar regras, saber o que pode e o que não se pode fazer. Vai ter bom-senso. É isso! Criança pode ter bom-senso, é só os pais se sentarem com o filho, lado a lado no sofá, e explicarem:

— Meu benzinho, vamos hoje à casa da tia Auxiliadora, lá não tem criança, você sabe, e a casa da tia é toda arrumadinha, cheia de cristaleiras e vasos, e ela não está habituada com bagunça, nem com berros. Portanto, quero você sen-ta-di-nho na cadeira depois do jantar, hein? Bom-senso, hein, amorzinho? A tia Auxiliadora é cardíaca, por favor. Vamos pedir para ela deixar que liguemos a televisão, e você vai assistir, quietinho, enquanto os adultos conversam, tá bom assim? Pronto! Ele fará que sim com a cabecinha, e, depois, lá na tia Auxiliadora, ao menor desajuste, com um simples olhar de alerta ele se lembrará do que conversamos e nem se atreverá a agir de outra forma. Tem segredo?

Limites. São só limites, bom-senso e conversa, muita conversa.

Certo, Michele? Conta pra eles que o papai tinha razão.
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Cesar Cruz
Ago 2010
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Dia de dodói

Crônica publicada no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Agosto de 2010
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18 - Fev - 2010

Filha, hoje à tarde o celular tocou enquanto eu dirigia. Quando vi no visor que a ligação era da escolinha, quase tive um infarto. Atendi como uma flecha, o coração aos saltos. Você vai entender esse medo quando tiver seus filhos. A voz do outro lado, de uma das tias, dizia que você estava com febre, 38,5º. Liguei cancelando a perua e mamãe e eu fomos te buscar mais cedo. Você estava prostrada, os olhinhos caídos, meio murcha, quente. Passamos em casa, mas no caminho já fomos combinando: banho para relaxar e reduzir a temperatura, improvisaríamos um jantar rápido, medicaríamos você com um antitérmico e sairíamos por volta das 19h30, sem mais delongas.

Chegamos ao Hospital Nossa Senhora de Lourdes, no Jabaquara, quase uma hora depois. Fomos encaminhados para um dos prédios do complexo onde funciona o Hospital da Criança, que estava lotado de mães, pais e suas proles adoecidas, gripadas, de todas as idades. Ah, esse verão anda cruel com os pequenos! Filas e senhas. Espera. Cadastro preliminar. Espera de novo. Choros. Conversas entre mães. Espera longa. A estrutura é excelente, só que havia muita gente. Enfim, depois de uma hora, a nossa senha piscou no luminoso. Sentamos de frente para o doutor, você no colo da mamãe. O que está acontecendo com a Michele, pergunta ele. Explicamos. Ele pede que a coloquemos na maca. Você, filha, que já conhece esses homens de branco e seus procedimentos, começa a chorar na mesma hora. Seguramos você enquanto o doutor examina seus ouvidos usando aquele iluminador cônico, depois sua garganta, com o famigerado pauzinho de picolé e com a lanterna. Por fim ausculta seu coraçãozinho por todos os lados e determina: vou pedir alguns raio x. Façam e voltem aqui. Seco seu rosto todo lambuzado de choro e ranho com um papel toalha.

Lá vamos nós: senha, espera e raio x. Segura firme, mãe; segura firme pai, senão teremos que refazer, diz a moça, detrás da proteção de chumbo. Mais choro. Chapas prontas, voltamos ao doutor. Sinusite, diagnostica ele. Bloquinho e caneta, receita um antibiótico. Nessa hora gelei. Um contorcionismo de tripas começava a acontecer dentro de mim. Lembrei-me que estávamos com poucos trocados, cartão vencido. O meu salário só cairia na conta dali a dois dias. O pouco que tínhamos era para almoçar e botar combustível no carro para trabalhar, no dia seguinte. Foi então que a mão de Deus pareceu se mover, e o braço do doutor se esticou para traz, abriu uma gaveta e voltou pondo sobre a mesa três caixas de amostras do tal antibiótico.

Terminamos de ouvir as recomendações do médico. Na hora de ir embora você, espontâneamente, com a mão espalmada na boca, mandou beijos para o doutor e disse tchaaaaaau.

Saímos do hospital às 22h30 e fomos para casa, cansados, mas aliviados, por não ser nada de mais com você.


Cesar Cruz
Fevereiro de 2010
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O maior amor do mundo



Crônica publicada no Jornal do Cambuci e no livro A Idade do Vexame & Outras Histórias.

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Dia desses, a amiga Tais Luso, escritora também, dirigiu-me um email que dizia: “Cesar, escreva mais coisas bonitas como essas"

As coisas bonitas a que a Tais se referia são os textos que escrevi sobre a minha filha Michele. Lendo o email da Tais, fiquei pensando que bonitas mesmo são as coisas que ocorrem dentro de mim quando olho pra carinha da minha filha, quando penso nela durante o dia, quando a observo dormindo, naquela paz que para mim caracteriza toda a plenitude da inocência dos ingênuos.

Perto disso, as coisas que escrevo não significam nada. São insípidas e inodoras, tamanha a distância que têm do real sentimento que as produz. É então que compreendo quão incapaz sou para materializar essas inexplicáveis emoções, inapto para transformar em letras e frases esse meu imenso amor. E isso é duro para um escritor.

Nos dias em que escrevia este texto, por uma incrível coincidência, dei com um poema que me consolou. Descobri que não estou sozinho na dificuldade de expressar certos sentimentos. Há companhia ilustre! Veja o que escreveu Fernando Pessoa:



O que sinto, na verdadeira substância com que sinto

É absolutamente incomunicável

E quanto mais profundamente o sinto

Tanto mais incomunicável é.


“Absolutamente incomunicável", seja para os mestres, seja para os pobres mortais.

Mesmo consciente desta incapacidade, me sinto compelido a falar, escrever, bradar! Quero poder dizer a você que me lê, que aquele pequeno pedaço de chocolate que dorme ali naquele berço (enquanto escrevo este texto aqui no sofá da sala), naquele quarto, cobertinha com sua mantinha, sob os cuidados da gente, como eu poderia imaginar, ou ao menos supor, que pudesse impactar tanto a minha vida?

Só sabe quem vive... Alguém já disse isso, e é um fato. Só compreende verdadeiramente as coisas quem passa ou passou por elas, seja o que for.

O louco amor que um homem tem pelo seu filho, quem não tiver um filho jamais compreenderá.  Estou convicto disso, pois até pouco tempo eu mesmo achava que sabia como era.

Não sabia.
 
A Michele me comove de forma especial. Emociono-me ao olhar para aquele seu pequeno rosto, liso, redondo, sorridente. Sentir aquele seu cheiro de criança, de inocência, aquele cheiro tão bom. Parar para apreciar aquelas suas mãozinhas gordinhas, curiosas, que em tudo mexem; aquela sua expressão doce, aquele seu dedo que vive na boca... Não chupe o dedo, filha! Puxo seu dedo repentinamente e ela ri pra mim. Ri um riso que eu sou incapaz de descrever a você como é... O riso do filho da gente.

Quem é pai me entende, acho. Às vezes acho que não. Nesses momentos que acho que não, acho que não, pois julgo que meu amor pela Michele é o maior amor do mundo, e que ninguém tem um igual ao meu. Isso deve ser injusto da minha parte. Não tenho de fato como medir o amor dos outros pelos seus filhos.

O que sei é que ergo a minha menina no colo e algo se enche dentro de mim! Surge uma bolha de inexplicável contentamento e plenitude, enorme e morna. Acho que é isso o amor. Essa sensação física de preenchimento, de quase não caber dentro de si próprio.

Então quero beijar e apertar a Michele, mantê-la nos meus braços, espremida num abraço sufocante para senti-la colada a mim. Não quero mais soltar. Dá um nó na garganta e um amor tão grande no peito, que chego a chorar um chorinho disfarçado, sem ninguém ver.

Nessas horas, quem acaba chorando é ela, coitadinha, porque o papai apertou demais.



Cesar Cruz
Outubro 2009
 
 
 
N/A - O poema do Pessoa é do "Livro do Desassossego", assinado pelo seu heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.


Treinamento de vendas


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Sábado cedinho a cidade é sempre gostosa. Especialmente naquela manhã, cuja combinação de frio e sol produzia um efeito delicioso. Eu tinha acabado de deixar minha mulher no trabalho e voltávamos para casa de carro, minha filha e eu, devagarzinho pela Washington Luiz, ouvindo rádio e conversando. Ali na altura da Moreira Guimarães, onde há uma alça que joga a gente para a Indianópolis, há uma concessionária Renault.
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- Filha, olha ali uma loja de carros, vamos dar uma espiada? – apontei.
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- Cau! cau! – animou-se ela.
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Eu precisava mesmo pesquisar preços para trocar de carro. Estacionei e desci com a Michele no colo. Avancei até a porta envidraçada, empurrei-a e ganhei a loja. Salão amplo, limpo e cheiroso.
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Ficamos aguardando que alguém viesse nos receber, mas ninguém apareceu. Um grupo de cerca de vinte funcionários uniformizados comiam, bebiam e conversavam ao redor de mesas encimadas por uma plaqueta onde se lia “atendimento ao cliente”. Ficou claro que nos viram, mas como ninguém se prontificou, resolvi me autoatender, e segui a seta que indicava a seção de seminovos.
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Havia uns quinze carros usados de diversas marcas ali. Pus a Michele no chão e a deixei correr, enquanto observava latarias, pneus e abria a porta de um por um para espiar o estado dos interiores. Gostei especialmente de um Clio Sedan, ano 2007, muito bem conservado.
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- Michele, vem aqui ver se gosta deste carro! Sua cadeirinha vai ficar linda dentro dele. – chamei-a, mas ela parecia mais interessada nuns panfletos que encontrou sobre uma mesa e que já tinha esparramado pelo chão.
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De repente uma garota saiu do grupo de funcionários e veio até mim. Antes que ela se aproximasse o suficiente, animado que estava, já fui me adiantando:
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- Bom dia, que bom que você veio me atender, moça! Qual o preço deste carro aqui?
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A tal moça não parecia tão entusiasmada com a minha presença quanto eu com a sua. Parou na minha frente com uma cara meio estranha e me fitou, calada, por um instante. Pensei que poderia estar tentando se lembrar do preço do veículo, até que sentenciou:
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- O senhor desculpe, mas não pode ficar aqui; a loja ainda está fechada.
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Surpreso, repliquei:
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- Engraçado, não me pareceu, pois a porta estava aberta e...
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- É que aos sábados só abrimos às nove horas, e ainda são oito e dez. – interrompeu-me, apontando para o relógio na parede. Depois continuou me olhando como quem olha para um intruso, esperando que ele tenha a fineza de se retirar por si só.
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- Poxa, mas há tanta gente aí! Será que um de vocês não pode verificar apenas o preço do carro? – implorei.
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- Agora não dá, senhor. Estamos tomando um cofibreiqui e vamos ter um treinamento de vendas em seguida.
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- Humm... um coffee brake... treinamento de vendas, entendo... Que bacana. Também sou vendedor, sabe? Posso te perguntar uma coisa?
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- Pode. – concordou, com nítida má-vontade.
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- O que vocês aprendem nesses treinamentos de vendas?
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- Aprendemos técnicas para vender mais e atender melhor o cliente.
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Ficamos olhando um para a cara do outro, imersos num constrangedor e significativo calar. Entretanto ela parecia não compreender a eloquencia de certos silêncios.
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- Volte mais tarde, poderemos atendê-lo depois das nove.
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- Oh, não, não, muito obrigado! Prefiro não atrapalhar mais.
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Peguei a Michele no colo e fui saindo, seguido pela moça que se postou atrás de mim como que para se certificar de que eu não iria me atrever a voltar.
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Atravessamos escoltados a turba barulhenta de vendedores, que comiam torradas, petit fours e bebiam seus cafés quentinhos e cheirosos. Ao nos verem passar, paralisaram por um instante. As bocas, constrangidas, suspenderam seu mastigar; as mãos, não tendo onde se esconder, permaneceram erguidas, imóveis no ar, segurando xícaras e fatias de bolo.
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Minha filha ao vê-los comer deve ter ficado com vontade, pois inclinou o corpo em direção à mesa, esticou o bracinho e gritou, rompendo a quietude:
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- Quééééu!
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- Calma, meu amor, vamos embora que papai compra lanchinho pra você em outro lugar. – sussurrei bem baixinho no ouvido dela.
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Como um bicão que foi descoberto na festa e está sendo retirado pela segurança, fui sendo acompanhado através dos intermináveis quilômetros que pareciam me separar da rua.
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Após cortar aquele espesso silêncio, abundante de olhares, terminamos, a Michele e eu, no estacionamento gelado, sem café quente nem calor humano, com a porta de vidro sendo fechada atrás de nós, desta vez a chave. Afinal, ainda não eram nove horas.
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Cesar Cruz
Agosto 2009
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O tempo ensina


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“Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.”
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Marcel Proust - Em busca do tempo perdido
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Certa vez li uma frase: “Esperemos pelo maior dos mestres: o tempo”.
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Grande frase. Grande verdade. Eu, por exemplo, nunca entendi o amor desmedido que minha mãe manteve por mim durante a vida toda. Na infância, aquele amor hiper-dimensionado chegava a me sufocar. Minha mãe era daquelas que apareciam no meio do jogo de futebol da garotada e, lá do outro lado da rua, gritava: “Cé, meu filhinho querido! Vem tomar seu lanchinho!”.
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Moleque que é moleque sabe que aquele que a mamãe fica de muito nhem-nhem-nhem vira chacota da turma. Acontecia comigo. Ela não fazia por mal, mas eu sempre pedia: “Mãe, vê se não vai aparecer lá e ficar me chamando e me beijando na frente de todo o mundo!”. Não adiantava. Dona Diva, cega de amor, parecia não entender isso. Logo estava lá, de novo, para, inocentemente, me fazer passar vergonha em público. E eu fugia dela! Aquele seu amor cobria tudo, era como uma cortina de fumaça que não a deixava enxergar nada, só a mim.
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Na adolescência fiquei malcriado e respondão - como ela dizia -, mas sempre que eu chegava em casa ele estava lá, expresso no sorriso meigo e nos olhos doces da minha mãe: o amor.
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Dona Diva me dava beijos em público, exigia abraços, falava alto, para que todos vissem que ela, só ela, era mãe daquele menino maravilhoso. E eu, moleque agitado, interessado num mundo que se abria para mim, não lhe dava muitas chances. Hoje me arrependo.
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Anos se passaram, fiquei adulto e mudei. Mas, infelizmente, não mudei o suficiente. Nunca soube retribuir o amor que ela realmente merecia. Nunca demonstrei como deveria demonstrar... Só hoje, tardiamente, eu percebo isso, pois dona Diva já se foi. Oh, arrependimento! Eu daria tudo por só mais um daqueles jantares que fazíamos na casa dela, acompanhados por uma garrafa de vinho e muitas conversas e histórias...
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Dia desses fui lá remover objetos e pegar cartas. A casa está fechada. Em certo momento, parei e me sentei no sofá. Fiquei ali, olhando aquilo tudo, como alguém que olha o corpo sem vida da pessoa que ama. Ainda não cheguei a desmontar as coisas a ponto de descaracterizar a casa. Ainda é a casa da mamãe, mas há um frio agora, como num corpo sem vida, de que a alma já partiu. É casa, mas não é mais lar. Acabaram-se as vozes, os cheiros; há um vazio, um oco, um eco, uma tonalidade sépia no ambiente... Não sei explicar, confesso. Se eu fosse poeta, teria as metáforas certas para fazer você, leitor desta crônica, sentir, compreender!, mas não sou...
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Sei que fiquei por uns instantes ali, recordando, sentado, só. Pensava: “Foi ontem que estivemos todos bem aqui, reunidos, alegres. Mamãe, Maria Luisa, Vanessa e eu. A TV ligada, uns tira-gostos sobre a mesinha e cada um de nós com um copo na mão. Todos falando ao mesmo tempo. Uma família!”
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De repente, um clique desligou o sonho colorido e quentinho, e voltei para o inexorável presente: frio e sépia.
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Mas como eu dizia antes: o grande mestre é o tempo. Hoje sou eu o cego de amor. Sou enlouquecidamente apaixonado pela Michele. Penso nela o dia todo; com poucas horas distante, quase explodo de saudades. Muitas coisas que me interessavam antes, de repente perderam o brilho. Agora é só Michele, Michele, Michele. Quase a sufoco! Ela tem pouco mais de ano e meio, mas já se irrita quando eu a abraço demais, a beijo demais, não quero largar... Puxou o pai! É arisca! E eu sofro com isso... Às vezes me flagro implorando, choramingando, agachado de braços abertos: “Filhinha, vem cá dar beijinho no seu papai!”. Algumas vezes ela vem, linda, sorrindo e gritando, mas só às vezes. Normalmente ela fica brincando no seu canto e não vem, cheia de personalidade e opiniões próprias.
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Dona Diva não chegou a conhecer minha filha, infelizmente. Aí uma outra coisa que eu daria tudo para ver. Mas seria mesmo impossível, pois ela morreu três meses antes de a Michele nascer.
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É... o fato é que só agora eu compreendo a mamãe. A gente só entende quando vive. É o mestre Tempo ensinando, ensinando, ensinando...
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Cesar Cruz
maio 2009
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Foto:
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da esquerda para a direita - Maria Luisa, Diva, Cesar e Vanessa - Jan 2006.
Diva morreu em jun. 2007 e Maria Luisa em fev. 2009. .
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Textos relacionados:
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Os olhos dos outros


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Crônica publicada na Gazeta do Ipiranga* e no Jornal do Cambuci & Aclimação*
Junho de 2009.
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Circulo com minha filha pelos lugares e os percebo. Fitam-nos. Algumas pessoas, cujos olhares contêm uma curiosidade que se manifesta discretamente, os lançam de soslaio sobre nós, disfarçadamente, para não serem flagrados em sua fraqueza.


As pessoas fazem o mesmo quando avistam alguém imensamente gordo, ou um tristemente aleijado, ou um casal gay. De certa forma, isso é natural. Os olhos querem olhar, medir, compreender o diferente. Ainda que não se atenham à dor que isso possa produzir. Há quase uma comichão nas entranhas de certas pessoas, tamanha a voracidade que têm por invadir, especular e atribuir valores ao que, para elas, é incomum.

Rubem Alves escreveu sobre isso, mais particularmente sobre o sentimento da criança diferente, que se sente observada. Reproduzo, abaixo, trechos de um de seus livros:

"Esta estória foi construída em torno da dor da diferença: a criança que não se sente bem igual às outras, por alguma marca no corpo, na sua maneira de ser (...) Ela lida com algo que dói muito: não é a diferença, em si mesma, mas o ar de espanto que a criança percebe nos olhos dos outros (...) Os olhos, de órgãos de carinho, transformaram-se em ferrões (...) O medo dos olhos dos outros é sentimento universal. Todos gostaríamos de olhos mansos (...)."

Hoje, minha filha Michele, em seu pequenino mundo infantil, não entende muita coisa. Para ela todos são bons, e ela ignora que neste mundo haja preconceitos e julgamentos de toda a espécie. Confia e gosta de quem quer que se aproxime. Para ela, o mundo se resume a um careca que é o papai e uma moça dos cabelinhos negros, que é a mamãe. Ambos cuidam dela e, juntos, vivem num lugar que chamam de casa. Quando ela tem fome ou sede, pede “papá!” ou “ága!”, e o careca e a moça correm servi-la.

Na sala da sua casa existe um caixa que exibe coisas legais e que ela adora, desenhos divertidos e programas com musiquinhas gostosas que ela canta e dança a seu modo. Em frente à caixa, há um negócio fofo e comprido que a mamãe chama de sofá e onde todos se sentam. Às vezes, quando papai e mamãe estão distraídos, ela sobe ali e pula repetidas vezes em meio a gargalhadas e gritos eufóricos: púa!, púa!, púa!, púa!

E assim seus dias se sucedem em uma rotina muito singela, mas que satisfaz plenamente as suas exigências primárias.

Há também o passear, a escolinha, com suas atividades lúdicas, o Juca — o cachorro do vizinho —, os gatos de casa, a bobó e o bobô, o carrinho de supermercado, que ela adora andar dentro, em pé, durante as compras...

À noite, por volta das oito horas, após o banho, o papai escurece o quarto e a leva até a janela para que ela dê tchau ao dia que acabou, atividade que ela adora fazer, agitando a mãozinha: “Taaaaaaaaaaaau!”.

Então o papai fecha a janela e desafina baixinho algumas cantigas enquanto a embala no colo, o que a leva gradualmente a um estado de relaxamento e calma. Enquanto a voz do papai vai se esvaindo, transformando-se em efêmeros e distantes sussurros, tudo vai se apagando. E, enfim, sem que ela saiba como, acaba deitada na segurança de seu berço para o inocente descanso. E isso é tudo.
Por ser uma criança negra e ter pais brancos, a Michele é alvo de muitos desses olhos invasivos, que anseiam a qualquer custo saciar sua sinistra curiosidade, sem poupar ninguém, nem ao menos os inocentes.

Hoje isso não nos incomoda, mas me preocupa pensar em como esses olhares, que eu percebo claramente incidindo sobre nós, atingirão o coraçãozinho da minha filha quando, daqui a quatro ou cinco anos, ela já for capaz de compreender melhor as coisas.

Como disse Rubem Alves, mais cruel do que palavras duras podem ser os olhos dos outros. Esses olhos especulativos e sedentos, às vezes ferinos, que não só olham, mas escarafuncham, perscrutam, desnudam, avaliam, ferem, julgam, condenam, oprimem e excluem.

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Cesar Cruz
Maio 2009
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* créditos dos parceiros neste blogue.
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O branco


Lamento, mas pelo jeito acabou. Secou de vez. Tudo o que eu tinha pra escrever já escrevi. Vou desmontar este blog, pedir desculpas aos amigos que me leem e esquecer esse negócio de escrever. Minha mente hoje é uma página do Word em branco, com um cursor piscando no alto à esquerda, indefinidamente.
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Este mal, que é o terror de todo o escritor, definitivamente me atingiu. A seca mental, o branco, o nada, o vazio, o vácuo criativo. Esvaíram-se todas as minhas idéias. Todas. Nada me ocorre e, quando ocorre, surge em trechos pálidos, solitários e desprovidos de liga, fragmentados... Enfim, nada que possa se transformar num bom causo minimamente interessante para contar às pessoas.

O problema é que tenho que enviar as crônicas ao jornal, compromisso é compromisso! Para piorar, quando estou em total desespero, chega um e-mail da Ângela, redatora do Jornal do Cambuci: “Cesar, cadê a crônica? Tenho que fechar a edição!”.
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Ontem por volta das 19h eu tomava banho quando, tchan!, me surgiu uma idéia. Depois de tantos dias sem me ocorrer nada que prestasse, lá estava ela, linda, chegando de repente enquanto eu me ensaboava sob o chuveiro; então ela foi ganhando corpo, consistência. Agora já era mais do que uma idéia, era uma crônica prontinha, esperando apenas para ser redigida. Então pensei: “vou sair do chuveiro peladão mesmo, correr pra sala, sentar pingolejante na cadeira giratória e, entre gotas e cliques, registrarei as linhas principais, depois será só rechear o bolo".
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Quando soltei o trinco da porta de vidro do box para sair, lembrei-me de algo importante. Havia um porém, eu estava com a Michele no chuveiro. E ela, pobrezinha, sentadinha junto aos meus pés, em sua banheira plástica, semi-ensaboada e distraída com seus brinquedos flutuantes, nem sabia das minhas intenções.
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Como sair e deixá-la ali? E o perigo de ela tombar para o lado e bater a cabeça na parede, ou se afogar? Apesar de que eu poderia fazer isso tudo em uma carreira bem ligeira e voltar a tempo, mas, pensando bem, não daria para ser tão rápido assim... além do mais ela só tem um ano e... Bem, contar com a Vanessa estava descartado; ela tinha saído e ainda levaria uns minutos para voltar. Olhei pra Michele e especulei:
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- Filha, você fica boazinha enquanto o papai vai ali e vem logo? - Foi só eu dizer isso que ela riu golpeando a água com os bracinhos. Não sei qual foi a graça, mas a euforia a fez perder o equilíbrio e dar com a cabeça nos azulejos. Desisti de sair.
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Me enxaguei e, com grande esforço procurava não esquecer aquela ótima idéia, mas... Como era mesmo aquela parte em que o cara acena para o taxi? Não, não... não era bem isso... Havia ali uma palavra exata, uma composição específica e...
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Levantei a Michele da banheira. Ela começou a chorar. Frio, acho. Isso é normal, ela detesta que o banho acabe. Com o chuveirinho, dei uma última enxaguada nela e em mim, fechei a torneira enquanto tentava segurá-la como podia, pois além de chorar, ela se debatia contrariada, em grande rebelião.
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Abri o box, apanhei a toalha na argola e joguei por cima de nós dois. Sentei-a na bancada da pia e comecei a enxugá-la. Ela parou de chorar e começou a rir. Achou que agora estávamos brincando de esfrega-toalha-veloz. Subitamente consegui recordar a forma como se daria a construção da frase. Me senti radiante, acho que até sorri, pois a Michele disse-me algo em sua linguagem peculiar e ficou me encarando. Deveria ser uma pergunta.
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- Isso mesmo, filhinha, vamos nos secar pra não pegar gripe e pôr roupinha bem gostosa! – respondi.
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De repente senti me fugir outra passagem. Essa compunha o meio de campo da história. Sem ela eu não conseguiria dar a liga para o final. “Puxa, como era mesmo aquele trecho?” Usando apenas uma mão, sequei-me como pude, enquanto com a outra segurava a Michele para que ela não caísse da pia.
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Enrolei-a e fomos pro quarto. “Cadê a Vanessa que não chega?”. Subitamente me dei conta de que aquela crônica genial, na verdade era fraquinha, fraquinha, faltavam pedaços. Quase sem pé e sem cabeça. “Ué? Foi isso que eu tinha achado tão brilhante há apenas alguns minutos? Será que o vapor do chuveiro distorceu meu senso crítico?”. Não, não... Na verdade eu a estava perdendo, ela me escapava, era isso. Esvaia-se por entre meus dedos como a água do banho!
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Deitei-a na cama e apanhei o tubo de pomada contra assaduras sobre a cômoda. “Agora ponho a fralda nela, uma roupinha e a solto no chão da sala com seus brinquedos e corro pro computador!” - planejei.
“Cadê a fralda?”. Assim que abri a gaveta para pegá-la e me voltei, uma surpresa: Michele tinha feito xixi. E sem o protetor plástico que eu deveria ter colocado sob seus quadris e não pus.
Arranquei rapidamente a toalha que trazia enrolada na cintura e apertei-a contra a poça que se formava. Uma parte foi absorvida pela toalha, outra pelo colchão...
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Michele começou a chorar assustada com a minha reação. “Cadê a Vanessa que não chega, meu Deus?!”. Nisso a porta da rua se abriu e ela entrou. Veio direto ao quarto e, vendo-me naquela enrascada, apressou-se a me acudir.
Não escapei da bronca, afinal, como pude esquecer o protetor?
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Michele voltou com a mamãe pro chuveiro pra brincar um pouco mais.
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Quanto a mim, sentei-me na cadeira giratória de frente para a reluzente página vazia do Word. Ela ficou ali me olhando, cínica como nunca, com seu incansável cursor piscando imóvel no alto à esquerda. E pelo jeito, indefinidamente.
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Cesar Cruz
Dez/ 2008
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Cartas à Michele


Cartas à Michele são rascunhos de coisas que eu escrevi para minha filha ler, um dia. Não foram revistos, nem tive neles grandes cuidados com forma, gramática e outras coisas que normalmente me preocupam. Simplesmente sai escrevendo, livremente, com o intuito de registrar as sensações e as emoções dos dias que antecederam e precederam a chegada da Mi à nossa casa.

Eu não pretendia publicar tais textos aqui, pois são registros íntimos e não têm pretensão alguma além desta. Só que alguns amigos souberam que os escrevi e me convenceram a compartilhá-los aqui no blog.

Já que é assim, vamos a eles!

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“Cuidado com aquilo que deseja, pois certamente lhe será concedido”
Merlin - As Brumas de Avalon

Oi Michele!
30 de out 2008 – quinta, 19h30

Sou eu, filha, o papai! Veja você como é engraçada, louca e surpreendente essa vida: agora estou aqui no sofá da sala, o computador no meu colo, e estou escrevendo como sempre faço, mas dessa vez, filha, estou escrevendo para você. Isso não é estranho? De repente eu tenho uma filha! E você, de repente, tem um pai!

É, algumas coisas só o tempo ensina pra gente mesmo. O passar dos anos é como a estrada percorrida, como água que corre por debaixo da ponte sempre trazendo coisas novas. Veja só: soubemos agora à tarde que você, finalmente, é nossa! O juiz de Belém nos concedeu a guarda provisória e mandou o recado pela nossa advogada: "diga que venham buscar a menina!". Crê nisso, filha!?

Ah, Michele, Michele... Você não sabe que dias nós temos vivido nos últimos meses! Não imagina a luta de um casal que se apaixonou por uma menina que só viram por uma foto, e que só souberam parte da sua história. Ah, Michele... e eu que nessa altura do compeonato achava que já sabia de tudo, que já tinha experiência suficiente para compreender todas as emoções da vida... Ledo engano... A vida ensina, filha, a vida ensina sempre...

Sei que você só conseguirá ler isso aqui dentro de uns 7 ou 8 anos, e talvez só se interesse de fato, daqui a uns 15. Mas de qualquer forma, escrever é uma forma de materializar o que sinto, de me livrar, depositando tudo no papel. E esse livrar, não é no sentido de “se ver livre de algo”, mas no sentido de tirar um peso psicológico, aliviar uma ansiedade, guardar algo que você teme que possa se esvair da sua mente frágil em um instante, e assim mantê-lo protegido ali, naquele banco, no arquivo seguro que é a folha de papel, para o escritor.

Sabe, é muito estranho escrever algo para a minha filhinha que eu ainda nem conheço. Estranho e emocionante. Estou aqui pensando: como vou fazer agora para agüentar a ansiedade que chegou com tudo, avassaladora? Estou sendo consumido, Michele! Agora não vou nem dormir até o dia de te ver, te pegar no colo. E quando será isso? Daqui a 5, 7, 10 dias... Talvez mais...
São tantas as coisas burocráticas que teremos que providenciar antes de poder viajar e chegar aí, junto a você, estender os braços e te suspender no colo...


Inocência
02 de nov 2008 – domingo, 16h15


Olá Michele! Sou eu, papai. Você ainda nem imagina o que vai lhe acontecer, filha... Mas também não é lá muito diferente de nós, os adultos. Também não sabemos nada do que vai nos acontecer... Acho que neste particular, somos como você, inocentes, quase incautos. E te digo, como primeira lição: a vida é assim mesmo, surpreendente! Às vezes pro bem, às vezes pro mal; às vezes pra alegria, às vezes pra tristeza, mas sempre cheia de surpresas.
Mas o meu pensamento está em você, Michele. Só sei disso! Não consigo pensar em outra coisa. E de você só tenho a imagem de uma foto. Disseram que você estava com 8 meses ali. Olhos negros, penetrantes, indagadores, desconfiados. Uma coisa linda!

Fico aqui pensando: o que você estará fazendo agora? Queria ser uma mosca pra ver. Arriscando passinhos com essas perninhas gordas que a foto revela? De chupeta? Sem chupeta? Talvez dormindo junto com as outras crianças? Bem, creio que seja essa a sua atividade neste momento... Pelo menos, de acordo com o que nos disseram lá no abrigo, vocês, os nenês, dormem à tarde. Ainda mais numa tarde de domingo quente como essa!

Imagino o calor aí nesse Belém do Pará! Mas filha, calma! Papai também detesta o calor. Logo vou aí te buscar, te trarei pra São Paulo (que é quente mas nem tanto) e compraremos um ar condicionado superpotente! Colocaremos na parede e ficaremos ali, eu e você, em frente a ele o dia todo durante o verão! Ah, sim, claro! Pegaremos gripes terríveis, mas isso não importa, pois seremos dois gripados felizes!

E eu aqui... Na sala de casa... A sala está uma bagunça só: malas prontas, brinquedos teus que você ainda nem sabe que tem, roupinhas que você já ganhou e que nem sabemos se vão te servir etc... Ah, você nem pode sonhar com a mobilização que está havendo por aqui! Nem imagina que já tem família e amigos doidos pra te pegar, beijar e fazer fom-fom nessas suas gorduras!
Sabe Michele, a ansiedade está grande... Eu e a Van estamos que não nos agüentamos...


Eu vou chegar até você de alguma maneira!
11 de nov 2008 – terça, 23h45


Filha, você dorme lá no berço, na segurança do nosso lar. Nós conseguimos! Nem acredito que deu tudo certo! Que sufoco! Que semana! Sofremos todos, de emoção, fisicamente...

E que viagem mais cansativa aquela de volta pra São Paulo, hein? Treze horas entre aeroportos, vôos, conexões, atrasos, problemas. Você com diarréia e chorando, chorando, naquela maratona sem fim...

Agora há pouco estiveram aqui em casa pra te visitar os tios George e Lena. Nos presentearam com o CD dos Beatles que tem a música "Michelle" (é assim mesmo, filha, a Michelle lá dos rapazes de Liverpool, tinha dois eles).
Olha, a música é tão bonita e diz tanto pra nós, que eu não vou nem me alongar nesse blá-blá-blá aqui. A letra fala por si só! Veja se não parece que fui eu que a compus pra você! Veja se não é incrível a parte que diz "Eu vou chegar até você de alguma maneira". Cheguei mesmo, né, filha? Eu e a mamãe!
Abaixo a original, a tradução logo em seguida:


Michelle - The Beatles

Michelle, ma belle.
These are words that go together well,
My Michelle.

Michelle, ma belle.
Sont les mots qui vont tres bien ensemble,
Tres bien ensemble.

I love you, I love you, I love you.
That's all I want to say.
Until I find a way
I will say the only words
I know that
You'll understand.

Michelle, ma belle.
Sont les mots qui vont tres bien ensemble,
Tres bien ensemble.

I need you, I need you, I need you.
I need to make you see,
Oh, what you mean to me.
Until I do I'm hoping you will
Know what I mean.
I love you.

I want you, I want you, I want you.
I think you know by now
I'll get to you somehow.
Until I do I'm telling you so
You'll understand.

Michelle, ma belle.
Sont les mots qui vont tres bien ensemble,
Tres bien ensemble.

I will say the only words I know that
You'll understand, my Michelle.

Tradução

Michelle, minha bela
Essas são palavras que combinam,
minha Michelle

Michelle, minha bela
São as palavras que ficam muito bem juntas, muito bem juntas
Eu amo você, eu amo você, eu amo você
Isso é tudo que eu quero dizer
Até eu encontrar um caminho eu direi as únicas palavras que eu sei que você entenderá

Michelle, minha bela
São as palavras que ficam muito bem juntas, muito bem juntas
Eu preciso, eu preciso, eu preciso
Eu preciso fazer você enxergar
O que você significa para mim
Até eu conseguir, espero que você entenderá o que eu quero dizer
Eu amo você

Eu quero você, eu quero você, eu quero você
Eu acho que você sabe disso agora
Eu vou chegar até você de alguma maneira
Até eu conseguir, eu estou dizendo a você para que saiba

Michelle, minha bela
São as palavras que ficam muito bem juntas, muito bem juntas
E eu direi as únicas palavras que eu sei que você entenderá,
minha Michelle


Cesar Cruz
Nov 2008